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Full text of "Félix Guattari Revolução Molecular Pulsações Políticas Do Desejo"

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f BLIX GUATTARI 



Revolução Molecular*zz 

pulsações políticas do desejo 






editora brasiliense 




O Canibalismo Amoroso - Affonso Romano de SanVAnna 

A Condição da Mulher - Marta Suplicy 

A Contestação Homossexual - Guy Hocquenghen 

Elegia Erótica Romana - Paul Veyne 

A Função do Orgasmo - Wilhelm Reich 

Mulher, Sociedade e Estado no Brasil - UNICEF 

Os Papéis Sexuais - John Money e Patrícia Tucker 

Pornéia - Aline Rousselle 

Repressão Sexual - Essa Nossa (Des)Conhecida - Marilena 
Chaui 

Sade, Meu Próximo • Pierre Klossowski 

Sexo e Juventude - Um Programa Educacional - Fundação 

Carlos Chagas 

Sexo e Poder - Diversos Autores 
Um Ensaio Sobre a Revolução Sexual - Daniel Guérin 
Vivência - História, Sexualidade e Imagens Femininas - 
Fundação Carlos Chagas 



Félix Guattari 



O ■ 



REVOLUÇÃO MOLECULAR- 

PULSAÇÕES POLITICAS DO DESEJO 

Seleção, prefácio e tradução: 
Suely Belinha Rolnik 

1? edição 1981 
2? edição 



Programa d* Pós-Graduaçao em Soc ; o'n:p 

ii i>i - i . •• cs 

Av. Ber.lD Zwi.r.-., CZll- Prcrfto 44 - S/216 
51.5, 0 - \ % aio Aíegm - RS 
Brasil 



P 

1985 



Copyright © Encres— Editions Recherches, 1977. 
Titulo original em francês : La Révolution Moléculaire 

Seleção, tradução, prefácio e notas: 
Suely Belinha Rolnik 
com a colaboração de: 

— Miriam Chnaiderman e Domingos Paulo Infante: 
comentários sobre prefacio e notas. . , 

— Regina Braga Favre, Marilda Pedreira, Márcia de Almeida e 
José Gatti: 

revisão. 

— Marilda Pedreira e Marise Raven Vianna: 
algumas traduções. 

— Marilene Carone: 

referências ao original alemão dos textos de Freud. 

— Nobil Bonduki: 

referências às citações de Marx. 

— Walter Almeida Júnior: 
referência à cibernética. 

Capa: 

Que Máscara! 

Revisão tipográfica : 
José E. Andrade 
Heitor F. da Costa 



iu 

Editora Brasiliense S.A. 

R. General Jardim, 160 
01223 - São Paulo -SP 
Fone (011)231-1422 



índice 



Prefácio 7 

I - REVOLUÇÃO MOLECULAR POR TODA PARTE 

Somos todos grupelhos 12 

As lutas do desejo e a psicanálise 20 

Devir mulher 34 

Três milhões de perversos no banco dos réus 38 

Cheguei até a encontrar travestis felizes 43 

Gangues em Nova Iorque 46 

As creches e a iniciação 50 

Milhões e milhões de Alices no ar 56 

Devir criança, malandro, bicha 64 

A autonomia possível 70 



II - DA ANÁLISE INSTITUCIONAL À 
ESQUIZOANÀLISE: NA TRILHA DA MUTAÇÃO 

O fim dos fetichismos 76 

A transversalidade 88 

A transferência 106 

Mary Barnes ou o Édipo antipsí quiátrico 114 

A trama da rede 124 

Antipsiquiatria e antipsicanálise 128 



6 



FÉLIX GUATTARI 



Pistas para uma esquizoanáiise — os oito princípios 138 

Telegrama — máquina I 142 



III - DESCARTÁVEIS TEÓRICOS 

O amor de Swann como colapso semiótico 146 

Falação em torno de velhas estruturas e novos sistemas . . . 157 

O inconsciente maquínico e a revolução molecular 165 

Micropolítica do fascismo 173 

O capital como integral das formações de poder 191 

O capitalismo mundial integrado e a revolução molecular . 211 

Telegrama — máquina II 227 

Referências dos artigos apresentados 228 

índice de siglas 230 



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I 



Prefácio 



Félix Guattari — militante/analista/ teórico — são muitos e mui- 
tas podem ser suas apresentações. 

A biografia de Guattari segue a trajetória da singularidade dos 
campos por onde ele se produz. Guattari é um dos nomes da histó- 
ria. Reduzir esta viagem "rizomática" infinita à certeza de um porto 
seguro — politico/ analítico/ teórico — , de coordenadas fixas, seria per- 
der aquilo que de melhor Guattari tem para nos dar. 

Os textos escolhidos, ao longo de sua obra, publicada ou inédita, 
são como um diário de anotações de circunstâncias, formulação de 
deslocamentos nestes três campos. 

Do Guattari político, vamos acompanhando diversos lances de 
revolução molecular: no movimento dos homossexuais e das mulheres, 
o "devir mulher" do macho que cada um de nós somos; nos subúr- 
bios nova-iorquinos, a autogestão de hospitais e de serviços de desin- 
toxicação e a ocupação do espaço social pelas gangues de negros e 
porto-riquenhos, sugerindo a emergência de uma nova subjetividade 
coletiva; nas creches, o reconhecimento de um "devir criança", expul- 
sando o corpo resignado da infantiiização; nos meios de comunicação 
de massa, a proliferação das rádios-livres interferindo nas ondas de 
toda a Europa, ou ainda os próprios partidos políticos e sindicatos 
como solo possível de revoluções moleculares. 

Do Guattari analista, acompanhamos aquele da psicanálise se me- 
tamorfoseando — da psicoterapia institucional à esquizoanáiise — , e 
aquele do encontro com outras experiências de ruptura neste campo, 
que irão se articular numa rede internacional. 

Do Guattari teórico, acompanhamos momentos do trabalho 
•minucioso de conceitos no encontro com Marx, com Freud, com 



FÉLIX GUATTAR1 



Proust, com os estruturalistas e com muitos outros. Vamos assistindo à 
construção de uma teoria do 1 desejo no campo social, onde economia 
política e economia Ubidinal são inseparáveis. A economia libidinal 
é a subjetividade da economia política. O inconsciente é "maquínico" 
— o que não tem nada a ver seja com mecânico, seja com maquinetas 
perversas — inconsciente da produção de "máquinas de desejo" no 
campo social. Volatiliza-se a barra pesada que separa um campo pri- 
vado do desejo de um campo público do trabalho rentabilizado, da 
realidade e da luta. A produção dos "fluxos esquizo" na economia do 
desejo é a mola propulsora de mutação pessoal/social, condição de 
história. 

São esses "fluxos esquizo" que a psicanálise tem o mérito de 
suscitar e, no entanto, são precisamente eles que, de acordo com De- 
leuze/Guattari, ela busca exorcizar. Infantihzação dos "fluxos es- 
quizo" como condição de reprodução de um tipo de "agenciamento 
coletivo de enunciação", tornado destino universal: drama edipiano da 
neurose em família ou entre pessoas conjugalizadas. Representação a 
partir da qual se interpreta o que emperra e o que possibilita a repro- 
dução deste agenciamento. Análise de um sujeito possessivo pessoal, 
individuado, personológico, privado, na busca de um objeto perdido. 

Já a esquizoanálise, é precisamente para estes "fluxos esquizo" 
que ela busca abrir caminhos. Atualidade dos "fluxos esquizo" como 
construção de novos "agenciamentos coletivos de enunciação". Coleta 
dos traços de singularidade de um processo de produção de agencia- 
mentos de desejo no interior dos quais se analisa o que emperra e o que 
possibilita sua potencialidade transformadora. Análise de uma indi- 
viduação dinâmica sem sujeito, de uma constelação funcional de fluxos 
sociais, materiais e de signos que são a objetividade do desejo. Análise 
de um devir. 

Embarcando nesta viagem, vislumbramos o quanto estas três 
práticas se implicam*, posição política/posição de desejo/ posição de 
questão. Cada deslocamento de posição de Guattari, numa delas, 
gerando nas outras duas um Guattari defasado, subjetividade desfo- 
cada, "fluxos esquizo", contradição, non-sens, e necessariamente des- 
locamentos locais de posição. Revolução molecular: "máquina de 
guerra" /"máquina de desejo"/máquina teórica. 

Por brotarem dos "fluxos esquizo", por terem função de inventar 
palavras-desde-a-desordem, por serem pistas de mutação, formulação 
de singularidade, os textos preservam esta função nos espaços por onde 
a leitura os encontra. Instrumentos para novas mutações, novos "agen- 
ciamentos coletivos de enunciação", nova subjetividade, novas "linhas 
de fuga", nunca iguais àquelas que os geraram. Também a insti- 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



9 



tuição da leitura é sacudida pela revolução molecular, o que seria 
uma leitura molecular? 

Ler como num encontro amoroso do ripo daquele que canta Cae- 
tano — "capte-me, rapte-me, adapte-me, it's up to me, camaleão", ou 
de que fala Deleuze, "procedimento de pick-me-up" ou de pick-up ou 
"dupla captura" ou "duplo roubo". "Núpcias-entre-dois-reinos", 
"núpcias-contra-natureza", onde se cria um "bloco de evolução a-para- 
lela". Ou seja, o autor não é um pedaço de mim, eu mais ele não somos 
um, o que implica que nem ele é um, nem eu sou mim. Entre nós há 
zonas- de-transparência, que colocam em contacto subjetividades — 
constelações singulares de fluxos sociais, materiais e de signos — , 
criando uma área-de-intimidade-e-desejo onde um e outro se meta- 
morfoseiam. Nunca paralelamente. Há também entre nós zonas-de- 
opacidade necessariamente internas/ externas, criando áreas-de-vazio- 
ou-deserto, "fluxos esquizo", "pensamento sem imagem", "gagueira 
na linguagem". 

Se leitor, nego estas áreas de vazio, seja culpando o autor — 
acusando-o de atentado ao pudor político/ analítico/teórico — seja me 
culpando, finco mais do que depressa o mastro de alguma bandeira 
nomeando a terra e sua posse, transformo o vazio em área de repetição 
cega, de enunciação estereotipada, de linhas de sedentarismo, ou de 
estagnação. Linha dura. Prisioneiro do imaginário, mantenho-me igual 
a mim e o autor como pedaço-de-mim. Esterilidade de leitura. Mime- 
tismo. Leitura molar onde se produzem palavras-de-ordem. 

Se, de outro modo, reconheço nestas áreas-de- vazio a condição 
do movimento, a leitura se torna a produção do contacto com os 
"fluxos esquizo" que vão-se transformando em "linhas de fuga ou de 
v variação", "coeficiente de desterritorialização", "devir mulher", "devir 
minoritário", "potência nómade", enfim, produção de história. Li- 
berta para o acesso ao real, adquiro novas forças, novas armas, me 
desnaturo. Nunca sou o mesmo, nunca o autor é o mesmo para mim. 
"Núpcias-contra-natureza". Metamorfose. Leitura molecular onde se 
produzem paiavras-desde- a-desor dem . 

Os partidários da linha dura, ditadura da certeza, fazem do 
pensamento uma força de negação da história. Lógica de cafetão, 
totem do capital, macho- totem. 

Os navegantes das linhas de fuga, tribo da incerteza, fazem do 
pensamento uma "potência nómade", engrenagem de "máquina de 
guerra". Guerra que é necessariamente vitoriosa pois que é a afirmação 
dos deslocamentos da história. Isto é irremediável e não tem nada a ver 
com progresso, tampouco com cafetões. Não há nada de mais sublime 
no humano do que sua desnaturação permanente. Seu "devir mulher". 



10 



FÉLIX GUATTARI 



O movimento é sempre contra- corrente, contra-sentido, contra-cul- 
tura, contra-natureza. Movimento de homens desnaturados. Potência 
desnaturante. 

Minha leitura — seleção/prefácio/tradução/notas — é tenden- 
ciosa. Emerge da singularidade de um encontro cuja trajetória começa 
no final da década de 60. Naquele momento no Brasil os "fluxos 
esquizo" perderam, marcadamente, seu direito à cidadania. Foram 
desnaturalizados. Quando os "fluxos esquizo" são forçados ao exílio, 
impedidos de serem material de construção de novos agenciamentos 
coletivos de desejo, de serem lugar de abertura para transformação 
pessoal/ social, passam a girar em torno de si mesmos, em circuito 
fechado. Humilhados, adoecem, tornando-se esquizofrenia de asilo, 
loucura ou morte. 

Exilada aqui, anis tio- me na França. 

O primeiro efeito do encontro com Guattari foi a recuperação da 
dignidade. Direito a me desnaturar, direito ao desejo, direito ao en- 
contro possível, Direito à formulação das contradições, direito à busca 
das palavras- desde-a-desordem, contra a desnaturalização desta busca. 
Direito à cidadania, à dignidade dos "fluxos esquizo". 

Quem é então Félix Guattari? Começamos por indagar o que fez 
e faz, e acabamos nos deslocando para outra posição da questão: 
"quem são os Félix Guattari que cada leitura encontra?", ou: "para 
onde este encontro desnatura?"; ou ainda: "qual o devir de cada um 
neste encontro?". 

As respostas para estas perguntas só podem ser produzidas na 
viagem singular de cada leitor. Cada um que se apresente, com seu 
camaleão, encontrando suas próprias zonas-de-transparência, criando 
suas próprias áreas-de-intimidade-e-desejo, a partir das quais o vazio 
criado nas zonas- de-opacidade possa ser motor de conquista de trans- 
parência e portanto de devir. 

Vou passando a palavra a Félix, deixando vocês a sós. Captem- 
se, raptem-se, adaptem-se. It's up toyou. Boa viagem. 



Suely B. Rolnik 



I 

REVOLUÇÃO MOLECULAR 
POR TODA PARTE 



Somos todos grupelhos* 1 



Militar é agir. Pouco importam as palavras, o que interessa são 
os atos. Ê fácil falar, sobretudo em países onde as forças materiais 
estão cada vez mais na dependência das máquinas técnicas e do desen- 
volvimento das ciências. 

Derrubar o czarismo implicava na ação em massa de dezenas de 
milhares de explorados e sua mobilização contra a atroz máquina 
repressiva da sociedade e do Estado russo, era fazer as massas tomarem 
consciência da sua força irresistível face à fragilidade do inimigo de 
classe; fragilidade a ser revelada, a ser demonstrada pela prova de 
forças. 

Para nós, nos países "ricos", as coisas se passam de outro jeito; 
não é tão óbvio que tenhamos que enfrentar apenas um tigre de papel. 
O inimigo se infiltrou por toda parte, ele secretou uma imensa in- 
terzona pequeno-burguesa para atenuar o quanto for possível os con- 
tornos de classe. A própria classe operária está profundamente infil- 
trada. Não apenas por meio dos sindicatos pelegos, dos partidos trai- 
dores, social- democratas ou revisionistas... Mas infiltrada também por 
sua participação material e inconsciente nos sistemas dominantes do 
capitalismo monopolista de estado e do socialismo burocrático. Pri- 
meiro, participação material em escala planetária: as classes operárias 
dos países economicamente desenvolvidos estão implicadas objetiva- 
mente, mesmo que seja só pela diferença crescente de níveis de vida 
relativos, na exploração internacional dos antigos países coloniais. De- 
pois, participação inconsciente e de tudo quanto é jeito: os trabalha- 
dores reendossam mais ou menos passivamente os modelos sociais 
dominantes, as atitudes e os sistemas de valor mistificadores da bur- 
guesia — maldição do roubo, da preguiça, da doença, etc. Eles repro- 



REVOLUÇÂO MOLECULAR 



13 



duzem, por conta própria, objetos institucionais alienantes, tais como a 
família conjugal e o que ela implica de repressão intraf amiliar entre os 
sexos e as faixas etárias, ou então se ligando à pátria com seu gostinho 
inevitável de racismo (sem falar do regionalismo ou dos particularismos 
de toda espécie: profissionais, sindicais, esportivos, etc, e de todas as 
outras barreiras imaginárias que são erguidas artificialmente entre os 
trabalhadores. Isto fica bastante claro, por exemplo, na organização, 
em grande escala, do mercado da competição esportiva). 

Desde sua mais tenra idade, e mesmo que seja apenas em função 
daquilo que elas aprendem a ler no rosto de seus pais, as vítimas do 
capitalismo e do "socialismo" burocrático são corroídas por uma an- 
gústia e uma culpabilidade inconscientes que constituem uma das 
engrenagens essenciais para o bom funcionamento do sistema de auto- 
sujeição dos indivíduos à produção. O tira e o juiz internos são talvez 
mais eficazes do que aqueles dos ministérios do Interior e da Justiça. A 
obtenção deste resultado repousa sobre o desenvolvimento de um anta- 
gonismo reforçado entre um ideal imaginário, que inculcamos nos 
indivíduos por sugestão coletiva, e uma realidade totalmente outra que 
os espera na esquina. A sugestão audiovisual, os meios de comunicação 
de massa, fazem milagres! Obtém-se assim uma valorização fervorosa 
de um mundo imaginário maternal e familiar, entrecortado por valores 
pretensamente viris, que tendem à negação e ao rebaixamento do sexo 
feminino, e ainda por cima à promoção de um ideal de amor mítico, 
uma mágica do conforto e da saúde que mascara uma negação da 
finitude e da morte. No final das contas, todo um sistema de demanda 
que perpetua a dependência inconsciente em relação ao sistema de 
produção; é a técnica do intéressement. 2 

O resultado deste trabalho é a produção em série de um indivíduo 
que será o mais despreparado possível para enfrentar as provas impor- 
tantes de sua vida. Ê completamente desarmado que ele enfrentará a 
realidade, sozinho, sem recursos, emperrado por toda esta moral e este 
ideal babaca que lhe foi colado e do qual ele é incapaz de se desfazer. 
Ele foi, de certo modo, fragilizado, vulnerabilizado, ele está prontinho 
para se agarrar a todas as merdas institucionais organizadas para o 
acolher: a escola, a hierarquia, o exército, o aprendizado da fidelidade, 
da submissão, da modéstia, o gosto pelo trabalho, pela família, pela 
pátria, pelo sindicato, sem falar no resto... Agora, toda a sua vida 
ficará envenenada em maior ou menor grau pela incerteza de sua 
condição em relação aos processos de produção, de distribuição e de 
consumo, pela preocupação com seu lugar na sociedade, e o de seus 
próximos. Tudo passa a ser motivo de grilo: um novo nascimento, ou 
então "a criança não vai muito bem na escola", ou ainda "os mais 



14 



FÉLIX GUATTARI 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



15 



grandinhos se enchem e aprontam mil loucuras"; as doenças, os casa- 
mentos, a casa, as férias, tudo é motivo de aborrecimento... 

Assim, tornou- se inevitável um mínimo de ascensão nos escalões 
da pirâmide das relações de produção. Não precisa nem fazer um de- 
senho ou uma lição. Diferentemente dos jovens trabalhadores, os mili- 
tantes de origem estudantil que vão trabalhar na fábrica estão seguros 
de se virar caso sejam despedidos; queiram ou não, eles não podem 
escapar à potencialidade que os marca de uma inserção hierárquica 
"que poderia ser bem melhor". A verdade dos trabalhadores é uma 
dependência de fato e quase absoluta em relação à máquina de pro- 
dução; é o esmagamento do desejo, com exceção de suas formas resi- 
duais e "normalizadas", o desejo bem pensante ou bem militante; ou, 
então, o refúgio numa droga ou em outra, se não for a piração ou o 
suicídio! Quem estabelecerá a porcentagem de "acidentes de trabalho" 
que, em realidade, não eram senão suicídios inconscientes? 

O capitalismo pode sempre dar um jeito nas coisas, retocá-las 
aqui e ali, mas no conjunto e no essencial tudo vai cada vez pior. Daqui 
a 20 anos alguns dentre nós terão 20 anos a mais, mas a humanidade 
terá quase duplicado. Se os cálculos dos especialistas no assunto se 
revelam exatos, a Terra atingirá pelo menos 5 bilhões de habitantes em 
1990. Isto deveria colocar no decorrer do processo alguns problemas 
suplementares! E como nada nem ninguém está em condições de prever 
ou organizar alguma coisa para acolher estes recém- chegados — à 
parte alguns porra-loucas nos organismos internacionais, que aliás não 
resolveram um só problema político importante durante os 25 anos em 
que estiveram aí instalados — , podemos imaginar que seguramente 
acontecerá muita coisa nos próximos anos. E de tudo quanto é tipo, 
revoluções, mas também, sem sombra de dúvida, umas merdas do tipo 
fascismo e companhia. E daí o que é que se deve fazer? Esperar e 
deixar andar? Passar à ação? Tudo bem, mas onde, o quê, como? 
Mergulhar com tudo, no que der e vier. Mas não é tão simples assim, a 
resposta a muitos golpes está prevista, organizada, calculada pelas 
máquinas dos poderes de Estado. Estou convencido de que todas as 
variações possíveis de um outro Maio de 1968 já foram programadas 
em IBM. Talvez não na França, porque eles estão fodidos, e ao mesmo 
tempo bem pagos para saber que este tipo de baboseira não constitui 
garantia alguma e que não se encontrou ainda nada de sério para 
substituir os exércitos de tiras e de burocratas. Seja o que for, já está 
mais do que na hora de os revolucionários reexaminarem seus pro- 
gramas, pois há alguns que começam a caducar. Já está mais do que na 
1 hora de abandonar todo e qualquer triunfalismo — note-se o "falis- 
mo" — para se dar conta de que não só estamos na merda até o 



pescoço, mas que a merda penetra em cada um de nós mesmos, em 
cada uma de nossas "organizações". 

A luta de classes não passa mais simplesmente por um front 
delimitado entre os proletários e os burgueses, facilmente detectável 
nas cidades e nos vilarejos; ela está igualmente inscrita através de 
numerosos estigmas na pele e na vida dos explorados, pelas marcas de 
autoridade, de posição, de nível de vida; é preciso decifrá-la a partir do 
vocabulário de uns e de outros, seu jeito de falar, a marca de seus 
carros, a moda de suas roupas, etc. Não tem fim! A luta de classe 
contaminou, como um vírus, a atitude do professor com seus alunos, a 
dos pais com suas crianças, a do médico com seus doentes; ela ganhou 
o interior de cada um de nós com seu eu, com o ideal de status que 
acreditamos ter de adotar para nós mesmos. Já está mais do que na 
hora de se organizar em todos os níveis para encarar esta luta de classe 
generalizada. Já é hora de elaborar uma estratégia para cada um destes 
níveis, pois eles se condicionam mutuamente. De que serviria, por 
exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização anti- 
autoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios 
militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superati- 
vos, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no 
interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo 
mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas? De que serve afir- 
mar a legitimidade das aspirações das massas se o desejo é negado em 
todo lugar onde tenta vir à tona na realidade cotidiana? Os fins polí- 
ticos são pessoas desencarnadas. Eles acham que se pode e se deve 
poupar as preocupações neste domínio para mobilizar toda a sua ener- 
gia em objetivos políticos gerais. Estão muito enganados! Pois na 
ausência de desejo a energia se autoconsome sob a forma de sintoma, 
de inibição e de angústia. E pelo tempo que já estão nessa, já podiam 
ter se dado conta destas coisas por si mesmos! 

A introdução de uma energia suscetível de modificar as relações 
de força não cai do céu, ela não nasce espontaneamente do programa 
justo, ou da pura cientificidade da teoria. Ela é determinada pela 
transformação de uma energia biológica — a libido — em objetivos de 
luta social. É fácil reduzir tudo às famosas contradições principais. 
É demasiadamente abstrato. É até mesmo um meio de defesa, um 
troço que ajuda a desenvolver phantasias 3 de grupo, estruturas de 
desconhecimento, um troço de burocratas; se entrincheirar sempre atrás 
de alguma coisa que está sempre atrás, sempre em outro lugar, sempre' 
mais importante e nunca ao alcance da intervenção imediata dos inte- 
ressados; é o princípio da "causa justa", que serve para te obrigar a 
engolir todas as mesquinharias, as míseras perversões burocráticas, o 



16 



FÉLIX GUATTARI 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



17 



prazerzinho que se tem em te impor — "pela boa causa" — caras que 
: te enchem o saco, em forçar tua barra para ações puramente sacri- 
! ficiais e simbólicas, para as quais ninguém está nem aí, a começar 
pelas próprias massas. Trata-se de uma forma de satisfação sexual 
i desviada de seus objetivos habituais. Este género de perversão não teria 
a menor importância se incidisse em outros objetos que não revolução 
— e olha que não faltam objetos! O que é chato é que estes mono- 
maníacos da direção revolucionária conseguem, com a cumplicidade 
inconsciente da "base", enterrar o investimento militante em impasses 
particularistas. Êmeu grupo, é minha tendência, é meu jornal, a gente 
é quem tem razão, a gente tem a linha da gente, a gente se faz 
existir se contrapondo às outras linhas, a gente constitui para si uma 
pequena identidade coletiva encarnada em seu líder local... A gente 
não se enchia tanto em Maio de 68! Enfim, tudo ocorreu mais ou 
menos bem até o momento em que os "porta-vozes" disto ou daquilo 
conseguiram voltar à tona. Como se a voz precisasse de portador. Ela se 
porta bem sozinha e numa velocidade louca no seio das massas, quando 
ela é verdadeira. O trabalho dos revolucionários não é ser portador de 
voz, mandar dizer as coisas, transportar, transferir modelos e imagens; 
seu trabalho é dizer a verdade lá onde eles estão, nem mais nem menos, 
sem tirar nem pôr, sem trapacear. Como reconhecer este trabalho da 
verdade? É simples, tem um troço infalível: está havendo' verdade 
revolucionária, quando as coisas não te enchem o saco, quando você 
fica a fim de participar, quando você não tem medo, quando você 
recupera sua força, quando você se sente disposto a ir fundo, aconteça 
o que acontecer, correndo até o risco de morte. A verdade, a vimos 
- atuando em Maio de 68; todo mundo a entendia de cara. A verdade 
não é a teoria nem a organização. É depois dela ter surgido que a teoria 
e a organização têm de se virar com ela. Elas sempre acabam se 
situando e recuperando as coisas, mesmo que para isso tenham de 
deformá-la e mentir. A autocrítica cabe à teoria e à organização e 
nunca ao desejo. 

O que está em questão agora, é o trabalho da verdade e do desejo 
por toda parte onde pinte encanação, inibição e sufoco. Os grupelhos 
de fato e de direito, as comunas, os bandos, tudo que pinta no esquer- 
dismo tem de levar um trabalho analítico sobre si mesmo tanto quanto 
um trabalho político fora. Senão eles correm sempre o risco de sucum- 
bir naquela espécie de mania de hegemonia, mania de grandeza que 
faz com que alguns sonhem alto e bom som em reconstituir o "partido 
de Maurice Thorez" ou o de Denin, de Stalin ou de Trotsky, tão chatos 
e por fora quanto seus Cristos ou de Gaulles, ou qualquer um desses 
caras que nunca acabam de morrer. 



Cada qual com seu congressinho anual, seu mini-Comitê Central, 
seu super-birô político, seu secretariado e seu secretário-ge(ne)ral e 
seus militantes de carreira com seu abono por tempo de serviço, e, na 
versão trotskista, tudo isso duplicado na escala internacional (con- 
i gressos mundiais, comité executivo internacional, seção internacional, 

etc). 

Por que os grupelhos, ao invés de se comerem entre si, não se 
multiplicam ao infinito? Cada um com seu grupelho! Em cada fábrica, 
cada rua, cada escola. Enfim, o reino das comissões de base! Mas 
grupelhos que aceitassem ser o que são, lá onde são. E, se possível, 
uma multiplicidade de grupelhos que substituiriam as instituições dá 
burguesia; a família, a escola, o sindicato, o clube esportivo, etc. 
i Grupelhos que não temessem, além de seus objetivos de luta revolu- 

cionária, se organizarem para a sobrevivência material e moral de cada 
um de seus membros e de todos os fodidos que os rodeiam. 

Ah, então trata-se de anarquia! Nada de coordenação, nada de 
centralização, nada de estado-maior... Ao contrário! Tomem o movi- 
mento Weathermen nos Estados Unidos: eles estão organizados em 
tribos, em gangues, etc, mas isto não os impede de se coordenar e 
muitíssimo bem. 

O que é que muda se a questão da coordenação, ao invés de se 
colocar para indivíduo, se coloca para grupos de base, famílias artifi- 
ciais, comunas?... O indivíduo tal como foi moldado pela máquina 
social dominante é demasiado frágil, demasiado exposto às sugestões 
de toda espécie: droga, medo, família, etc. Num grupo de base, 
pode-se esperar recuperar um mínimo de identidade coletiva, mas sem 
megalomania, com um sistema de controle ao alcance da mão; assim, o 
desejo em questão poderá talvez fazer valer sua palavra, ou estará 
talvez mais em condições de respeitar seus compromissos militantes, é 
preciso antes de mais nada acabar com o respeito pela vida privada: é o 1 
começo e o fim da alienação social. Um grupo analítico, uma unidade 
de subversão desejante não tem mais vida privada: ele está ao mesmo 
tempo voltado para dentro e para fora, para sua contingência, sua fini- 
tude e para seus objetivos de luta. O movimento revolucionário deve 

) portanto construir para si uma nova forma de subjetividade que não 

mais repouse sobre o indivíduo e a família conjugal. A subversão dos 
modelos abstratos secretados pelo capitalismo, e que continuam cau- 
cionados até agora, pela maioria dos teóricos, é um pré-requisito 
absoluto para o reinvestimento pelas massas de luta revolucionária. - 

Por enquanto, é de pouca utilidade traçar planos sobre o que 
deveria ser a sociedade de amanhã, a produção, o Estado ou não, o 

v Partido ou não, a família ou não, quando na verdade não há ninguém 



18 



FÉLIX GUATTARI 



para servir de suporte à enunciação de alguma coisa a respeito. Os 
enunciados continuarão a flutuar no vazio, indecisos, enquanto agentes 
coletivos de enunciação não forem capazes de explorar as coisas na 
realidade, enquanto não dispusermos de nenhum meio de recuo em 
relação à ideologia dominante que nos gruda na pele, que fala de si 
mesma em nós mesmos, que, apesar da gente, nos leva para as piores 
besteiras, as piores repetições e tende a fazer com que sejamos sempre 
derrotados nos mesmos caminhos já trilhados. 



NOTAS 



(1) N. do Trad. : No original, groupuscule. Corresponde ao "grupelho" no Brasil, 
nome dado aos grupos de dissidência do partido comunista, da década de 60 — anar- 
quistas, trotskistas, guevaristas, maoístas — , época da desestalinização que o PCF 
parece ter ignorado. O termo grupelho traz em si um sentido pejorativo, pois desde a 
perspectiva do PC, perspectiva adotada na época pelos próprios esquerdistas uns contra 
os outros, ser minoritário era ser facção insignificante, marginal, acometida pela "doen- 
ça infantil do comunismo", justificativa suficiente para sua exclusão como medida sani- 
tária, visão aliás compartilhada pela direita: em junho de 68, de Gaulle, já no controle da 
situação, através de seu ministro do Interior, proibiu a existência desses grupelhos, 
baseando-se numa lei da Frente Popular contra as milícias fascistas armadas e parami- 
litares. 

Ora, o autor retoma aqui a própria idéia de grupelho como afirmação de uma 
posição política. "Somos todos grupelhos": a subjetividade é sempre de grupo; é sempre 
uma multiplicidade singular que fala e age, mesmo que seja numa pessoa só. O que 
define um grupelho não é ser pequeno ou uma parte, mas sim ser uma dimensão de toda 
experimentação social, sua singularidade, seu devir. Ê neste devir que a luta se gene- 
raliza. "Saúde infantil" do político, que se contrapõe à tendência a generalizar a luta em 
torno de uma representação totalizadora, sua "doença senil". Desta perspectiva tama- 
nho não é documento, e um pequeno grupo também pode ser acometido de "doença 
senil". 

A noção de grupelho pode ser associada ao conceito que Guattari forjou na dé- 
cada de 60, de "grupo sujeito", contraposto a "grupo sujeitado" (cf. nota 7 de "A 
Transversalidade"), à idéia de "agenciamento coletivo de enunciação" e, na década de 
70, ao conceito de "molecular", contraposto a "molar". 

(2) N. do Trad.: O intéressement, pedra de toque da doutrina social do gaul- 
lismo, designa uma modalidade de participação dos operários nos lucros da empresa, 
através de uma remuneração que se acrescenta ao salário fazendo com que o trabalhador 
se "interesse" pela produtividade da empresa. Esta doutrina, considerada mistificadora 
pela esquerda francesa, foi por ela amplamente denunciada. 

(3) N. do Trad.: No original alemão Phantasic, traduzido em francês por fan- 
tasme. Na tradução de Freud para o português (edição da Standard), optou-se por "fan- 
tasia", de acordo com as traduções inglesa (fantasy ou phantasy, o primeiro consciente 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



19 



e o segundo inconsciente, segundo proposta de Susan Isaacs) e espanhola (fantasia). 
Preferimos adorar o termo "phantasia", sugerido na tradução para o português dos 
Escritos de Lacan (Perspectiva, SP, 1978), que preserva o arcaísmo do termo francês 
fantasme (cf. nota 14 dos Escritos). 



As lutas do desejo e a psicanálise 



A questão com que se defronta o movimento operário revolucio- 
nário é a de uma defasagem entre as relações de força aparentes, ao 
nível da luta de classes, e o investimento desejante real das massas. 

O capitalismo não só explora a força de trabalho da classe ope- 
rária como também manipula em seu proveito as relações de produção, 
insinuando-se na economia desejante dos explorados. A luta revolu- 
cionária não poderia ser circunscrita somente ao nível das relações de 
força aparentes. Ela deve desenvolver-se em todos os níveis da econo- 
mia desejante contaminados pelo capitalismo (ao nível do indivíduo, 
do casal, da família, da escola, do grupo militante, da loucura, das 
prisões, da homossexualidade, etc). 

Os objetos e os métodos de luta se diferenciam segundo esses 
níveis. Objetivos do género: "pão, paz, liberdade"... requerem a exis- 
tência de organismos políticos inseridos no campo de relações de força 
e, consequentemente, agrupando forças, constituindo blocos. Por força 
das circunstâncias, essas organizações se propõem a ser "representa- 
tivas", coordenar as lutas, propor-lhes uma estratégia e uma tática. 
Por outro lado, a luta contra o fascismo "microscópico" — aquele que 
se instaura no seio das máquinas desejantes — não poderia se dar 
através de "delegados", de "representantes", de blocos definitivamente 
identificados. O "inimigo" varia de rosto: pode ser o aliado, o cama- 
rada, o responsável ou si próprio. Nunca pode-se estar seguro de que 
não se vá resvalar a qualquer momento para uma política burocrática 
ou de prestígio, uma interpretação paranóica, uma cumplicidade in- 
consciente com os poderes vigentes ou uma interiorização da repressão. 

Estas duas lutas podem não se excluir mutuamente: de um lado, 
a luta de classes, a luta revolucionária de libertação implica na exis- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



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tência de máquinas de guerra capazes de se opor às forças opressivas, 
tendo para isto que funcionar com um certo centralismo, ou ao menos 
estar sujeitas a um mínimo de coordenação; do outro lado, a luta dos 
agenciamentos coletivos, no front dos desejos, exercendo uma análise 
permanente, uma subversão de todos os poderes, a todos os níveis. 

Não é absurdo esperar derrubar o poder da burguesia substi- 
tuindo-o por uma estrutura que reconstitua a forma deste poder? 
A luta de classes na Rússia, na China, etc. mostrou-nos que, mesmo 
depois da derrubada do poder da burguesia, a forma deste poder podia 
se reproduzir no Estado, na família e até nas fileiras da revolução. 
Como impedir o poder centralizador e burocrático de se sobrepor à 
coordenação necessária, que implica uma máquina de guerra revolu- 
cionária? Ao nível global, a luta implica etapas, intermédios. Ao nível 
microscópico, o que está em causa é, de imediato, uma espécie de 
passagem direta ao comunismo, uma liquidação imediata do poder da 
burguesia, na medida em que este poder é encarnado pelo burocrata, 
pelo líder ou pelo militante. 

O centralismo burocrático é absorvido permanentemente pelo 
movimento operário a partir do modelo centralista do Capital. O Capi- 
tal controla, sobrecodifica a produção, dominando os fluxos monetá- 
rios e exercendo um poder de coerção no quadro das relações de pro- 
dução e do capitalismo monopolista de estado. O mesmo género de 
problema se coloca com o socialismo burocrático. Mas a produção real 
prescinde completamente desta espécie de sobrecodificação que só faz 
entravá-la. As maiores máquinas produtivas das sociedades indus- 
triais poderiam perfeitamente passar sem este centralismo. É claro que 
uma outra concepção das relações entre a produção, a distribuição e o 
consumo, e entre a produção, a formação e a pesquisa, conduziria à 
explosão dos poderes hierárquicos e despóticos, tal como eles existem 
no seio das relações de produção atuais. A partir daí, a capacidade de 
inovação dos trabalhadores poderia ser liberada. O fundamento do 
centralismo, portanto, não é económico, mas político. O centralismo 
no movimento operário conduz ao mesmo género de esterilização. É 
preciso admitir que as lutas mais eficazes e mais amplas poderiam ser 
coordenadas fora dos estados-maiores burocráticos! Mas com a condi- 
ção de que a economia desejante seja liberada de sua contaminação 
pela subjetividade burguesa que faz delas cúmplices inconscientes da 
tecnocracia capitalista e da burocracia do movimento operário. 

Convém, no entanto, não se permitir cair na dicotomia simplista: 
centralismo "democrático" versus anarquismo, espontaneísmo. Os 
movimentos marginais, as comunidades, certamente nada têm a ga- 
nhar caindo no mito de um retorno à era pré-tecnológica, de um 



22 



FÉLIX GUATTARI 



retorno à natureza; ao contrário, eies têm mais é que enfrentar a 
sociedade real, as relações sexuais, familiares, reais, etc... Mas, por 
um outro lado, deve-se reconhecer que o movimento operário organi- 
zado recusou- se, até agora, a levar em consideração sua própria conta- 
minação pelo poder burguês, sua própria poluição interna. E nenhuma 
ciência constituída poderia atualmente ajudá-lo neste caminho. Nem a 
sociologia, nem a psicossociologia, nem a psicologia e muito menos a 
psicanálise tomaram o lugar do marxismo neste campo! o freudismo, 
sob a aparência de ciência, propõe como normas insuperáveis os pró- 
priosprocedime^^ o mitode^uma__ 

lie cessínaliãstraça^ edigiano, 
uma- intirpretacão significante aue _íende a cortar ã análise de suas 
implicaçõe s socia isrgais_.___ 

''lívoquèTuTnífHquidação possível do centralismo tecnocrático da 

produção capitalista. E isto a partir de uma outra concepção das 
relações entre a produção, a distribuição e o consumo, por um lado, e, 
por outro, a produção, a formação e a pesquisa. É algo que tenderia 
obviamente a transformar por completo os modos de relação com o 
trabalho, em particular a cisão entre o trabalho reconhecido como 
socialmente útil (pelo capitalismo, pela classe dominante) e o trabalho 
"inútil" do desejo. O conjunto da produção, tanto a produção do valor 
de troca quanto a do valor de uso, tanto a individual quanto a coletiva, 
é tomada sob a tutela de uma organização que impõe um certo modo de 
divisão social do trabalho. O desaparecimento do centralismo capita- 
lista acarretaria, em contrapartida, um remanejamento progressivo das 
técnicas de produção. Pode- se conceber outras relações de produção no 
contexto de uma indústria altamente desenvolvida, da revolução infor- 
mática, etc, que não sejam antagónicas com a produção desejante, 
artística, onírica. .. Dito de outra forma, a questão que se coloca é a de 
saber se é possível ou não sair da oposição exclusiva entre valor de uso e 
valor de troca. A alternativa que consiste em dizer "recusemos toda 
forma desenvolvida de produção, é preciso retornar à natureza", só faz 
reproduzir a cisão entre os diferentes campos de produção: a produção 
desejante, a produção social reconhecidamente útil. 

* * * 

A relação entre os indivíduos, os grupos e as classes é algo que está 
ligado à manipulação dos indivíduos pelo sistema capitalista. Os indi- 
víduos, enquanto indivíduos, são fabricados por este sistema para 
responder aos imperativos de seu modo de produção. A idéia de que 
haveria desde o começo, na base da sociedade, indivíduos, grupos de 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



23 



indivíduos, sob a forma de família, etc, é produzida para as neces- 
sidades do sistema capitalista. Tudo o que se constrói, no estudo das 
ciências humanas, em torno do indivíduo como objeto privilegiado, 
só reproduz a cisão entre o indivíduo e o campo social. A dificuldade 
com a qual nos defrontamos, desde que queiramos abordar uma prá- 
tica social concreta, quer se trate da fala, da loucura, ou de qualquer 
coisa que tenha algo a ver com um processo de produção desejante real, 
é que jamais se está lidando com indivíduos. Enquanto a linguística, 
por exemplo, se contentava em definir seu objeto em termos de comu- 
nicação entre indivíduos, ela omitiu completamente as funções de inte- 
gração e coerção sociais da língua. A linguística apenas começou a se 
destacar da ideologia burguesa com o estudo dos problemas levantados 
pela conotação, o contexto, o implícito, etc. e tudo aquilo que a lin- 
guagem efetua fora de uma relação abstraía entre indivíduos. Um 
grupo, uma classe, não são constituídos por indivíduos; é a aplicação 
redutora das relações de produção capitalista sobre o campo social do 
desejo que produz um fluxo de indivíduos decodificados como condição 
para a captação da força de trabalho. 

Os acontecimentos de Maio de 68, na França, revelaram em 
grande escala um novo tipo possível de consistência molecular do 
campo social. Mas, diferentemente do que ocorreu na Itália, eles não 
chegaram a instaurar um verdadeiro corte no movimento revolucio- 
nário, em particular no que diz respeito à economia do desejo. Se tal 
ruptura tivesse de fato ocorrido, ela provocaria consequências político- 
sociais consideráveis! Tudo o que se pode dizer é que desde que se deu 
um enfraquecimento relativo do stalinismo, desde que parte conside- 
rável da juventude operária e estudantil se destacou dos modelos mili- 
tantes tradicionais, houve não uma fratura importante, mas pequenas 
fugas de desejo, pequenas rupturas no sistema despótico reinante nas 
organizações representativas. 

A fratura de Maio de 68 na França foi recuperada. apôs algumas 
semanas. Pode-se até dizer duas semanas. O que não impede que ela 
tenha tido consequências extremamente profundas e que continuam se 
fazendo sentir em diferentes níveis. Mesmo que seus efeitos não mais se 
manifestem na escala de um país inteiro, ela prossegue sob a forma de 
infiltração nos meios os mais variados. Surgiu uma nova visão, uma 
nova abordagem dos problemas militantes. Antes de 68 seria inconce- 
bível considerar, por exemplo, que intervenções em favor dos prisio- 
neiros comuns tivessem um sentido político qualquer; seria inconce- 
bível considerar que homossexuais pudessem fazer manifestações de 
rua e defender sua posição particular face ao desejo. Os movimentos de 
libertação das mulheres, a luta contra a repressão psiquiátrica, etc, 



24 



FÉLIX GUATTARI 



mudaram completamente de sentido e de método. Os problemas se 
colocam portanto de outra maneira, mas sem que realmente tenha 
havido uma fratura. Isto se deve certamente à ausência de uma grande 
máquina de guerra revolucionária. Ê preciso reconhecer que uma série 
de representações dominantes continua a exercer seus estragos no seio 
dos próprios grupos revolucionários. Foi empreendida uma crítica do 
burocratismo dos sindicatos: o princípio da "delegação de poder" ao 
partido de vanguarda, o sistema de "correia de transmissão" entre as 
massas e o partido foram questionados, mas os militantes permanecem 
prisioneiros de muitos preconceitos da moral burguesa e de atitudes 
repressivas com respeito ao desejo. É talvez o que explica o fato de que 
em Maio de 68 não houve contestação da psicanálise como foi o caso 
para com a psiquiatria. A psicanálise conservou uma certa autoridade 
na medida em que alguns dos preconceitos psicanalíticos foram encam- 
pados pelo movimento. 

A verdadeira fratura só se efetuará a partir do momento em que 
questões tais como as do burocratismo das organizações, das atitudes 
repressivas dos militantes com respeito a suas mulheres, seus filhos, 
etc, seu desconhecimento do problema do cansaço, da neurose, do 
delírio (é comum a recusa de se ouvir alguém que "destrambelha"..., 
arrebenta-se logo com a pessoa, dá-se rapidamente a pessoa por aca- 
bada, considera-se que ela não tem mais seu lugar na organização, e 
chega-se até a afirmar que se tornou perigosa...), se não passarem ao 
centro das preocupações políticas, ao menos forem consideradas como 
sendo tão importantes quanto qualquer tarefa de organização; tão 
importantes quanto a necessidade de se afrontar com o poder burguês, 
com o patrão, com a polícia... A luta deve ser levada em nossas 
próprias fileiras, contra nossa própria polícia interior. Não se trata 
absolutamente de um front secundário, como alguns maoístas consi- 
deraram, de uma luta complementar de objetivos marginais. Enquanto 
. se mantiver a dicotomia entre a luta no front das classes e a luta no 
front do desejo, todas as recuperações continuarão possíveis. É signi- 
ficativo que após Maio de 68 a maior parte dos movimentos revolu- 
cionários não tenha compreendido a importância da falha que se 
revelara com a luta estudantil. 

Bruscamente estudantes, jovens trabalhadores "esqueceram" o 
respeito ao saber, o poder dos professores, dos contramestres, dos 
responsáveis, etc. Eles romperam com uma certa forma de submissão 
aos valores do passado e abriram uma nova via. Pois bem, tudo isso foi 
creditado ao espontaneísmo, isto é, uma forma transitória de expres- 
são, que deveria ser ultrapassada numa etapa "superior" pelo estabe- 
lecimento de organizações centralistas. O desejo surgiu na massa, lhe 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



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foi dado seu quinhão; esperou-se que ele se acalmasse e se discipli- 
nasse. Não se compreendeu que este novo tipo de revolta seria dora- 
vante inseparável de todas as lutas económicas e políticas futuras. 

* * * 

Quando o que está em questão é o marxismo e o freudismo 
pensa-se num certo tipo de tratamento dos textos de Freud e dos 
textos de Marx. O freudismo, considerado de um certo ângulo de- 
veria ser definido como reacionário em todas as suas tomadas de po- 
sição sociais, em todas as suas análises concernentes à relação entre 
individuo e a família, enquanto que o marxismo, por sua vez, seria 
por demais insuficiente quanto à determinação das questões relativas 
ao desejo. O que não quer dizer que não se tem mais nada a fazer 
com os textos de Freud e de Marx. Todo o problema consiste em 
saber que uso se fará deles. Como para qualquer enunciado, há dois 
tipos de uso possíveis. Um uso que se servirá do texto como meio de 
encontrar pistas para o esclarecimento das conexões sociais reais, do 
encadeamento das lutas, e um outro uso que tenderá a esmagar a 
reduzir a realidade do texto. ' 

Frequentemente permanecemos muito dogmáticos quando ten- 
tamos precisar a relação entre o marxismo e o freudismo. Penso que 
so sairemos deste impasse exprimindo-nos sem reticências sobre a rea- 
lidade das lutas, mas das lutas efetivas. Enquanto se mantiver uma 
distinção absoluta entre a vida privada e a vida pública, não se avan- 
çara nem um passo! Esclarecer os engajamentos políticos, os enga- 
jamentos de classe, quando isto não consiste simplesmente em re- 
fugiar-se no discurso, demanda que isto seja falado ao nível da prática 
mais imediata, quer seja ela uma prática militante, uma prática mé- 
dica ou uma prática familiar, conjugal, etc. 

Em outro contexto seria talvez concebível começarmos a falar 
seriamente das relações entre uma política do desejo e uma política 
revolucionária, mas isto somente a partir do momento em que colo- 
cássemos "as cartas sobre a mesa", como se diz em bom português- 
ou amda: "as mãos na massa". 

Algumas intervenções no decorrer desses debates, 1 enfatizaram 
a ideia de que o principal dilema em nosso campo seria o da opção 
entre uma política de "alternativa psiquiátrica" (reformista) e uma 
politica psiquiátrica que fosse de imediato revolucionária. Teríamos 
assim dois campos; de um lado poder-se-ia classificar Jervis, 2 e talvez 
Valtouchi, e de outro lado, por exemplo, o SPK. 3 Não parece que o 
problema seja tão simples assim. A luta com a qual nos defrontamos 



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FÉLIX GUATTARI 



desde que se queira considerar unia política do desejo, não mais se 
circunscreve a um só front, um só afrontamento entre capitalismo e 
classe operária. Creio que uma multidão de novos fronts devem ser 
criados à medida que a classe operária, as organizações do movimento 
operário se fazem contaminar pela subjetividade da classe dominante. 
Não basta "ir na direção dos operários", e se referir aos clássicos para 
se libertar da influência burguesa no front do desejo. Neste sentido 
não se pode assimilar, como fez Jervis, os interesses objetivos dos 
trabalhadores ao seu desejo. Os interesses da classe operária ameri- 
cana, por exemplo, podem ser objetivamente fascistizantes do ponto 
de vista de uma política do desejo. A luta sindical de defesa dos 
interesses dos trabalhadores, por mais legítima que seja, pode ser 
também perfeitamente repressiva em relação ao desejo de toda uma 
série de grupos sociais, de minorias étnicas, sexuais, etc... Creio, por 
exemplo, que não se pode ter demasiadas ilusões quanto a uma possí- 
vel aliança política entre uma corrente psicanalítica de vanguarda, 
que pretende ter-se destacado da repressão psiquiátrica, e as organi- 
zações atuais da classe operária. Os modelos repressivos são tão viru- 
lentos nos psicanalistas quanto nos militantes. Militei durante mais de 
dez anos no Partido Comunista Francês, e penso que para apreciar 
uma posição revolucionária real, do ponto de vista do desejo, não se 
pode fiar apenas nas palavras, nas declarações e nos textos. Os textos 
teóricos do SPK, por exemplo, são parcialmente dogmáticos, e, ape- 
sar disso, a política do SPK foi verdadeiramente revolucionária. A 
prática do SPK pode aclarar o que poderia ser uma verdadeira polí- 
tica do Setor, 4 considerada como política de massa, definida em fun- 
ção do desenvolvimento. O SPK aliás não existia enquanto partido 
constituído, com base num programa, especificando o que deveria ser 
a luta. É no decorrer da luta que houve investimentos de desejo suces- 
sivos precisando os objetivos e os métodos de combate. A política do 
SPK poderia ter sido igualmente uma política de "alternativa psiquiá- 
trica", não uma alternativa de compromissos reformistas, mas uma 
alternativa fundada numa correlação de forças. 

Atualmente, em Nova Iorque, num bairro muito pobre, o South 
Bronx, os movimentos negros e porto-riquenhos gerem um serviço de 
desintoxicação no Lincoln Hospital. s O movimento popular se encar- 
regou da luta contra as drogas. Isto também é uma espécie de política 
alternativa, pois que ela se substitui ao programa do governador do 
Estado de Nova Iorque no que concerne à droga. Os médicos não 
entram mais no serviço, eles ficam à porta, só são chamados para 
conselhos técnicos. O serviço tem sua própria polícia e, se o governo 
não o fecha, se ele não o proíbe, e se ele chegou mesmo a subven- 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



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cioná-lo, é porque os militantes que o animam apciam-se no movi- 
mento negro e porto-riquenho e nas "gangues" populares do bairro. 
Portanto uma política alternativa tornou- se aqui relativamente possí- 
vel pelo fato de se apoiar em lutas revolucionárias reais. E, inversa- 
mente, querer politizar a psiquiatria pode não passar de uma ilusão, 
se a ação política engajada nesta ocasião permanece prisioneira das 
concepções repressivas tradicionais no campo da loucura e do desejo. 

Será que a psicanálise pode tornar.- se progressista, será que ela 
pode transformar- se em psicanálise popular? Ela não deixa de ser 
marcada pela formação de casta que receberam os psicanalistas. A 
essência da psicanálise continua sendo a psicanálise didática, a ini- 
ciação à casta psicanalítica. Mesmo quando um psicanalista "vai ao 
povo", ele continua participando de sua casta; mesmo quando ele não 
faz propaganda de sua concepção da relação entre o desejo e a socie- 
dade, ele continua a reproduzir em sua prática a mesma política 
repressiva. O problema não é pois que o psicanalista tenha idéias 
mais ou menos falsas, mas sim que sua prática reproduz a essência da 
subjetividade burguesa. Um senhor que fica em sua poltrona escu- 
tando o que você diz, mas que toma uma distância sistemática em 
relação àquilo que você está falando, não tem absolutamente neces- 
sidade de procurar impor suas idéias: ele cria uma relação de força 
que arrasta os investimentos de desejo para fora do campo social. 
Esta posição aliás não é particular ao psicanalista: ela é simplesmente 
mais marcada aqui do que nas outras profissões de enquadramento 
social. E a reencontramos a cada momento, no professor primário 
sobre seu estrado, no contramestre atrás de sua pequena guarita, no 
militar de carreira, no tira, no psicólogo com seus testes, no psiquia- 
tra em seu asilo, etc... Individualmente todos eles talvez sejam gente 
muito boa! Talvez eles façam tudo o que podem para ajudar o povo e 
no entanto, apesar de sua boa vontade, eles contribuem, à sua ma- 
neira, para reduzir os indivíduos à solidão, para esmagar seu desejo. 
E certo que se tenta suavizar a repressão: se procurará evitar, por 
exemplo, com métodos de pedagogia moderna, que a criança fique 
perdida em sua classe, aterrorizada pelo professor. O psicanalista 
também se esforça para proceder de maneira mais suave e em reali- 
dade mais dissimulada. Ele esvazia de substância todos os enunciados 
que lhe são trazidos, ele os neutraliza, difunde uma espécie de droga 
subjetiva. E como acusá-lo disso? Se nos recusamos a condenar a 
droga dos junkies, por que condenar-se-ia esta espécie de droga que 
conduz as pessoas a apelar para o psicanalista? Não é esta a questão. - 
Cada um faz o que pode no seu pedaço, e cada um, na sua medida, 
desempenha seu pequeno papel de polícia: como um pai de família, 



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FÉLIX GUATT ARI 



como falocrata no casal, como criança- tirana, etc. Não se ganhará 
nada lançando condenações, anátemas sobre a prática de uns e ou- 
tros. O problema é o de evitar ao movimento operário que ele se faça 
contaminar pela ideologia e os modos de subjetividade do poder bur- 
guês. 

Que alguns se orientem em direção a uma "psicanálise para o 
povo", não seria em si tão grave. O que sim é grave, é que a orga- 
nização do movimento operário, os partidos, os sindicatos, os "grupe- 
lhos" se comportem à sua maneira como professores primários, como 
psicanalistas e, no final de contas, como policiais. As lutas reivin- 
dicatórias não poderiam resolver tudo. A classe operária é a primeira 
vítima das técnicas capitalistas de cacetada no desejo. Existe o pro- 
blema de angústia na classe operária, e este problema não poderia ser 
resolvido recorrendo-se a uma droga qualquer (o esporte, a televisão, 
o amor aos líderes, a mística do partido). A única maneira de avançar 
neste domínio, é que a própria organização do movimento operário se 
encarregue destas questões de libertação do desejo e isto sem psicana- 
lista, sem que ele próprio se torne psicanalista, sem recorrer aos 
mesmos procedimentos redutores e alienantes. 

* * * 

O traço mais geral que nos permitiria reconhecer o "método do 
Édipo" consiste numa certa técnica de representação redutora. Qual- 
quer situação sempre pode ser remetida a um sistema de represen- 
tações aparentemente articuladas de modo triangular. Digo aparente- 
mente pois um tal sistema funciona muito mais de modo binário e até 
mesmo tende constantemente a se reduzir a um só termo ou a se 
abolir naquilo que chamo de buraco negro. 

Originariamente, toda uma série de noções ambíguas, ambiva- 
lentes, poderia ter permitido ao freudismo funcionar de um modo que 
não fosse fechado sobre si mesmo. Mas suas descobertas essenciais, 
tudo o que havia contribuído a dar a palavra ao desejo e que tinha 
provocado escândalo em sua época, foi perdido. Não retraçarei aqui a 
história deste fechamento, que aliás identifica-se com o da própria 
psicanálise, inclusive em seus prolongamentos estruturalistas mais re- 
centes. 

Tomemos apenas como exemplo sua atitude face aos processos 
inconscientes. Ela reconhecerá de início que eles não são dialéticos, 
que eles não conhecem a negação e muito menos a negação da ne- 
gação. O inconsciente é todo positividade, é uma máquina de fluxos e 
de intensidades que não são determinados, controlados pelos sistemas 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



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de representação que a psicanálise projetou sobre ele. Ela introduziu 
no inconsciente a negatividade, a falta,* através da mediação da 
transferencia. As intensidades do sonho, por exemplo, serão tratadas 
como uma espécie de material bruto. A técnica da associação e da 
interpretação traduzirá, reescreverá sua expressão manifesta em ter- 
mos de estrutura profunda. Tomadas entre os dois modos de estru- 
turação -- o conteúdo manifesto e o conteúdo latente - as linhas de 
fuga do desejo serão cortadas de toda conexão possível com a reali- 
dade. A decnptaçâo psicanalítica do sonho consiste em última instân- 
cia em torna-lo coerente com as coordenadas sociais edipianas To- 
memos um outro exemplo, talvez mais evidente: uma criança ameaça 
seu irmãozinho dizendo: "Batista, vou cortar sua cabeça!" Quem é 
eu? Quem e o sujeito do enunciado? Qual a evidência que nos conduz 
a atnbui-lo à realidade da criança? Mesma questão para Batista Se 
cristalizamos este prenome e este nome próprio, se os tornamos atri- 
butivos, então o enunciado tende a responsabilizar a criança que o 
profere. A partir daí ele se torna o assassino potencial de seu irmão 
Mas sera que era mesmo seu irmão, como pessoa, tal como ela é 
tomada na constelação familiar, que estava sendo visado? Ê certo que 
as intensidades desejantes se ligam inevitavelmente aos sistemas de 
representação em vigor; mas duas direções, duas políticas são possí- 
veis a partir destes encontros. A primeira os utilizará como máquinas 
de signos entre outros suscetíveis de se colocar a serviço das inten- 
sidades de qualquer grandeza. A criancinha diz: "Vou arrancar a 
cabeça de meu irmão". E logo depois prossegue com algo completa- 
mente diferente; por exemplo, ela gostaria de partir para a lua com o 
irmão. Então se descobre que seu ódio pelo irmão coexistia com o 
amor. 

a; ^J. erd t de .. nã ° se J . trata d de uma "descoberta" propriamente 
dita O odio não escondia" o amor; simplesmente uma nova conexão 
produziu um novo possível. O ódio "maquinado" de outra maneira 
produziu o amor. O inconsciente não continha nada que pudesse ser 
negado nada que se pudesse dizer que provocava uma ambivalência 
ao sujeito. Ele não mudou de opinião, ele passou a outra coisa. Ê pois 
absurdo dizer da criança que ela é polimorfa, perversa... Arrancar a 
cabeça da boneca, ter vontade de acariciar o ventre da mãe, não são 
coisas que tenham a ver na verdade com os objetos completos da 
lógica dominante. Isto não engaja responsabilidade alguma na criança 
enquanto tal. A atitude analítica repressiva, aquela que se apóia nas 
representações normalizadas, tomará sistematicamente o sujeito ao pé 
da letra, coisificará seus enunciados. "Ele quis matar seu irmão, ele é 
responsável, ele é incestuoso." Todos os pólos do agenciamento a 



30 



FÉLIX GU ATT ARI 



criança, o irmão, a mãe, vão então cristalizar-se no campo da repre- 
sentação. Se dissermos à criança: "Você arrancou a cabeça de sua 
boneca, e no entanto você sabia que era um presente que nos custou 
caro...", faremos com que ela entre à força no circuito dos valores 
económicos e, pouco a pouco, todos os objetos serão referidos às 
categorias da realidade dominante, da ordem dominante. Toda a rea- 
lidade, então, passa a ser tomada no campo dos valores binários, 
o bem/o mal, é caro/não é caro, o rico/o pobre, o útil/o inútil, etc. 

No entanto o inconsciente — apesar de sua recusa da negati- 
vidade e de todos os sistemas binários que lhe são correlatos, apesar 
de que ele não conheça nem o amor nem o ódio, nem a lei nem a 
proibição — é levado a investir à sua maneira este mundo louco dos 
valores dominantes. Contorna as dificuldades como pode! Torna-se 
sorrateiro. Investe os personagens da ordem doméstica, os represen- 
tantes da lei, como marionetes careteiras. Evidentemente se deverá 
buscar antes de mais nada, do lado deste mundo de representações 
sociais, a perversão intrínseca deste sistema. A psicanálise não esca- 
pou desta perversão do mundo normal. Ela quis domar desde o início 
o desejo. O inconsciente lhe apareceu como algo bestial, perigoso. 
As sucessivas formulações de Freud nunca se afastaram desta posição. 
A energia libidinal deve converter-se no sistema maniqueísta dos va- 
lores dominantes, ela deve investir as representações formais. Nada de 
ter prazer fazendo coco na cama sem desencadear um investimento 
culposo! 

Com a promoção do complexo de castração passou-se assim das 
intensidades polívocas a um investimento de valores sociais punitivos. 
De fato, a crispação da psicanálise no triângulo edipiano representa 
uma espécie de tentativa de salvaguarda contra esta pulsão de aboli- 
ção do desejo que o conduz, como que apesar dele, para esta perver- 
são binária maniqueísta. O esquema de Édipo foi construído contra o 
narcisismo, contra as identificações mortíferas. Pensou-se que se tra- 
tava aí de uma espécie de destino das pulsões. Mas a pulsão de morte 
só se constrói á partir do momento em que se abandonou o terreno 
das intensidades desejantes pelo da representação. O triângulo edi- 
piano é uma tentativa sempre mais ou menos abortada de reter a 
queda na pulsão de morte. Ele jamais funciona verdadeiramente como 
triângulo, porque de fato a morte, a abolição semiótica, o colapso 
libidinal, ameaçam cada um de seus lados. Tudo acaba sempre muito 
mal na cena do grande fantoche psicanalítico. Entre o pai e a criança, 
é ameaça de exterminação recíproca (simetria do fantasma de assassi- 
nato edipiano e do fantasma "estão batendo numa criança"). Entre o 
pai e a mãe, é uma "cena primitiva" do acoplamento, vivida pela 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



31 



criança, como um assassinato. Entre a mãe e a criança, é a iminência 
do desmoronamento narcísico, de retorno ao seio materno, etc, em 
suma: do suicídio! 

Resumindo, diremos que, distintamente da psicanálise, uma 
política esquizoanalítica será levada a considerar que a pulsão de 
morte não é uma coisa em si, que ela está ligada a uma certa maneira 
de colocar o problema do desejo num certo tipo de sociedade. O 
desejo desconhece a morte, a negação, e o principal efeito do grande 
fantoche familialista é o de fazê-lo rir. Estando a negação sempre 
vinculada à posição de um sujeito, de um objeto e de um referente, o 
desejo como pura positividade intensiva contorna os sujeitos e os ob- 
jetos; ele é fluxo e intensidade. Na medida em que um sujeito se 
encontra vinculado a um sistema de representação, a libido individual 
cai sob a dependência da máquina capitalista que a constrange a 
funcionar em termos de comunicação fundada em sistemas binários. 
O campo social não é constituído por objetos que lhe preexistem. O 
indivíduo tomado em sistemas bipolares do tipo homem/mulher, 
adulto/criança, genital/pré-genital, vida/ morte, etc, já é resultado 
de uma redução edipianizante do desejo sobre a representação. A 
enunciação individuada do desejo já é uma condenação do desejo à 
castração. Totalmente outra é a idéia de um agenciamento coletivo da 
libido em partes do corpo, em grupos de indivíduos, em constelações 
de objetos e de intensidades, em máquinas de toda espécie que fariam 
o desejo sair desta oscilação entre o triângulo edipiano e seu desmo- 
ronamento na pulsão de morte, para conectá-lo a multiplicidades 
cada vez mais abertas ao campo social. 



NOTAS 



(1) Guattari refere-se aos debates ocorridos durante os encontros "Psicanálise e 
Política", em maio de 1977 em Milão, quando este ensaio foi apresentado pela primeira 
vez. 

(2) N. doTrad.: Giovanni Jervis é o nome de um psiquiatra italiano, em torno do 
qual se constituiu uma equipe de enfermeiros, psicólogos e psiquiatras que desde 1969 
vem desenvolvendo uma experiência de autogestão dos problemas de saúde mental pela 
comunidade, em Reggio Emilia. Esta equipe participou da fundação da Rede Interna- 
cional de Alternativas à Psiquiatria (cf. "A Trama da Rede"). ■ 

(3) O SPK (Coletivo Socialista de Pacientes) foi criado na Policlínica da Univer- 
sidade de Heidelberg por grupos terapêuticos contendo cerca de 40 doentes. Estes 
doentes juntamente com seu médico, o doutor Huber, desenvolveram uma crítica teórica 



32 



FÉLIX GUATTARI 



e prática da instituição e desvendaram a função ideológica da psiquiatria enquanto 
instrumento de opressão. Seu trabalho se defrontou rapidamente com uma oposição 
crescente por parte da clínica psiquiátrica — o diretor qualificou o grupo de doentes de 
"coletivo de ódio e agressão". Com a repressão, a resistência crescia. Tornava-se impos- 
sível liquidar o SPK por meios formais e legais. O senado da Universidade decidiu 
recorrer à força pública. O pretexto foi fornecido em julho de 71, por um tiroteio ocorrido 
nos arredores de Heidelberg. Creditá-lo ao SPK permitia liquidá-lo pelos meios mais 
brutais. Trezentos tiras armados de metralhadora penetraram nas instalações do SPK; 
helicópteros sobrevoaram a cidade; brigadas especiais da policia foram mobilizadas; 
casas foram revistadas sem autorização; os filhos do Dr. Huber foram tomados como 
reféns; doentes e médicos foram presos. Os autuados foram drogados à força para que 
aceitassem cooperar com a policia. O SPK decidiu então dissolver-se. 

Dois acusados, o Dr. Huber e sua mulher, passaram anos na prisão, com iso- 
lamento quase total. Fazendo- os passar primeiro por loucos, depois por terroristas, 
através de provas de ligação com o grupo Baader-Meinhof, forjadas pela polícia, pôde-se 
levar o caso a um tribunal de exceção, na linha dos tribunais nazistas. Um dos advogados 
de defesa. Eberhardt Becker, foi acusado de cumplicidade e considerado culpado. 
Outro, Jorge Lang, foi encarcerado. Todos os advogados que tentaram assumir esta 
causa foram perseguidos e afastados através de uma série de manobras. Advogados 
foram impostos e só tomaram conhecimento do dossiê 15 dias antes da abertura do 
processo, embora a imprensa tivesse acesso a ele desde o inicio. Eles foram recusados 
pelos réus. 

No dia da abertura do processo de Karlsruhe, os três acusados foram levados em 
macas, dois deles com pés e mãos atadas. O casal Huber, que não se via há 15 meses, foi 
brutalizado e separado violentamente, para finalmente ser expulso da sala com o terceiro 
réu, Hausner. Metade da assistência era constituída de policiais à paisana. Um dos 
presentes leu uma declaração internacional de solidariedade aos réus, tendo sido imedia- 
tamente insultado e espancado — chegando a ter um traumatismo craniano. Logo após, 
uma parte do público foi também expulsa. 

Para maiores esclarecimentos sugerimos a leitura de: SPK Psyckíatrie Politique, 
Maspero, Paris, 1972; Faire de la maladie, une arme, Champ-Libre, Paris, 1973; Procès 
du SPK, Cahiers de Recherches, maio de 1973, CERFI. 

(4) N. do Trad.: O nome "setor" chega à França com Tosquelles, psiquiatra 
espanhol que durante a Guerra Civil Espanhola esteve na direção dos serviços psiquiá- 
tricos do exército republicano, coordenando as açòes de higiene mental, nos diversos 
"setores" do front de luta, e que durante a II Guerra Mundial refugiou-se em Saint- 
Alban <cf . nota 1 de "A Transversalidade"). Muitos hospitais psiquiátricos, na ocasião, 
serviram de refúgio para os militantes da Resistência e por força das circunstâncias houve 
muitas modificações no funcionamento asilar. Finda a guerra, tornava-se impossível 
para os psiquiatras mais progressistas, assim como para muitos enfermeiros e outros 
profissionais de saúde mental, voltar a sancionar o confínamento asilar. Nasce então, 
entre outras idéias, a de uma "psiquiatria de setor", palavra que no início continha ainda 
seu significado de área de front de luta. A luta pela setorização, considerada a "primeira 
revolução psiquiátrica", pretendia a humanização dos hospitais e uma ligação, cada vez 
maior, com a vida da população. Isto implicava em: esvaziamento paulatino dos hospi- 
tais, através da criação de diferentes formas de atendimento distribuídas pela cidade, 
coordenadas por um sistema de estruturas diferenciadas de acordo com a diferenciação 
da demanda — conjunto institucional que estabelece uma continuidade entre o trata- 
mento hospitalar e extra-hospitalar; circunscrição da população atendida por cada 
hospital e, mais tarde, por cada conjunto de serviços psiquiátricos. Esta proposta co- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



33 



dividida em setores cobrindo uma população de aproximada*^ «MC ^sl 

«l £rf -1 ^ «P» « tornam alvo de sérias 

criticas se por um lado interessa ao Estado por ser menos onerosa e mais adeauadTS 

Sílffi POT outro T- também por -ES- S S S£ £ 

vista do controle ideológico - o acesso à população é mais direto do oue através d« 
trad.ciona.s hospitais psiquiátricos, distribuídos de maneira S£ no c£2, do 

cTf^TrVT* 61 deteCtar de imediat0 irrupção de comportamento io 

conforme à estrutura psicossocial dominante e enquadrá-to numa ótica^Sorizafte 
S*,^ a considerar q ue a tutela onipresente do E^tadò aS da 

Para maiores esclarecimentos, consultar Histoire de la P™-Vilat»;« a. c„»« 
leSecteurlmpossible,*^^, nM7(dup.o) ma^díl975,S ° U 

experiên^étm^m n^T ******* um dos animadores desta 

L y ? T °* fundadores da R ede Internacional de Alternativas à 

S^Z^ZT^ir a equipe de " u Gwbe " * um - balh ° ^ 

(6) N. do Trad.: No original manque, conceito proposto pela teoria lacaniana. 



Devir mulher 



Os homossexualismos funcionara, no campo social global, um 
pouco como movimentos, capelas, com seu cerimonial particular, seus 
ritos de iniciação, seus mitos amorosos, como diz René Nelli. Apesar 
das intervenções dos agrupamentos de caráter mais ou menos corpo- 
rativista, como Arcadie, 2 o homossexualismo continua ligado aos valo- 
res e aos sistemas de interação da sexualidade dominante. Sua depen- 
dência da normalidade heterossexual se manifesta por uma politica do 
segredo, uma clandestinidade alimentada pela repressão e também por 
um sentimento de vergonha ainda vivo nos meios "respeitáveis" (parti- 
cularmente entre os homens de negócio, de letras e de espetáculos, etc) 
sobre os quais a psicanálise reina hoje em dia. Ela rege uma norma- 
lidade mais sofisticada, não moral, mas científica. O homossexualismo 
não é mais um caso de moral, mas de perversão. A psicanálise o 
transformou em doença, em atraso de desenvolvimento, em fixação na 
fase pré-genital, etc. 

Num outro nível, mais minoritário, mais vanguardista, encon- 
tramos um homossexualismo militante, do tipo FHAR. 3 O homosse- 
xualismo contesta o poder heterossexual em seu próprio terreno. Agora 
quem vai ter que prestar contas é o heterossexualismo. O problema estã 
deslocado, o poder falocrático tende a ser questionado. Em principio, 
uma conexão torna-se então possível entre a ação das feministas e a dos 
homossexuais. 

No entanto, conviria destacar um terceiro nível, mais molecular, 
em que não se distinguiriam mais de uma mesma maneira as cate- 
gorias, os agrupamentos, as "especialidades", em que se renunciaria às 
oposições estanques entre os géneros, em que se procuraria, ao con- 
trário, os pontos de passagem entre os homossexuais, os travestis, os 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



35 



drogados, os sadomasoquistas, as prostitutas; entre as mulheres, os 
homens, as crianças, os adolescentes; entre os psicóticos, os artistas, os 
revolucionários. Digamos, entre todas as formas de minorias sexuais, 
desde que se saiba que neste domínio só se pode ser minoritário. Neste 
nível molecular, nos deparamos com paradoxos fascinantes. Por exem- 
plo, pode-se dizer ao mesmo tempo: 1) que todas as formas de sexua- 
lidade, todas as formas de atividade sexual, se revelam fundamental- 
mente aquém das oposições personclógicas homo/hetero; 2) que no 
entanto elas estão mais próximas do homossexualismo e daquilo que se 
poderia chamar de um devir feminino. 

Ao nível do corpo social, a libido encontra-se efetivamente to- 
mada pelos dois sistemas de oposição de classe e de sexo: ela tem que 
ser machona, falocrática; ela tem que binarizar todos os valores — 
oposições forte/fraco, rico/pobre, útil/inútil, limpo/sujo, etc. 

Ao nível do corpo sexuado, a libido está empenhada, pelo con- 
trário, num devir mulher. Para ser mais exato, o devir mulher serve de 
referência, eventualmente de tela aos outros tipos de devir (exemplo: 
um devir criança, como em Schumann, um devir animal, como em 
Kafka, um devir vegetal, como em Novalis, um devir mineral, como em 
Beckett). 

Por não estar tão longe do binarismo do poder fálico, o devir 
mulher pode desempenhar este papel intermediário, este papel de me- 
diador frente aos outros devires sexuados. Para compreender o homos- 
sexual, dizemos que é um pouco "como uma mulher". E muitos dos 
próprios homossexuais entram nessa jogada um tanto normalizadora. 
O casal feminino-passivo/masculino-ativo permanece assim uma refe- 
rência tornada obrigatória pelo poder, para permitir-lhe situar, loca- 
lizar, territorializar, controlar as intensidades do desejo. Fora dessa 
bipolaridade exclusiva, não há salvação: ou então é a caída no absurdo, 
o recurso à prisão, ao asilo, à psicanálise, etc. O próprio desvio, as 
diferentes formas de marginalismo são codificadas para funcionar 
como válvulas de segurança. Em suma, as mulheres slo os únicos 
depositários autorizados do devir corpo sexuado. Um homem que se 
desliga das disputas fálicas, inerentes a todas as formações de poder, se 
engajará, segundo diversas modalidades possíveis, num tal devir mu- 
lher. Ê somente sob esta condição que ele poderá, além do mais, devir 
animal, cosmos, carta, cor, música. 

O homossexualismo, por força das circunstâncias, é portanto 
inseparável de um devir mulher — até mesmo o homossexualismo não 
edipiano, não personológico. O mesmo é válido para a sexualidade 
infantil, a sexualidade psicótica, a sexualidade poética (exemplo: a 



36 



FÉLIX GUATTARI 



coincidência em Gínsberg* de uma mutação poética fundamental e de 
uma mutação sexual). De modo mais geral, toda organização "dissi- 
dente" da libido deve assim compartilhar de um devir corpo feminino, 
como linha de fuga do socius repressivo, como acesso possível a um 
"mínimo" de devir sexuado, e como última tábua de salvação frente à 
ordem estabelecida. Se insisto nesse ponto é porque o devir corpo 
feminino não deve ser assimilado à categoria "mulher" tal como ela é 
considerada no casal, na família, etc. Tal categoria, aliás, só existe 
num campo social particular que a define! Não há mulher em si! Não 
há pólo materno, nem eterno feminino... A oposição homem/mulher 
serve para fundar a ordem social, antes das oposições de classe, de 
casta, etc. Inversamente, tudo o que quebra as normas, tudo o que 
rompe com a ordem estabelecida, tem algo a ver com o homossexua- 
lismo ou com um devir animal, um devir mulher, etc. Toda semioti- 
zação em ruptura implica numa sexualização em ruptura. Não se deve, 
portanto, a meu ver, colocar a questão dos escritores homossexuais, 
mas sim procurar o que há de homossexual em um grande escritor, 
mesmo que ele seja, além disso, heterossexual. 

Parece-me importante explodir noções generalizantes e grosseiras 
como as de mulher, homossexual... As coisas nunca são tão simples 
assim. Quando as reduzimos a categorias branco/preto ou macho/ 
fêmea, é porque estamos com uma idéia de antemão, é porque estamos 
realizando uma operação redutora-binarízante e para nos assegurar- 
mos de um poder sobre elas. Não podemos qualificar um amor, por 
exemplo, de modo unívoco. O amor em Proust nunca é especificamente 
homossexual. Ele comporta sempre um componente esquizo, paranói- 
co, um devir planta, uin devir mulher, um devir música. 

Uma outra noção maciça cujos danos são incalculáveis, é a de 
orgasmo. A moral sexual dominante exige da mulher uma identificação 
quase histórica de seu gozo com o do homem, expressão de uma sime- 
tria, de uma submissão a seu poder fálico. A mulher deve seu orgasmo 
ao homem. Se ela o "recusa", se torna culpada. Quantos dramas im- 
becis são alimentados em torno disso! E a atitude acusadora dos psica- 
nalistas e dos sexólogos sobre esta questão não serve para resolver a 
situação. De fato, é comum que mulheres bloqueadas, com parceiros 
masculinos, cheguem facilmente ao orgasmo masturbando-se ou fa- 
zendo amor com outra mulher. Mas aí o escândalo é muito maior se as 
coisas chegam a ser descobertas! 

Consideremos um último exemplo, o do movimento das prosti- 
tutas. 5 No começo, quase todo mundo exclamou: "muito bem, as pros- 
titutas têm razão em se revoltar. Mas, atenção, é preciso separar o joio 
do trigo. As prostitutas, tudo bem. Mas dos cafetões não queremos 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



37 



ouvir falar!" E todo mundo se pôs a explicar às prostitutas que elas 
deveriam se defender, que elas são exploradas, etc. Tudo isto é ab- 
surdo! Antes de explicar qualquer coisa, seria preciso primeiro procu- 
rar compreender o que se passa entre a prostituta e seu cafetão. Há o 
triângulo prostituta-cafetão-dinheiro. Mas há também toda uma mi- 
cropolítica do desejo, extremamente complexa, que está em jogo entre 
cada pólo deste triângulo e diversos personagens tais como o cliente e o 
polícia. As prostitutas têm certamente coisas muito interessantes a nos 
ensinar a respeito disso. E ao invés de persegui-las, tinha-se mais é que 
subvencioná-las, como se faz com os laboratórios de pesquisa! Quanto 
a mim, estou convencido de que é estudando toda esta micropolítica da 
prostituição que se poderia esclarecer, sob uma nova luz, pedaços in- 
teiros da micropolítica conjugal e familiar — a relação de dinheiro 
entre o marido e a mulher, os pais e os filhos, e, mais além, o psica- 
nalista e seu cliente. (Seria preciso também retomar o que os anar- 
quistas da belle époque escreveram a este respeito. ) 



NOTAS 



(1) N. do Trad.: René Nem é autor de r£rofí 9 u e rf« Troubadours (10/16), onde 
faz uma analise do amor cortês. 

(2) N. do Trad.: Arcadie foi a primeira revista homossexual publicada na Franca 
por volta de 1954. v ' 

(3) N. do Trad: Frente Homossexual de Açao Revolucionária, movimento dos 
homossexuais muito ativo nas décadas de 70. 

(4) N. do Trad.: Aflen Ginsberg, poeta da BeatGeneration. 

(5) N. do Trad.: Em 1975, quando foi escrito este artigo, um grupo de prostitutas 
estava em pleno movimento de ocupação de igrejas, principalmente em Paris e Lyon 
protestando contra aquilo que elas chamavam de "Estado-cafetao". Estado que por um 
lado praticamente legaliza a prostituição - as prostitutas devem por exemplo subme- 
ter-se a exames médicos — e, por outro lado, as castiga constantemente com multas por 
prática ilegal de trottoir. Enfim, Estado que só as reconhece enquanto corpo a ser 
mantido em bom estado para que dele se possa extrair mais-valia. 



Três milhões de perversos 
no banco dos réus* 



Liminar 

O objeto deste dossiê — os homossexualistnos hoje na França — 
não poderia ser abordado sem o questionamento dos métodos comuns 
de pesquisa em ciências humanas que, sob pretexto de objetividade, 
tomam todo o cuidado em estabelecer uma distinção máxima entre o 
pesquisador e seu objeto. Para se chegar ao descentramento radical da 
enunciação científica que a análise de um tal fenómeno requer, não 
basta "dar a palavra" aos sujeitos envolvidos — que pode ser, às vezes, 
uma conduta formal e até jesuítica — , é preciso antes criar condições 
para um exercício total, leia-se paroxístico, desta enunciação. A ciência 
não tem nada a ver com justas medidas e compromissos de bom-tom! 
Romper as barreiras do saber vigente — na verdade, do poder domi- 
nante — não é fácil. Pelo menos três espécies de censura deveriam ser 
desmanteladas: 

— a do pseudo-objetivismo das pesquisas sociais do género rela- 
tório Kinsey transposto para o "comportamento sexual dos 
franceses", que ajustam a priori todas as respostas possíveis, 
de modo a fazer as pessoas falarem exatamente aquilo que 
enquadra com o que o observador e o financiador do estudo 
querem ouvir; 

— a dos preconceitos psicanalíticos, que preorganizam uma 
"compreensão" — na verdade uma recuperação — psicoló- 
gica, tópica e económica, do homossexualismo, de tal ma- 
neira que no prolongamento da sexologia mais tradicional 
ela continua mantida no quadro clínico das perversões, justi- 
ficando implicitamente todas as formas de repressão por ela 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



39 



sofrida. Não se tratará aqui, portanto, absolutamente de "fi- 
xação" às fases pré-genitais, pré-edípicas, pré-simbólicas ou 
pré-qualquer-coisa que definiriam o/a homossexual como al- 
guém a quem falta algo — no mínimo normalidade e mora- 
lidade. 

A maquinação homossexual, longe de depender de uma 
"identificação ao progenitor do mesmo sexo", rompe com 
toda forma de adequação possível a um pólo parental que 
possa ser apontado. Longe de se resolver em fixação no Seme- 
lhante, ela é abertura à Diferença. A recusa da castração, 
no/ a homossexual, não significa que ela/ ele brocha diante de 
suas responsabilidades sociais. Pelo contrário, ao menos po- 
tencialmente, ele/ela tenta, a seu modo, expurgar estas res- 
ponsabilidades de todos os procedimentos identificatórios 
normalizados, que no fundo são meras sobrevivências dos 
rituais de submissão os mais arcaicos; 
— enfim, a do "homossexualismo militante tradicional" . Tam- 
bém, neste domínio, a época da Cabana do Pai Tomás já era. 
Não se tratará aqui da defesa das legítimas e inocentes reivin- 
dicações de minorias oprimidas; nem tampouco de uma ex- 
ploração quase etnográfica de um misterioso "terceiro se- 
xo"... Os/as homossexuais falam em nome de todos — em 
nome da maioria silenciosa — e colocam em questão todas as 
formas, quaisquer que sejam elas, de produção desejante. 
Nada na ordem da criação ou do progresso poderá ser feito 
sem o conhecimento de sua interpelação. Já se foi o tempo da- 
queles génios homossexuais que se empenhavam em separar e 
desviar sua produção de seu homossexualismo, esforçando-se 
em mascarar que a própria raiz de seu élan criador estava justa- 
mente em sua ruptura sexual em relação à ordem estabelecida. 
Lembrete para os surdos: a bicha, não mais do que o esquizo, 
não é um revolucionário em si, o revolucionário dos novos tempos! 
Dizemos, apenas, que entre alguns outros, ele pode ser, ele pode vir a 
ser o lugar de uma ruptura libidinal maior na sociedade, um dos pontos 
de emergência da energia revolucionária desejante, da qual o militan- 
tismo clássico permanece desconectado. Nem por isso perdemos de 
vista que existe também uma loucura de asilo infinitamente infeliz, ou 
um homossexualismo edípico infinitamente envergonhado e miserável! 
E, no entanto, convém ficar à escuta inclusive destes casos de extrema 
repressão. 

Maio de 68 nos ensinou a ler nos muros, e desde então come- 
çamos a decifrar as pichações nas prisões, nos asilos e hoje em dia nos 



40 



FÉLIX GUATTARI 



mictórios. Ê todo um "novo espírito científico" que está para ser re- 
feito. 



Carta ao tribunal 1 

No decorrer dos últimos anos, a posição dos homossexuais na 
sociedade mudou muito. Constata-se nesse domínio, como em muitos 
outros, uma defasagem entre a realidade e a teoria psiquiátrica, a 
prática médico-legal e jurídica. O homossexualismo é cada vez menos 
sentido como uma doença vergonhosa, um desvio monstruoso, um 
delito. Essa evolução acentuou-se ainda mais nos últimos anos, quando 
as lutas sociais levaram em consideração problemas que antes elas 
deixavam de lado, como a vida nas prisões, nos asilos, a condição 
feminina, a questão do aborto, da qualidade de vida, etc. Ê assim que 
surgem movimentos políticos homossexuais, se considerando como 
minorias marginais, defendendo sua dignidade humana e reivindi- 
cando seu direito de cidadania. Alguns dentre esses movimentos, por 
exemplo nos Estados Unidos, chegavam até a unir sua ação à dos 
movimentos de luta contra a guerra do Vietnã, dos movimentos de 
emancipação dos negros, dos porto-riquenhos, dos movimentos femi- 
nistas, etc. 

Na França, a evolução foi diferente: o movimento revolucionário 
homossexual, o FHAR (Frente Homossexual de Ação Revolucionária), 
desenvolveu-se logo de cara num plano político. Não houve uma con- 
junção de movimentos marginais homossexuais e de movimentos polí- 
ticos: os problemas do homossexualismo foram colocados diretamente 
a partir de um movimento político. Este movimento, maoísta espon- 
taneísta, agrupado em torno do jornal Tout, 2 egresso de Maio de 1968, 
além de se negar a aceitar que o homossexualismo fosse uma doença ou 
uma perversão, acabou considerando que toda vida sexual normal lhe 
dizia diretamente respeito. Da mesma forma, o Movimento de Libe- 
ração das Mulheres (MLF) considera hoje que o homossexualismo 
feminino é não apenas uma forma de luta contra o chauvinismo macho, 
mas igualmente um questionamento radical do conjunto das formas de 
sexualidade dominantes. 

O homossexualismo seria assim uma dimensão não somente da 
vida de cada um, como também estaria em jogo em toda uma série de 
fenómenos sociais como os da hierarquia opressiva, do burocratismo, 
etc. A questão fica desse modo deslocada: os homossexuais, homens e 
mulheres, recusam o estatuto de minoria oprimida e pretendem levar 
uma ofensiva política contra a servidão de todas as formas de sexuali- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



41 



dade aos sistemas de reprodução e aos valores das sociedades capita- 
hstas e socialistas burocráticas. Trata-se, de fato, mais de transexua- 
hdade do que de homossexualidade: trata-se de definir o que seria a 
sexuahdade numa sociedade libertada da exploração capitalista e das 
relações de sujeição que ela desenvolve em todos os níveis da organi- 
zação social. Deste ponto de vista, a luta pela liberdade do homosse- 
xualismo torna-se parte integrante das lutas de libertação social. 

São os temas desenvolvidos por esta corrente de pensamento que 
foram explorados no número de Recherches pelo qual fui acusado — 
como diretor da publicação - de "atentado ao pudor". Na verdade, 
este número de Recherches não coloca fundamentalmente senão pro- 
blemas políticos. A acusação de pornografia é apenas um pretexto, 
fácil de invocar neste domínio particular; o essencial é reprimir "parâ 
servir de exemplo". 

Recherches, assim como algumas publicações atuais, se esforça 
em romper com a prática da rádio, da televisão e da maior parte dos 
meios de imprensa, que consiste em selecionar as informações em 
função dos preconceitos vigentes, em fazer-se árbitro da decência e da 
indecencia, em transpor em linguagem, dita conveniente, a expressão 
das pessoas envolvidas num problema; em suma, substituí-las. Sobre a 
situação nas prisões, se dará a palavra a um juiz, um policial, um 
antigo prisioneiro, mas desde que apresente um caráter excepcional — 
por exemplo, um criminoso passional — mas nunca um prisioneiro 
médio. O mesmo se dá com os doentes mentais — em última instância 
um louco criador poderá se fazer ouvir - mas nunca se solicitara 
testemunhos sobre a vida miserável no hospital psiquiátrico. 

Quisemos, assim, dar diretamente a palavra aos homossexuais 
° 1 ue aconteceu? Reprovaram nossa inconveniência. Mas de que 
natureza é esta inconveniência, se não política? De fato, aquilo que diz 
este número de Recherches e o modo como o diz estão obviamente 
aquém daquilo que se pode encontrar não somente nas publicações 
para íex-íAqpí 3 — nosso objetivo não era lhes fazer concorrência! — 
mas igualmente daquilo que se encontra nas publicações científicas. A 
originalidade deste número — o que choca, aquilo pelo qual somos 
inculpados — é que possivelmente pela primeira vez homossexuais e 
nao homossexuais falam destes problemas por conta própria e de uma 
maneira inteiramente livre. 



NOTAS 



(1) Esta carta é dirigida ao tribunal por ocasião do processo judiciário, sofrido 
pelo n? 12 da revista Reckerches, de março de 73, "Três Milhões de Perversos no Banco 
dos Réus — Grande Enciclopédia dos Homossexualismos". A sentença condenou Félix 
Guattari, diretor da revista, a 600 francos de multa por atentado ao pudor e, conside- 
rando a publicação uma "exibição detalhada de torpezas e desvios sexuais", o "desem- 
buchar libidinoso de uma minoria de perversos", ordenou a destruição de todos os 
exemplares. 

<2) N. do Trad.: Jornal da imprensa alternativa, fundado após Maio de 68, 
por uma equipe constituída predominantemente, mas não só, de membros do grupo 
Révolution, de tendência anarco-maoísta, herdeiro da Internacional Situacionista (movi- 
mento que se deu em Strasbúrgo na década de 60, um dos precursores de 68; propunha a 
revolução do cotidiano, a dissolução da separação entre o politico, o poético e o cultural, 
a superação da sociedade espetacular mercantil, do utilitarismo, da lógica e da razão 
pela autogestão, pelos conselhos operários, pela imaginação, em uma mescla de surrea- 
lismo/marxismo/anarquismo (cf. coletânea da revista do situacionismo Internationale 
Situationniste — 1 958-69, Champ Libre, 1975). 

Parte da equipe de 7buf fundou posteriormente o jornal diário Libération (cf. 
nota 3 de "Antipsiquiatria e Antipsicanálise"). 

(3) N. do Trad. : Sex-shops são as lojas onde se vendem objetos e publicações 
consideradas pornográficas. 



Cheguei até a encontrar 
travestis felizes* 



As Mirabelles 1 experimentam uma nova forma de teatro mili- 
tante. E um teatro que se desembaraça da linguagem explicativa, das 
sacadas cheias de boas intenções, por exemplo sobre a liberação dos 
homossexuais! Elas recorrem ao travesti, ao canto, à mímica, à dança 
etc, nao como meios de ilustração de um tema, para distrair o espírito 
do espectador, mas sim para perturbá-lo, para agitar dentro dele zonas 
turvas de desejo que ele sempre se recusou a explorar. A questão não é 
mais a de saber se vamos desempenhar o papel feminino contra o 
masculino, ou o contrário, e sim fazer com que os corpos, todos os 
corpos, consigam livrar-se das representações e dos constrangimentos 
do corpo social", bem como das posturas, atitudes e comportamentos 
estereotipados, da "couraça" de que falava Wilhelm Reich. A alie- 
nação sexual, que é um dos fundamentos do capitalismo, implica na 
polarização do corpo social na masculinidade, enquanto que o corpo 
feminino se transforma em objeto de cobiça, em mercadoria, um 
erritono ao qual só se poderá ter acesso na culpabilidade e subme- 
tendo-se a todas as engrenagens do sistema (casamento, família tra- 
balho, etc...). O desejo, por outro lado, que se vire como puder' De 
tato ele deserta o corpo do homem para emigrar para os lados da 
mulher, ou, mais exatamente, para os lados de um "devir mulher" O 
essencial aqui não é o objeto visado mas sim o movimento de trans- 
formação. E este movimento, esta passagem que as Mirabelles nos 
ajudam a explorar: um homem que ama seu próprio corpo, um homem 
que ama o corpo de uma mulher ou de um outro homem está sempre 
ele próprio, implicado secretamente num "devir feminino" O que é 
totalmente diferente de uma identificação com a mulher, ou ainda com 
a mae, como quenam fazer crer os psicanalistas. Trata-se muito mais de 



44 



FÉLIX GUATTAR1 



um devir outro, trata- se de uma etapa para tornar-se diferente daquilo 
que o corpo social repressivo nos destinou autoritariamente. Assim 
como os trabalhadores, apesar da exploração de sua força de trabalho, 
conseguem estabelecer um certo tipo de relação verdadeira com a 
realidade do mundo, também as mulheres, apesar da exploração se- 
xual que elas sofrem, conseguem conservar um certo tipo de relação 
verdadeira com o desejo. E elas vivem esta relação essencialmente ao 
nível de seus corpos. E se a burguesia não é nada, no plano económico, 
sem o proletariado, os homens não são grande coisa no plano do corpo 
se eles não tiverem acesso a um tal "devir feminino". Daí eles depen- 
derem do corpo da mulher, ou da imagem de mulher que frequenta 
seus sonhos e seus próprios corpos ou que eles projetam no corpo de seu 
parceiro homossexual. Daí também a contradependência, à qual eles se 
esforçam em reduzir as mulheres ou os comportamentos de predador 
sexual que eles adotam em relação a elas. A exploração económica e a 
exploração sexual não podem ser dissociadas. A burguesia e as buro- 
cracias mantêm seu poder justamente se apoiando na segregação dos 
sexos, das faixas etárias, das raças; na codificação das atitudes, na 
estratificação das castas. A reprodução pelos militantes destas mesmas 
segregações e estratificações (por exemplo, a recusa a encarar a alie- 
nação concreta das mulheres e das crianças, as atitudes possessivas e 
dominadoras, o respeito da separação burguesa entre vida privada e 
atividade pública, etc.) constitui uma das bases essenciais da esclerose 
atual do movimento operário e revolucionário. Colocar- se à escuta dos 
verdadeiros desejos do povo implica sejamos capazes de nos colocarmos 
à escuta de nosso próprio desejo e daquele de nosso entorno mais 
imediato. Isto não significa absolutamente que se deva fazer passar as 
lutas do desejo à frente da luta de classes em grande escala. Pelo con- 
trário, cada ponto de junção entre elas trará a estas últimas uma 
energia inimaginável. 

É neste front, com muita modéstia e tenacidade, que trabalham 
as Mirabelles. Mas elas não querem absolutamente ser levadas a sério; 
elas lutam por algo mais importante do que a seriedade! (Sua palavra 
de ordem: "crise monetária e travesti, bananas e travesti"...) O que 
lhes interessa é contribuir para tirar o homossexualismo de seu gueto, 
mesmo que seja um gueto militante; o que lhes interessa é que espe- 
táculos como o seu possam tocar não somente a massa de homosse- 
xuais, mas também a massa de pessoas que estão mal por não assu- 
mirem seus desejos. 



NOTA 



(1) N. do Trad.: O grupo Mirabelles, de teatro musical, não s6 é contemporâneo 
do grupo brasileiro Dzi Croque ttes, mas há uma grande semelhança entre os dois. 
Assunção do homossexualismo como mutação na micropolítica do desejo. Nem homens 
tomados mulheres, nem mulheres tomadas homens, nem um terceiro sexo, mas uma 
outra sexualidade dos homens e das mulheres. Strip-tease do corpo em mutação, asfi- 
xiado sob as plumas e paetés do show de travestis, fazendo ressoar o devir da politica 
sexual de cada espectador. Efeito político de reconhecimento deste devir. 



Gangues em Nova Iorque* 



A marginalidade é o lugar onde se podem ler os pontos de rup- 
tura nas estruturas sociais e os esboços de problemática nova no campo 
da economia desejante coletiva. Trata-se de analisar a marginalidade, 
não como uma manifestação psicopatológica, mas como a parte mais 
viva, a mais móvel das coletividades humanas nas suas tentativas 
de encontrar respostas às mudanças nas estruturas sociais e ma- 
teriais. 

Mas a própria noção de marginalidade permanece extremamente 
ambígua. De fato, ela implica sempre a idéia de uma dependência 
secreta da sociedade pretensamente normal. A marginalidade chama o 
recentramento, a recuperação. Gostaríamos de lhe opor a idéia da 
minoria. Uma minoria pode se querer definitivamente minoritária. Por 
exemplo, os homossexuais militantes nos Estados Unidos são minori- 
tários que recusam ser marginalizados. Nesse mesmo sentido pode-se 
considerar que as gangues negras e porto-riquenhas nos Estados Uni- 
dos não são mais marginais do que o são os negros e os porto-riquenhos 
nos bairros das grandes cidades que eles controlam, às vezes, quase 
inteiramente. Trata-se de um fenómeno novo que indica direções no- 
vas. Uma simplificação corrente consiste em dizer que este tipo de 
gangue não põe em ação senão mecanismos de autodefesa e que sua 
existência é apenas a consequência do fato de que o poder político, os 
partidos e os sindicatos ainda não encontraram resposta a esse pro- 
blema. (Foi na esperança de achar uma tal resposta que Reagan, 
quando governador da Califórnia, tentou estabelecer um colossal cen- 
tro de pesquisas para estudar os meios de reabsorver a violência. Seus 
trabalhos deveriam orientar-se na direção, apenas caricaturada, do 
filme Laranja Mecân ica . ) 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



47 



É fato que, no quadro dos fenómenos de decomposição que 
certas grandes cidades dos Estados Unidos conhecem, a urbanização e 
a "urbanidade", por mais que tenha sido feito, deixam de funcionar 
lado a lado. O papel de melting pot da cidade deixa lugar, nesses casos 
de câncer do tecido urbano, a uma aceleração das formas de segre- 
gação racial, a um reforçamento dos particularismos que vai até à 
impossibilidade de circular de um bairro a outro. (A polícia, hoje em 
dia, só penetra. excepcionalmente em certos bairros de Nova Iorque.) 

Ao invés de considerar tais fenómenos como respostas coletivas 
improvisadas a uma carência (a carência de moradia, por exemplo), 
dever-se-ia estudá-los como uma experimentação social na marra, 
em grande escala. De forma mais ou menos consequente, as mi- 
norias sociais exploram os problemas da economia do desejo no 
campo urbano. Essa exploração não propõe formas ou modelos, 
ela nâo traz remédio a algo que seria patológico: ela indica, isto 
sim, a direção de novas modalidades de organização da subjetividade 
coletiva. 

Detenhamo-nos num exemplo típico: o do South Bronx em Nova 
Iorque. Gangues de jovens, que reúnem às vezes vários milhares de 
indivíduos, esquadrinham toda essa parte da cidade. Eles se deram 
uma organização muito rígida, muito hierarquizada e mesmo tradicio- 
nalista. As mulheres estão organizadas em gangues paralelas, mas per- 
manecem completamente sujeitas às gangues masculinas. Tais gangues 
participam, por um lado, de uma economia desejante fascista, e, por 
outro, daquilo que certos de seus dirigentes chamam eles mesmos de 
um socialismo primitivo (grass-root). Destaquemos entretanto os sinais 
de uma evolução interessante. Em certas gangues porto-riquenhas de 
Nova Iorque, onde as meninas eram tradicionalmente sujeitas aos 
chefes masculinos, aparecem agora estruturas de organização femini- 
nas mais autónomas, e que não reproduzem os mesmos tipos de hie- 
rarquia; as meninas dizem que, diferentemente dos rapazes, não expe- 
rimentam a necessidade de uma tal estruturação. Para elas se trata de 
buscar um outro tipo de organização que se diferencie da mitologia 
ligada a uma espécie de culto fálico do chefe. 

Toda uma série de questões pode ser colocada a partir daí: 

— como é que se chegou a isso, principalmente no plano da se- 
gregação racial? 

— por que os movimentos de emancipação foram forçados a se 
fazer implicitamente agentes desta segregação? 

— por que os movimentos revolucionários nacionais (Black Pan- 
thers, Black Muslims, Young Lords, etc.) permaneceram 
sem possibilidade de controle sobre esses milhares de gan- 



48 



FÉLIX GUATT ARI 



gues que esquadrinham, quarteirão por quarteirão, uma par- 
te considerável das grandes cidades americanas? 
Uma certa cultura, específica das massas mais deserdadas, um 
certo modelo de vida, um certo sentido da dignidade humana existem 
nessas gangues, e poderíamos igualmente creditar-Ihes certas interven- 
ções sociais que trazem respostas a problemas que nenhum tipo de 
poder de Estado pôde abordar. Foi assim que no South Bronx bastou 
que uma equipe de médicos trabalhasse junto com as gangues para que 
se pudesse desenvolver um sistema muito original de organização da 
higiene mental. 

Assinalemos, em particular, a propósito do problema da droga, 
uma experiência das mais originais, sempre no South Bronx. Há dois 
anos, durante as lutas raciais, o Lincoln Hospital foi ocupado por mili- 
tantes revolucionários, depois evacuado ao cabo de algumas semanas. 
Mas todo um andar do hospital continuou a ser ocupado e não cessou 
de o ser, desde este período, por ex-drogados que assumiram por si 
mesmos a organização de um serviço de desintoxicação. Esta instau- 
ração da autogestão num serviço hospitalar mereceria ser explorada em 
todos os seus detalhes. Destaquemos simplesmente alguns fatos: 

— o essencial da equipe é composto por ex-drogados; 

— os médicos jamais têm acesso direto aos doentes e aos servi- 
ços; 

— o centro faz sua própria polícia e um status guo pode insti- 
tuir-se com a polícia do Estado de Nova Iorque; 

— o Estado de Nova Iorque, após haver lutado muito tempo 
contra o Centro, foi levado finalmente a subvencioná-lo; 

— fez-se uma utilização muito particular' da metadona, que é 
empregada aqui apenas como tratamento intensivo durante 
alguns dias, enquanto que nos serviços clássicos sua adminis- 
tração dura anos e constitui uma espécie de droga artificial 
sujeitando definitivamente o ex-drogado ao "poder médico". 

Mas o que é talvez o mais interessante é a conjunção da açâo das 
gangues com esse serviço de autogestão. Ela acabou não somente por 
aperfeiçoar um sistema de tratamento eficaz (vêem-se drogados chegar 
por si mesmos, titubeando, ao Centro), mas por trazer soluções a um 
problema mais geral, o do tráfico da droga. Com efeito, as gangues 
tomaram o controle da situação, na verdade meio rudemente, elimi- 
nando pela persuasão, ou mesmo algumas vezes fisicamente, os 
pushers (traficantes). 

Certas gangues e certos movimentos negros tomaram consciência 
da manipulação de que eram objetos, através da droga, pelo poder de 
Estado. (A coisa se tornou manifesta para eles quando se descobriu que 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



49 



os estoques de droga, apreendidos pela polícia nova-iorquina, tinham 
sido substituídos por farinha e revendidos pela polícia, e isso numa 
escala colossal.) 

Mas o exemplos de tais ações relativamente pacíficas continuam 
sendo a exceção. A violência e o medo, frequentemente alimentados 
pela polícia, reinam no seio das gangues. Não se pode dizer que uma tal 
"experiência" nos propõe um modelo de "qualidade de vida". 

Certos esboços de organização mais sistemática são combatidos 
pelas autoridades, em particular as relações que começavam a se insti- 
tuir entre as diferentes gangues e mesmo entre as diferentes raças 
(negros, porto-riquenhos, chicanos, etc.) e as relações entre as gan- 
gues locais e os movimentos implantados nacionalmente. 

O fenómeno das gangues, em sua amplitude e em seu estilo atual, 
data de bem poucos anos. Antigamente o conjunto dos movimentos 
negros tinha sido submerso por uma onda de droga branca que havia 
chegado até os altos escalões. Mas não é ao nível dos movimentos 
nacionais que um início de resposta ao problema da droga foi encon- 
trado, e sim ao nível das gangues, que aliás consideravam tais movi- 
mentos muito elitistas, comparados a elas que permanecem em contato 
estreito com as massas e com os pés na terra. 

Alguns professores e trabalhadores sociais começaram a traba- 
lhar com estas gangues. Um professor e uma cineasta francesa 1 reali- 
zaram com eles alguns filmes em vídeo. As autoridades toleraram mal 
tais iniciativas, tentaram recuperá-las com fins policiais. É possível 
entretanto que a Rede Alternativa à Psiquiatria 2 consiga refazer estas 
tentativas. 



NOTAS 



(1) N. do Trad.: Guattari se refere a Martine Barrat, fotógrafa e cineasta fran- 
cesa, radicada em Nova Iorque, que vem acompanhando, desde 1971, as gangues de 
adolescentes negros e porto-riquenhos em South Bronx. Trabalha com vídeo-teipe, 
muitas vezes, manipulado pelas próprias gangues, sendo um registro que rompe com o 
silêncio forçado deste setor da vida social norte-americana. A circulação intensa do 
trabalho de Martine Barrat — inúmeras exposições, artigos de jornal e revista, pro- 
gramas de televisão — tem levado a voz das gangues pelo mundo. Martine Barrat esteve 
no Brasil, em 1979, durante alguns meses, vivendo em Mangueira. 

- (2) N. do Trad.: Cf. o cap. deste livro "A Trama da Rede" . 



As creches e a iniciação* 



Como evitar que as crianças se prendam às semióticas domi- 
nantes ao ponto de perder muito cedo toda e qualquer verdadeira liber- 
dade de expressão? Sua modelagem pelo mundo adulto parece efetuar- 
se, de fato, em fases cada vez mais precoces de seu desenvolvimento, 
especialmente por meio da televisão e dos jogos educativos. Unia das 
contradições internas dos empreendimentos ditos "escola nova" reside 
no fato de que elas limitam muito frequentemente suas intervenções ao 
nível das técnicas da aquisição da linguagem, da escrita, do desenho, 
etc... sem intervir no motor desta modelagem cujas técnicas não são 
senão um dos agentes. Um empreendimento educacional não poderia 
circunscrever de modo válido seu campo a questões de técnicas de 
aprendizagem ou de socialização. Ele coloca de imediato toda uma 
série de problemas micropolíticos. 

Ao se comparar o que se passa hoje nas sociedades industriais 
com o que existia nas sociedades pré-industriais ou o que sobrevive nas 
sociedades "primitivas", constata-se que nestas últimas a iniciação, a 
entrada da criança nos papéis especificados pelo campo social adulto, 
situa-se aproximadamente em torno de 9-12 anos. Até aí, ela não 
precisa respeitar rigorosamente as proibições do grupo. Só quando ela 
é promovida ao titulo de "pessoa por inteiro" , de membro do clã, é que 
ela deve se dobrar às normas do grupo, o que faz com que ela se bene- 
ficie, em contrapartida, do prestígio e das vantagens materiais próprias 
de cada etapa desta promoção. Por exemplo, em tribos indígenas da 
Amazónia, antes de sua iniciação, as crianças comem fora do círculo 
dos adultos, devem se virar por conta própria para apanhar restos; mas 
poderão livremente esboçar relações sexuais que, ulteriormente, serão 
consideradas incestuosas; é como se, antes da iniciação, os atos das 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



51 



crianças não comprometessem verdadeiramente a comunidade. E tam- 
bém, durante uma dezena de anos, elas escapam ao tipo geral de enco- 
dificação que é aquele sobre o qual repousa o conjunto da armadura 
social. O que não quer dizer que elas escapam completamente a todo e 
qualquer modo de controle pela sociedade: por exemplo, até a idade de 
2 anos, o comportamento da criança será circunscrito a um território 
que a coloca nas adjacências da mãe, mas durante todo este período, 
por exemplo em certas sociedades animistas africanas, eia não terá 
aprendizagem do controle esfincteriano. A fixação do período de des- 
mame é geralmente muito flexível. Ele pode produzir-se tardiamente. 
Mas desde o momento em que acontece a criança se vê bruscamente 
forçada a abandonar esta territorialidade materna e submeter-se à lei 
de uma outra faixa etária, onde terá de respeitar outros tipos de código. 
Alguns psicanalistas se comoveram com a brutalidade deste tipo de 
desmame; imputaram-lhe a origem de todas as espécies de distúrbios. 
Mas parece que se trata de uma forma particular de etnocentrismo 
que consiste em desconhecer as condições particulares de funciona- 
mento da libido nestas sociedades. 

Nas sociedades industriais desenvolvidas, toda esta organização 
de faixas etárias parece ter desaparecido: é como se fosse desde a fase 
infans que começasse o processo de iniciação. A iniciação não está mais 
circunscrita a um período preciso, não mais se efetua segundo um ceri- 
monial particular, por exemplo naquilo que se chama "campos de ini- 
ciação". Ela tem lugar em "tempo integral"; mobiliza todo o meio 
familiar e os educadores. Trata-se pois de uma iniciação ao sistema de 
representação e aos valores do capitalismo que não mais põe em jogo 
somente pessoas, mas que passa cada vez mais pelos meios audiovisuais 
que modelam as crianças aos códigos perceptivos, aos códigos de lin- 
guagem, aos modos de relações interpessoais, à autoridade, à hierar- 
quia, a toda a tecnologia capitalista das relações sociais dominantes. 

Um dos elementos primordiais da evolução desta iniciação con- 
cerne ao primado da escrita na formação semiótica de base da infância. 
Não faz muito tempo, a leitura — de um romance, por exemplo — 
podia ser desaconselhada às moças: Tolstoi nos mostra mocinhas da 
burguesia e da aristocracia que eram forçadas a ler à noite, às escon- 
didas... Davam-se a isso todas as espécies de justificação: a leitura era 
supostamente nociva aos olhos, podia lhes dar más idéias... 

Na realidade, esta proibição se atinha ao fato de que as moças 
não eram destinadas a participar, da mesma forma que os homens, das 
semióticas escriturais enquanto componente essencial da integração a 
um modo de produção dominante. Precisemos que, sob outras formas, 
este tipo de restrição não concernia somente às moças das classes supe- 



52 



FÉLIX GUATTARI 



riores, mas também às crianças das classes pobres. Agora, o capita- 
lismo pretende mobilizar o máximo de pessoas, sejam quais forem sua 
idade e sexo, e é o mais cedo possível que a criança deve estar apta a 
decifrar os diferentes códigos do poder. A escola primária, na época de 
Jules Ferry, 1 punha em jogo espécies de ritos de passagem para pe- 
ríodos ainda relativamente tardios da vida da criança em relação aos 
que conhecemos agora; na escola primária, o professor se preocupava 
principalmente em iniciar as crianças num certo tipo de lei, de disci- 
plina; ele lhes ensinava a permanecer em fila, a falar quando se lhes 
solicitava, etc... Este tipo de escola correspondia a um certo modo de 
organização da produção, por exemplo, àquele das manuf aturas, do 
trabalho em série, etc..., e da organização militar de "massa". Ao 
contrário, a formação do trabalhador e do soldado implica hoje em dia 
uma integração máxima nos processos de semiotização escriturais. As 
crianças, diante da televisão, "trabalham", 2 assim como "trabalham" 
na creche, com técnicas de jogo que são concebidas para melhorar seus 
desempenhos perceptivos. Pode-se mesmo, num certo sentido, consi- 
derar que este trabalho é comparável ao dos aprendizes na escola 
profissional, ou ao dos operários metalúrgicos que se reciclam visando 
adaptar-se a novos tipos de linha de montagem. Não seria concebível, 
na sociedade atual, que se pudesse formar um trabalhador sem esta 
preparação que se faz na família, na creche, antes mesmo da entrada na 
escola primária. O ponto que nos parece, pois, importante é que cabe às 
crianças formar-se o mais cedo possível em uma certa tradutibilidade 
do conjunto dos sistemas semióticos introduzidos pelas sociedades in- 
dustriais. A criança não aprende somente a falar uma língua materna, 
aprende também os códigos da circulação na rua, um certo tipo de 
relações complexas com as máquinas, com a eletricidade, etc... e estes 
diferentes códigos devem integrar-se aos códigos sociais do poder. Esta 
homogeneização das competências semióticas é essencial ao sistema da 
economia capitalista: "a escrita" do capital implica com efeito que o 
desejo do indivíduo, em seus diferentes desempenhos semióticos, seja 
capaz de se adaptar, de se "tradutibilizar" agenciando-se a partir de 
qualquer ponto do sistema sócio-econômico. O capital é a própria 
matriz da tradutibilidade dos valores de troca e de todas as formas de 
trabalho. A iniciação ao capital implica, em primeiro lugar, esta inicia- 
ção semiótica nos diferentes modos de tradutibilidade, e nos sistemas 
de invariantes que lhes correspondem. 

Hoje estamos longe do tempo em que se dizia aos jovens: "Você 
vai ver, durante seu serviço militar, vão pôr você na linha, vão fazer de 
você um homem...". Não se pode mais esperar tanto tempo assim. A 
precocidade do adestramento da criança implica uma mudança de 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



53 



método. Este tende a recorrer, cada vez menos, a sistemas de coerção 
materiais — pode-se dispensar a palmatória, o castigo — e, cada vez 
mais, a técnicas de impregnação audiovisuais que fazem o trabalho 
com suavidade, e em muito maior profundidade. Uma espécie de lei de 
retroação poderia ser tirada: quanto mais precoce for a iniciação, mais 
intenso e duradouro será o imprinting 3 do controle social. A iniciação, 
tipo escola de Jules Ferry, tipo serviço militar, não operava ainda senão 
com um imprinting muito fraco. Se a impregnação aos modelos imagi- 
nários, perceptivos, sociais, culturais, etc... não é bem sucedida em 
fases precoces, ter-se-á enorme dificuldade para modelar os indivíduos 
às tarefas que lhes serão confiadas nos sistemas altamente diferen- 
ciados da produção. Não se enviam as crianças, pelo menos na França, 
para as manufaturas, na idade de 6 ou 8 anos, além do que se tem a 
impressão de ter humanizado a escola e as relações familiares. Mas 
simplesmente trocou-se a roupa da velha crueldade da iniciação que 
consiste em extirpar da criança, o mais cedo possível, sua capacidade 
específica de expressão e em adaptá-la, o mais cedo possível, aos 
valores, significações e comportamentos dominantes. O essencial, hoje, 
já não é a aprendizagem humana de uma língua materna. A fala é 
inteiramente programada pela linguagem, especialmente a audio- 
visual. A linguagem que é falada na televisão e nos filmes é apenas uma 
certa transcrição da fala. A televisão tomou a si uma série de tarefas 
que cabiam aos professores, às mães de família. É ela a babá, que 
tomou o lugar de um certo tipo de relações que se estabeleciam anti- 
gamente no quadro das semíologias da fala. Toda a linguagem que nela 
é produzida está a serviço de um certo tipo de formação, de iniciação às 
diferentes engrenagens da produção e do campo social. O imaginário 
da criança atualmente escapa, por exemplo, ao sistema dos contos de 
fadas, e mesmo a um certo tipo de devaneio. A educação televisual 
modela o imaginário, injeta personagens, cenários, fantasmas, atitu- 
des, ideais; ela impõe toda uma micropolítica das relações entre os 
homens e as mulheres, os adultos e as crianças, as raças, etc... Ela 
ocupa o lugar de um certo tipo de conversa, de leitura, etc. 

Um trabalho de creche, que quisesse engajar-se numa outra eco- 
nomia desejante, não conseguiria, pois, situar-se senão em contra- 
corrente a este modo de formação. O que conta na creche, insistimos 
nisso, não é a técnica, é o efeito da política semiótica dos adultos sobre 
as crianças. Em que a atitude dos adultos que trabalham na creche 
favorece a iniciação das crianças nos valores do sistema? Aí é que está 
toda a questão! Um trabalho analítico numa creche não poderia ser 
fundamentalmente senão um trabalho micropolítico; e implicaria de 
imediato um trabalho dos adultos sobre si mesmos, entre si mesmos, 



54 



FÉLIX GUATTARI 



um trabalho de análise do coletivo das atendentes, dos psicólogos, um 
trabalho incidindo igualmente sobre as famílias, sobre o meio, etc... O 
inconsciente da criança é inseparável do dos adultos; ele está inteira- 
mente contaminado pelos conflitos que existem no nível, por exemplo, 
do trabalho dos pais, da competição e das lutas sexuais no seio do casal 
parental, dos modelos de integração que são veiculados pelas crianças 
mais velhas, etc... Os sistemas capitalistas e socialistas burocráticos 
haviam confiado ao pessoal das escolas uma tarefa capital: a de adap- 
tar a criança ao saber e aos valores da sociedade dominante. As má- 
quinas audiovisuais fazem hoje esse trabalho certamente melhor que 
qualquer atendente ou educador. Hoje, no seio das creches e das esco- 
las, alguns trabalhadores estão em posição de lutar contra estes sis- 
temas de integração e de alienação. É nesse sentido que se deveria 
considerar uma luta micropolítica fundamental. É nesse nível que uma 
série de operações de base é posta em jogo. Ainda uma vez, não se trata 
somente de operações concretas de aprendizagem, mas também da 
aquisição de esquemas abstratos, de esquemas relacionais, de toda 
uma iniciação à axiomática do capital. 

Como conduzir uma tal luta micropolítica? O simples fato de não 
sujeitar os diferentes modos de expressão semiótica da infância à 
semiologia da linguagem escrita não representa uma ruptura impor- 
tante com o sistema dominante. O fato de que as crianças possam 
exprimir-se pela pintura, dança, canto, organização de projetos co- 
muns, etc..., sem que o conjunto destas atividades seja sistematica- 
mente recentrado sobre as finalidades educativas clássicas (integração 
à sociedade e respeito aos pólos personológicos e familiares), permite ao 
desejo delas escapar, numa certa medida, da modelagem da libido que 
tende a se sujeitar à política capitalista da descodificação generalizada 
dos fluxos. Não se trata de proteger artificialmente a criança do mundo 
exterior, de criar para ela um universo artificial, ao abrigo da realidade 
social. Ao contrário, deve-se ajudá-la a fazer frente a ela; a criança 
deve aprender o que é a sociedade, o que são seus instrumentos. Mas 
isso não deveria efetuar-se em detrimento de suas próprias capacidades 
de expressão. O ideal seria que sua economia de desejo conseguisse 
escapar ao máximo à política de sobrecodificação do capitalismo, ao 
mesmo tempo suportando, sem traumatismo maior, seu modo de fun- 
cionamento. Não se trata, pois, de contornar os fluxos descodificados 
do capitalismo, mas de dar-lhes o devido lugar, de localizá-los, e, de 
um certo modo, de governá-los. A luta pela polivocidade da expressão 
semiótica da criança nos parece então ser um objetivo essencial dessa 
micropolítica ao nível da creche. Recusar fazer "cristalizar" a criança 
muito cedo em indivíduo tipificado, em modelo personológico estereo- 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



55 



tipado. Isso não significa que se buscará sistematicamente fabricar 
marginais, delinquentes, revoltados ou revolucionários! Não se trata 
aqui de opor uma formação a outra, uma codificação a outra, mas de 
criar condições que permitam aos indivíduos adquirir meios de expres- 
são relativamente autónomos e portanto relativamente não recuperá- 
veis pelas tecnologias das diversas formações de poder (estatais, buro- 
cráticas, culturais, sindicais, da comunicação de massa, etc...). 

Se, ao atingir a idade adulta, num momento ou noutro ele decide 
assumir as roupas e papéis que o sistema lhe apresenta, convém que ele 
possa fazê-!o sem que eles lhe colem à pele a ponto de não mais poder 
desfazer-se deles e então passar a investir nos próprios valores repres- 
sivos de que estas roupas e papéis são portadores. 



NOTAS 



(1) N. doTrad.: Jules Ferry, deputado de Vosges, é o autor do projeto, aprovado 
na Câmara por volta de 1880, que instituiu, na França, a escola primária leiga, gratuita e 
obrigatória (cf. nota 9 de "Antipsiquiatria e Antipsicanálise"). 

(2) N. doTrad.: No original, travailler, cuja utilização neste contexto é acrescida 
do sentido de "execução de tarefas escolares". 

(3) N. doTrad.: No original, empreinte, entendida no sentido que lhe dá a eto- 
logia. 



Milhões e milhões de Alices no ar* 



Perigo iminente. Atenção, a menor linha de fuga pode fazer 
explodir tudo. Vigilância especial aos pequenos grupos perversos pro- 
pulsando palavras, inventando frases, atitudes suscetiveis de contami- 
nar populações inteiras. Neutralizar, prioritariamente, todos aqueles 
que poderiam ter acesso a uma antena. Guetos por toda parte — auto- 
geridos, se possível — microgulags por toda parte, até mesmo na 
família, no casal e inclusive na cabeça, de modo a segurar cada 
indivíduo, dia e noite. 

"Eles falam, eles falam, tudo bem, eles falam o tempo todo. Eles 
lançam sinais, palavras, pedaços de sinais, pedaços de palavras 
para nos obrigar a aceitar nosso papel de filho, de mulher, de pai, 
de operário, de estudante, para nos ensinar a fazer bonito, a ser 
disciplinado, a obedecer, a trabalhar. .." 

"O terror se enraíza no cotidiano, terror da prisão e do asilo, 
da caserna e do desemprego, da família e do sexismo. Terror 
contra os desejos para reduzir o cotidiano à forma miserável na 
qual a Igreja, a família e o Estado o enclausuraram desde 
sempre. Mas a luta de classes rompe com a dominação na fá- 
brica, o compartilhar rompe com a dominação pelo isolamento, 
o desejo transforma o cotidiano. E a Escrita percorre transver- 
salmente as ordens recompondo-as de maneira criativa. " 



Desejo de potência do discurso É preciso partir historicamente 
da ordem ou potência do desejo da crise da extrema-esquerda ita- 
contra a ordem do discurso... liana após 72, particularmente de 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



57 



O ponto de vista da autonomia 
sobre esta questão dos meios de 
comunicação de massa é que cem 
flores desabrochem, que cem rá- 
dios transmitam... 

A guerrilha da informação, a 
subversão organizada da circula- 
ção das informações, a ruptura da 
relação entre emissão e circulação 
de dados... situa-se no interior da 
luta geral contra a organização e a 
dominação do trabalho. . . 

A interrupção e a subversão dos 
fluxos de produção e da circulação 
de signos emitidos pelo poder são 
um campo sobre o qual podemos 
agir diretamente. . . 



um dos grupos mais vivos tanto no 
plano teórico quanto no prático: 
Potere Operaio. 

Toda uma esfera de influência 
da extrema-esquerda se dispersou 
por ocasião desta crise, mas para 
animar movimentos de revolta em 
diferentes autonomias (nome que 
o vocabulário italiano dá aos seto- 
res particulares: mulheres, jovens, 
homossexuais, etc). Criaram-se 
então círculos político-culturais 
como, em Bolonha, o Gatto Sel- 
vaggio (gato selvagem), do qual 
partiu, em 1974, a iniciativa de 
Rádio Alice. 

Após a fase de dispersão esbo- 
çou-se um processo de recompo- 
sição do movimento (palavra tam- 
bém muito importante no novo vo- 
cabulário italiano: Rádio Alice é 
uma rádio no movimento). 

Após a supressão do Monopólio 
de Estado, mil rádios independen- 
tes se desenvolveram da extrema- 
esquerda à extrema-direita ou fa- 
zendo-se porta-vozes desse ou da- 
quele setor particular. 

A originalidade de Alice era a 
de ultrapassar o caráter puramen- 
te "sociológico", digamos assim, 
das rádios independentes, e de se 
assumir como projeto. 

Rádio Alice entrou no olho do 
furacão cultural — subversão da 
linguagem, surgimento de um jor- 
nal A/traverso. Mas ela também 
estava diretamente mergulhada 
na ação política que quis "trans- 
versalizar". 



58 



FÉLIX GUATTARI 



Alice, A/traverso, Rivista per 1'Autonomia, Potere Operaio, 
Rosso. Giornale nel Movimento — agenciamento coletivo de enun- 
ciação. Teoria — técnica, poesia — devaneio — palavra de ordem — 
grupos — sexo — solidão — alegria — desespero — história — sentido 
— sem sentido. 

"A verdadeira obra de arte é o. corpo infinito do homem que 
se move através das incríveis mutações da existência particular." 

Acabar com a chantagem da miséria. Valor de desejo — valor de 
uso — valor trabalho. A aristocracia operária, o lúmpen... Que misé- 
ria? Que trabalho? Reapropriação do tempo. O direito de esquecer 
da hora. 

— Eu estava deitado na minha cama. 

— Tudo bem, camarada, você estava cansado e tem o direito de 
descansar... 

— Nada disso, eu estava lendo! 

— Você tem razão, camarada, você estava lendo para elevar seu 
nível teórico e para se preparar para novos combates. . . 

— Não sei. Talvez! Eu estava lendo Diabolik. . . 2 

Acabar com a chantagem da miséria, a disciplina do trabalho, 
a ordem hierárquica, o sacrifício, a pátria, os interesses gerais. 
Tudo isto calou a voz do corpo. Todo o nosso tempo sempre foi 
consagrado ao trabalho, 8 horas por dia, duas horas de trans- 
porte, e depois descanso, televisão, refeição em família. Tudo 
que não se encaixa no interior desta ordem é obsceno para a 
polícia e os magistrados. 

Alice. Rádio linha de fuga. Agenciamento teoria — vida — prá- 
tica — grupo — sexo — solidão — máquina — ternura — carinho. 
Acabar com a chantagem da cientificidade dos conceitos. Os "inte- 
lectuais orgânicos" são os burocratas da teoria. Você entende, cara, 
tudo bem com a batalha semiológica, mas esse troço é um pouco como 
em Nanterre, com a sociologia em 68, ou em Ulm, com a epistemo- 
logia, ou em Sainte-Anne com a psicanálise... 3 Reler Marx, Freud, 
Lênin, Gramsci... Talvez... mas tem também os enunciados, os gestos, 
o esboço de um mundo que nós mesmos agenciamos, os desvios maio- 
res que operamos a partir de nossas línguas menores. 

A prática da felicidade torna-se subversiva quando ela é cole- 
tiva. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



59 



Em Bolonha, no começo, não éramos mais do que uma centena, 
estávamos um pouco num círculo vicioso e a Rádio Alice veio catalisar 
um processo, alguma coisa — que não é um traço comum, mas como 
dizê-lo de outra forma, sim, um processo atravessou as diversas auto- 
nomias — secundaristas, feministas, homossexuais, trabalhadores 
emigrantes do sul... Então começaram a se ampliar bastante os movi- 
mentos de auto-redução 4 e de apropriação, a recusa ao trabalho, o 
absenteísmo, etc. Em 1976, Bifo, um dos principais animadores da 
Rádio Alice, foi detido por "incitação à revolta". 

Tudo isto desembocou nos motins de março de 1977. Aí se deu o 
racha: toda a vitrine do comunismo new look em pedaços! Trinta anos 
de boa conduta e de leais serviços, perdidos, desconsiderados aos olhos 
da burguesia. 

Acreditava-se até então que o PCI e os sindicatos saberiam 
controlar o povo melhor do que ninguém! Dizia-se por exemplo: "in 
Cile i carri armati, in Itália i sindicati". 5 Mas Zangheri. o prefeito 
comunista de Bolonha, apelou para as forças repressivas em suas 
formas mais violentas. Invadir a cidade com carros blindados. Exortou 
pessoalmente a polícia ao combate, com o lema: "Avante, é a guerra, 
essas pessoas têm de ser eliminadas, elas mesmas se excluíram da 
comunidade..." Éramos 15 mil na rua. Nunca se tinha visto isto em Bo- 
lonha! Alice nos informava a cada instante sobre tudo que estava 
acontecendo, por intermédio dos companheiros que telefonavam e que 
iam diretamente ao ar. Todos os processos e as prisões que se seguiram 
foram "justificadas" por este "papel" militar de Alice. 

Conspirar quer dizer respirar junto, e é disso que somos acusa- 
dos; eles querem nos impedir de respirar porque nós nos recu- 
samos violentamente a respirar em seus locais de trabalho asfi- 
xiantes, em suas relações individuais, familiares, em suas casas 
atomizantes. Há um atentado que confesso ter cometido, é o 
atentado contra a separação da vida e do desejo, contra o se- 
xismo nas relações interindivi duais, contra a redução da vida a 
uma prestação de salário. 

Alice, figli di puttana. Todos estes pequeno-burgueses safados, 
nojentos, todos esses drogados, essas bichas, esses depravados, esses 
vagabundos, pirados, que querem sujar o coração de nossa bela Emí- 
lia. Mas eles não conseguirão, porque, aqui, há trinta anos que todo 
mundo adquiriu altas consciências de ciasse. Até os pequenos patrões 
têm sua carteirinha do partido... E nossa juventude trabalhadora não 
se deixa levar por essas maquinações diabólicas. É o próprio povo que 



60 



FÉLIX GUATTARI 



recusará esta aventura. E que não me venham acusar o PCI de práticas 
antidemocráticas! Por toda parte nas fábricas, nos bairros, nas escolas, 
nós favorecemos a implantação de comissões populares, de conselhos 
de delegados. E são eles, hoje em dia, que tendem a tornar-se os me- 
lhores guardiões da ordem. 

Por toda parte nossas necessidades devem ser representadas pelos 
"porta-vozes " delegados em troca de promessa de falar amanhã. 
Miniparlamentos e conselhos de colégio, conselhos de bairro, 
descentralização cultural,. mil lugares delegados, nos quais as re- 
lações reais não mudam, que não nos dão poder algum; os pa- 
trões enviam para ai um sociólogo, um psicólogo, um antropó- 
logo, um reformador, no final das contas um policial com seu 
cassetete. 

O erro histórico. Fomos a eles com a mão estendida, queríamos 
explicar-Ihes a linha justa de nosso partido. Na Universidade de Roma, 
Lama veio dar-lhes o ponto de vista dos trabalhadores. Expulsaram-no 
a pedradas. Eles não respeitam nada. "I Lama stanno nel Tibet". 6 
Imaginem se o Partido Comunista Italiano, o partido dos trabalha- 
dores e de todo o povo, se deixará intimidar muito tempo por um 
punhado de excitados, de agitadores irresponsáveis que se intitulam, a 
si próprios, os "índios metropolitanos"?! Nossa única fraqueza terá sido 
nossa paciência demasiado longa. A legitimidade do poder de Estado 
hoje em dia repousa sobre nós. E, em última instância, cabe a nosso 
partido apreciar aquilo que é bom para as massas, aquilo que não é. 

* * * 

Amamos vocês. Estamos com vocês do fundo do coração e isto 
nos dá o direito de ficar de olho em vocês. Vocês têm do melhor e 
do pior, e vocês devem fazer a triagem. É certo que não poderíamos 
deixar de perdoá-los pela desorganização atual, e é preciso reconhecer 
que muitos de vocês foram levados à exasperação! Mas nosso dever é 
dizer: mantenham seu sangue-frio, não ultrapassem um certo limite. 
Pensem que estamos em crise, pensem nas ameaças fascistas. Em 
suma, pensem como nós pensamos! Vocês dizem às vezes coisas mara- 
vilhosas, mas frequentemente vocês caem na confusão, na banalidade, 
na obscenidade gratuita, não estética. Recomponham-se, sejam aquilo 
que, no fundo, vocês nunca deixaram de ser: crianças levadas! 



* * * 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



61 



A gente não cai mais nesse golpe da crise e do fascismo. A crise, 
nós a reivindicamos e não fazemos nada para ajeitar as coisas. Espe- 
ramos, ao contrário, generalizá-la e até exportá-la. Hoje em dia — e 
ainda bem! — a Itália vive, em grande parte, pendurada nas grandes 
potências capitalistas, de tão apavoradas que elas estão com a idéia de 
seu desabamento total. Chegamos a uma espécie de auto-redução em 
escala internacional. Outras camadas da população, outros países nos 
revezarão. Ê todo um mundo que está desabando. Não nos conten- 
tamos em questionar a forma das relações entre exploradores e explo- 
rados, nós atacamos a raiz, a matéria da exploração capitalista-buro- 
crática, isto é, o trabalho assalariado, a aceitação passiva de um corte 
entre o trabalho e o desejo, o investimento do trabalho como droga de 
abolição de todos os desejos abertos ao mundo. Quanto aos fascistas, 
hoje em dia na Itália eles não passam de um punhado de palhaços. 
Têm cada vez menos influência. E, para nós, o perigo não vem essen- 
cialmente daí, mas do lado da conjunção entre o aparelho de Estado 
capitalista e os aparelhos burocráticos do PCI e dos sindicatos. 

Esta nova aliança repressiva, com ramificações tentaculares, se 
esforça por todos os meios em separar as lutas económicas e políticas 
dos trabalhadores dos mil rostos da autonomia. Seu objetivo é conse- 
guir que as próprias massas façam seu esquadrinhamento e sua nor- 
malização e que um consenso majoritário conservador se estabeleça no 
seio do povo contra as minorias de toda espécie — apesar de que elas 
todas juntas fazem muito mais do que as maiorias! É por aí que, a 
nosso ver, ainda pode brotar a ameaça de um movimento reacionário 
de massa. Desde já, que não nos peçam, em nome de uma cruzada 
antifascista imaginária, que nos aliemos àqueles que são hoje os agen- 
tes da forma embrionária de um novo tipo de fascismo. 

* * * 

Em Bolonha e em Roma acenderam-se focos de uma revolução 
sem relação alguma com aquelas que haviam sacudido a história até 
hoje. Focos de uma revolução que varrerá não somente os regimes 
capitalistas, mas também os baluartes do socialismo burocrático — 
quer eles se digam do eurocomunismo, de Moscou ou de Pequim. Seus 
fronts imprevisíveis incendiarão talvez os continentes, mas algumas 
vezes se concentrarão também num bairro, numa rua, numa fábrica, 
numa escola... Suas implicações terão a ver tanto com as grandes 
opções económicas, ou tecnológicas, quanto com atitudes, relações 
com mundo, singularidades de desejo. Por mais que os patrões, os 
policiais, os políticos, os burocratas, os professores, os psicanalistas 



62 



FÉLIX GUATTARI 



conjuguem seus esforços para paralisar, canalizar, recuperar isso. Por 
mais que eles sofistiquem, diversifiquem, miniaturizem suas armas ao 
infinito, eles não conseguirão mais recuperar a tremenda virada, o imen- 
so movimento de fuga, a pluralidade de mutações moleculares de 
desejo que já se desencadeou. A ordem económica, política e moral do 
séc. XX está com rachaduras por todos os lados. E hoje os homens do 
poder não sabem mais o que fazer primeiro. O inimigo se faz. às vezes 
imperceptível, alguma coisa arrebenta bem do seu lado, é seu filho, sua 
mulher, é seu próprio desejo que trai sua missão de guardião da ordem 
estabelecida! A polícia liquidou Alice — seus animadores têm sido per- 
seguidos, aprisionados, condenados, suas sedes foram saqueadas — , 
mas seu trabalho de desterritorialização revolucionária continua incan- 
savelmente até mesmo nas fibras nervosas de seus perseguidores. Nada 
de construtivo em tudo isto! Talvez nem seja esse o problema! O ponto 
de vista dos alicianos sobre a questão é o seguinte: o movimento que 
conseguir destruir a gigantesca máquina capitalista-burocrática será a 
fortiori capaz de construir um outro mundo — a competência coletiva 
no assunto vai sendo adquirida no caminho, sem que seja necessário, 
na etapa atual, arquitetar "prqjetos de sociedade" sobressalentes. 



NOTAS 

(1) N. do Trad.: Na década de 70, as ondas oficiais das rádios européias foram 
atravessadas pela interferência de uma multiplicidade de rádios-livres — de fácil cons- 
trução artesanal — através das quais grupos de diferente natureza podiam-se fazer ouvir. 
Alice, uma das mais importantes rádios-livres, surgiu em Bolonha, do encontro entre os 
emarginati (estudantes/lúmpen), os trabalhadores do Norte industrial, imigrados do Sul, 
a classe operária tradicional estabilizada {os garantis) e diferentes correntes políticas e 
intelectuais. "Agenciamento coietivo de enunciação", de cuja voz as rádios oficiais não 
costumam ser portadoras, produzindo uma transformação na relação com a palavra 
pública, um questionamento da manipulação do imaginário a serviço de uma ordem 
social opressora que fabrica um consenso majoritário. 

(2) N. do Trad. : Diabolik é uma estôria em quadrinhos italiana, cuja personagem 
principal, sempre vestida de collant preto, vive aventuras erótico-policiais. Diabolik já 
inspirou vários filmes. 

(3) N. do Trad.: O autor se refere ao fato de que a sociologia, de Touraine, 
Baudrillard, etc, em Nanterrt, a epistemologia althusseriana na Êcole Normal Supé- 
rieure (rue d'Ulm), e a psicanálise lacaniana, nos seminários do Hospital Sainte-Anne, 
referências obrigatórias dos intelectuais franceses entre 65 e 68, foram alvo de duras 
críticas, em Maio de 68, denunciando seu elitismo e seu estatuto de saber a serviço do 
poder. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



63 



Cabe recordar que o movimento 22 de Março se constituía basicamente de alunos 
do departamento de Sociologia de Nanterre. A resistência à Reforma Fouchet, que 
pretendia fazer da Universidade uma provedora de quadros técnicos integrados ao 
sistema, desencadeada naquele departamento em novembro de 67, levou a um movi- 
mento de crítica ao conteúdo e à forma de ensino que veio a ser o ponto de partida dos 
acontecimentos de Maio de 68 (cf . nota 1 de "Somos Todos Grupelhos", nota 10 de "O Fim 
dos Fetichismos"; notas 2, 3 e4 de "Antipsiquiatriae Antipsicanálise"). 

(4) N. do Trad.: "Auto-redução" é o nome lançado na Itália pelo Movimento dos 
Aut&nomos, e adotado em outros países da Europa, para designar o roubo e a troca de 
etiquetas de preços de produtos no comércio. Ação considerada política por se tratar de 
auto-redução do abuso da exploração capitalista de que se é objeto. 

(5) N. do Trad.: "No Chile, os carros armados, na Itália, os sindicatos." 

(6) N. do Trad.: Literalmente, "os Lama estão no Tibete", que poderíamos 
traduzir por "lugar de Lama é no Tibete!". Trocadilho com o duplo sentido da palavra 
Lama: monges budistas tibetanos e Luciano Lama, então secretário geral da CGIL, 
principal central sindical italiana. 



Devir criança, malandro, bicha* 



Permanece na ordem do dia tanto do capitalismo quanto do 
socialismo burocrático a busca, a experimentação de um sistema auto- 
ritário fascista. Muitas forças tendem hoje à liberação das energias 
populares e do desejo próprio de toda espécie de minorias oprimidas, e 
para enfrentar essa situação os poderes vigentes não param de reforçar 
as estruturas repressivas. Mas não necessariamente de maneira mas- 
siva. A repressão é adaptada de modo que possa ser interiorizada mais 
facilmente. O que não significa que ela tenha sido suavizada. Suas 
formas muito óbvias são hoje mal toleradas e por isso o que se busca é 
uma espécie de miniaturização do fascismo. Não se usam mais, neces- 
sariamente, cassetetes ou campos de extermínio: procura-se de prefe- 
rência controlar as pessoas com laços quase invisíveis que as prendem 
mais eficientemente ao modo de produção capitalista (ou socialista- 
burocrática) na medida em que elas o investem de modo incons- 
ciente. 

Toda uma série de dispositivos sociais trabalham na produção 
destes laços que constituem, por assim dizer, a textura das relações de 
produção. Louis Althusser os definiu como Aparelhos Ideológicos de 
Estado. Mas creio que ele se engana quando os define como sendo da 
ordem das superestruturas. A meu ver deveríamos acabar o mais 
rápido possível com este maniqueísmo de superestruturas ideológicas e 
infra-estruturas económicas, que introduz causalidades em sentido 
único e cujas simplificações só servem para confundir as coisas. Mas 
não deixa de ser interessante agrupar, como o fez Louis Althusser, 
equipamentos como a escola, a prisão, a justiça, e instituições como a 
família, os sindicatos, etc. No continuum constituído por estes equipa- 
mentos e instituições é que se opera a formação coletiva da força de 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



65 



trabalho, ela própria inseparável das "infra-estruturas" económicas. 
Com efeito o que é trabalhado pelas forças produtivas não são apenas 
fluxos de matéria-prima, fluxos de eletricidade, fluxos de trabalho hu- 
mano, mas também fluxos de saber, fluxos semióticos reproduzindo 
atitudes coletivas, comportamentos de submissão às hierarquias, étc. 
Por exemplo, o trabalho de semiotização que é feito com a formação 
profissional não pode ser dissociado do trabalho de modelagem e de 
adaptação dos trabalhadores às relações existentes na oficina e na fá- 
brica. Neste sentido, é precisamente a própria condição da reprodução 
das forças produtivas que se passa nos ditos Aparelhos Ideológicos de 
Estado, que poderiam ser chamados, mais simplesmente, de equipa- 
mentos coletivos, entendidos em sentido lato. Não se trata aqui de 
reproduzir uma ideologia, mas de reproduzir meios de produção e re- 
lações de produção. 

Deste ponto de vista, o que se passa na escola e na família pode 
ser relacionado. Com efeito, ambas contribuem para esta mesma "fun- 
ção de equipamento coletivo" da força de trabalho, modelando e adap- 
tando crianças às relações de poder dominante. Os papéis dos prota- 
gonistas tornam-se às vezes até mesmo intercambiáveis. Espera-se do 
professor primário que ele desempenhe uma função parental, enquanto 
que os pais são convidados a serem bons "pais de alunos" ou profes- 
sores em casa. As pessoas, de fato, só servem aqui para enquadrar, 
"canalizar" — no sentido da teoria da informação — um trabalho de 
semiotização que passa cada vez mais pela televisão, pelo cinema, pelos 
discos, pelas histórias em quadrinhos, etc. Por não agenciar tais pro- 
cessos maquínicos segundo finalidades assumidas coletivamente, che- 
gamos a uma espécie de intoxicação semiótica generalizada. Quando 
todas as antigas territorialidades — o corpo, a família, o espaço domés- 
tico, as relações de vizinhança, de faixa etária, etc. — são ameaçadas 
por um movimento geral dedesterritorialização, procedemos à recria- 
ção artificial destas mesmas territorialidades, e nos enroscamos nelas, 
ainda por cima quando sabemos que não as encontraremos mais ení 
sua forma "original". Daí as modas nostálgicas, que parecem depen- 
der menos de um fenómeno de moda do que de uma inquietação geral 
diante da aceleração da história. 



Liberar uma energia de desejo. . . 



Não apenas somos equipados semioticamente para ir à fábrica ou 
ao escritório, como somos injetados, além disso, de uma série de repre- 



66 



FÉLIX GUATTARI 



«ntacões inconscientes, tendendo a moldar nosso ego. Nosso incom- 
sentaç^s nconscxc * cumplicidade com as formações 

SSSSTSfflSS^ÃS função generalizada de equipamentos 
P ^SSSS oaoéfc hierarquiza a sociedade, codifica os destinos, 

,„ mais f^r com que as pessoas entrem nos quadros preesxa 
S rSimSSSoí a finalidades universais e eternas, mas sim 
SSSS o^SS finito e delimitado historicamente dos empreen- 
dm^ento haLnos. É sob esta condição que as singu 
hITpío noderão ser respeitadas. Tomemos o exemplo de Fernand De 
£5° £c££» He não criou ali uma ^f*?? SaTas 
autistas Ele tornou possível que um grupo de adultos e de crianças 
íutíftfs" D udessem viver juntos segundo seus próprios desejos. Ele 

Imaginemos que "P"*»"™ ÍLSStaà meando seus ges- 
AMIPI, 2 se proponham a fazer como vem _^ 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



67 



dos analisadores a última palavra em técnicas psicossociológicas, e 
conseguiram colocá-los a serviço de uma melhoria geral das relações 
humanas, isto é, em última instância, de uma adaptação às diversas 
situações de alienação. 

Mas, hoje, as estratificações mentais e profissionais, neste domí- 
nio das "coisas sociais", tendem talvez a tornar-se menos óbvias. Co- 
meça-se a pressentir vias de passagem — uma "transversalidade" — 
entre problema de urbanismo, de burocratização, de neurose, de mi- 
cropolítica no seio da família com as crianças, no seio do casal com o 
falocratisrno, de vida coletiva, de ecologia, etc. Estamos na presença, a 
meu ver, de uma espécie de processo de pesquisa de massa. Não são 
mais os especialistas do pensamento ou do militantismo que propõem 
novos modelos, mas pessoas diretamente interessadas que experimen- 
tam novas maneiras de viver. O que, a meu ver, estará cada vez mais 
em causa, por exemplo, no domínio da educação, não será a aplicação 
de métodos pedagógicos no sentido em que se fala dos "métodos Frei- 
net",'' mas de microagenciamentos analítico-militantes suscetíveis de 
se cristalizar em torno de uma classe, de uma escola, de um grupo de 
crianças, etc. Em que direção se procura um desejo coletivo? Quais 
intervenções poderiam ajudá-lo a sair das territorialidades que o cer- 
cam? O que é poderia fazer, não enquanto professor, mas enquanto 
sinto que aquilo que acontece na classe me diz respeito? £ exatamente 
o contrário das perspectivas do psicologismo, e do "psicanalismo". 5 
Não se trata mais de restringir o inconsciente, de reduzi-lo a complexos 
universais, a transferências personalizadas, de deitá-lo sobre divãs 
especializados, de submetê-lo ao pretenso saber do analista... mas de 
abri-lo de tudo quanto é jeito para novas vias — por vezes linhas de 
fuga minúsculas, e outras vezes possibilidades de trabalhar em escala 
maior, pela transformação da sociedade. 

Construir sua própria vida, construir algo de vivo, não somente 
com os próximos, com as crianças — seja numa escola ou não — com 
amigos, com militantes, mas também consigo mesmo, para modificar, 
por exemplo, sua própria relação com o corpo, com a percepção das 
coisas: isso não seria, como diriam alguns, desviar-se das causas revo- 
lucionárias mais fundamentais e mais urgentes? Toda questão está em 
saber de que revolução se trata! Trata-se, sim ou não, de acabar com 
todas as relações de alienação — não somente as que pesam sobre os 
trabalhadores, mas também as que pesam sobre as mulheres, as crian- 
ças, as minorias sexuais, etc, as que pesam sobre sensibilidades atí- 
picas, as que pesam sobre o amor aos sons, às cores, às idéias... Uma 
revolução, em qualquer domínio que seja, passa por uma libertação 
prévia de uma energia de desejo. E, manifestamente, só uma reação em 



58 



FÉLIX GUATTARI 



cadeia, atravessando as estratificações existentes, poderá catalisar um 
processo irreversível de questionamento das formações de poder as 
quais está acorrentada a sociedade atual. 



NOTAS 

(1) N do Trad ■ Deligny é o criador de uma comunidade agrária, na região de 
Cevennes, para crianças autistas, distante dos estabelecimentos especializados ou das 
experiências da antipsiquiatria. Viver com crianças autistas sem, por isso, tratá-las ou 
transformar-se em especialista. Os membros da comunidade não são necessariamente 
psicólogos, médicos ou enfermeiros. O próprio Deligny é professor primário. Esta expe- 
riência está documentada na revista Recherckes, n? 18, Cahiers de 1 immuMe, 1 e 2, 
abril de 1975, CERFI, e num filme de longa-metragem intitulado Cegamin Ia. 

(2) Association d Aidê Matemelk et InteUectuette pour leu Personnes Inadaptées 
(Associação de Ajuda Materna e Intelectual para Pessoas Desadaptadas). Ver a este 
propósito a nota de Charles Brisset, na revista Autrement, n? 4, p. 180. 

(3) N do Trad : O termo "Análise Institucional" foi criado por Guattari, para 
nomear uma tendência na açao teórica e prática que se tornou movimento na década ide 
60 na França. Numa sociedade modernizada e bem sucedida do ponto de vista técnico e 
económico e muito defasada nas formas de sociabilidade e nas estruturas psicossociais, 
um intenso movimento de abalos microssociais percorria todo o seu corpo. Questio- 
nava-» todas as formas de existência, inclusive a do pesquisador. Fazia-se necessária a 
construção de uma ponte conceituai entre os universos heterogéneos das ciências hu- 
manas para captar o movimento de produção da realidade e despistar falsos problemas. 
Neste contexto fundou-se o FGERI, em 1966, agrupando psiquiatras ; ruídos jto movi- 
mento de psicoterapia institucional (d. nota 1 de "A Transversalidade > e profissionais 
de movimentos semelhantes em outras áreas - professores, arquitetos, urbanistas, 
militantes do movimento estudantil, psicanalistas, sociólogos, antropólogos, psicossocio- 
logos etc. -, tendo participado destas discussões, entre outros, Dolto, Mannoni, Lacan, 
Laing Cooper e vários lideres políticos. O grupo viveu um acirrado processo de reflexão 
crítica nao só acerca da atividade de cada um como pesquisador, mas de todas as suas 
outras' atividades sociais, inclusive a amorosa. A reflexão sobre seus projetos, seus 
problemas de vida cotidiana e de desejo, tornava-se condição indispensável para captar 
seu objeto de pesquisa. Trabalho analítico do qual cada um tirava proveito não só 
conceituai, mas também pessoal. Vai-se constituindo assim um método de analise insti- 
tucional válido para a pesquisa teórica, nas ciências humanas, para a intervenção psi- 
cossocial e para a experimentação social em geral. Método de análise em situação. Seu 
objeto se define como sendo a problemática social real, isto é, o lugar do sujeito incons- 
ciente do grupo-suporte dos investimentos de desejo de seus membros _ que nao se 
contnde cCas leis objetivas que definem as relações que os indivíduos estabelecem 
entre si e com a instituição. Toda intervenção criadora tem como condição o acesso à 
"transversalidade", lugar do sujeito inconsciente do grupo, lugar do poder real. A 
análise, instaurando o espaço de uma formulação permanente da demanda inconsciente 
e a possibilidade de sua leitura através da interpretação da transversalidade, ena con- 
dições para que o grupo assuma o sentido de sua praxis. Recupera-se a dimensão 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



69 



analítica da instituição e no mesmo gesto recupera-se a dimensão histórica da psicanálise 
— toda análise é institucional. O termo "psicanálise aplicada" deixa de ter sentido. 
Trata-se sempre de uma intervenção micropolítica abrindo a possibilidade de uma 
prática ao mesmo tempo de análise e de mudança. Análise reveladora da singularidade 
do processo de um "agenciamento coletívo de enunciação" — não só composto de indi- 
víduos, mas dependente de um certo funcionamento social, económico, institucional, 
micro e macropolítico — que contribui para a mutação pessoal e social e, portanto, para 
o desbloqueamento das lutas políticas. 

Maio de 68 foi a radicalização e a generalização do movimento que havia gerado 
entre outras linhas a da Análise Institucional. Muitos dos membros do FGERI foram 
ativos no 22 de Março (cf. nota 10 de "O Fim dos Feuchismos") e em outros lugares da 
contestação em 68, nos vários setores da vida social. Revelaram-se os limites e as 
contradições da "grande ilusão" da revolução institucional generalizada, levando a um 
novo deslocamento: a consciência da impossibilidade de conciliação de universos teóricos 
heterogéneos e da necessidade de se construir novos campos teóricos e políticos. 

Neste momento resta-nos da Análise Institucional: seja a sua reificação enquanto 
gadget último tipo, tanto no mercado das técnicas de psicologia social quanto no das 
disciplinas do saber académico, ou seja, sua transformação em fetiche, instrumento de 
resistência à mudança, seja seu desenvolvimento através da reapropriação efetiva destas 
idéias, técnicas e inovações por "agenciamentos coletivos de enunciação" e pelos movi- 
mentos sociais, levando à formulação de novas propostas. Entre estas a intensa produção 
teórica de Guattari e Deleuze na década de 70, da qual o leitor tem nesta coletânea uma 
amostra. 

No Brasil, na década de 70, ocorrem isoladas tentativas de contato com a 
produção do movimento de análise institucional na França, cabendo aqui citar a contri- 
buição de Chaim Katz e Célio Garcia. £, no entanto, na década de 80 que este contato se 
intensifica, observando-se tanto a busca de instrumentos para o pensamento crítico 
quanto a importação da versão reificada ou a reificação da análise na importação. 

Como bibliografia básica sobre o assunto, sugerimos, além da citada na nota 1 de 
"A Transversalidade", as seguintes obras: 

— Lourau, René, Análise Institucional, Vozes, RJ, 1975. 

— Revista de Cultura Vozes — "Análise Institucional — Teoria e Prática", 
n?4, 1973, ano 67. 

(4) N. do Trad.: Freinet, professor primário, cria um método de autogestão em 
pedagogia. O movimento que toma como modelo esse método tem o seu nome. 

(5) N. do Trad.: "Psicanalismo" é um termo criado por Robert Castel e que deu 
título ao seu livro O Psicanalismo, Graal, Rio de Janeiro, 1978. 



Á autonomia possível* 



A saída do círculo vicioso das significações dominantes. A pas- 
sagem ao ato. O tempo do irreversível. A decisão metálica de enfrentar 
a couraça do poder. A superposição do sistema ao clarão das defla- 
grações e a revelação do monstruoso grão de suas carências. O refúgio 
numa sombra espasmódica, a convicção de finalmente ter um pedaço 
de realidade ao alcance da mão, ao alcance do tiro. Sou apenas o 
soldado de uma revolução planetária que delegou seus comandos no 
coração da fortaleza... A convivência imaginária com os mestres do 
género: Guevara, Baader, mas também, tenho que confessar: Carlos, 
super-homem, Curcio, o anatematizador... A escalada da ação e da 
repressão, a captura das vanguardas pela fascinação, intimidação e, 
também, pode-se imaginar as mazelas do dia-a-dia da grana, do pres- 
tígio, do sexo... 

Vocês dizem que na Itália, hoje, a luta armada teria se tornado 
uma forma essencial da "nova espontaneidade" e que seus aspectos de 
exemplaridade e de espetacularidade não seriam mais do que a espuma 
de uma onda sublevando a sociedade toda. Mais um motivo, neste 
caso, para não aceitar seu desvio pelos grupelhos! Vocês dizem que esta 
é sua principal preocupação! Fim dos estados-maiores cagando regras 
em cima das massas, fim dos especialistas da estratégia. Vocês esperam 
dissolver a neurose militar pela transversalidade. Ah, essa é boa, esta é 
a melhor! O braço da revolução vai saltar dá rachadura e vai se poder 
finalmente virar o disco! Como afastar, no entanto, este gostinho de 
uma velha ladainha? Vocês trocaram de coluna vertebral: vocês subs- 
tituíram as velhas classes operárias brancas, bem educadas, bem urba- 
nizadas, vacinadas pelo marxismo-leninismo, por um jovem proleta- 
riado, precário, instável, meio-estudante, meio-marginal! Mas o que é 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



71 



que vocês fazem, no meio disso tudo, dos sofrimentos, dos desejos, dos 
protestos, dos avanços e dos recuos dos outros, de todos os outros: 
das mulheres que recusam sua sujeição, das crianças, dos velhos que 
querem viver de outro jeito, dos "nacionalitários", 1 dos loucos, dos 
poetas, que não se reconhecem mais nessa sociedade? Vocês não me 
parecem estar dispostos a tirar todas as consequências da diversificação 
da subjetividade revolucionária. Vocês só se tocam com a emergência 
de uma nova subjetividade operária e não parecem estar realmente 
preocupados com a convergência das novas formas de luta, no respeito 
de seu ritmo próprio, das sensibilidades específicas que elas manifes- 
tam em outros termos, da heterogeneidade insuperável dos conjuntos 
sociais que se constituem através delas. Por que sempre este ideal de 
uma coluna vertebral, de uma subjetividade englobante? Por que não 
cem, cem mil, cem milhões... Por uma questão de eficácia? Ladainha! 
A saída do gueto, a definição de novos objetivos, a invenção de uma 
cartografia operacional das lutas, a determinação do caráter de vio- 
lência dos enfrentamentos, a natureza das formas de organização 
necessárias pelos novos campos políticos e micropolíticos (seus sistemas 
de expressão, de coordenação, de proliferação, seu grau relativo de 
centralidade, o fato de que elas sejam duradouras ou efémeras, clan- 
destinas ou públicas), todas estas questões passam por uma renovação 
completa na abordagem do problema central, mal chamado e maltra- 
tado há tanto tempo: o da ação das massas. E, pra dizer a verdade, 
tenho a impressão de que não soubemos avaliar essa renovação. 
Acabamos sempre voltando aos três cercos fundamentais: 

— o da repressão social; 

— o da segmentaridade dos grupelhos; 

— o do sobreinvestimento inconsciente do "ideal de grupo", que 
tende a tomar, em situações de clandestinidade, proporções 
gigantescas. 

Não basta constatar que estes três níveis comunicam (através das 
ideologias, dos meios de comunicação de massa, das instituições, das 
organizações, dos equipamentos coletivos, etc). Convém também se 
dar meios para modificar tal estado de coisas criando condições favo- 
ráveis para a manifestação de outras espécies de interação! Um exem- 
plo, entre os mais lamentáveis, os mais desonrosos que marcaram o 
movimento revolucionário ocidental: aquelas fotos terríveis de Hans- 
Martin Schleyer, com seu letreirinho pendurado no pescoço, ou as de 
Aldo Moro, reduzido a um trapo, encostado ao cartaz de propaganda 
das Brigadas Vermelhas. Taí uma coisa que provoca uma compaixão 
irresistível, que desencadeia uma piedade de natureza quase etológica. 
O escândalo do assassinato parece até que se apaga diante desta ima- 



72 



FÉLIX GUATTARI 



gem. O que é a morte ao lado de tamanha insanidade? Que espécie de 
trambicagem de grupelho fez com que os camaradas caíssem num 
microfascismo desses? Basta responder que é preferível mudar de alvo, 
visar somente os objetivos correspondentes ao desejo das massas, por 
exemplo, computadores a serviço do controle social... 

Mas como garantir que, com o jogo da escalada repressiva, não 
se acabará reproduzindo, apesar de tudo, o mesmo tipo de teatrinho de 
fantoches clandestino imediatamente recuperado pelos meios de comu- 
nicação de massa num supershow mundial? A experiência já provou 
que neste campo não bastam as boas intenções. Existe, pra valer, um 
risco objetivo de que, da conjunção entre o aparelho repressivo e a 
lógica dos grupelhos, renasçam inelutavelmente formas monstruosas de 
desejo de tirania e de desejo de sujeição. Quero que me entendam bem, 
não estou dizendo que estas "sobem" lá dos fundos do inconsciente 
onde elas teriam ficado enterradas, recalcadas... Não, simplesmente 
certos empreendimentos revolucionários, fracos em seus projetos, 
raquíticos em suas idéias e seus desejos, fechando-se em si mes- 
mos, re-montam, recompõem os mesmos velhos modelos reacionários 
de máquinas de guerra, as mesmas velhas máquinas de tortura moral e 
física que atravancam todos os recantos da história. 

"Das duas uma: ou a autonomia que está por vir, "a autonomia 
possível", dará os meios para superar os efeitos catastróficos que re- 
sultam destas espécies de conjunção, ou: 

— na falta de alternativas dignas de crédito (inclusive a um nível . 
inconsciente), as "massas" continuarão a ser "massas", e a 
pastar no reformismo majoritário; 

— os insultos dos grupos clandestinos, longe de contribuir para 
fazer situações metastáveis penderem num sentido revolucio- 
nário, farão o jogo de fabulosas campanhas de intoxicação 
imaginária e de extensão contínua do controle social e da re- 
pressão; 

— os movimentos "nacionalitários" de luta armada na Europa 
continuarão a ficar isolados, correndo o risco de se afundar 
no particularismo, e num enraizar-se místico (não confundir 
aqui o particularismo que isola com a singularidade de um 
desejo coletivo que permite múltiplas aberturas); 

— o capitalismo mundial disporá de apoios suplementares para 
seus empreendimentos de disciplinarização e de integração 
da força coletiva de trabalho e acabará marcando pontos 
decisivos na promoção de um novo tipo de ordem social e de 
ordem do inconsciente (seja qual for o preço disso, em todos 
os registros!). 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



73 



Mais do que nunca, nâo podemos poupar, nestas questões, altas 
doses de lucidez, de humor, assim como daquilo a que chamarei: "a 
prova do desejo". É mais do que óbvio, infelizmente, que as diversas 
formas de luta armada que cristalizaram na Europa, durante a última 
década, em torno dos grupelhos dogmáticos, só conduzem a resultados 
absurdos e monstruosos. Mas impõe-se, também necessária, a maior 
vigilância crítica com relação aos movimentos que reivindicam sua jun- 
ção com a "área de lutas difusas". Nada mais nos fará aceitar ainda a 
promoção, seja qual for, de superinstâncias unificadoras modeladoras, 
estados-maiores "estratégicos", programas e teorias tendo a vocação de 
responder pelo conjunto das situações e pela multiplicidade dos pontos 
de vista em presença. A recomposição de uma centralidade organi- 
zacional — sob formas, repito, a serem inteiramente repensadas: mul- 
ticentralidade, heterocentralidade... — , que é obviamente necessária, 
desde que se pense em ações de escala nacional ou internacional, será 
tanto mais compreendida e assumida quanto mais se basear unica- 
mente em agenciamentos contingentes de luta, preservando a autono- 
mia, a heterogeneidade de seus componentes. Sem dúvida passará 
muito tempo ainda antes que as revoluções deste final de milénio 
cheguem a aperfeiçoar máquinas de guerra social, máquinas de escrita, 
de poesia, de teoria, máquinas de vida, permitindo-lhes superar etapas 
decisivas nos processos de destruição-reconstrução dos sistemas sociais 
atuais. Mas o mínimo vital que se pode exigir hoje me parece ser que 
componente algum da revolução molecular seja desprezado, ou sim- 
plesmente ignorado. E, mais além, o que se pode esperar de melhor é 
que no seio de cada uma delas, e no seio das diversas formações do 
movimento, organizadas de um modo mais clássico, desenvolva-se uma 
nova disponibilidade, uma nova sensibilidade a alianças, a conjunções 
imprevisíveis, inimagináveis. 



NOTA 



(1) N. do Trad.: O autor refere-se aos movimentos de libertação dos bascos, dos 
corsos, dos bretões, dos católicos irlandeses, etc. 



n 

DA ANÁLISE INSTITUCIONAL 
A ESQUIZOANÂLISE: 
NA TRILHA DA MUTAÇÃO 



O fim dos fetichismos* 



Atrás de Marx e de Freud, atrás da marxologia e da freudologia, 
há a realidade chata do movimento comunista e do movimento psica- 
nalítico. É daí que se tem de partir e é para aí que se tem de voltar. E, 
quando falo chata, quase não chega a ser uma metáfora: o capitalismo 
reduz tudo ao estado de merda, isto é, ao estado de fluxos indife- 
renciados e descodificados, dos quais cada um deve tirar sua parte, de 
um modo privado e culpabilizado. É o regime da permutabilidade: 
qualquer coisa, em "justas" proporções, pode equivaler a qualquer 
coisa. Marx e Freud, por exemplo, reduzidos ao estado de mingau 
dogmático, puderam ser postos no comércio sem qualquer risco para o 
sistema. O marasmo e o freudismo, cuidadosamente neutralizados 
pelos corpos constituídos do movimento operário, do movimento psica- 
nalítico e da Universidade, não só não atrapalham mais ninguém, mas 
até tornaram-se os guardiões da ordem estabelecida. Demonstração, 
pelo absurdo, de que é impossível sacudi-la pra valer. Pode-se objetar 
que não se deve imputar a estas teorias os desvios de práticas que as 
reivindicam, que sua mensagem original foi traída, que é preciso justa- 
mente voltar às fontes, rever as traduções defeituosas, etc. É a arma- 
dilha fetichista. Não há nenhum exemplo, no campo das ciências, de 
um tamanho respeito aos textos e às fórmulas enunciadas pelos grandes 
sábios. O revisionismo aí é regra geral. Não se pára de relativizar, de 
dissolver, de deslocar as teorias constituídas. As que resistem são 
permanentemente atacadas. O ideal não é absolutamente mumificá- 
las, mas sim abri-las para outras construções tão provisórias quanto, 
mas melhor asseguradas no terreno da experiência. O que conta, em 
última análise, é a utilização que é feita de uma teoria. Não se pode, 
portanto, deixar de lado a atualização do marxismo e do freudismo. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



77 



É preciso partir das práticas existentes para chegar aos vícios de origem 
das teorias, pois de um modo ou de outro elas se prestam a tais 
distorções. A atividade teórica dificilmente escapa à tendência do capi- 
talismo que é de rirualizar, de recuperar toda prática, por menos 
subversiva que seja, cortando-a dos investimentos desejantes; a prática 
teórica só pode esperar sair de seu gueto abrindo-se para as lutas reais. 
A primeira tarefa de uma teoria do desejo deveria ser a de procurar 
discernir as vias possíveis para sua irrupção no campo social, ao invés 
de caucionar o exercício quase místico da escuta psicanalítica de con- 
sultório, tal como evoluiu desde Freud. Correlativamente, todo desen- 
volvimento teórico que tem por objeto as atuais lutas de classe deveria 
preocupar-se prioritariamente com sua abertura à produção desejante 
e à criatividade das massas. O desejo escapa ao marxismo em todas as 
suas versões, que caem para o lado do burocratismo e do humanismo, 
enquanto que o freudismo não só permaneceu, desde a origem, estra- 
nho à luta de classes, como também não parou de desfigurar suas 
descobertas primeiras sobre o desejo inconsciente para tentar arrastá- 
las, algemas em punho, para as normas familiais e sociais da ordem 
dominante. Recusar-se a encarar estas carências fundamentais, tentar 
mascará-las, é o mesmo que fazer acreditar que os limites internos 
destas teorias sejam realmente intransponíveis. Há duas maneiras de 
consumir enunciados teóricos: a do universitário que ama ou deixa o 
texto em sua integridade, e a do amador apaixonado, que o ama e o 
deixa ao mesmo tempo, manipula-o como lhe convém, tenta se servir 
dele para esclarecer suas coordenadas e orientar sua vida. 

O que interessa é tentar fazer com que um texto funcione. E, 
deste ponto de vista, o que continua vivo no marxismo e no freudismo 
não é a coerência de seus enunciados, mas uma enunciação em rup- 
tura, um certo jeito de varrer o hegelianismo, a economia política 
burguesa, a psicologia universitária, a psiquiatria da época, etc. 

A própria idéia de uma conjunção entre dois corpos separados, o 
marxismo e o freudismo, falseia a perspectiva. Pedaços de marxismo 
podem e devem contribuir para uma teoria e uma prática que vai na 
direção do desejo; pedaços de um freudismo podem e devem contribuir 
para uma prática relativa à luta de classes. A própria idéia de uma 
teoria e de uma separação entre um exercício privado do desejo e um 
campo público das lutas de interesse conduz implicitamente à inte- 
gração capitalista. A propriedade privada dos meios de produção está 
intrinsecamente ligada à apropriação do desejo pelo ego, pela família 
e pela ordem social. Começa-se neutralizando no trabalhador todo e 
qualquer acesso ao desejo, pela castração familialista, pelas ciladas do 
consumo, etc, para apoderar-se em seguida, sem dificuldades, de sua 



78 



FÉLIX GUATTARI 



força de trabalho. Cortar o desejo do trabalho, eis o imperativo pri- 
meiro do capital. Separar a economia política da economia desejante: 
eis a missão dos teóricos que se colocam a seu serviço. O trabalho 
e o desejo estão em contradição apenas no quadro de relações de 
produção, de relações sociais e de relações familiares bem definidas: 
as do capitalismo e do socialismo burocrático. Não há alienação do 
desejo, complexos psicossexuais que sejam radical e definitivamente 
separados da repressão e dos complexos .psicossociais. Dizer, por exem- 
plo, dos chineses de hoje, que seu maoísmo continuaria a estar na 
dependência de um Édipo universal, equivaleria a considerar o próprio 
maoísmo como algo de eterno, sempre renascendo de suas cinzas. Mas 
é óbvio que a história não anda neste sentido. Do ponto de vista do 
desejo, um revolucionário francês, após Maio de 68, é de uma outra 
raça que a de seu pai em junho de 36. 1 Não há nenhum Édipo possível 
entre um e outro! Nem rivalidade, nem identificação. Não há conti- 
nuidade na mudança. E se é verdade que a história contemporânea 
é feita justamente deste tipo de ruptura, então os teóricos da coisa 
social e os da coisa psicanalítica têm mais é que se arranjar para fazer 
uma séria reciclagem. 

E. — Você acha possível desedipianizar a psicanálise, sem seu revolu- 
cionamento total, bem como o do quadro institucional da psiquiatria? 

F. G. — Tanto as instituições psiquiátricas quanto a psicanálise não 
são campos fechados. Não há uma luta particular a ser levada nas 
empresas com os operários, uma outra nos hospitais com os doentes e 
uma terceira nas universidades com os estudantes. O problema da 
universidade — isto ficou bem claro em 68 — não é o dos estudantes e 
dos professores, mas do conjunto da sociedade, na medida em que se 
encontram questionados tanto a relação entre a transmissão de conhe- 
cimento, a formação de quadros, o desejo das massas, quanto as exi- 
gências da indústria, etc. Que resposta foi dada pelo poder do Estado à 
agitação no meio estudantil? Recentr alizar o problema no próprio ob- 
jeto, reduzi-lo à estrutura e à organização da Universidade. O mesmo 
ocorre com a psiquiatria e as sociedades de psicanálise: a questão não é 
saber como, atualmente, poder-se-ia modificar a prática do psiquiatra, 
do psicanalista ou a atitude dos grupos de doentes, porém, mais funda- 
mentalmente, como funciona a sociedade, para que se tenha chegado a 
uma situação dessas. Uma sociedade que sobrecodifica toda produção 
pela lei do lucro tende a separar definitivamente a produção desejante 
da produção social. O desejo oscila mais para o lado do privado e o 
social para o do trabalho rentabilizado. Trata-se de colocar a seguinte 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



79 



questão: será que uma produção de desejo, um sonho, uma prática 
amorosa, uma utopia concreta, um dia acabarão conquistando no 
plano social a mesma dignidade de existência que uma produção mer- 
cantil de automóveis ou de enlatados? O valor de um bem depende 
menos do binómio força de trabalho/meio técnico (capital variável/ 
capital constante) do que da divisão que determinará o que do desejo 
será recebido ou rejeitado. O que interessa ao capitalismo são as dife- 
rentes máquinas de desejo e de produção que ele poderá conectar à 
máquina de exploração: teus braços, se você é varredor de rua, tuas 
capacidades intelectuais, se você é engenheiro, tuas capacidades de 
sedução, se você é garota-propaganda; quanto ao resto, ele não só está 
pouco ligando como não quer nem ouvir falar. Tudo que fale em nome 
do restante não faz senão perturbar a ordem de seu regime de pro- 
dução. Assim sendo, as máquinas desejantes vivem formigando nas 
máquinas industriais e sociais, mas são constantemente vigiadas, cana- 
lizadas, isoladas umas das outras, esquadrinhadas. Trata-se de saber 
se este modo de controle que consideramos como legítimo, inerente à 
condição social do homem, pode ou não ser superado. 

E. — Ao atacar a fixação da psicanálise no Édipo, no superego, vocês 
estão atacando também parte da herança teórica de Freud. 

F. G. — Freud não compreendeu grande coisa da esquizofrenia. Mui- 
tas das lutas de tendências internas ao movimento psicanalítico se 
esclareceriam se as considerássemos do ângulo desta hostilidade funda- 
mental de Freud para com a psicose. A psicose e a revolução foram dois 
objetos-tabu. A normalidade era identificada com a aceitação do viver 
em família. Freud menosprezava o delírio, como por exemplo o do 
presidente Schreber. Ele menosprezava também as mulheres. Sua re- 
presentação da sexualidade e da sociedade é inteiramente falocêntrica. 
Em Análise Terminada e Análise Interminável, 2 o problema da cas- 
tração surge como a rocha derradeira contra a qual se depara a psi- 
canálise: o homem recusa a castração necessária porque ele não quer 
ser "como uma mulher", enquanto que a mulher não aceita a falta do 
pênis, etc. Freud não depreende absolutamente o caráter de luta polí- 
tica subjacente a este género de "resistência". Tanto a mulher quanto o 
homem recusam a castração. A noção-chave é a de superego. Trata-se 
de saber se o superego é uma formação egressa do meio social e trans- 
mitida por intermédio da família — de tal forma que o indivíduo venha 
a desejar a repressão e a assumi-la através de toda uma série de 
substituições, a começar pelos pais — ou se se trata de aceitá-lo como 
um corte necessário da tópica psíquica, único acesso do sujeito a um 



FÉLIX GUATTARI 



justo equilíbrio e única garantia ao ego de uma boa adaptação à reali- 
dade. De acordo com esta última perspectiva, a autoridade do pai e as 
imagens da hierarquia social seriam apenas acessórios desta sacros- 
santa castração necessária. Trata-se pois de uma opção: ou o desejo 
acaba desejando a repressão e se faz seu cúmplice — encontrando 
assim um estatuto para si, talvez neurótico, talvez angustiado, mas de 
qualquer forma um estatuto! — ou revolta-se contra a ordem vigente — 
e então se faz encurralar por todos os lados. 

Para tentar avançar um pouco nestas questões, há uns doze anos 
eu tinha formulado a noção de transversalidade 3 para exprimir a capa- 
cidade de uma instituição em remanejar "os dados de acolhida do 
superego", de tal forma que alguns sintomas, algumas inibições pu- 
dessem vir a ser suprimidos. A modificação do "coeficiente local de 
transversalidade" implica a existência de um foco erótico, um eros de 
"grupo sujeito" que assuma 4 a política local, mesmo que parcialmente. 
Assim, uma formação social pode modificar a "causalidade" incons- 
ciente que desencadeia a atividade do superego. Esta modificação de 
acolhida dos dados do superego pode chegar a um remanejamento 
estrutural da tópica. Nestas condições, a problemática da repressão e 
do recalque muda de sentido. A psicanálise é pura e simplesmente 
reacionária quando ela cauciona o que se passa na escola, na família, 
no exército, etc... Nenhuma deiscência intelectual, nenhum splitting 
do ego, nenhuma falta, nenhuma castração poderia justificar a inter- 
venção do terceiro repressor. Por mais que se diga que não se trata mais 
do pai real, mas sim de uma lógica estrutural que vai permitir ao 
sujeito fundar-se como desejo na ordem significante e que lhe é neces- 
sário, custe o que custar, renunciar a seus prazeres imaginários indi- 
ferenciados para aceder ao "simbólico" (o simbólico é a sobremesa, 
não é para quem quer, é para quem pode, toda a questão está aí), toda 
esta tralha teórica não serve senão para justificar o conforto da escuta 
analítica. Deixem a sociedade fazer o que bem entender! Do desejo, a 
gente se incumbe; lhe arranjaremos uma terrinha secreta no espaço do 
divã. E, diga-se de passagem, funciona, e como! A psicanálise funciona 
muito bem, é justamente o que a torna tão perigosa. É a droga capi- 
talista por excelência. Não basta denunciá-la, é preciso implantar algo 
que a torne inútil, sem o menor interesse. 

E. — Uma das consequências seria a de deslocar o terreno da luta con- 
tra a psicanálise no domínio social, de se bater no terreno da política. 

F. G. — Concebo a esquizoanálise como uma luta política em todos 
os fronts da produção desejante. Não se trata absolutamente de res- 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



81 



tnngir-se a um só domínio. O problema da análise é o do movimento 
revolucionário. O problema do movimento revolucionário é o da lou- 
cura, o problema da loucura é o da criação artística... A transversali- 
dade exprime precisamente este nomadismo de fronts. O inconsciente é 
antes de mais nada um agenciamento social: o agenciamento coletivo 
das enunciações virtuais. Somente num segundo momento se recortará 
nos enunciados o que é teu, o que é meu e o que é da lei. O inconsciente 
desconhece a propriedade privada dos enunciados tanto quanto a do 
desejo. O desejo é sempre extraterritorial, desterritorializado, desterri- 
torializante, ele passa por cima e por baixo de todas as barreiras. Por 
mais que a psicanálise retalhe seus conceitos, passando- os por um crivo 
linguístico, lógico, antropológico, ela nunca sai de seu domínio de 
origem que é o do familialismo e do capitalismo. Ela desempenha para 
o capitalismo o papel de religião sobressalente. Sua função é a de 
preparar o terreno da repressão, "personalizá-la", como se diz para os 
R16. s O pecado e a confissão não mais funcionam como antes. É pre- 
ciso afrouxar as rédeas do desejo. Os gadgets não bastam, é preciso 
algo que não gaste nunca, que seja impermeável e que nunca apodreça: 
uma prostituição subjetiva, um ritual interminável. Uma vez que o 
sujeito esteja dependente desta nova droga, não é mais preciso temer 
que ele venha a se investir verdadeiramente numa luta social. A reali- 
dade deve permanecer à porta do consultório. Não se trata propria- 
mente de defender os valores do capitalismo mas apenas de fingir que 
eles não existem, A luta revolucionária deve ocupar-se desta dicotomia 
entre a produção social e as produções de desejo, em toda parte onde a 
repressão familialista se exercer contra a mulher, a criança, os dro- 
gados, os alcoólatras, os homossexuais, etc. Portanto seria impossível 
que esta microluta de classes se restringisse apenas ao terreno da psi- 
canálise. 

E. — Qual seria o lugar da psicanálise nas lutas de emancipação? 

F. G. — Ela está recoberta por uma tal crosta que, na verdade, não vejo 
muito o seu lugar nas lutas sociais senão como força de apoio para a 
reação. O que não quer dizer que se deva condenar todo e qualquer 
exercício da análise, mesmo o da análise dual. Porém, duas ordens de 
questões se colocam: de um lado o deslocamento da análise em direção 
a grupos sujeitos conectados com a realidade política ou com a atividade 
de auto-análise criadora, e de outro lado uma luta contínua contra a 
reinjeção de esquemas sociais repressivos. Uma análise de grupo, por 
exemplo do tipo Slavson ou Ezriel, pode ser tão nociva quanto uma aná- 
lise dual se não se discernir a função real dos pólos parentais: o que 



82 



FÉLIX GUATTARI 



intervém do pai e da mãe na relação neurótica? O pai interver. como 
pólo simbólico integrador, ou ele não passa, apesar dele, de uma 
cabeca-de-ponte da hidra social? Tomemos um exemplo na obra de 
Kafka 

Num momento em que K., o personagem do Processo, ja esta 
quase libertado do poder de seu processo edipiano ele vai a casa do 
Sor Tltorelli que lhe mostra suas telas. Elas são todas absolutamente 
idênticas. Um psicanalista poderia ver aí um mecanismo narcisista de 
fechamento das identificações com o mesmo, desencadeando um sis- 
tema de desdobramento. A esquizoanálise não procurara detectar a 
chTe de tal mecanismo; ela se esforçará em seguir as vias de d,- 
ferenciação que partem daí, a proliferação de novas «idades o 
desencadeamento de novos ramos do rizoma 6 inconsciente ^ Ela ja- 
mais considerará que a questão se a o ego, o pai, a mãe como polo 
SeXatório. Paia ela não existe pai em geral. Para os psicanalistas 
tradicionais, ao contrário, é sempre o mesmo pai, sempre a mesma 
mae, sempre o mesmo triângulo. E o mesmo pai que trabalha no 
banco que vai à fábrica, que é trabalhador imigrado, que e desem- 
pregado" que é alcoólatra. O pai não é senão o elemento de uma 
máquina social indeterminada. Todavia, de fato, cada constelação 
Smiliar é inteiramente diferente segundo o contexto em que ela se 
situa. Você não depara com o mesmo tipo de relação com a autoridade 
paterna numa favela de Abidjan ou numa cidade industrial da Ale 
manha. Não se trata do mesmo complexo de Édipo, da ^mesma homos- 
sexualidade. Parece idiota ter que repetir tamanhas obviedades. e no 
entanto é preciso denunciar sem parar este género de falcatrua, nao 
existe estrutura universal do espírito humano e da libido! 

E - O esquizoanalista é então alguém que quer fazer unta síntese da 
análise da economia social com a da economia hbidmal nesta soae- 
dade? 

FG - Talvez síntese não seja a palavra certa. Trata-se sobretudo de 
não reduzir as coisas a um esqueleto lógico, mas, ao contrario _ enr^ 
quecê-las, seguir as cadeias, as pistas rea 1S , as imphcaçc^s sociais. A 
«petição dá origem à diferença. A repetição aqui não constitui o fim de 
alguma coisa, o encerramento de um processo, mas, ao contrario, ela 
maíca um limiar de desterritorialização, a indicação de uma mutação 
Leiaute. A repetição de uma mesma imagem, a representação conge- 
f^da a catatonl podem ser respostas a uma agressão^ Por exemplo 
as fotos não desempenham o mesmo papel na vida de Kafka e em ua 
obra. Somos levados a constantes idas e vindas entre o odio e a fasci- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



83 



nação. Enquanto funcionário qualificado (de modo algum mísero 
burocrata) Kafka se confrontava com seu próprio desejo microf ascista 
de controlar o outro, de, por exemplo, dominá-lo no contexto de uma 
hierarquia burocrática. O outro, congelado numa foto, é controlado à 
distância, cristalizado numa espécie de submissão, cabisbaixo, olhar 
evasivo. Após o encontro com Felice, as coisas mudam. A libido se faz 
mais conquistadora. O objetivo continua sendo o de possuir o outro à 
distância, mas não da mesma maneira. Kafka quer possuir Felice 
somente através do jogo de cartas de amor. Não se trata mais de uma 
Felice-objeto, mas daquilo que há nela de mais vivo. A imagem não 
mais está congelada, ela prolifera sobre si mesma: a identidade se 
multiplica; através das cartas, nos deparamos com inumeráveis Felices 
e inumeráveis Kafkas. A posse, portanto, não se dá mais pelo exterior, 
mas sim pelo interior. A sedução amorosa, a sujeição semiótica, tor- 
nam-se então exercícios muito mais complicados. Não se trata mais de 
um fenómeno imaginário global, mas de uma espécie de técnica de 
feitiço, pondo em jogo tanto o charme literário quanto o prestígio 
ligado aos títulos e às funções. Pouco a pouco teremos acesso às 
conexões sociais que "seguram" Felice e Kafka, que os alienam ao 
mesmo meio. Com efeito, ambos são burocratas fascinados pela po- 
tência da burocracia (e em parte a denúncia que Kafka faz desta buro- 
cracia não passa de uma denegação). A análise de uma nova espécie de 
"perversão" da carta, de uma perversão burocrática, nos conduz assim 
à perversão da burocracia putrefata da Ãustria-Hungria e ao caldo de 
cultura de onde surgirá o eros nazista. É lógico que isto tudo é dema- 
siado esquemático, mas gostaria apenas de indicar que se nos conten- 
tamos em depreender numa análise apenas a identificação impossível 
de Kafka a seu papai comerciante, deixamos de lado toda a dinâmica 
social da libido. Kafka não é, como se disse por aí, um escritor do 
século XIX, prisioneiro de seus conflitos familiares. E um escritor do 
século XXI , que descreve em estado nascente um processo cujo alcance 
mal começamos a apreender. 

E. — No Anti-Édipo, falando de esquizoanálise, vocês evocam uma 
identificação possível entre o analista, o doente e o militante. O que 
quer dizer isto exatamente? 

F. G. — Nós nunca falamos de identificação entre o analista e o esqui- 
zofrénico. Nós dissemos que o analista, tanto quanto o militante, o 
escritor ou quem quer que seja, está mais ou menos engajado num 
processo esquizo. E nós sempre distinguimos o processo esquizo do 
esquizofrénico de asilo, cujo processo esquizo está precisamente bio- 



84 



FÉLIX GUATTARI 



queado ou girando em falso. Nós não dissemos que os revolucionários 
devessem identificar- se com os loucos que estão girando em falso, mas 
sim que deviam fazer seus empreendimentos funcionarem à maneira do 
processo esquizo. O esquizofrénico é um sujeito que por uma razão 
qualquer entrou em conexão com um fluxo desejante que ameaça a 
ordem social, mesmo que apenas ao nível de seu entorno imediato. 
Este intervém imediatamente para dar um basta nisso. Trata-se aqui 
da energia libidinal em seu processo de desterritorialização, e não 
da estagnação deste processo. O analista, assim como o militante, 
deve derivar com o processo e não colocar-se a serviço da repres- 
são social edipianizante, dizendo por exemplo: "tudo isto é porque 
você tem uma tendência homossexual" (é assim que se pretende 
interpretar o delírio do presidente Schreber), ou ainda "é porque 
em você não houve boa fusão entre a pulsão de morte e eros". A 
esquizoanálise terá algo a ver com uma perspectiva revolucionária se 
for verdade que, no futuro, as agitações sociais tornar-se-ão, como 
pensamos, absolutamente inseparáveis de uma profusão de revoluções 
moleculares ao nível da economia do desejo. Quando se trata de arre- 
bentar as fechaduras, os axiomas do capitalismo, as sobrecodificações 
do superego, as territorialidades primitivas reconstituídas artificial- 
mente, etc, o trabalho do analista, do revolucionário, do artista, se 
encontram. 

E. — A clinica de la Borde 1 teria uma significação particularmente 
importante no sentido do seu projeto de libertação, ou seria preciso 
considerá-la como uma meia-solução com todas as características do 
atual reformismo da psicanálise ? 

F. G. — Efetivamente ela é uma tentativa reformista, prisioneira do 
Estado, da Securité Sociale, 8 da representação que os doentes têm da 
doença, da ideologia médica e da hierarquia social, do dinheiro, etc. 
Portanto, neste sentido, ela é apenas uma experimentação em pequena 
escala, facilmente reprimida e até mesmo recuperada. Isto posto, ela 
está suficientemente em ruptura com o resto da sociedade para forne- 
cer meios de reflexão a um certo número de pessoas. Se eu tivesse que 
trabalhar como psicanalista de gabinete 9 ou como professor, eu teria 
certamente muita dificuldade em questionar, por exemplo, os dogmas 
psicanalíticos e marxistas. É modificando progressivamente as tutelas 
que pesam sobre o desejo, que um trabalho de equipe pode constituir 
máquinas analíticas e militantes de um novo tipo. Assim como me 
parece ilusório apostar numa transformação paulatina da sociedade, 
penso que as tentativas microscópicas, do tipo comunidades, comissões 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



85 



de bairro a organização de uma creche numa faculdade, etc podem 
desempenhar um papel absolutamente fundamental. É trabalhand™ 

ZílZT ^ C ° m ° e " aS qUe Se COntribui P ara o desenca- 
deamento de grandes fraturas do tipo da de Maio de 68. O "22 de 

Março , no inicto, era quase uma farsa! Neste campo, acredito num 

reforrmsmo permanente da organização revolucionaria. Mai valem 

dez fracassos repetidos ou resultados insignificantes que uma pas s ™ 

vidade embrutecida face aos mecanismos de recuperação eis man 

pulações burocráticas dos militantes profissionais 



NOTAS 

m „ (I j "l do Trad.: Em junho de 1936. ocorre na França uma greve cerai durante o 
ZlZtlT" r° Pular ', qUe levou ao Acordo de Matignon, com aceSo de vá as 
E2£ ThoTh' ' > UÇÍ ° í SCmana de trabalh0 ? a " 40 h0 ™. K pagas d 

t^S^^SLE^ por exempl0 ' represen,antes eleitos 

(3) N. do Trad.: Cf. os artigos "A Transversalidade" e "A Transferência". 

o M b„,,„ ^ „„, ^tJS^^zr^^T^^i 

(5) N. do Trad.: Modelo da fábrica de automóveis Renault. 

do>s autores, continuação de Capitalismo e Esquizofre%a — OAnti-Êdipo 

constiS, n ," a re8,a ° dC Uir - et " Cher - clientela é muito variada Tendo 



86 



FÉLIX GUATTARI 



experiência de Saint- Alban durante alguns anos, pela psicanálise lacaniana, pelo surrea- 
lismo e pelo anarcotrotskismo. La Borde, ao lado de Saint-Alban, desempenhou impor- 
tante papel na mutação da psiquiatria francesa a partir da década de 50 (cf. nota 4 de 
"As Lutas do Desejo e a Psicanálise", nota 3 de "Devir Criança, Malandro, Bicha" e 
nota 1 de "A Transversalidade"). 

Guattari acompanhou La Borde desde sua fundação, em 53, fixando-se aí a partir 
de 55. Hoje Guattari, ainda seu assalariado, não mais a considera um lugar privilegiado 
de experiência de mutação em psiquiatria, ainda que continue sendo um dos poucos 
lugares respiráveis no contexto atual da psiquiatria francesa. 

A experiência de La Borde está registrada e analisada nas seguintes obras: 

— "Histoire de La Borde — Dix Ans de Psychothérapie Institutionnelle à la 
Clinique deCour-Cheveray", Recherches, n? 21, abril de 1976, CERFI. 

— Polack, Jean-Claude e Sabourin, Danièle, Le Droil à la Folie, Calman-Lévy, 
Paris, 1976. 

— Michaud, Ginette, La Borde... un Pari Nécessaire, Gauthier-Villars, 1977. 

(8) N, do Trad.: Sécurité Sociale é o órgão de Previdência Social na França. 

(9) N. do Trad.: No original cabinet. que significa, entre outras coisas, gabinete 
e consultório. O autor aqui utiliza este duplo sentido. Visto que em português não há 
palavra alguma que contenha estes dois sentidos, preferimos adotar o primeiro que 
enfatiza o caráter elitista da psicanálise. 

(10) N. do Trad.: O "22 de Março" foi um "movimento" nascido de um grupo de 
estudantes de Ciências Humanas em Nanterre. No contexto das lutas contra a Reforma 
Fouchet, no dia 22 de março de 68, os estudantes ocuparam durante 24 horas o prédio da 
administração daquela Universidade em protesto contra a prisão de um estudante, 
membro do "Comité Vietnã". A ocupação das instalações pela polícia foi o ponto de 
partida dos acontecimentos de Maio de 68. 

"Movimento" e não grupelho ou partido, pois tratava-se do nascimento de uma 
nova esquerda, contestadora dos especialistas da contestação. "Agenciamento coletivo" 
de ação com o mínimo de organização necessária — de acordo com a singularidade de 
ação a ser desenvolvida — , sem dirigentes, sem disciplina nem hierarquia. Por onde 
passa vai evocando o potencial existente em todo campo social de antiautoritarismo, 
antiburocratismo, antkonsumismo que sai de sua clandestinidade forçada e se trans- 
forma em força de instauração de autogestão, assembléias permanentes, confronto entre 
idéias e estratégias, "democracia direta". Primavera inesquecível de 68... Mutação irre- 
versível do cenário político. Revolução molecular. Alguns comentários sobre o "22 de 
Março": 

— de Guattari: "...Evoquei algumas vezes o papel analítico no campo social 
desempenhado pelo Movimento '22 de Março' em 1968 na França ou ainda o da Rádio 
Alice em Bolonha, em Março de 77, que foi uma espécie de revelador da situação italiana 
naquele período. O que é analítico nisso? Não se reduz ao fato de que as pessoas falem 
para fazer a crítica das ideologias com as quais se confrontam, ou que elas reivindiquem 
para si mesmas e para os outros mais liberdade, mais criatividade.. . 

"Tais grupos, pela fala, mas também por meios técnicos, materiais, conseguiram 
modificar o que eu chamaria de: os modos coletivos de semiotização. O '22 de Março' 
existia em Nanterre, sobre o pano de fundo de um certo urbanismo, de um certo tipo de 
sistema social, de uma concepção particular da relação com o saber, da divisão entre 
trabalho manual e trabalho intelectual... O agenciamento analítico aqui, portanto, não 
concerne unicamente a indivíduos, grupos, locutores reconhecidos, mas também aos 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



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mais diversos componentes sccio-econômicos, tecnológicos, ambientais, etc." (in Vinter- 
vention Insututtonnelle, Petite Bibliothéque Payot, n? 382, 1980); 

- de Lyotard-."... a crítica à burocracia, não só a do aparelho de Estado oposto à 
sociedade, ou do partido (revolucionário) face às massas, ou da organiza^ fdl trabalho 
produtivo contra a livre cnatividade, mas a da vida alienada como umtodo... A proble- 
mát,ca latente do «22 de Março', junto à do Situacionismo, foi a crítica à reprelltaçll 
ou se a, a re ação de exterioridade com que são colocados a atividade e seus produtos, á 
•ooin âo^' n em ,T tácU, ° * ue * atores ™ P»içao de intérpretes passivos a 

opinião na pos,ção de espectadora passiva. O que caracterizaria melhor o movimento 
sena alvez a extensão prática desta crítica à esfera política." (J. F. Lyotard "Le 23 
Mars m Dénve a Parti- de Marx et de Freud, 10/18, Paris, 1973- 

riviH a Hr- de í )eleUZe: 0 incon « ien te não é outra coisa: esta ordem da subje- 

' d t d ° T P ° mtr ? duZ máquÍnaS e *P' osi ™ ^s estruturas ditas significantes 
' C T aiS - forcand °- as a * abrirem para libertar suas potencial idad« 

escondidas como real-a-vir sob efeito de ruptura. O movimento '22 de Março' perma 

menn 7? ff™ * ?™ S£ ele fOÍ Uma m3 <* uina de insuf ciente ao 

tính, ri h funC ' 0nado admiravelmente como grupo analítico e desejante, q» e não só 
a n,i T a de assoc,a Ç ao verdadeiramente livre, mas que pÔde^constiíLir-se em 
f«n^ B H W * Uma massa considertvd de estudantes e jovens trabalhadores sèm pn? 

IboltãfVr^h t°\ de i r egem ° nÍa ' SÍmP ' eS SUp ° rK Permitind0 a <™sferência^ a 
m^nln '"í 1 ^ 5 ' A nál.se em ato, onde a análise e desejo ficam finalmente do 

S / ■ «t P 6 l deSe - ,0 J enfim que COndu * a análise ' característica de um grupo 

ZZersalUéT ^ ****** ^ ™ e ™ * « 

a d ?ar v ma !° T Z S esclareciment <* acerca de 68, sugerimos a leitura de Paris 1968 - 
As Barricadas do Desejo, de Olgaria C. F. Matos, Brasiliense, Col. "Tudo é História" e 
das notas: de "Somos Todos Grupelhos", 3 de "Milhões e Milhões de Alices no Ar"' e 
2, 3e4de"AntipsiqwatnaeAntipsicanáIise". ' 



A transversalidade* 



A terapêutica institucional 1 é uma criancinha frágil. Convém 
acompanhar seu desenvolvimento de perto e vigiar com quem anda, 
pois ela é muito mal acompanhada. A ameaça mortal que pesa sobre 
ela não reside numa debilidade congénita, mas, ao contrario, no fato 
de haver facções de tudo quanto é espécie que nao veem a hora de 
raptar seu objeto específico. Psicólogos, psicossociologos, e mesmo 
psicanalistas lhe arrancarão uns pedaços com os quais faraó seu ne- 
gócio" enquanto que a ave de rapina ministerial esta esperando a hora 
em que poderá incorporá-la em seus textos oficiais. Desde o pos-guerra, 
muitos outros frutos da psiquiatria de vanguarda foram assim des- 
viados precocemente de seu rumo: a ergoterapia, a socialterapia, 
a psiquiatria de setor, etc. . 

Proclamemos em primeiro lugar que existe um objeto da terapêu- 
tica institucional e que este deve ser defendido contra todos aqueles que 
queiram fazê-lo derivar para fora da problemática social real. Isto 
implica numa tomada de consciência do nível social mais amplo, por 
exemplo o de uma orientação da saúde mental na França, e, ao mesmo 
tempo, numa tomada de posição doutrinária ao nível mais técnico das 
terapêuticas existentes. De certo modo pode-se considerar que a carên- 
cia de uma concepção unitária no movimento psiquiátnco atual seja o 
reflexo da segregação que persiste, sob diferentes formas, entre o 
mundo dos loucos e o resto da sociedade. Este corte, que os psiquiatras 
responsáveis por um estabelecimento de assistência operam entre suas 
preocupações internas e os problemas sociais mais gerais, tende a ser 
transposto de diferentes maneiras: desconhecimento sistemático do que 
acontece para além dos muros do hospital, psicologização de proble- 
mas sociais, escamoteamento de seu campo intencional no interior da 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



89 



instituição, etc. Ora, o problema da incidência do significante social 
sobre o indivíduo se coloca a todo instante e em todos os níveis, e na 
perspectiva da terapêutica institucional não se pode deixar de deparar 
com isso. A relação social não está além dos problemas individuais e 
familiais, ao contrário: temos de reconhecê-la em todas as instâncias 
psicopatológicas e, parece-nos, sua importância é ainda maior nos 
síndromes psicóticos, sobretudo os que apresentam formas mais "desso- 
cializadas". 

Freud, cuja obra desenvolveu- se essencialmente em torno da 
questão das neuroses, não ignorou este problema, como podemos 
constatar, por exemplo, na seguinte citação das Novas Conferências: 
*'Se nos detemos nas situações perigosas, constatamos que a cada 
período do desenvolvimento corresponde uma condição de angústia 
que lhe é própria. O perigo do desamparo psíquico coincide com o 
primeiro despertar do ego; o perigo de perda do objeto (ou do amor) 
com a falta de independência que caracteriza a primeira infância; o 
perigo da castração com a fase fálica; e finalmente o medo do superego 
com o período de latência, quando ocupa um lugar particular. Os 
antigos motivos de temor deveriam desaparecer no decorrer do desen- 
volvimento, pois as situações perigosas correspondentes perderam sua 
importância graças ao fortalecimento do ego; mas não é bem assim que 
as coisas acontecem na realidade. Muitos indivíduos nunca chegam a 
controlar o medo de perder o amor, e sentir-se amado é para eles uma 
necessidade insuperável; neste aspecto eles continuam a comportar- se 
como crianças. Normalmente, o medo do superego nunca cessa, pois 
que sob a forma de medo da consciência moral é indispensável à manu- 
tenção das relações sociais. O indivíduo, salvo raras exceções, depende 
sempre de uma coletividade. Algumas dentre as antigas situações peri- 
gosas se mantêm às vezes até épocas tardias, tendo sido as condições de 
angústia oportunamente modificadas". 2 

Qual é o obstáculo contra o qual se chocam os "antigos motivos 
de temor" fazendo com que eles se neguem a desaparecer? De onde 
provém esta persistência, esta manutenção das angústias neuróticas, já 
que se dissolveram as situações que serviram de suporte para sua gé- 
nese e "na ausência de toda e qualquer situação perigosa"? 3 Algumas 
páginas adiante, Freud reafirma a anterioridade da angústia em rela- 
ção ao recalque: a angústia é causada por um perigo exterior, ela é real, 
mas o próprio perigo exterior é evocado e condicionado pelo perigo 
pulsional interior: "De fato. o menino se angustia com as exigências de 
sua libido; neste caso, ele teme o amor que sente por sua mãe". 4 Assim 
é a ameaça interior que prepara o perigo exterior. A renúncia ao objeto 
amado é correlativa, no plano do real, à aceitação da perda do mem- 



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FÉLIX GUATTARI 



bro, mas o "complexo de castração" não poderia ser "liquidado" 
através de tal renúncia. Ê que, com efeito, ele implica no emprego de 
um termo suplementar na triangulação situacional do complexo de 
Édipo, de tal maneira que nunca estaremos isentos desta ameaça de 
castração que reativará permanentemente o que Freud chama de "uma 
necessidade inconsciente de culpabilidade". 5 A engrenagem de signifi- 
cantes sociais se encontra assim irreversivelmente sob controle da cas- 
tração e da culpabilidade, enquanto que até esta etapa suas posições 
permaneciam precárias por causa do "princípio de ambivalência" que 
presidia à eleição dos diversos objetos parciais. A partir daí, a instância 
desta realidade social fundará sua persistência na instauração de uma 
moralidade irracional em que a punição não encontrará sua justifi- 
cativa senão numa lei de repetição cega na falta de ser articulável a 
uma legalidade ética. Não será suficiente procurar reconhecer, através 
do diálogo impossível entre o ego ideal e o superego, este efeito de 
manutenção de angústia fora das "situações perigosas" atuais, pois ele 
implica, com efeito, na dependência destas últimas de uma "lógica 
significante" específica do nível social considerado, e que convém 
analisar com as mesmas exigências maiêuticas daquelas da psicanálise 
do indivíduo. 

A manutenção é a repetição, a expressão de uma pulsão de 
morte. A interrogação aí implicada estará mascarada, sob uma noção 
de continuidade. É considerado normal prolongar a resolução do com- 
plexo de Édipo por uma "boa" integração a um nível social. Não seria o 
caso, ao contrário, de articular estes "efeitos de persistência" da angús- 
tia com esta dependência, evocada por Freud, do indivíduo em relação 
à coletividade? Trata-se do fato irreversível até segunda ordem de que o 
complexo de castração não poderá jamais encontrar uma solução satis- 
fatória enquanto a sociedade contemporânea persistir em confiar-lhe 
um papel inconsciente de controle social. Há uma incompatibilidade 
cada vez mais óbvia entre a função do pai, enquanto ela é para o sujeito 
o suporte de uma possível mediação dos impasses identificatórios ine- 
rentes à estrutura da família conjugal, e as exigências das sociedades 
industriais para as quais um modelo integrador do tipo pai-rei-deus 
tende a perder qualquer outra função efetiva que não a mistificadora. 
Este fato é particularmente claro durante as fases de regressão social, 
por exemplo quando os regimes fascistas, ditatoriais, de poder pessoal, 
presidencial, fazem nascer fenómenos imaginários de pseudofaliciza- 
ção coletiva que resultam numa irrisória totemizaçâo plebiscitária de 
um chefe, o qual aliás permanece sem nenhum controle real da má- 
quina significante do aparelho económico, que, ao contrário, não pára 
de fortalecer seu poder e a autonomia de seu funcionamento. Os Ken- 



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f^ y <WriS^^ T tentaram paSsar P° r cima desta lei fo- 
tT um nn Hnf iT ^ COm Um ceri ™°nial frente, no 1 
Pesada Perrolen-os, o outro no dos detentores da indústria 

res del^f tiVÍdade ^ Estâd ° S mode ™*, <>s verdadeiros pode- 

da ÍSh H Jam qUa í' f0rem ° S SOnh ° S em desuso dos d <*^ores 
da Intimidade nacional", não poderiam identificar-se a uma encar- 

r%Z m ?? Ud à eXÍStênda de um P e <* ueno estado-maior escla- 

Z ot um Vlnorní PemianeCe inc0nscien * ■ "ga, sem esperança 
de que um Édipo moderno possa guiar seus passos. Não se pode certa- 
mente esperar a saída numa invocação e numa tentativa de rLbUiSo 
de suas formas ancestrais, precisamente pelo fato de que a experiência 
freudiana nos leva a colocar a questão, por um lado, desta persSêL a 

£* Si** Pa - a f éR1 daS modifica ^ situacionais e, por ouSLdo 
dos limites assinaláve.s para tal processo. O objeto da terapêutica^ 

aos ciados de aco hida do superego, transformando-os numa espécie 
de nova acolhida "iniciática", esvaziando de seu sentido a exigêncí 
social cega de um certo procedimento castrativo exclusivo' 

O que proporei agora tem um caráter apenas provisório. Trata-se 
de aJgumas formulações que me pareceram úteis para pontuar d feren 
es etapas de uma prática institucional. Parece -me oportuno estabe- 
lecer uma espécie de correspondência entre os fenómenos de des oca- 
mente de sentido nos psicóticos, particularmente nos esqukofrênicoí e 
os mecanismos de d scordância crescente que se instauram erí ^ todos os 
mveis da sociedade industrial em sua realização neocapitalisTa e so l£ 

om umideí?' * " f ° rma ° índÍVÍdU ° tCnde a se ident *<- 
com um ideal de ma qu ,na-consumidora-de-máquinas-produtivas"... 

S^SS^t?^ f° SCria Uma inter P-tação P prefigurativa 
deste Idea i? Se o grupo tende a se estruturar sob a forma da recusa da 
fala, como responder-lhe de outra maneira que não pelo silêncio' 
Como modificar um lugar desta sociedade de maneira a reS ao menos 
um pouco este processo de redução da fala à linguagem? A Z 
tomaremos o partido de distinguir a natureza dos grupos segundo se 
«toem numa ou noutra vertente. Convém, com efeito delnfSr abso 
lutamente das descrições formais que caracterizam o gnipos ndepen- 

mstitucional estão vinculados a uma atividade concreta, e não têm 
nada a ver com aqueles que estão geralmente em causa nas pesou sS 
2™ f ™ h miCa dC ^ VÍnCulad0S a uma intuição, e£ S de 

t^cSSST^ um ponto de vista sobre 0 mundo > — 



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FÉLIX GU ATT ARI 



Esquematizaremos esta primeira distinção, que aliás será difícil 
manter em seguida, entre grupos sujeitos e grupos sujeitados. 6 O grupo 
sujeito, ou que tem vocação para sê-lo, se esforça para ter um controle 
sobre sua conduta, tenta elucidar seu objeto e, nesse momento, secreta 
os meios desta elucidação. Schotte 7 poderia dizer deste tipo de grupo 
que ele é ouvido e ouvinte, e que por este fato opera o desapego a uma 
hierarquização das estruturas que lhe permitirá se abrir para além dos 
interesses do grupo. O grupo sujeitado não se presta a tal perspecti- 
vação; ele sofre hierarquização por ocasião de seu acomodamento aos 
outros grupos. Poder-se-ia dizer do grupo sujeito que ele enuncia 
alguma coisa, enquanto que do grupo sujeitado se diria que "sua causa 
é ouvida". Ouvida, aliás não se sabe onde nem por quem, numa cadeia 
serial indefinida. 

Esta distinção não é absoluta, ela constitui apenas uma primeira 
aproximação nos possibilitando indexar o tipo de grupo com que li- 
damos em nossa prática. Na realidade ela funciona à maneira de dois 
pólos de referência; qualquer grupo, mais especialmente os grupos 
sujeitos, tendem a oscilar entre estas duas posições: a de uma subje- 
tividade com vocação a tomar a palavra, e a de uma subjetividade 
alienada a perder de vista na alteridade social. Esta referência nos 
servirá de proteção para evitarmos cair no formalismo da análise de 
papéis e nos levará a colocar a questão do sentido da participação do 
indivíduo no grupo enquanto ser falante e a questionar assim o meca- 
nismo habitual das descrições psicossociológicas e estruturalistas. Ha- 
veria aí, sem dúvida, igualmente uma maneira de retomar as teorias da 
burocracia, da autogestão, dos "grupos de formação", etc, que regu- 
larmente perdem seu objeto pela recusa, de caráter cientificista, em 
implicar os conteúdos de sentido. 

Achamos por outro lado cómodo distinguir, ao nível dos grupos, 
os "conteúdos manifestos", constituídos por aquilo que é dito e feito, 
pelas atitudes de uns e de outros, as cisões, a existência de líderes, 
bodes expiatórios, etc, e o "conteúdo latente", que requer ser deci- 
frado a partir de uma interpretação das diversas rupturas de sentido 
que surgem na ordem fenomenal. Definamos essa instância latente 
como desejo de grupo: ela teria de ser articulada com uma ordem 
pulsional de Eros e de morte específica do grupo. 

Freud descrevia a existência nas neuroses graves de uma difusão 
das pulsões fundamentais, e o problema analítico como sendo o de 
chegar a uma refusão suscetível de fazer desaparecer, por exemplo, 
uma sintomatologia sadomasoquista. A própria estrutura das institui- 
ções, que não tem outra corporeidade senão a imaginária, exige, para 
tentar uma operação deste tipo, a instauração de meios institucionais 



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particulares, mas sem perder de vista que eles não poderiam pretender 
constituir nada alem de mediações simbólicas, tendendo por essência a 
se desfazer em efeito de sentido. O objeto que está em jogo não é o 
mesmo que encontramos na relação da transferência psicanalítica. Os 
fenómenos de captura imaginária não podem mais ser retomados e 
articulados a partir da interpretação de um analista. A phantasia de 
grupo e essencialmente simbólica, sejam quais forem as imagens que 
ela drena em seu rastro. Sua inércia não conhece outra regulagem 
alem da volta incansavelmente repetida aos mesmos impasses proble- 
máticos. A pratica da terapêutica institucional mostra que a produção 
de phantasia individual se recusa sistematicamente a respeitar a especi- 
ficidade deste nível simbólico da phantasia de grupo. Ao contrário, ela 
tenta incorpora-la a si e aplicar-lhe dados imaginários singulares que 
vem se acomodar 'naturalmente" nos diferentes papéis potencialmente 
estruturados pela extensão dos significantes introduzidos pelo coletivo 
Esta corporahzação imaginária" de um certo número de articulações 
significantes do grupo, sob pretexto de organização, de eficácia de 
prestígio, ou também de incapacidade, de falta de qualificação, etc 
faz cristalizar o conjunto da estrutura, entrava suas capacidades dê 
remanejamento, lhe dá seu rosto e seu "peso", limitando na mesma 
proporção suas possibilidades de diálogo com tudo que pudesse ques- 
tionar suas regras do jogo", em uma palavra, reúne as condições de 
seu^ deslocamento na direção daquilo que chamamos de grupo sujei- 

O desejo inconsciente de um grupo, por exemplo do "grupo 
missionário de um hospital tradicional, como expressão de uma pul- 
são mortífera, provavelmente não estará em condições de ser evocado 
na ordem da fala e fará surgir toda uma gama de sintomas. Ainda que 
estes últimos sejam de certo modo "articulados como uma linguagem" 
e descnhveis numa perspectiva estrutural, na medida em que tendem a 
mascarar o sujeito da instituição, eles nunca chegarão a se exprimir de 
outra forma que não seja a de uma frase incoerente a partir da qual 
icana para ser decifrado o objeto (totem e tabu), erigido no próprio 
lugar da impossibilidade de um surgimento de uma fala verdadeira no 
grupo. A revelação deste lugar, em que o desejo está reduzido a 
mostrar somente a ponta de um falso dedinho, não poderia dar acesso 
ao desejo em si mesmo, pois o desejo enquanto tal, de qualquer modo 
permanecera inconsciente e recusará sempre se anular pelo viés de umâ 
explicação exaustiva, como seria a vontade do neurótico. Mas a desobs- 
trução de um espaço, preservação de um vacúolo de onde poderia ser 
destacado um primeiro plano de referência a esta instância do desejo 
do grupo, situara de imediato o conjunto da problemática além das 



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FÉLIX GUATTARI 



contingências relacionais, clarificará sob uma luz totalmente outra as 
"questões de organização" e obscurecerá na mesma medida as tentati- 
vas de descrição formal e aparentemente racional; de fato, esta desobs- 
trução constituirá a prova pela qual deverá passar o grupo antes de 
qualquer tentativa analítica. 

Desde os primeiros passos nesse sentido, surgirá uma distinção 
primordial entre a desalienação de grupo e sua análise. Com efeito, o 
papel de uma análise de grupo não é idêntico ao de uma ordenação do 
coletivo de inspiração mais ou menos psicossociológica ou ao de uma 
intervenção de um engenheiro de organização. Repetindo, a análise de 
grupo se situa aquém e além dos problemas de ajustamento de papéis, 
de transmissão de informações, etc. As questões-chave são colocadas 
antes da cristalização das constelações, das rejeições e atrações, ao 
nível donde pode brotar uma criatividade do grupo, se bem que esta 
geralmente se estrangula por si mesma com o ténue fio de nonsense que 
ela se recusa a assumir, preferindo o grupo se consagrar ao balbu- 
ciamento de "palavras de ordem", obturando qualquer acesso a uma 
fala verdadeira, isto é, articulável às outras cadeias do discurso histó- 
rico, científico, estético, etc. 

De que espécie de desejo pode viver, por exemplo, um grupo 
político "condenado pela história", senão de um eterno curvar-se sobre 
si mesmo? Ele terá de secretar sem parar mecanismos de defesa, de 
denegação, de recalque, phantasias de grupo, mitos, dogmas, etc. Sua 
análise não poderia levar senão à descoberta da natureza do desejo 
mortífero de grupo do qual aqueles mecanismos são a expressão em sua 
relação com as soterradas e castradas pulsões históricas das massas, 
das classes ou das nacionalidades sujeitadas. Este último aspecto da 
análise ao "nível mais elevado" não poderia, a meu ver, ser separado 
dos outros problemas psicanalíticos de grupo, aliás, nem dos indivi- 
duais. 

No hospital psiquiátrico tradicional, por exemplo, existe um 
grupo dominante constituído pelo diretor, o administrador, os mé- 
dicos, suas mulheres, etc, formando uma estrutura opaca que impede 
a emergência de uma expressão do desejo dos conjuntos humanos 
constitutivos da instituição. Onde pôde refugiar-se esse desejo? Num 
primeiro momento, a interpretação deverá se deixar guiar não só pelos 
sintomas manifestados ao nível de diversos subconjuntos, suporte das 
taras sociais clássicas, da sedimentação da caduquice, da agitação, das 
segregações de toda espécie, mas também por outros sinais como, por 
exemplo, o alcoolismo de que se encontra tomado tal grupo de enfer- 
meiros, ou a bobeira difusa de tal outro grupo, se é que é verdade, 
segundo uma fórmula de Lacan, que bobagem também é expressão de 



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uma paixão. Seria por uma espécie de respeito pelos enigmas encar- 
nados nas neuroses e psicoses que nossos modernos guardiães de tú- 
mulo se sentem na obrigação de aviltar-se e saudar tão negativamente 
assim a mensagem daqueles que deverão permanecer desconhecidos, 
de acordo com o que está implicado por toda a organização social? 
Nem todo mundo pode, como alguns psiquiatras, se dar ao luxo de 
refugiar-se em formas superiores de estetismo, significativas do fato de 
que, para eles, não há nenhuma questão essencial que possa se colocar 
ao nível do hospital! 

A análise de grupo não se proporá como objetívo revelar uma 
verdade estática que estaria por trás desta sintomatologia, mas sim rea- 
lizar as condições favoráveis a um modo particular de interpretação, 
a qual, segundo Schorte, é idêntica á transferência. Transferência e 
interpretação constituem um modo de intervenção simbólica, mas — 
insistamos nesse ponto — elas não poderiam ser da alçada de uma 
pessoa ou de um grupo que, para a ocasião, teria se batizado "anali- 
sador". A interpretação, pode ser o débil mental de serviço quem vai 
dar, se ele estiver em condições de reivindicar, num dado momento, 
por exemplo, que se organize um jogo de amarelinha, justo quando tal 
significante se tornará operatório ao nível do conjunto da estrutura. 
Deve-se ir no encalço da interpretação. Convém, pois, livrar a escuta de 
todo e qualquer preconceito psicológico, sociológico, pedagógico ou 
mesmo terapêutico. Na medida em que o psiquiatra ou o enfermeiro 
detém uma parcela de poder, ele deve ser considerado responsável 
pelos obstáculos às possibilidades de expressão da subjetividade in- 
consciente da instituição. A transferência congelada, mecânica, inso- 
lúvel, por exemplo: dos enfermeiros e doentes sobre o médico; a trans- 
ferência obrigatória, predeterminada, "territorializada" num papel, 
um estereótipo dado, é pior do que uma resistência à análise, é uma 
forma de interiorização da repressão burguesa pelo reaparecimento 
repetitivo, arcaico e artificial de fenómenos de casta com seu cortejo de 
phantasias de grupo, fascinantes e reacionárias. 

Como apoio provisório visando preservar, ao menos por algum 
tempo, o objeto de nossa prática, proponho introduzir em lugar da 
noção demasiadamente ambígua de transferência institucional um con- 
ceito novo: o de transversalidade no grupo. Transversalidade em opo- 
sição a: 

— uma verticalidade que encontramos por exemplo nas descri- 
ções feitas pelo organograma de uma estrutura piramidal 
(chefes, subchefes, etc); 

— uma horizontalidade como a que pode se realizar no pátio 
do hospital, no pavilhão dos agitados, ou, melhor ainda, 



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FÉLIX GUATTARI 



no dos caducos, isto é, uma certa situação de fato em que as 
coisas e as pessoas ajeitam-se como podem na situação em 
que se encontram. 
Coloquemos num campo fechado cavalos com viseiras reguláveis 
e digamos que o "coeficiente de transversalidade" será justamente esta 
regulagem das viseiras. Imaginemos que a partir do momento em que 
os cavalos estiverem completamente cegos, um certo tipo de encontro 
traumático vai se produzir. À medida que formos abrindo as viseiras, 
pode-se imaginar que a circulação se realizará de maneira mais har- 
moniosa. Tentemos nos representar a maneira como os homens se 
comportam uns em relação aos outros do ponto de vista afetivo. De 
acordo com a célebre parábola de Schopenhauer sobre os porcos-espi- 
nhos sentindo frio, ninguém suportaria uma aproximação muito intima 
■ com seus semelhantes: "Um dia de inverno glacial, os porcos-espinhos 
de um rebanho apinharam-se a fim de se proteger contra o frio pelo 
calor reciproco, salvando-se assim do congelamento. Porém, doloro- 
samente incomodados pelos espinhos, eles não tardaram em voltar a se 
' afastar uns dos outros. Obrigados a reaproximar-se, por causa do frio 
persistente, sentiram novamente a acão desagradável dos espinhos; 
estas alternâncias de aproximação e afastamento duraram até que eles 
encontraram uma distância conveniente onde puderam melhor tolerar 
os males". 8 

Num hospital, o "coeficiente de transversalidade é o grau de 
cegueira de cada membro do pessoal. Mas, atenção, formulamos a 
hipótese de que a regulagem oficial de todas as viseiras e dos enun- 
ciados manifestos que dela decorrem dependem quase que mecanica- 
mente do que acontece ao nível do médico-chefe, do diretor, do admi- 
nistrador, etc. Consequentemente tudo parece repercutir do topo para 
a base. É verdade que pode existir uma "pressão da base", mas em 
geral ela continua incapaz de modificar a estrutura de cegueira do 
conjunto. A modificação deve intervir ao nível de uma redefinição 
estrutural do papel de cada um e de uma reorientação do conjunto. 
Enquanto as pessoas permanecem paralisadas em torno de si mesmas, 
elas não enxergam nada além de si mesmas. 

A transversalidade é uma dimensão que pretende superar os dois 
impasses, o de uma pura verticalidade e o de uma simples horizon- 
talidade; ela tende a se realizar quando uma comunicação máxima se 
efetua entre os diferentes níveis e sobretudo nos diferentes sentidos. E o 
próprio objeto da busca de um grupo sujeito. Nossa hipótese é a 
seguinte: é possível modificar os diferentes coeficientes de transver- 
salidade inconsciente nos diferentes níveis de uma instituição. Por 
exemplo, a comunicação "publicamente" existente no núcleo de resi- 



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dentes constituído em torno do médico-diretor, ficará talvez num plano 
muito formal, e se poderá considerar que o coeficiente de transversa- 
lidade aí é muito baixo. Em compensação, ao nível do pavilhão, o 
coeficiente latente e reprimido poderá se revelar muito superior. Os 
enfermeiros, tendo entre si relações mais autênticas, darão aos doentes 
a possibilidade de efetuar algumas transferências com efeito terapêu- 
tico. Continuando a hipótese, os múltiplos coeficientes de transversa- 
lidade, apesar de diferentes em intensidade, são homogéneos. Com 
efeito, o nível de transversalidade existente no grupo que detém o poder 
real sobre a instituição determina inconscientemente a regulagem das 
possibilidades extensivas dos outros níveis de transversalidade. Tome- 
mos o caso, bastante raro, de um fortíssimo coeficiente de transversali- 
dade entre os residentes, que em geral não costumam ter poder algum 
sobre a instituição; este forte coeficiente permanecerá latente e não po- 
derá repercutir senão numa área muito limitada. Deste estado de trans- 
versalidade, desde que se tolere uma comparação termodinâmica neste 
campo onde as coisas se movem em linhas de forças sociais, se poderia 
dizer que sua entropia institucional demasiadamente forte vai resultar 
na absorção ou no enquistamento de toda e qualquer veleidade de sua 
diminuição local. Mas não nos enganemos, o fato de postularmos que 
um ou vários grupos detêm a chave da transversalidade latente do 
conjunto da instituição não nos designa, por isso, os grupos em ques- 
tão. Com efeito, eles não coincidem necessariamente com as instâncias 
jurídicas do estabelecimento que só tem o controle de sua expressão 
manifesta. O problema da relação de força real deve ser analisado: 
todo mundo está cansado de saber que o Estado não faz a lei em seus 
ministérios. Da mesma forma pode acontecer que num hospital psi- 
quiátrico o poder de fato escape dos representantes patenteados da lei e 
se reparta entre diversos subgrupos: serviço, chefetes, ou — por que 
não? — clube inter-hospitalar, associação do pessoal, etc. Ê óbvio que 
seria bom que os médicos e os enfermeiros, aos quais cabe, em prin- 
cípio, tratar dos doentes, garantissem a assunção coletiva da regulagem 
daquilo que, situado além da legalidade ordinária, controla os fatores 
suscetíveis de modificar o ambiente, as trocas, o modo de funciona- 
mento real da instituição. Mas isso não poderia ser instituído por uma 
reforma; as boas intenções neste caso não garantem nenhum acesso a 
esta dimensão da transversalidade. 

Para que a intenção declarada dos terapeutas tenha um alcance 
que não o de denegação, é seu próprio ser, como ser do desejo, que deve 
ser tocado e questionado pela estrutura significante com a qual eles 
estão confrontados. Isto pode levar a um questionamento decisivo de 
toda uma série de dados bem estabelecidos: que interesse tem o Estado 



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FÉLIX GUATTARI 



em bloquear as verbas? Por que o Seguro Social persiste em desconhe- 
cer as psicoterapias de grupo? Será que a faculdade, de essência 
liberal, não é retrógrada, aliás tanto quanto as federações sindicais, em 
princípio mais "à esquerda" em relação aos problemas, por exemplo, 
de categorização, de hierarquia, etc. ? O sujeito da instituição; o sujeito 
efetivo, isto é, inconsciente, aquele que detém o poder real, nunca é 
dado de uma vez por todas. Será preciso desencavá-lo por ocasião de 
uma investigação analítica implicando às vezes em imensos desvios que 
poderão levar à colocação dos problemas cruciais de nossa época. 

Se a análise de uma instituição consiste em se determinar como 
tarefa abri-la à vocação de tomar a palavra, qualquer possibilidade de 
intervenção criadora dependerá da capacidade de seus iniciadores de 
existir no lugar onde "poderia ter havido fala", sob a forma de estar 
marcados pelo significante do grupe, isto é, de assumir um certo modo 
de castração. Este esfolamento, esta bana. esta rasura de suas poten- 
cialidades imaginárias remete seguramente à análise destes objetos que 
o freudismo descobriu como sendo o suporte de uma possível assunção 
da ordem simbólica para o sujeito: seio, fezes, pênis, etc; todos 
eles elementos descartáveis, ao menos na phantasia; contudo remete 
igualmente à análise do papel desempenhado pelo conjunto dos objetos 
transicionais 9 que se encontram eferivamente articulados à máquina de 
lavar, à televisão, em outras palavras, à "razão de ser" moderna! Aliás, 
a coleção de objetes parciais, a começar pela própria imagem do corpo 
como suporte da identificação a si mesmo, não é cotidianamente jo- 
gada no mercado feito pasto, cotada na bolsa oculta dos valores pseu- 
do-eróticos, estéticos, esportivos...? A sociedade industrial se assegura 
assim do controle inconsciente de nosso destino pela exigência, satis- 
fatória do ponto de vista da pulsão de morte, de uma desarticulação de 
cada consumidor-produtor, e de tal modo que em úitima instância a 
humanidade poderia decidir ser um imenso corpo esfacelado se reco- 
lando unicamente ao bel-prazer das exigências do Deus económico 
supremo. Logo é inútil forçar um sintoma social a "entrar na linha", 
pois em última análise é ele seu verdadeiro suporte; acontece com ele o 
mesmo que com um obsessivo que é fechado num quarto onde não há 
pia, quando costuma lavar as mãos cem vezes por dia, e que então 
desloca sua sintomatologia para o pânico e a crise de angústia insus- 
tentável. 

Só a revelação de um grau mais ou menos grande de transver- 
salidade permitirá que se desencadeie, durante um tempo (já que nesse 
assunto tudo é permanentemente questionado), um processo analítico, 
oferecendo aos indivíduos uma real possibilidade de se servirem do 
grupo à maneira de um espelho. Então, o indivíduo manifestará ao 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



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mesmo tempo o grupo e si próprio. Se é o grupo, enquanto cadeia 
significante pura, que o acolhe, ele poderá revelar-se a si mesmo, para 
além de seus impasses imaginários e neuróticos. Mas, se ele, ao con- 
trário, se depara com um grupo profundamente alienado, fixado às 
suas próprias imagens deformantes, se for um neurótico, encontrará aí 
uma ocasião inesperada para reforçar seu narcisismo, e, se for um 
psicótico, poderá continuar consagrando-se em silêncio às suas subli- 
mes paixões universais. Que seja possível a um indivíduo inserir-se no 
grupo sob a forma de ouvido-ouvinte e por isso mesmo ter acesso ao 
além do grupo, que ele interpreta ao invés de manifestar, esta é a 
alternativa proposta à intervenção analítica de grupo. 

A consolidação de um nível de transversalidade numa instituição 
permite que se institua no grupo um diálogo de um novo tipo: o delírio 
e qualquer outra manifestação inconsciente, em cujo seio o doente até 
então permanecia emparedado e solitário, pode alcançar um modo de 
expressão coletiva. A modificação do superego que evocamos anterior- 
mente intervém, ao mesmo tempo que um certo modelo de fala está 
para surgir em lugar das estruturas sociais, funcionando num sentido 
meramente ritual. Considerar a possibilidade, para os terapeutas, de 
intervir num processo deste tipo, colocaria o problema de uma super- 
visão analítica que por sua vez suporia resolvida em parte uma trans- 
formação radical do movimento psicanalítico existente, que, até o 
presente momento, não está absolutamente preocupado com um recen- 
tramento de sua atividade em direção aos doentes reais, lá onde eles se 
encontram eferivamente, isto é, essencialmente, no campo da psiquia- 
tria hospitalar e de setor. 

A posição social do médico-chefe supõe uma alienação imaginá- 
ria, que o erige como "estátua de comendador". Como levá-lo a aceitar 
e até a solicitar que o questionemos, sem que ele recue diante do medo 
estarrecedor de se despedaçar? O médico que renuncia à sua posição 
imaginária, para situar seu papei num plano simbólico, está em com- 
pensação apto a operar o recorte necessário da função médica em múl- 
tiplos encargos, implicando diferentes espécies de grupos e de pessoas. 
O objeto desta função se desprende da "totemização" para se transferir 
sobre diversas espécies de instituições, deslocamentos e delegações de 
poderes. A própria assunção desta phantasia de estilhaçamento por 
parte do médico funciona assim como um tempo primordial da instau- 
ração de uma estrutura de transversalidade. Seu papel, agora "articu- 
lado como uma linguagem", se encontrará diretamente conectado ao 
conjunto dos significantes e das phantasias do grupo. Ao invés de cada 
um desempenhar para si mesmo e para os outros o teatro da existência, 
correlativo à coisificação do grupo, a transversalidade aparece come a 



100 



FÉLIX GUATTAR1 



exigência de marcação inevitável de cada papel. Uma vez que este 
princípio de contestação e de redefinição de papéis tenha sido instau- 
rado por um grupo detentor de parte importante do poder legal e do 
poder real, isto terá grandes chances, se aplicado numa perspectiva 
analítica, de repercutir em todos os níveis. Tal remanejamento dos 
ideais do ego modifica os dados de acolhida do superego e permite a 
inserção de um tipo de complexo de castração articulado a exigências 
sociais diferentes daquelas que os doentes tinham conhecido em suas 
relações familiares, profissionais, etc. O fato de aceitar ser "posto em 
causa" , ser desnudado pela fala do outro, um certo estilo de contes- 
tação recíproca, de humor, de eliminação das prerrogativas da hierar- 
quia, etc, levará a tender fundar uma nova lei do grupo, cujos efeitos 
"iniciáticos" permitirão a emergência, ou semi-emergência de um certo 
número de signos, presenciando os aspectos transcendentais da loucura 
que até então permaneciam recalcados. As phantasias de morte, ou de 
estilhaçamento do corpo, tão importantes nas psicoses, poderão ser 
retomadas num contexto de calor de grupo, quando se poderia ter 
ficado na crença de que seu destino, em essência, é o de perma- 
necer prisioneiras de uma neo-sociedade, cuja missão, aliás, é exor- 
cizá-las. 

Isto não nos autoriza no entanto a perder de vista que, mesmo 
revestido de boas intenções, o empreendimento terapêutico a cada ins- 
tante corre o risco, apesar de tudo, de cair na mitologia bestificante do 
"nós". Mas a experiência mostra que a emergência das instâncias 
pulsionais do grupo constitui a melhor garantia contra este perigo. Elas 
interpelam cada um, tanto os técnicos quanto os pacientes, para ques- 
tioná-los sobre seu ser e seu destino. O grupo torna-se então uma cena 
ambígua, percebida num duplo plano, um primeiro, que dá segurança 
e proteção, véu encobrindo todo acesso à transcendência, gerador de 
defesas obsessivas, de um modo de alienação "reconfortante apesar de 
tudo", de eternidade semanal, e um segundo, que deixa aflorar por 
trás desta segurança artificial a imagem mais realizada da finitude 
humana, sendo cada um de meus empreendimentos despossuído em 
nome de uma instância mais implacável que minha própria morte: a de 
sua captura pela existência do outro, única garantia de tudo aquilo 
que pode acontecer pela fala. Diferentemente do que se passa na 
análise dita dual, não mais subsiste aqui qualquer recurso imaginário 
ao nível das dialéticas de senhor e escravo, o que constitui, a meu ver, 
uma possível superação do complexo de castração. 

A transversalidade no grupo é uma dimensão contrária e comple- 
mentar às estruturas geradoras de hierarquização piramidal e dos 
modos de transmissão esterilizadores de mensagens. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



101 



A transversalidade é o lugar do sujeito inconsciente do grupo, 
o além das leis objetivas que o fundamentam, o suporte do desejo do 
grupo. 

Esta dimensão só pode ser posta em relevo em certos grupos que, 
deliberadamente ou não, tentam assumir o sentido de sua praxis e se 
instaurar como grupo sujeito, colocando-se assim na postura de se 
assumir como agente de sua própria morte. 

Em oposição {relativa) a estes grupos missionários, os grupos 
sujeitados recebem passivamente suas determinações do exterior e, 
com a ajuda de mecanismos de autoconservação, se protegem magi- 
camente de um nonsense sentido como externo; assim procedendo, eles 
recusam qualquer possibilidade de enriquecimento dialético fundado 
na alteridade do grupo. 

Uma análise de grupo que se proponha resultar no remaneja- 
mento das estruturas de transversalidade, nos parece concebível; na 
condição de evitar os perigos das descrições psicologizantes das re- 
lações internas que têm por efeito perder as dimensões de phantasia 
específicas do grupo, ou das comportamentalistas, que ficam delibera- 
damente no plano dos grupos sujeitados. 

A incidência do significante de grupo sobre o sujeito é vivida, por 
este último, ao nível de um "limiar" de castração pelo fato de que a 
cada etapa de sua história simbólica o grupo possui um modo próprio 
de exigência frente aos sujeitos individuais, que implica numa renúncia 
relativa de suas incitações pulsionais a "estar-em-grupo ". 

Há, ou não, compatibilidade entre esse desejo, esse Eros de 
grupo, e as possibilidades concretas de assunção por cada sujeito de tal 
prova, que pode ser vivida segundo diversas modalidades, que vão do 
sentimento de rejeição, ou mesmo de mutilação, até a aceitação do 
estilo iniciático, podendo resultar num remanejamento irreversível de 
sua personalidade. 

Esta marcação pelo grupo não ocorre em sentido único: ela dá 
direitos e poder àqueles que a sofreram; mas, em contrapartida, ela 
pode trazer modificações no nível de tolerância do grupo face a desvios- 
padrão individuais, e acarretar crises suscetíveis de pôr em perigo, com 
base em problemas mistificados, o próprio destino do grupo. 

O papel do analisador de grupo consistiria em revelar tais situa- 
ções e levar o conjunto do grupo a não mais poder fugir, tão facilmente, 
das verdades que elas encobrem. 

Formulamos a hipótese de que a automutilação burocrática de 
um grupo sujeito, seu recurso inconsciente a mecanismos antagónicos à 
sua transversalidade potencial, não são fenómenos inelutáveis e depen- 
dem, num primeiro momento, de uma assunção, no seio do grupo, do 



102 



FÉLIX GUATTA RI 



risco de ter de se confrontar com o nonsense, com a morte e com a 
alteridade, risco esse correlativo à emergência de todo fenómeno de 
sentido verdadeiro. 



NOTAS 

(1) N. do Trad.: O termo "psicoterapia institucional" foi criado por Daumezón 
num artigo escrito em 1952, para nomear uma das linhas do processo de mutação 
teórico/prático em curso na psiquiatria francesa desde o pós-guerra. As experiências de 
conf inamento durante a guerra, bem como a solidariedade entre membros da Resistência 
— de diferentes origens sociais, económicas, etc. — , e até o fato de o cenário desta 
solidariedade ter sido muitas vezes os hospitais psiquiátricos, que abrigavam refugiados, 
levou a psiquiatria' a colocar em questão o confir.amento, a rígida hierarquia das relações 
e a crueldade e frieza com que se tratava os loucos. Saint-Alban, hospital psiquiátrico em 
Lozère, constituiu-se em um núcleo importante de crítica à psiquiatria tradicional. 
Durante a guerra, Saint-Alban havia abrigado comunistas, surrealistas, cristãos progres- 
sistas, anarquistas, centralizando importantes aspectos da Resistência: por exemplo, 
durante algum tempo toda a sua edição clandestina ali se organizava sob coordenação de 
Paul Eluard. Tosquelles, psiquiatra espanhol, com vasta experiência de luta na psi- 
quiatria de seu país (cf. nota 4 de "As Lutas do Desejo e a Psicanálise"), se instala aí 
desde a guerra, tornando-se uma espécie de catalisador das aspirações de mutação na 
prática psiquiátrica a partir do, final da guerra. Começa aí uma primeira fase de 
mudanças visando a humanização, a destecnocratização e a desmedicalização da psi- 
quiatria, que poderíamos agrupar como uma proposta de "microssocialismo" nas insti- 
tuições, tendo na autogestão seu projeto-limite. Confundia-se então alienação social com 
alienação mental, e consequentemente cura com participação na institucionalização: 
a organização do tempo e do espaço feita por todos; o organograma justaposto ao socio- 
grama, anulação de qualquer diferença rígida entre profissionais. Utiliza-se, como 
suporte desta socialização, atividades coletivas tais como reuniões, ateliers, terapias de 
grupo — "clínica de atividade", como o denominou Daumézon. Era o momento da 
importação das técnicas de grupo norte-americanas: psicodrama, ergoterapia, sociote- 
rapia, psicologia social, dinâmica de grupo, técnicas ativas, behaviorismo, gestaltismo. 
Simultaneamente, é formulada a crítica à psicanálise feita por Politzer e seus seguidores. 
São nomes importantes desta época, além de Tosquelles e Daumézon, Bonnafé, Le Guil- 
lant e outros. 

Na década de 50, começam a delinear- se duas linhas neste processo, corresponden- 
do a uma discussão política geral. A orientação do PCF naquele momento é objeto de du- 
ras críticas. Uma nova esquerda começa a delinear-se. Questiona-se sobretudo o compro- 
misso do PCF com o governo francês contra as colónias em suas lutas de libertação, culmi- 
nando com sua posição na Guerra da Argélia (de 54 a 62). Questiona-se também sua 
indiferença em relação ao processo de desestalinização desencadeado no XX Congresso, 
em 1956. Isto vai levar dentro da psiquiatria a uma separação entre partidários e não 
partidários da política do PCF, o que implicava, por exemplo, ser ou não partidário do 
exorcismo da psicanálise feita pelo stalinismo recalcitrante. Em 1958, deu-se uma cisão 
entre as duas tendências, no Encontro de Sèvres. Uma destas duas linhas — fruto, entre 
outras coisas, da nova esquerda e da contribuição de Lacan para a psicanálise — , 
liderada por Tosquelles, desenvolverá uma nova leitura da lição freudiana a partir da 
prática em instituição. Ê reconhecida a dimensão inconsciente da instituição: percebe-se 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



103 



que a socialização não é a própria cura, mas seu suporte, e busca-se fazer da instituição 
"um lugar onde a poiifonia da fala seja, como na psicanálise, um instrumento de 
transformação, fazendo surgir o sujeito e não o ego, com seu sistema de apoio no estatuto 
sócio-prof issional (Tosquelles, in Histoire de la Psychiatrie de Secteur). Esta tendência se 
agrupa em 1960 no GTPSI, muito ativa até 1965. Saint-Alban e la Borde (cf. nota 7 de 
"O Fim dos Fetichismos") foram núcleos importantes ligados ao GTPSI. 

Guattari, membro ativo deste grupo, formula naquele período alguns dos prin- 
cipais conceitos da psicoterapia institucional: "transversalidade", "transferência insti- 
tucional", "analisador", "grupo sujeito/grupo sujeitado" (cf. nota 6). Este ensaio, 
escrito em 1964, representa um momento importante na elaboração teórica da psico- 
terapia institucional, concomitante a uma aproximação entre o GTPSI e a escola freu- 
diana que então se fundava. Lacan participou de algumas jornadas. No ano seguinte, no 
entanto, Lacan se vinculou aos althusserianos dos Cakiers pour 1'Analyse. 

Algumas propostas do inicio do movimento são então criticadas e superadas: 
o microssocialismo que não leva em conta a dimensão analítica e que se limita à crítica 
ideológica e à reivindicação de liberdade, sem produzir deslocamento algum; as refe- 
rências a Lewin e a Moreno, e só acessoriamente a Marx e a Freud; a utilização da 
psicanálise — quando não excluída — , que a reduz a mero apoio externo, análise de um 
especialista, psiquiatra, psicólogo, ou mesmo de um grupo analítico constituindo uma 
formação de poder. A análise passa a ser vista como uma dimensão de toda experi- 
mentação social, tendo como objeto o conjunto de um complexo de processos sociais. 
Nesta perspectiva, a análise não pode mais ser considerada uma especialidade de Saúde 
Mental, correndo o risco de ser reificada como uma técnica da psicoterapia institucional. 
£ no seio desta problemática que Guattari sugere o termo de "análise institucional", para 
um projeto que supera o GTPSI pela exigência de um trabalho interdisciplinar entre a 
psicoterapia institucional e práticas similares em outros campos: pedagogia, urbanismo, 
miiitantismo, movimento estudantil, etc. Cria-se um novo grupo, o FGERI, em 1966, 
onde se desenvolverá a proposta de uma análise institucional (cf. nota 3 de "Devir 
Criança, Malandro, Bicha"). Os principais ensaios de Guattari da época da psicoterapia 
institucional estão na coletânea de seus textos Psychanalyse et Transversalité, publicada 
em 1972; entre esses foram incluídos na presente edição "A Transversalidade" e "A 
Transferência", ambos de 1964; um terceiro, "Introdução à Psicoterapia Institucional", 
de 1962, foi publicado r.aRevista Tempo Brasileiro, a? 35, out./dez., 1974. Além destes, 
sugerimos como bibliografia básica as seguintes obras: 

— Oury, Jean. Psychiatrie et Psychothérapie tnstitutionneUe, Payot, Traces, 
Paris, 1976. 

— Revue de Psychothérapie Institutionnelle, publicada pelo CERFI, cuja comis- 
são de redação era constituída pelos principais nomes da psicoterapia institu- 
cional, tais como François Tosquelles, Jean Oury, Félix Guattari, Jean Aymé, 
Hélène Chaigneau, Roger Gentis, etc. (6 números, de 1965 a 1967). 

— Recherches, revista publicada pela FGERI, de 1966 a 1969, e pelo CERFI, 
a partir de 1969 (alguns números). 

(2) N. do Trad.: Freud, Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise 
(texto de 1932/1933), Conf. XXXII, "Ansiedade e Vida Instintual", in Edição Standard 
Brasileira das obras psicológicas completas, vol. XXII, Imago, Rio de Janeiro, 1969 
(p. 111). Na tradução não utilizamos literalmente o texto supracitado, mas optamos por 
uma comparação entre o texto original (G.W., v. XV, p. 95) e as traduções francesa e 
brasileira. Nossa principal modificação refere-se à palavra Angst, utilizada por Freud no 
original para designar angústia, medo ou temor (Freud nunca usa a palavra Furcht, 
coloquialmente empregada para designar medo). Optamos por "angústia", "medo" ou 



104 



FÉLIX GUATTARI 



"temor" de acordo com o contexto — o primeiro termo designando um sentimento sem 
objeto definido, e os dois outros um sentimento com objeto definido — , tendo ai 
coincidido, na maioria das vezes, com a tradução francesa (Nouvelles Confèrences sur la 
Psychanafyse, Gallimard, pp. 121/122). A edição brasileira também adotou "temor" e 
"medo", mas, quanto ao terceiro termo, optou sempre por "ansiedade" ao invés de 
"angústia". 

(3) N. doTrad.: Op. cit. (Imago, p. 118 e Gallimard, p. 129). 

(4) N. do Trad.: Op. cit. (Imago, p. 109 e Gallimard, p. 119). Aqui também 
Angst na tradução da Imago aparece como "ansiedade". 

(5) N. do Trad.: Op. cit. (Imago, p. 136 e Gallimard, p. 149). Aqui há dois 
problemas de tradução. A tradução francesa un besoin inconscient de cuipabilité — 
expressão muitas vezes repetida neste ensaio de Freud, mas uma sò vez entre aspas — 
significa literalmente "uma necessidade inconsciente de culpabilidade". A tradução 
brasileira da Imago adotou ora "necessidade inconsciente de punição", ora "sentimento 
inconsciente de culpa", sendo esta última a que aparece entre aspas. No original alemão 
Freud utiliza ora unbewusstes Stratbedúrfris , ora unbewusstes Schuldgefukl, este o que 
aparece entre aspas (G. W., v. XV, p. 116). 

Primeiro problema: culpabilidade ou culpa? Adotamos o primeiro por esse desig- 
nar o "estado ou qualidade de culpável ou de culpado" (úi Aurélio Buarque de Holanda, 
Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro), mais 
próximo do conceito freudiano deste sentimento difuso que nem sempre depende de um 
ato preciso e objetivável de que o sujeito estaria se acusando; já o termo "culpa" está 
necessariamente vinculado a um ato, que o sujeito considera condenável independente- 
mente da pertinência deste julgamento. 

Segundo problema: sentimento ou necessidade inconsciente de culpabilidade? 
Estas diferentes opções de tradução correspondem a diferentes posições na discussão do 
significado do original unbewusstes Shuldgefuhl. Discute-se a possibilidade de se falar em 
"sentimento inconsciente", por um lado, e, por outro, de se falar em "necessidade de 
culpabilidade". Optamos por manter a escolha feita na tradução francesa: necessidade 
inconsciente de culpabilidade — pois é com este significado que trabalha Guattari neste 
ensaio (cf. a respeito desta discussão o Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e 
Pontalis, Moraes, São Paulo, 1976). 

(6) N. do Trad.: "Grupo sujeito" e "grupo sujeitado", termos importantes na 
teoria de Guattari sobre a instituição, foram incorporados ao vocabulário da Análise 
Institucional como "grupo sujeito" e "grupo objeto". Pode-se indicar uma filiação destes 
conceitos em "grupo em fusão" e "prático-inerte", presentes no Sartre da Critica da 
Razão Dialética. De acordo com a leitura de Guattari, feita por Gilles Deleuze, "... os 
grupos sujeitados não estão menos nos mestres por eles adotados ou aceitos do que nas 
massas que os compõem; a hierarquia, a organização vertical ou piramidal que os 
caracteriza é feita para conjurar toda e qualquer inscrição possível de nonsense, de morte 
ou de estilhaçamento, para impedir o desenvolvimento de cortes criativos, para assegurar 
os mecanismos de autoconservação fundados sobre a exclusão dos outros grupos; seu 
centralismo opera por estruturação, totalização, unificação, substituindo as condições de 
uma verdadeira 'enunciação' coletiva por um agenciamento de enunciados estereotipa- 
dos, cortados ao mesmo tempo do real e da subjetividade (é aí que se produzem os fenó- 
menos imaginários de edipianizaçâo, de superegoicização e de castração de grupo). Os 
grupos sujeitos, ao contrário, se definem por coeficientes de transversalidade, que con- 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



105 



juram totalidades e hierarquias; eles são agentes de enunciação, suportes de desejo, 
elementos de criação institucional; através de sua prática, eles não param de se defrontar 
com o limite de seu próprio nonsense, de sua própria morte ou ruptura. Ainda que se 
trate menos de duas espécies de grupo, do que de duas vertentes da instituição, pois que 
um grupo sujeito está sempre trazendo o risco de se sujeitar, em um se crispar paranóico, 
através do qual tenta a todo custo manter-se e eternizar-se como sujeito" (ih "Trois 
Problèmes de Groupe" — prefácio a Psychanafyse et Transversalité). 

(7) Referência a uma palestra de J. Schotte: "A Transferência dita fundamental 
de Freud para colocar a questão: psicanálise e instituição", in Revue de Psychotkérapie 
Institutionnelle, n? 1. 

(8) N. do Trad.: Schopenhauer, Parerga und ParaUpomena, II parte, Gleichnis- 
me und Parabém, citado por Freud in "Psicologia de Grupo e a Análise do Ego" (texto 
de 1921), in vol. XVIII, Imago, Rio de Janeiro, 1969; nota 1, p. 128. A tradução adotada 
— que não corresponde à supracitada — baseia-se num trabalho de comparação entre o 
original (G. W„ v. XXIII, p. 110) e as traduções brasileira e francesa (Psyckologie 
Collective et Analyse du Moi, Payot, p. 112). 

(9) Tomados num sentido mais geral do que aquele dado por Winnicott, 



Á transferência* 



Schotte teve razão em valorizar a natureza das operações signi- 
ficantes, que nos permitem identificar os fenómenos da transferência 
com os da fala e da linguagem. Isto deveria nos ajudar a esclarecer esta 
questão da transferência fora do campo estrito da experiência psicana- 
lítica; quero falar da transferência no grupo, da transferência institu- 
cional. Na medida em que podemos considerar que o grupo também é 
"estrutur ado como uma linguagem" — para transpor uma fórmula de 
Lacan sobre o inconsciente — , então pode se colocar a questão de como 
ele fala, e antes de mais nada se é legítimo considerar que ele tenha um 
acesso à fala. Pode ou não um grupo ser sujeito de sua enunciação? 
A título consciente ou inconsciente? A quem ele faja? Um grupo sujei- 
tado, alienado ao discurso dos outros grupos, está condenado a perma- 
necer prisioneiro do nonsense de seu próprio discurso? Existe para ele 
uma saída possível que, mesmo parcialmente, lhe permita tomar certa 
distância em relação aos enunciados que ele profere e dos quais pode-se 
dizer que, num certo contexto, ele é ao mesmo tempo sujeito e objeto? 

Em que condições pode-se esperar que de um campo de fala vazia' 
emerja uma fala plena — emprestando outras fórmulas de Lacan? 
Será que se pode considerar de boa fé e sem trair que se possa fazer 
alguma coisa, apesar de tudo, em situações tão alienadas quanto as de 
um hospital psiquiátrico, de uma escola, etc? Ou será preciso deixar 
cair tudo, levar a política do pior e fazer da revolução social o pré- 
requisito absoluto de toda e qualquer intervenção dos "usuários" no 
funcionamento locai das instituições? 

O grupo e seu nonsense não mantêm uma espécie de diálogo 
secreto, produtivo de uma alteridade potencial? Do fundo de sua 
impotência, o grupo pode ser portador de um apelo inconsciente para 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



107 



que alguma outra coisa se torne possível, nem que seja só falar junto 
sobre essa impotência: "O que se pensa de tudo isto à nossa volta? Para 
que serve isto? O que é que estamos fazendo aqui? ..." 

Grupo sujeitado e grupo sujeito não deveriam assim ser conside- 
rados como mutuamente exclusivos. Um partido, em outros tempos 
revolucionário e agora mais ou menos sujeitado à ordem dominante, 
pode ainda ocupar aos olhos das massas o lugar deixado vazio do 
sujeito da história, e, dependendo das circunstâncias, até mesmo tor- 
nar-se o sujeito da enunciação de uma luta revolucionária, o "porta- 
voz" de um discurso que não é o seu, correndo o risco de traí-lo quando 
a evolução das relações de força permita esperar uma "volta ao nor- 
mal". Assim, por mais sujeitado que ele esteja aos determinismos 
sócio-econômicos, um partido desses conservará como que involunta- 
riamente uma potencialidade de corte subjetivo que poderá ser reve- 
lada por uma transformação de contexto. Não se trata pois, para nós, 
de considerar os fenómenos de alienação e de desalienação de grupo 
como coisas em si, mas antes como vertentes, diferentemente expri- 
midas e desenvolvidas segundo contextos situacionais, de um mesmo 
objeto institucional. 

Na vertente da sujeição do grupo teremos de decifrar fenómenos 
tendendo a curvar o grupo sobre si mesmo — os líderes, as identifi- 
cações, os efeitos de sugestão, as rejeições, os bodes expiatórios, etc, 
tudo que tende a promover uma lei local e formações idiossincráticas, 
com suas proibições, seus ritos, etc, tudo que tende a proteger o 
grupo, a calafetá-lo contra as tempestades significantes cuja ameaça é 
sentida como vindo de fora por uma operação específica de desco- 
nhecimento, que consiste em produzir estas espécies de falsas janelas 
que são as phantasias de grupo. Neste tipo de grupo se está assim 
engajado numa perpétua luta contra toda inscrição possível de non- 
sense: os diferentes papéis são coisificados, falicizados sob a forma do 
chefe ou sob a forma da exclusão. Está-se no grupo para recusar-se 
coletivaroente a encarar o nada, a significação última dos empreendi- 
mentos com os quais nos comprometemos. Ê um sindicato de defesa 
mútua, um lobby contra a solidão, contra tudo que poderia ser inde- 
xado como um caráter transcendental. 

Na outra vertente, o do grupo sujeito, não dispomos dos mesmos 
meios de segurança. Aí se está ameaçado de ser afogado num oceano de 
problemas, tensões, lutas internas, riscos de cisão, na razão mesma da 
abertura do grupo aos outros grupos. O diálogo, a intervenção nos 
outros grupos é uma finalidade aceita peio grupo sujeito, o que o obriga 
a uma certa lucidez com relação à sua finitude, e lhe delineia o 
horizonte de sua própria morte, isto é, de seu estilhaçamento. A 



108 



FÉLIX GUATTARI 



vocação do grupo sujeito de tomar a palavra tende a comprometer a 
posição e a segurança dos membros do grupo; desenvolve-se assim uma 
espécie de vertigem, de loucura específica do grupo sujeito; uma cris- 
pação paranóica se substitui a esta vocação de ser sujeito: o grupo 
quererá ser sujeito custe o que custar, inclusive no lugar do outro, e 
cairá assim na pior das alienações, a que está na origem de todos 
mecanismos compulsivos e mortíferos que conhecemos nas panelinhas 
religiosas, literárias ou revolucionárias. 

Quais poderiam ser os fatores de equilíbrio de um grupo entre 
estas diversas vertentes da alienação: a externa, do grupo sujeitado, 
e a interna, na tangente louca do projeto de um grupo sujeito? 

Nossa prática hospitalar pode trazer alguma luz sobre esta ques- 
tão. Vê-se bem que a integração de um doente num grupo, sua "socia- 
lização", não depende apenas da boa vontade dos terapeutas. Alguns 
doentes, numa instituição, encontram zonas de tolerância, limiares e 
zonas de impossibilidade absoluta, em suas tentativas de se integrar 
num grupo ou numa atividade. Está-se em presença de um mecanismo 
similar àquele das sociedades primitivas em matéria de acolhida no seio 
de uma nova faixa etária ou de iniciação, com seus ritos de passagem. 
O que faz com que uma pessoa aceite ser marcada pelo grupo? Exa- 
gerando um pouco, chegamos a uma alternativa tal que ou o grupo ou a 
própria pessoa se estilhaça. Ora, precisamente nos grupos que não 
cultivam seus sintomas ritualmente — os grupos sujeitos — , o risco de 
topar com o nonsense é muito maior, mas é também maior a possi- 
bilidade de uma supressão dos impasses sintomatológicos individuais. 

Enquanto o grupo permanece objeto dos outros grupos, recebe o 
nonsense, a morte, de fora; dá sempre para se refugiar nas estruturas 
de desconhecimento. Mas desde que o grupo torna-se sujeito de seu 
destino, desde que ele assume sua própria finitude, sua própria morte, 
os dados de acolhida do superego são modificados, o limiar do com- 
plexo de castração específico a uma ordem social dada pode ser local- 
mente modificado. Está-se no grupo não para se esconder do desejo e 
da morte, empenhado num processo coletivo de obsessionalização, mas 
por causa de um problema particular, não para a eternidade, mas a 
título transitório: é o que chamei de estrutura de transversalidade. 

Schorte sublinhou que, na transferência, não havia quase nunca 
uma verdadeira relação dual; isso é muito importante. A relação mãe- 
filho, por exemplo, não è uma relação dual, qualquer que seja o nível 
em que a tomemos. Desde que a consideramos numa situação real, 
percebe-se que ela é ao menos triangular, que há sempre um objeto 
mediador que serve de suporte ambíguo. Para que haja deslocamento, 
transferência, linguagem, é preciso que haja alguma coisa que possa 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



109 



ser cortada, destacada. Lacan insistiu muito sobre esta dimensão do 
objeto, decisiva para se localizar nestas questões de transferência e de 
contratransferência. Só se pode deslocar na ordem da transferência na 
medida em que algo possa deslocar-se. Algo que não é nem o sujeito 
nem o outro. Não há relação intersubjetiva, dual ou não, que seja 
suficiente para fundar um sistema de expressão, isto é, um estatuto de 
alteridade. O face-a-face com o outro não explica a abertura ao outro, 
não fundamenta o acesso à sua compreensão. O que é fundador, por 
exemplo, da metáfora, é este algo fora do sujeito, adjacente ao sujeito, 
que Lacan descreveu sob o termo objeto "a". 

Mas o que é este "a"? Não se deveria fazer disso uma chave 
universal de essência linguística, ou uma experimentação de um novo 
tipo, uma nova forma de turismo, por exemplo, para visitar a Grécia 
antiga, apenas se deslocando através de meios linguísticos bem pouco 
onerosos; estou me referindo a esta prática perversa da etimologia, que 
entrou na moda particularmente a partir de Heidegger. Estas espécies 
de retrospectivas imaginárias que, no fundo, não têm nada a ver com o 
verdadeiro trabalho de Freud sobre o significante. Não creio que elas 
sejam portadoras de uma mensagem particular do inconsciente. Tudo 
o que Freud pôde utilizar, com ou sem razão, na ordem das mitologias, 
para traduzir suas distribuições conceituais, não deveria, a meu ver, 
ser tomado ao "pé da imagem". É o "pé da letra", em toda sua 
artificialidade, e até é o caso de se dizer, da cifra que é a chave da 
interpretação. Isto fica claro,, num livro como O Chiste e Suas Relações 
com o Inconsciente, onde se vê que as cadeias significantes incons- 
cientes, no "chiste" por exemplo, não mantêm relação particular al- 
guma com as leis da etimologia, podendo a base estar tanto sobre um 
fonema, como uma acentuação, um jogo sintático ou um deslocamento 
semântico. E não é por acaso que aquilo que foi coisificado por Freud, 
e quase que deificado por seus sucessores, sejam as referências míticas 
que lhe passaram pela cabeça um pouco por acaso no início, como meio 
de referência na dramatização e nos impasses da família conjugal. Mas 
não se deveria fazer um mito do mito! Os mitos antigos de referência, 
sobre o tema de Édipo, por exemplo, não têm nada a ver com os 
motores imaginários e as articulações simbólicas da família conjugal 
atual, nem com nosso sistema de coordenadas sociais! 

É ilusão pensar que haveria algo a ler na ordem do ser, para os 
lados de um mundo perdido; pensar que remontar a um ser mítico, 
aquém de toda e qualquer origem histórica, possa se instaurar como 
propedêutica psicanalítica ou como maiêutica. A referência a estas 
espécies de redução mítico-linguísticas não é de nenhuma utilidade na 
condução real de uma cura psicoterápica, ou na instalação de um clube 



110 



FÉLIX GUATTARI 



terapêutico, a menos que se caia num sistema divinatório qualquer! 
O importante é aceder à mensagem singular e ao objeto portador e 
fundador desta mensagem. Um tal objeto não poderia encontrar seu 
sentido a partir de tamanho ilusionismo retrospectivo; só se pode 
esperar recaptar a especificidade da mensagem freudiana na condição 
de desligá-la, de desmamá-la desta paixão de retorno às fontes, mito 
moderno que encontrou seu regime de plena expansão a partir do 
romantismo: a busca infinita de uma verdade impossível, de um além 
da manifestação, no seio da natureza, no coração da noite. . . 

O remédio para sair disso consiste em reorientar-se no sentido da 
história, no sentido do recorte diacrónico do real e de suas tentativas 
provisórias e parciais de totalização. O que eu chamaria de bricolage 
da história e dos agenciamentos sociais. É impossível operar tal reajus- 
tamento sem se colocar previamente a questão: onde está a lei? Ela está 
atrás de nós, atrás da história, aquém de nossa situação real e portanto 
de nosso controle? Ou ela está diante de nós, ao nosso alcance, numa 
possível reapropriação? Como diz Bachelard, é preciso forçar a natu- 
reza a ir tão longe quanto nosso espírito. 1 Quem colocará esta questão? 
Seguramente não serão agrupamentos e sociedades que fundamentam 
sua razão de ser a partir de sistemas a-históricos de legitimidade de 
caráter político ou religioso! Somente poderão afrontá-lo grupos acei- 
tando de cara o caráter precário e transitório de sua existência, acei- 
tando lucidamente o confronto com as contingências situacionais e 
históricas, o face-a-face com o nada, se negando a refundar mistica- 
mente e justificar a ordem existente. 

Hoje em dia, um psicanalista ficará satisfeito se seu analisado 
supera suas fixações arcaicas, se ele por exemplo se casar, tiver filhos, 
se reconciliar com as contingências biológicas e se integrar na socie- 
dade tal como ela é. Quaisquer que sejam as linhas da formação 
analítica, a referência a um modelo predeterminado de normalidade 
permanece implícito. É certo que o analista, em princípio, não espera 
que esta normalização seja o produto de uma mera identificação do 
analisado com o analista, mas nem por isso deixa de trabalhar, e como 
que apesar de si (nem que fosse só do ponto de vista da continuidade da 
cura, isto é, muitas vezes da capacidade do analisado de continuar a 
pagá-lo), num processo de identificação do analisado a um perfil hu- 
mano compatível com a lei social vigente e à assunção de sua marcação 
pelas engrenagens da produção e das instituições. Este modelo, o ana- 
lista não o encontra pronto na sociedade atual. Justamente seu traba- 
lho é de forjar um novo no lugar onde seu paciente não consegue; aliás, 
de modo mais geral, a sociedade burguesa e capitalista moderna não 
têm mais à sua disposição modelo satisfatório algum! É para responder 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



111 



a essa carência que a psicanálise toma seus mitos emprestados às 
sociedades anteriores e é assim que o psicanalista nos propõe um 
modelo pulsional, um tipo de subjetividade e de relações familiares, ao 
mesmo tempo novo e mesclado, sincretismo de elementos arcaicos e 
elementos totalmente modernos. O importante para a ordem social 
dominante é que o modelo esteja em condições de funcionar na socie- 
dade atual. Este é o sentido do que se requer que seja assumido do 
complexo de castração — espécie de sucedâneo de iniciação para as 
sociedades modernas — como saída possíyel dos impasses edipianos. É 
este o sentido também do sucesso e da rentabilidade da psicanálise! 

Para nós, a questão é totalmente outra: trata-se de saber se existe 
ou não possibilidade de poupar o recurso a modelos alienantes, se é 
possível fundar as leis da subjetividade em algo que não seja a coerção 
social e nem o viés mistificante dessas referências míticas mescladas. 
Existe para o homem possibilidade de ele mesmo ser o fundador de sua 
própria lei? 

Tentemos novamente situar alguns conceitos. Se existe um deus 
totalizador de valores, todos os sistemas de expressões metafóricas 
ficarão ligados no grupo sujeitado por uma espécie de cordão umbilical 
phantasioso, que o religa a este sistema de totalização divina. Forçando 
um pouco a formulação, e para evitar cair numa opção idealista, 
partamos da ideia de que não se vai considerar que tal sistema de 
totalização deva ser procurado ao nível do "ramo humano" transmitido 
de esperma em esperma. É verdade que há aí um suporte de transmis- 
são, mas que não chega a constituir uma verdadeira mensagem. Os 
espermatozóides não falam! E todas as ordens das quais dizemos que 
são "estruturadas como uma linguagem" lhe escapam do ponto de 
vista do sentido. A ordem dos valores humanos, tomada como sistema 
de referência, está a um passo dos sistemas de posicionalidade divina. 
O que é que se transmite da mulher grávida a sua criança? Muitas 
coisas: alimentos, anticorpos, mas talvez também e antes de mais nada 
modelos fundamentais da sociedade industrial. Continua não havendo 
fala aí dentro, mas já há uma mensagem, a mensagem da sociedade 
industrial, uma mensagem particular e que será diferente segundo a 
posição em que cada um se encontrar neste negócio. Já se está portanto 
no significante, mas ainda não na fala nem na linguagem. A mensagem 
transmitida não tem muito a ver com as leis estruturais da linguística e 
da etimologia, mas muito mais com aquelas coisas heteróclitas que são 
drenadas pelo dito ramo humano. Tudo o que concerne ao homem em 
sua relação com a demanda mais primitiva é bem marcado pelo signi- 
ficante, mas não necessariamente por um significante que participe de 
uma essência linguística mais ou menos universal. 



112 



FÉLIX GUATTARI 



Assim, tudo que se tenta falar, a um nível que não seja o da fala, 
tudo que é transferência, transmissão, troca, é caracterizado como 
podendo ser cortado, como algo que permite esse jogo de articulação dos 
significantes. Se os objetos de transmissão, os gestos, os olhares che- 
gam a tornar possível a alimentação de uma criança, é que em todos os 
níveis eles estão marcados, diretamente conectados a este sistema de 
cadeias significantes. Qual é a lei das trocas a este nível? Ê impossível 
escapar à questão! Cada vez isso está em jogo e isso 2 está em risco. 
Existe uma precariedade intrínseca às estruturas das trocas, na medida 
em que este significante, que não está "cristalizado" como uma lin- 
guagem, está bem no fundamento da sociedade e, em última análise, 
no fundamento das leis de todo sistema significante, inclusive linguís- 
tico. 

Se a fala não existe na ordem animal, é que o sistema de trans- 
missão e de totalização desta ordem pôde prescindir dela até agora, o 
que não é o caso para o ramo degenerado da humanidade, estando as 
relações da fala, da imagem e da transferência, no homem, vinculadas 
a uma carência fundamenta] — aquilo que Lacan chama de uma 
"deiscência do organismo" 3 — que além disso o obriga a recorrer a 
formas de divisão social do trabalho para sobreviver. Amanhã esta 
sobrevivência dependerá da capacidade das máquinas cibernéticas 
para resolver seus problemas. Será impossível responder à agressão de 
um novo vírus sem a intervenção de calculadoras cada vez mais aper- 
feiçoadas. 

Se faço alusão a este mito da máquina, é para ressaltar o absurdo 
da situação. A calculadora em questão é Deus? Ou o próprio Deus 
preestabeleceu suas sucessivas versões, enquanto elas terão de respon- 
der a toda espécie de problemas mais ou menos contingentes, por 
exemplo aos cálculos estratégicos inéditos colocados por uma nova 
guerra fria? Este mito, afinal de contas, não ilustra melhor os impasses 
da sociedade atual do que a referência caduca às imagens habituais do 
familialismo, do regionalismo e do nacionalismo. Além disso, estes têm 
o inconveniente de funcionarem reforçando as formas de neurose social 
na medida em que elas vão respondendo menos a seu objeto. Este 
imaginário tradicional só parece, com efeito, capaz de se manter 
em sua função de sujeição com a condição de desenvolver sem parar seu 
trabalho de desconhecimento, de neurose de civilização, levando o 
sujeito cada vez mais a recorrer compulsivamente às formas bastardas 
de demanda — demanda cega e sem objeto, dirigida a um deus que se 
tornou sacana? 



NOTAS 



(1) N. do Trad.: Gaston Bachelard, Pkilosophie du Nom, PUF, p. 36. 

(2) N. do Trad. : No original ça, que significa "isso", o pronome demonstrativo, e 
id da segunda tópica freudiana. 

(3) N. do Trad.: Jacques Lacan, Escritos, Perspectiva, col. "Debates", Sâo 
Paulo, 1978. 



Mary Barnes ou 
o Édipo antipsiquiátrico* 



Em 1965, constituiu-se uma comunidade de umas vinte pessoas, 
em torno de Ronald Laing, que instalou-se no subúrbio de Londres, em 
Kingsley Hall, velha mansarda que por muito tempo foi um dos prin- 
cipais núcleos avançados do movimento operário inglês. Durante a 
anos, cabeças da antipsiquiatria e doentes "fazendo carreira na esqui- 
zofrenia" exploraram coletivamente o mundo da loucura. Não a lou- 
cura de asilo, mas a loucura que cada um traz em si, uma loucura que 
se propõem liberar para eliminar as inibições, ou os sintomas de toda 
espécie. Em Kingsley Hall, a gente esquecia - ou fazia força para 
esquecer - a divisão dos papéis entre doente, psiquiatra, enfermeiro, 
etc. Ninguém tinha o direito de dar ou receber diretivas prescrever 
receitas Kingsley Hall tornou-se, então, uma parcela de território 
Uberado da normalidade dominante, uma base do movimento da 

contracultura. 1 . « . 

Os antipsiquiatras queriam ultrapassar as experiências da psi- 
quiatria comunitária; segundo eles, estas ainda não passavam de expe- 
riências reformistas, não questionando, verdadeiramente, as institui- 
ções repressivas e o quadro tradicional da psiquiatria. Maxwell Jones e 
David Cooper, 2 dois dos principais animadores destas tentativas, parti- 
ciparam ativamente da vida de Kingsley Hall. A antipsiquiatria pode, 
assim, dispor de sua própria superfície de inscrição, espécie de corpo 
sem órgão onde cada canto da casa - o porão, a varanda, a cozinha, a 
escada, a capela... -, cada sequência da vida coletiva funcionou 
como engrenagem de uma grande máquina, levando cada um para 
além de seu ego imediato, para além de seus probleminhas, colocando- 
se a serviço de todos, ou oscilando em direção a si mesmo, num 
processo de regressão por vezes vertiginoso. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



115 



Parcela liberada, Kingsley Hall é cercada por todos os lados; 
o velho mundo goteja por todas as suas fissuras; os vizinhos protestam 
contra a sua vida notuma, as crianças do bairro apedrejam as vidraças; 
os policiais aproveitam o menor pretexto para mandar para o verda- 
deiro hospital psiquiátrico os pensionistas demasiadamente agitados. 3 

Mas a pior ameaça contra Kingsley Hall virá, na verdade, do seu 
interior. Ela libertou-se dos constrangimentos mais óbvios, mas perma- 
neceu sob o jugo das reduções mais simplistas ao famoso triângulo — 
pai, mãe, criança — que só serve para encerrar nos moldes da psica- 
nálise edipiana todas as situações que ultrapassam o quadro dos com- 
portamentos ditos normais. 

Seria ou não preciso manter um mínimo de disciplina em Kings- 
ley Hall? Lutas internas pelo poder tornam a atmosfera irrespirável. 
Aaron Esterson, líder da chamada "linha dura" — que passava com 
um livro de Stalin debaixo do braço, enquanto que Laing carregava 
outro de Lênin — é, finalmente, eliminado e, apesar disso, o empreen- 
dimento continuará tendo dificuldades para encontrar seu regime de 
auto-regulagem; depois, a imprensa, a televisão, os meios "na onda" se 
intrometem: Kingsley Hall torna-se objeto de uma publicidade exa- 
cerbada. Uma das pensionistas, Mary Barnes, torna-se uma espécie de 
vedete- da-loucura, o que a faz alvo de ciúmes implacáveis. 

De sua experiência em Kingsley Hall, Mary Barnes e seu psiquia- 
tra, Joseph Berke, fizeram um livro. 4 Uma confissão de uma ingenui- 
dade desconcertante. Ao mesmo tempo, uma aventura exemplar de 
liberação do "desejo louco" e um dogmatismo neobehaviorista, 5 umas 
sacadas geniais e um familiahsmo impenitente, aliado ao puritanismo 
mais tradicional. Mary Barnes — a louca — esclarece em alguns 
capítulos de confissão aquilo que nenhum "antipsiquiatra" tinha mos- 
trado: a face oculta da antipsiquiatria anglo-saxã. 

Mary Barnes é uma ex-enfermeira que foi tachada de esquizo- 
frênica, da mesma forma que poderia ter sido classificada entre os 
histéricos. Ela leva ao pé da letra as recomendações de Laing a respeito 
da "viagem": sua "regressão à infância" é cumprida à maneira de um 
kamikase; seus anos de "descida" a conduzem várias vezes à beira da 
morte por inanição. Todo mundo se apavora: seria ou não preciso 
mandá-la para o hospital? Isto desencadeia "uma crise gigantesca" na 
comunidade. Mas é preciso lembrar que, quando de seus períodos de 
"subida", os problemas do grupo nem por isso se ajeitavam; ela só 
admite lidar com as poucas pessoas nas quais investe massivamente seu 
familialismo e seu misticismo, isto é, antes de mais nada, sobre Ronnie 
(Laing), que venera feito Deus, e sobre Joe (Berke), que se torna tudo 
ao mesmo tempo: seu pai, sua mãe e seu amante espiritual. 



■ 116 



FÉLIX GUATTARI 



Assim, ela constituiu para si uma pequena terrinha edipiana, que 
encontrará ressonância em todas as tendências paranóicas da institui- 
ção. Seu gozo concentra-se na consciência dolorosa — que a atormenta 
sem tréguas — do mal que desencadeia em tomo de si. Ela se opõe ao 
projeto de Laing, e, no entanto, este projeto é o que ela tem de mais 
precioso! Quanto mais sente-se culpada, mais se castiga, mais agrava- 
se o seu estado, desencadeando reações de pânico à sua volta. Ela 
reconstituiu o círculo infernal do familialismo — e ainda envolvendo 
pelo menos vinte pessoas — , o que sé serviu para agravar a situação. 

Ela se faz de bebé; deve-se alimentá-la com mamadeira; passeia 
nua, coberta de coco; mija em todas as camas, quebra tudo ou deixa-se 
morrer de fome. Ela tiraniza Joe Berke, impede-o de sair, persegue sua 
mulher a tal ponto que, um dia, não aguentando mais, ele a enche de 
porrada. Implacavelmente, há a tentação de voltar aos bons e velhos 
métodos dos hospitais psiquiátricos. Joe Berke se pergunta — como é 
que se pode explicar que "um grupo de pessoas empenhadas em des- 
mistificar as relações sociais das famílias perturbadas, acabam se com- 
portando como uma delas"? 

Ainda bem que Mary Barnes é apenas um caso-limite. Nem todos 
se comportam assim, em Kingsley Hall! Mas não será precisamente ela 
quem está colocando os verdadeiros problemas? Será certo mesmo que 
a compreensão, o amor e todas as outras virtudes cristãs, conjugadas a 
uma técnica de regressão mística, bastam para exorcizar os demónios 
da loucura edipiana? 

Laing é, seguramente, um daqueles que mais se engajaram na 
demolição da psiquiatria. Ê verdade que ele transpôs os muros dos 
hospícios, mas tem-se a impressão de que permaneceu prisioneiro de 
outros muros que traz em si mesmo; ele ainda não conseguiu se desven- 
cilhar da pior das sujeições, do mais perigoso duplo-vínculo, 6 o do 
"psicanalismo" — retomando a feliz expressão de Robert Castel — 
com seu delírio de interpretação significante, suas representações de 
fundo falso e seus irrisórios abismos. 

Laing acreditou que pudesse desmantelar a alienação neurótica, 
centrando a análise na família, nos "nós" internos. Para ele, tudo parte 
da família. No entanto, gostaria que se conseguisse sair dessa e que a 
gente se fundisse ao cosmos e que se explodisse a cotidianeidade da 
existência. Mas a sua explicação não consegue livrar o sujeito deste 
domínio familialista, que ele só considerou como um ponto de partida e 
que, no entanto, o recupera a cada esquina. Ele tenta resolver as 
dificuldades refugiando-se numa meditação do tipo oriental, que não 
poderia impedir por muito tempo a intrusão de uma subjetividade 
capitalista — que dispõe de meios bastante sutis. Não se pode dar lugar 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



117 



algum ao Édipo: enquanto não se atacar frontalmente essa mola essen- 

tll^T CaPÍtaUSta ' nã ° 56 P ° derá mudar na da deT Lvo na 
economia do desejo e, portanto, no estatuto da loucura 

Neste livro, trata-se por toda parte de fluxo de merda, de mijo 

de leite ou de pintura. Mas é significativo assinalar que, quase nunca 

esta em questão o fluxo de dinheiro. Não se sabe m uito bem como esse 

aspecto funciona, deste ponto de vista. Quem detém o dinheiro, quem 

Í^^ C °TT\T em é Pag ° ? A unidade parece viver de brisa: 
mer, o irmão de Mary, sem dúvida muito mais engajado do que ela 
num processo esquizo, não aguenta este estilo boémio de Kingsley Hall 
Tem » barulho, muita bagunça e, além disso, o que' 2 quer 
mesmo e se segurar no emprego. 4 

Kin^wT ÍL ma ?■ atormenta ! é P r «iso que se instale com ela em 
Sffi HaU ; 4 ^ e hhsmo implacável da regressão: Você vai ver só, 
voce fará sua viagem", vai poder pintar e irá até o fundo da sua lou^ 

ZL'!^ V° UCU !f dC PCter é muit0 mais ^quietante. Ele não está 
muito a fim de se atirar neste tipo de aventura! Talvez se possa per- 

re^ssTf^ r T?** T* Verdaddra viagem de es <^° e "ma 
regressão familialista de estilo pequeno-burguês. O esquizo não é lá 

Z? ' °? " Calor humano '* Seu ca *> é ^ Para as 

ban das dos fluxos desterritorializados: fluxos de signos cósmicos "mi- 
lagrosos , mas também fluxos de signos monetários. O esquizo S> 
desconhece a realidade do dinheiro - mesmo que o use de maneira 
incomum - assim como não desconhece realidade alguma. O esquizo 
nao se faz de criança. O dinheiro é, para ele. um meio de referência 
como qualquer outro, e justamente ele precisa dispor do maior número 
possível de sistemas de referência para poder se manter distante A 
troca e, para ele, um meio para evitar as misturas. Em suma, Peter 
gostaria e que não o pentelhassem com estas histórias chatas de comu- 
nidade que ameaçam sua relação singular com o desejo 

A neurose familialista de Mary é completamente diferente- ela 
não sossega, enquanto não reconstitui pequenas territorialidades f ami- 
5'" 6 Uma - eSP !! ie 6 vam P irismo d ° "calor humano". Mary se agarra 
*SZ ' P ° r eXe u Pl °' da havia P edido a Anna F ^d que a 

S£Sf«T maS ' na suacabe ? a - ist0 significava que seu irmão e ela se 
instalariam em sua casa e que passariam a ser seus filhos. Ê esta 
operação que tentou recomeçar com Ronnie e Joe. 

O familialismo consiste em negar magicamente a realidade so- 
cial, em evitar todas as conexões com os fluxos reais, só permanecendo 
possíveis o sonho e o isolamento infernal do sistema conjugal-familial 
ou então, nos grandes momentos de crise, um pequeno território mise- 
rável para se retrair solitário. Foi assim que Mary Barnes funcionou em 



118 



FÉLIX GUATTARI 



Kingsley Hall, como missionária da terapêutica de Laing, como mili- 
tante da loucura, como profissional. 

Graças a essa confissão, aprendemos mais da antipsiquiatria do 
que com a leitura de uma dúzia de obras teóricas sobre o assunto. 
Pode-se, enfim, entrever as sequelas do "psicanalismo" nos métodos de 
Laing e de seus amigos. 

Do Freud dos Estudos Sobre a Histeria às análises estruturalistas 
último tipo, todo método psicanalítico consiste em reduzir qualquer si- 
tuação por meio de três crivos: 

— a interpretação: uma coisa deverá sempre significar outra 
coisa diferente dela própria. A verdade não poderia ser mais 
apreendida na atualidade das intensidades e das relações de 
forças mas somente através de um jogo de chaves signifi- 
cantes; 

— o familialismo: essas chaves significantes são essencialmente 
redutíveis a representações familiais. Para atingi-las, se pro- 
cederá por regressão, induzindo-se o sujeito a "reencontrar" 
sua infância. De fato, uma certa representação "impotencia- 
lizada" da infância, uma infância da memória, uma infância 
mítica, uma infância-refúgio, como negativo das intensidades 
atuais, que fica sem nenhuma possibilidade de relação com 
aquilo que a infância foi positivamente; 

— a transferência: no prolongamento da redução interpretativa 
e da regressão familialista, reinstala-se o desejo num espaço 
debilitado, uma miserável terrinha identificatória (o divã do 
analista, seu olhar, sua suposta escuta). Sendo regra do jogo 
que tudo que se apresente seja reduzido em termos de inter- 
pretação e imagens de papai-mamãe, nada mais resta senão 
proceder à derradeira redução da bateria significante, que 
passará a funcionar com um só termo: o silêncio do analista, 
contra o qual virão se chocar todas as questões. A transfe- 
rência psicanalítica, espécie de desnatadeira da realidade 
do desejo, faz o sujeito cair numa vertigem de abolição, uma 
paixão narcísica. Apesar disso ser menos perigoso do que 
a roleta-russa, não deixa de conduzi-lo — se tudo correr 
bem — a uma irreversível fixação a-sutilezas de décima cate- 
goria, que acabarão por expropriá-lo de todo e qualquer 
investimento social. 

Todo mundo está cansado de saber que estes três crivos não 
funcionam lá muito bem com os loucos: suas interpretações e suas 
imagens são muito distantes das coordenadas sociais dominantes. Ao 
invés de renunciar a este método, em Kingsley Hall optou-se por tentar 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



119 



aprimorar os crivos, para reforçar seus efeitos. Assim, a interpretação 
silenciosa da análise dual é substituída por uma interpretação coletiva 
— e barulhenta — , uma espécie de delírio de interpretação comum É 
verdade que o método encontra uma nova eficácia: não mais se con- 
tenta com um jogo de espelhos entre as palavras do paciente e o silêncio 
do analista; há, também, as coisas, os gestos, as relações de força Joe 
Berke, caindo na esparrela da regressão de Mary Barnes, passa a res- 
mungar, fazer-se de crocodilo, morder, beliscar, fazê-la rolar em sua 
cama... coisas ainda um tanto raras, entre os psiquiatras comuns. 

Estamos quase! Estamos prestes a desembocar numa outra prá- 
tica, em outra semiótica. Vamos romper as amarras dos princípios 
sagrados de significância e de interpretação. Mas não, toda vez o 
psicanalista se recupera, reinstitui suas coordenadas familialistas E ele 
cai em seu próprio jogo: quando Joe Berke precisa sair de Kingsley 
Hall, Mary faz tudo para impedi-lo. Agora não é mais só a análise que 
e interminável, mas a sessão também! Ê assim que só se zangando pra 
valer e que Berke consegue libertar-se de sua "paciente" por algumas 
horas e participar de uma reunião sobre a guerra do Vietnã. 

A contaminação interpretativa tornou-se sem limites. Paradoxal- 
mente, Mary é a primeira a romper este círculo, através da pintura. Em 
alguns meses, tornou-se uma pintora famosa 7 e, no entanto, até nisso a 
interpretação não perdeu seus direitos: se Mary sente-se culpada ao ter 
suas aulas de desenho, é porque o hobby de sua mãe era a pintura e se 
sentina contrariada se soubesse que a filha lhe era superior nisso Do 
lado-pai, a coisa também não é melhor: "Agora, com todas essas pin- 
turas você possui o pênis, o poder, e seu pai se sente muito amea- 
çado . 

É com comovente empenho que Mary se esforça para engolir toda 
essa bagunça psicanalítica. Ela destoa da atmosfera comunitária de 
Kingsley Hall: não quer transar com qualquer um; rejeita os outros 
porque quer assegurar-se de que a pessoa que se ocupa dela esteja bas- 
tante impregnada do pensamento de Ronnie: "Quando adquiri a noção 
de seio, de um seio protetor, o seio de Joe, um seio que eu poderia 
mamar sem ser destituída de mim mesma, nada mais me reteve. ( ) 
Quando Joe me enfiava o dedo na boca, ele me dizia com isso: 'Olha 
eu posso entrar em você, sem te dominar, sem te possuir e sem té 
roubar'." 

Aqui, o próprio psicanalista acaba sendo excedido pela máquma 
interpretativa que ele contribuiu para desencadear. Ele confessa- 
Mary interpretava tudo o que fazíamos por ela (ou pelos outros) como 
elemento da psicoterapia. Se o carvão não era entregue a tempo era 
psicoterapia, e assim por diante, até as conclusões mais absurdas".' Isto 



120 



FÉLIX GUATTARI 



não impediu Joe Berke de continuar a se debater com suas próprias 
interpretações, cujo único objetivo era o de fazer com que sua relação 
com Mary entrasse no triângulo edipiano: "A partir de 1966, pude 
desvendar que papel eu desempenhava para ela: 'mamãe' tomava a 
dianteira, quando ela era Mary-o-bebezinho; 'papai' e 'Peter, seu 
irmão' , disputavam o segundo lugar. Eu me esforçava sempre, quando 
Mary me assimilava a outra pessoa, para fazê-la perceber isso, a fim de 
ajudá-la a escapar da sua teia de aranha, e preservar meu próprio 
sentido de realidade". Mas lhe foi impossível ir até o fim desta teia: 
Mary conseguiu jogar toda a casa para dentro dela. 

Vejamos agora a técnica da regressão na infância e a transfe- 
rência: desenvolvidas em um meio comunitário, elas acentuam seus 
efeitos de "desrealização". No face-a-face analítico tradicional, a rela- 
ção dual, o caráter artificial e delimitado do roteiro da "sessão" cons- 
tituiu-se numa espécie de barreira protetora contra os transborda- 
mentos imaginários. Em Kingsley Hall, Mary Barnes confronta-se com 
uma morte real ao cabo de cada uma das suas "viagens", e a instituição 
inteira é tomada por uma tal tristeza e angústia — também elas reais — 
que Aaron Esterson volta aos velhos métodos da autoridade e da su- 
gestão: Mary estava à beira da morte por inanição e ele a proíbe brutal- 
mente de continuar seu jejum. 

Alguns anos antes, é com a mesma brutalidade que um psica- 
nalista católico a tinha proibido de se masturbar, explicando-lhe, como 
ela conta, que isso era um pecado ainda mais grave do que dormir com 
um rapaz sem ser casada. E, aí também, esse método funcionou. Na 
verdade, este retorno à autoridade e à sugestão não seria o correlato 
inevitável dessa técnica de regressão desenfreada? Na brusca virada à 
beira da morte, um papai-polícia sai das sombras. O imaginário, 
sobretudo o do psicanalista, não constitui, de forma alguma, uma 
defesa contra a repressão social; ao contrário, ele a convoca secreta- 
mente. 

Um dos ensinamentos mais ricos desse livro é, talvez, de nos 
mostrar a que ponto é ilusório esperar reencontrar um desejo durão, 
partindo à procura dos nós escondidos no inconsciente e das chaves 
secretas de interpretação. Não há nada que possa destrinchar, pela 
mágica da transferência, os conflitos micropolíticos reais, dos quais o 
sujeito é prisioneiro. Não há nenhum mistério; não há subterrâneos ou 
antimundos. Não há nada a se descobrir no inconsciente. O incons- 
ciente está para ser construído. Se o Édipo de transferência não resolve 
o Édipo familial, é porque ele permanece profundamente atrelado ao 
indivíduo familiarizado. 

Sozinho no divã, ou em grupo, numa regressão institucional, o 
"neurótico-normal" (você e eu) ou o "neurótico do psiquiatra" (o 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



121 



louco ) continuam a pedir e pedir Édipo sem parar. Os psicanalistas 
cuja formação e prática, como um todo, fazem com que eles sejam 
dopados pela droga redutora da interpretação, não poderiam senão 
reforçar essa política de esmagamento do desejo: a transferência é uma 
técnica de desencaminhamento dos investimentos do desejo. Longe de 
moderar a corrida em direção à morte, ela parece, ao contrário, ace- 
lera-la, acumulando, como num ciclotron, as energias edipianas "indi- 
viduadas", naquUo que Joe Berke denomina "a espiral viciosa puni- 
çao-colera-culpabilidade-punição". E isso só podeconduzir à castração, 
a renuncia e à sublimação: um ascetismo cafona. Os objetos da culpa- 
bilidade coietiva se revezam e acentuam os impulsos punitivos autodes- 
trutivos, reforçando-os através de uma repressão real, feita de cólera 
ciúme e medo. 

A culpabilidade torna-se uma forma específica da libido — um 
Eros capitalista - quando ela entra em conjunção com os fluxos 
desterntonalizados do capitalismo. Ela encontra, então, uma nova via 
uma solução inédita, fora dos quadros familiais, asilares ou psicana- 
líticos. Eu não devia, o que eu fiz não é legal, e quanto mais eu sinto 
isso mais tenho de fazê-lo, pois, desta maneira, consigo existir nessa 
zona de intensidade da culpabilidade. Só que esta zona, ao invés de 
estar corporalizada", agarrada ao corpo do sujeito, a seu ego, à sua 
família, tomará conta da instituição — a verdadeira patroa de Kingsley 
Hall, no fundo, era Mary Barnes. E ela sabia disso. Tudo girava em 
torno dela, que não fazia senão brincar de Édipo, ao passo que os 
outros estavam lindamente presos ao edipianismo coletivo. 

No dia em que Joe Berke a encontrou coberta de cocô e tremendo 
de frio, seus nervos estouraram. Ele tomou, então, consciência de "seu 
poder extraordinário de evocar o pesadelo favorito de cada um e de 
encarná-lo". Assim, em Kingsley Hall, a transferência não é mais 
contida pelo analista, mas prolifera para todos os lados, ameaçando 
ate mesmo ele. Faltou pouco para que as amarras psicanalíticas se 
rompessem pra valer e que as intensidades desejantes, os "objetos 
parciais ', seguissem suas próprias linhas de fuga, sem serem mais 
perseguidas pelos sistemas de interpretação, devidamente codificados 
pelos esquemas sociais da "realidade dominante". 

Por que essa tentativa desesperada, em Joe Berke, de tornar a 
colar a multiplicidade esparsa, através da qual Mary "experimenta" a 
dissolução de seu ego e procura fazer explodir sua neurose? Porque este 
retorno aos pólos familiais, à unidade da pessoa, impedem Mary de se 
abrir a todo um campo social exterior, no fundo potencialmente muito 
rico. A etapa inicial da sua reconstituição podia se comparar a meus 
esforços para reconstituir um quebra-cabeças, do qual eu não possuía 



122 



FÉLIX GUATTARI 



todas os elementos. Entre estes elementos esparsos, muitos tinham suas 
partes convexas cortadas e suas partes côncavas entupidas, tanto que 
me era praticamente impossível dizer como eles se encaixavam. É claro 
que este quebra-cabeças configurava a vida afetiva de Mary, os ele- 
mentos eram seus pensamentos, seus atos, associações, sonhos, etc." 

O que prova que a solução para Mary Barnes deva ser procurada 
pelas bandas da regressão infantil? O que nos prova que a origem de 
seus distúrbios provenha de perturbações, de bloqueios dos sistemas 
das comunicações intrafamiliaís da sua infância? Por que não consi- 
derar o que se passou em torno da família? Efetivamente, constata-se 
que todas as portas que dão para fora se fecharam brutalmente na sua 
cara, quando tentou transpô-las; é assim que, do lado de fora, eia 
sempre encontrou um familialismo sem dúvida ainda mais repressivo 
do que aquele que conhecera durante a infância. E se os pobres pai e 
mãe Barnes não tivessem sido senão transmissores miseráveis e por fora 
da tempestade repressiva que desabava no entorno? Mary não estava 
"fixada" à infância; ela, simplesmente, não encontrou a saída! Seu 
desejo de uma saída real era demasiadamente exigente e violento para 
adaptar-se aos compromissos externos. 

O primeiro drama explode na escola. "A escola era perigosa." 
Ela ficava paralisada, aterrorizada na cadeira, confrontava-se com a 
professora. "Na escola quase tudo me angustiava..." Fingia ler, fingia 
cantar, fingia desenhar... E, no entanto, seu desejo era ser escritora, 
jornalista, pintora, médica! Um dia, lhe explicarão que tudo isso era 
uma maneira de querer tornar-se homem. "Eu tinha vergonha desse 
desejo de ser doutor. Sei que esta vergonha estava ligada — e eis que 
recomeça o interpretacionismo — ao enorme sentimento de culpa que 
me dava o desejo de ser um garoto. Tudo o que eu tinha de masculino 
em mim devia ficar escondido, secreto, ignorado." 

Padres e tiras de toda a espécie empenharam -se em culpabilizá-la 
por qualquer coisa e, em particular, a masturbação. Quando ela re- 
signa-se a ser enfermeira e se alista no exército, é um outro impasse. 
Num determinado momento, quer ir à Rússia porque ouviu dizer que lá 
"toleravam que uma mulher tivesse filhos e não tivesse marido". 
Quando decide entrar no convento, sua fé religiosa é posta em dúvida: 
"o que é que está te levando para a Igreja?". 

E os padres, sem dúvida, não estavam errados. Seu desejo de 
santidade não parecia lá muito religioso. Por fim, tudo isso acaba 
desembocando no hospício. E até mesmo lá ela está disposta a fazer 
alguma coisa, a se dar aos outros. No dia em que traz para o pensio- 
nato um buque de flores para uma enfermeira, flagra-se dizendo: "Vá 
embora! Aqui não é lugar para você!". E, assim, poderíamos detectar 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



123 



para a famílL E Sfa ^ST^f*' MaS tudo a fa 
Ki"g*y Hall! Vi s ,o q S aISZaS, faSST. S " a pass ' 8enl p< * 
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NOTAS 

PeterOwLudS íke C ™>™ °f °» Altenu^e Society, 

Paulo. ( 1979 N - d ° Trad - : DaWd C ° 0per ' P ^ri aeAntipsiquiatria> perspectiva 

uma verdadeira fera que atacou com u l ^ r ™ C ° m 3 repressao alema . 

Hvro; ^^^^^^^ * ^attaH a « deste 
Janeiro, 1977. lagem Através da Loucura, Francisco Alv es , Ri 0 de 

do «tTSiTn^^ 0» »* * a Psicologia ao estudo 

respostas do sujeito . O .rt^J^ «««« (stínuli) e as 
humanos a questões de comunica™" iníoi^ , redu " r J t ° doS 05 P roblei »as 
sócio-poKticos do poder em todos os .uveis ln{0rmaÇao ' de « ando 46 !»*> os problemas 

^^S^^^^Z Plano das comunica,^ entre os 
- arte louca fde «T^t^ZZ^J^ 



A trama da rede* 



A Rede, constituída em janeiro de 1975 em Bruxelas sobre o tema 
"a alternativa ao Setor", se propõe a assegurar a circulação das infor- 
mações sobre as numerosas experiências que vem se desenvolvendo 
atualmente à margem dos quadros oficiais, orando ^contros 
tanto de equipes como de pacientes, e isto não so sob a forma de ^ coló- 
quios ou de congressos, mas igualmente por meio de manifestações 
teatrais, festas, produção de vídeo, de filmes, etc. Ampliando as for- 
mas de expressão habituais, a Rede intentaria contribuir para que a 
contestação da psiquiatria saia dos debates de idéias, desvinculadas de 
Sdí e qualquer realidade, para os quais ela resvala tão frequente- 

meDte Alguns dos iniciadores desta Rede, que viveram de perto as 
tentativas de modernização da psiquiatria francesa, e que tinham se 
engajado de boa fé na política dita de "Setor", vieram a considerar que 
não se resolverá problema fundamental algum, neste campo enquanto 
não se tomar como objetivo o que eles chamaram de uma despsiquia- 
trizacão da loucura. As reformas e as inovações técnicas, quaisquer que 
sejam elas, resultarão, segundo eles, apenas na passagem de um modo 
de confinamento a um outro, de uma camisa-de-força física a uma 
camisa-de-força neuroléptica, e por que não psicoterapeutica ou psica- 
nalítica. Foi feita também uma severa avaliação crítica das diferentes 
"correntes inovadoras" que não fizeram senão acentuar o esquadn- 
nhamento da loucura, colocando-se a serviço da empresa clássica de 
reabsorção, de adaptação, de neutralização da desrazão, descrita por 
Michel Foucault em sua História da Loucura. 

Nenhum distúrbio mental, nenhuma forma de desvio podem ser 
separadas de seu contexto familiar, profissional, económico, etc. Uma 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



125 



experiência inovadora enquanto tal manifesta por si mesma um sin- 
toma social e não escapa a esta regra: cortada do contexto dos afron- 
tamentos sociais, e em particular das lutas dos trabalhadores de saúde 
mental, ela corre o risco de ser isolada e de estiolar-se rapidamente, 
como foi o caso frequente das experiências comunitárias inglesas. 
A perspectiva de uma alternativa popular à psiquiatria, sem reduzir a 
loucura a um simples fenómeno de alienação social, sem reduzir a 
contestação da opressão psiquiátrica somente ao rol das lutas sociais 
contra a exploração capitalista, considera que as experiências militan- 
tes possam se apoiar simultaneamente nas organizações políticas e 
sindicais do movimento operário, e nas diferentes formas de lutas, de 
caráter novo, que concernem hoje à condição feminina, à condição 
penitenciária, à condição da infância, dos trabalhadores imigrados, 
etc. Trata-se menos, em suma, de politizar a loucura, do que abrir a 
política a uma tomada de consciência sobre uma série de problemas 
que foram por demasiado tempo ignorados pelas organizações tradicio- 
nais. 

Desde 1968, vimos desenvolver-se, na França, uma infinidade de 
grupos esforçando-se por operar uma ruptura radical com o modo de 
abordagem habitual do sistema psiquiátrico clássico. 1 

As preocupações maiores deste novo tipo de ação militante estão 
centradas no que os membros da Rede nomeiam "a condição dos 
psiquiatrizados". Estamos longe do estilo do que havia sido a primeira 
"revolução psiquiátrica", que, desde a Libération em 1945 até 1960, 
agitava algumas dezenas de psiquiatras e um punhado de altos funcio- 
nários do Ministério da Saúde! Naquela época os psiquiatras progres- 
sistas se propunham a "ir em direção" aos doentes e a "ir em direção" 
aos enfermeiros. Era a política dos "clubes intra-hospitalares" (ani- 
mada pela Fédération des Croix Marines), a política dos estágios de 
formação para enfermeiros (animada pelo Centro d'Entrainement aux 
Méthodes Actives), a política de abertura à população, por meio dos 
equipamentos extra-hospitalares, de tratamentos a domicílio, etc. Era 
também a época em que a psicoterapia institucional esperava fazer com 
que os doentes, os membros das equipes e a instituição como um todo 
se beneficiassem das vantagens da psicanálise. Com a Rede Internacio- 
nal, tudo leva a crer que uma página foi virada. Não se quer mais "ir 
em direção a"! Procura-se fazer com que as coisas partam dos próprios 
interessados. A psicoterapia, os tratamentos, a animação, quando 
necessários, deverão ser autogeridos e os especialistas de certa maneira 
não intervirão senão como assistentes técnicos. 

Tentativas desta ordem se desenvolveram nos EUA, nos guetos 
de South Bronx, em Nova Iorque, com Mony Elkaim(que faz hoje um 



126 



FÉLIX GUATTARI 



trabalho semelhante com a equipe de "la Gerbe", num bairro pobre de 
Bruxelas). Na Itália também foram levadas experiências muito interes- 
santes nesta direção, em particular pela equipe de psiquiatras, psicó- 
logos, enfermeiros, agrupados desde 1969 em torno de Giovanni Jervis, 
em Reggio Emilia. Aqui nâo são mais apenas os muros do asilo que se 
tenta destruir, mas igualmente os muros do profissionalismo: a medi- 
cina mental aqui é feita diretamente com os membros do gueto, com os 
trabalhadores das fábricas, nos vilarejos, apoiando-se sobre "parapro- 
fissionais" 2 formados na prática. 

Infelizmente, com bastante frequência, tais experiências perma- 
necem frágeis. A de Giovanni Jervis está para terminar (apesar de que 
sua equipe permanece muito unida) principalmente pelos obstáculos 
políticos, ligados às orientações da esquerda histórica italiana que 
teme, apoiando empreendimentos demasiado inovadores, aterrorizar 
seus parceiros social-cristãos. É necessário portanto que uma ligação 
constante seja mantida entre as ações minoritárias de alternativa à 
psiquiatria e as lutas sociais mais gerais. As campanhas de informação 
antipsiquiátricas e os debates teóricos sobre a loucura e a repressão 
psiquiátrica, levadas através dos mass-media e a partir de algumas 
experiências comunitárias, não são suficientes para modificar de ma- 
neira duradoura as relações de força presentes. E é com o objetivo de 
ultrapassar o caráter por demais minoritário, entenda-se elitista, do 
qual a antipsiquiatria raríssimas vezes se distanciou, que se constituiu 
na Itália, em 1973, em torno de Franco Basaglia, a associação Psy- 
chiatria Democrática. Ela agrupa cerca de 2000 médicos, psicólogos, 
enfermeiros, assistentes sociais, no seio de 27 grupos provinciais, com 
funcionamento muito autónomo. Ela se esforça para mobilizar a opi- 
nião e para exercer uma pressão constante sobre os poderes públicos 
visando transformar estruturas psiquiátricas que se mantiveram dema- 
siado retardatárias naquele país. Os membros desta associação consi- 
deram que uma tomada de consciência política dos trabalhadores de 
saúde mental deverá se caracterizar pela recusa da passividade, pela 
recusa de se tornarem "funcionários do consentimento". 

Sem deixar de admitir a realidade do problema psiquiátrico 
(e é aí que reside sua diferença com a antiga antipsiquiatria) , eles se recu- 
sam a fornecer alibis "científicos" a problemas psicopatológicos que re- 
metam a questões de vida social, de organização de trabalho, de urba- 
nismo, de métodos escolares. . . 

E verdade que o srrgimento deste novo tipo de intervenção é 
inseparável das condições bem particulares em que se desenvolvem as 
lutas sociais na Itália: com efeito, há aproximadamente dez anos 
numerosos trabalhadores italianos vêm tomando consciência de proble- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



127 



mas novos e se organizando para impor reformas concernentes à habi- 
tação, aos transportes, às estruturas médicas. Psychiatria democrática 
pode se desenvolver bem melhor por ter sabido ganhar a escuta ime- 
diata de organizações operárias, de comissões de empresa, de sindica- 
tos, de partidos de esquerda que já estavam assim sensibilizados a esses 
tipos de problemas. 

Sem dúvida que não é por acaso que esta nova "alternativa mili- 
tante à psiquiatria" tenha surgido nos países em que a situação dos 
hospitais psiquiátricos era a mais atrasada (os guetos de Nova Iorque, a 
Itália, a Espanha...) e onde as perspectivas ambíguas de setorização 
não tiveram sequer a possibilidade de iludir. Com efeito, se é verdade 
que as soluções aos problemas psiquiátricos são políticas antes de 
serem técnicas, não há por que se espantar que elas se configurem o 
mais claramente nas situações revolucionarias ou pré-revolucionárias. 3 



NOTAS 

(1) N. do Trad.: GIA, Cahiers Pour Ia Folie, Psychiatrisés en Lutte, AERLIP 
Tankonalasantê, Garde-fbus, Brèches, Le Vouvray, Psyckiatrie en Liberté de St. -Dizier 
La Gratte, para nao citar, e aliás de maneira arbitrária, senão os mais conhecidos destes 
grupos, comumdades, ^-clínicas, jornais, etc. Mas seria também preciso mencionar 
as experiências como aquela animada por Irène Baloste-Foutier num bairro de Villeur- 
oanne, onde trabalhadores imigrados, trabalhadores de saúde mental e grupos de 
crianças gerem uma casa comunitária (esta experiência "marginal" não deixa por isso de 
ser financiada pela DASS, pela Previdência Social, pela municipalidade, como asso- 
ciação sem fins lucrativos). 

(2) N. do Trad.: Os paraprofissionais são membros da comunidade, ao lado dos 
quais trabalham certas equipes de "saúde mental" no sentido de reconhecer o poder 
potencial da população para autogerir a resolução de seus problemas. E uma experiência 

,u P ^ 3 dC S ° Ut ? 1 Bronx citada no texta M - a loucura é > PT exemplo, pensada e 
trabalhada nos terreiros dos cultos de origem afro dos porto-riquenhos. Trabalhos como 
este vem-se desenvolvendo em vários países que ainda preservam zonas sociais onde a 
loucura nâo se encontra inteiramente medicalizada. 

(3) N. do Trad. : O endereço do secretariado da Rede Internacional "Alternativas 
à Psiquiatria" é 

Dr. Mony Elkalm 

5, Square des Nations 

Bruxelles 1050, Bélgica 

Além desse, há um secretariado para a América Latina: 
Procesos de Acción Comunitária 
Apartado Postal 698 
Cuernavaca, Morelos 
México 

, R e 0 comendamos a tàrura de Alternativa â la Psyckiatrie - Collectif Internado- 
nal, 10/18. 



Antipsiquiatria e antipsicanálise* 



E — Para você, como é que começou o que poderia ser chamado de 
"o caso da antipsiquiatria"? 

FG — Primeiro, Basaglia e Jervis vieram a La Borde por volta de 
65/66 e deram artigos para a revista Recherches. Depois, apareceu não 
tanto uma clivagem de ideias, mas uma diferença de estilo. Eles não se 
interessavam nem um pouco por nossas tentativas reformistas do tipo 
psicoterapia institucional. A situação na Itália já estava muito diferente 
e as concepções deles eram bem mais militantes. Surgiu em seguida o 
filão inglês, com Laing e Cooper, que também pubhcaram artigos na 
revista Recherches. Eles tinham vindo às Jornadas da infância alie- 
nada" organizadas por Maud Mannoni e por Recherches. Seu estilo de 
ruptura com as instituições também não tinha muita coisa a ver com o 
de La Borde aliás nem com o de Maud Mannoni, ou com o de Lacan. 
Ulteriormente, essas diferenças de estilo revelaram divergências mais 
profundas. Quanto a mim, é verdade que também mudei muito desde 
então. 

E — O que é a antipsiquiatria? 

FG — Antes de tudo um fenómeno literário, dos meios de comuni- 
cação de massa, desenvolvendo-se a partir dos dois focos, inglês e 
italiano. Mas, por outro lado, ela revelou a existência de interesse por 
estas questões: uma vasta opinião pública, no contexto dessa nova 
cultura" que começava a surgir. Ao passo que, até então, convenhamos 
que a única coisa que se conseguiu dizer, escrever ou fazer em relação a 
isto na França, interessava apenas a alguns míseros enfermeiros e a 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



129 



um punhado de psiquiatras. A antipsiquiatria conseguiu realmente 
abrir caminho no seio do grande público. 

Hoje em dia, nenhum dos "inventores" da antipsiquiatria se 
identifica com ela. Laing diz: "Eu nunca falei sobre isso". Basaglia 
considera que se trata de uma mistificação que deve ser denunciada. 
Enquanto isso, na França, ela se tornou uma espécie de género literário 
e cinematográfico. Hoje em dia, dá para fazer carreira literária, publi- 
cando um livrinho no estilo "Nunca mais serei psiquiatra", "Nunca 
mais serei enfermeiro", "Nunca mais serei louco"... Alguns grupelhos 
se meteram nesta trilha, como Poulidor na trilha de Merckx. 1 Mas o 
que foi realmente importante é que a antipsiquiatria marcou um início 
de conscientização, não só por parte do grande público, mas também 
por aqueles que se convencionou chamar de "os trabalhadores de saúde 
mental". A descoberta da articulação da repressão psiquiátrica com as 
outras formas de repressão foi, a meu ver, um fenómeno decisivo, cujas 
consequências estamos ainda por avaliar. 

No entanto, esta tomada de consciência foi, por sua vez, parcial- 
mente recuperada por certas correntes psicanalíticas, para as quais 
não custava nada dizer que a psiquiatria era uma infâmia. Suben- 
tenda-se: nós, com nosso divãzinho, curamos o mundo sem tocá-lo e 
sem fazer mal a ninguém. 

E — Pode-se ligar a antipsiquiatria com Maio de 68 na medida em que 
este foi essencialmente uma denúncia das instituições. Ora, o asilo, 
como a prisão, era uma instituição de confinamento, geralmente no 
meio da cidade, e que literalmente ninguém via. 

F.G. — O questionamento da prisão e do asilo foi muito parcial em 68. 
Lembro- me que tivemos, na ocasião, intensas discussões com amigos 
tais como Alain Geismar 2 ou Serge July, 3 em que pretendíamos colocar 
no mesmo plano militantes vítimas da repressão e o conjunto dos pi- 
rados, dos prisioneiros comuns, dos Katangais, 4 dos psiquiatrizados. 
Na ocasião, até os espontaneístas do ex-'22 de Março', que estavam se 
juntando com os maoístas, diziam: "prisioneiros políticos, sim, mas 
comuns, absolutamente! Drogados, não! É preciso denunciar os dro- 
gados, eles são perigosos, manipulados pela polícia, etc". Pelo fato de 
querer falar ao mesmo tempo de questões ditas políticas e de problemas 
de loucura, passávamos por personagens barrocos e até perigosos. 
Hoje, isto não espanta mais ninguém. Foi bem depois de 68 que se 
acabou sacando isso, com a criação do GIP 5 e com outras ações da 
mesma natureza: houve, no entanto, durante os "acontecimentos" de 
68, muita agitação nos meios psiquiátricos — mas tudo foi rápida- 



130 



FÉLIX GUATTARI 



mente recuperado pelos universitários e pelos patrões, através do movi- 
mento chamado "colégios de psiquiatria". O GIA, 6 Garde-fou, 1 Les 
Cahiers pour la Folie,* etc, nasceram muito mais tarde, mais ou 
menos na trilha do que Foucault e Deleuze faziam no campo das 
prisões. Ê preciso, pois, desconfiar das ilusões retroativas da memória! 
Maio de 68 talvez tenha liberado atitudes militantes, mas não liberou 
as cabeças, que permaneciam completamente poluídas e que demo- 
raram muito mais tempo para se abrir às questões de loucura, de 
homossexualidade, de droga, de delinquência, de prostituição, de libe- 
ração da mulher, etc. 

E — Como está hoje a instituição psiquiátrica? 

F. G. — Está ótima. É o começo do desabamento. Em todos os planos! 
Primeiro, no plano material: cerca de metade dos hospitais psiquiátri- 
cos funciona com menos de 50% de sua capacidade real. Certos hos- 
pitais, que custaram milhões, estão praticamente vazios (exemplo: o 
hospital des Mureaux). Isto explica em parte o aumento colossal dos 
preços de diária da hospitalização psiquiátrica pública. E desabamento 
também nas cabeças. É que ninguém mais acredita nisso! A política de 
"Setor" (explosão da instituição psiquiátrica em pequenas unidades, 
num território correspondendo em princípio a 60000 habitantes), no 
melhor dos casos, não deu em nada, e no pior dos casos levou a um 
esquadrinhamento insuportável da população. Isto já está bem claro no 
domínio da psiquiatria infantil. 9 

E — Mas por que os asilos estão vazios? 

F.G. — É um fenómeno complexo, posso enumerar vários fatores, sem 
no entanto dar-lhes uma ordem de importância. Primeiro a descon- 
fiança — fruto, entre outras coisas, do movimento da antipsiquiatria 
nos meios de comunicação de massa. Segundo, talvez um certo resul- 
tado da política de "Setor" (desde então muita coisa é feita fora do 
asilo). Mas creio que a difusão maciça de neurolép ticos também tenha 
desempenhado um papel não negligenciável. Não apenas através dos 
psiquiatras, mas também através dos clínicos gerais, ou mesmo da 
imprensa mais ou menos especializada. Antes mesmo que o bebe tenha 
tido tempo de berrar, já lhe deram um calmante para fazê-lo calar e 
dormir. Daí a atenuação, ou mesmo o desaparecimento de certos 
fenómenos de ruptura social, que outrora levavam as pessoas ao psi- 
quiatra ou ao asilo. Por volta de 1955, a quimioterapia acabou, nos 
hospitais psiquiátricos, com aquilo que se chamava de agitação. Em 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



131 



seguida ela desviou do hospital um certo número de pessoas às quais 
começou a administrar uma "camisa-de-força química" a domicílio 
Mas não se perceberam imediatamente as consequências do fenómeno 
Quiseram continuar a construir hospitais psiquiátricos, visto que isto 
servia para reativar a indústria da construção. Pretendia-se "saturar de 
camas certos departamentos 10 (de fato, tratava-se de financiar a 
industrialização da construção). Mas os remédios desviaram do asilo 
parte de sua clientela habitual, e certos psiquiatras se puseram a es- 
vaziar os hospitais. O que criou, por vezes, situações conflituosas muito 
difíceis, como, por exemplo, nas. regiões pobres onde o hospital é o 
principal empreendimento "industrial"! 

E — Os asilos estão se esvaziando, a psiquiatria não acredita mais em 
si mesma. Ora, os asilos eram feitos para circunscrever, proteger e 
sobretudo, confinar os loucos. E a psiquiatria, para curá-los. Em que 
pe esta hoje o estatuto do louco ? 

F.G. — A solução do futuro, a solução futurista para a França já é 
uma realidade nos Estados Unidos. A partir do momento em q ue 
alguém não está bem quebra uma vidraça, se droga, é decretado 
esquizofrénico. E empanturrado de neurolépticos, ou de metadona, e 
pronto. A gente se pergunta se não valeria mais a pena preservaras 
nuanças da antiga nosografia! Em alguns estados americanos os hospi- 
tais psiquiátricos foram fechados, mas isto não diminui absolutamente 
a repressão psiquiátrica que se exerce por outras vias. Pode-se assim 
cair nos sistemas de controle psiquiátrico quando, na verdade, não se 
esta enquadrado nas categorias psiquiátricas (mendigos, pirados, ve- 
lhos, etc). Por outro lado, muitos neuróticos, e até mesmo loucos das 
antigas categorias psiquiátricas, não passarão mais pelo asilo, mas pela 
psicanálise, pelas visitas a domicílio, pelos neurolépticos, etc. Se o 
louco varndo" passou um pouco de moda, em compensação a loucura 
psicanalítica invadiu todos os setores. Alguns pretendem, por exemplo 
poder detectar um esquizofrénico numa criança de três anos, o que é 
totalmente aberrante! Hoje, quase que todo mundo "picha" o asilo 
psiquiátrico; é bom, mas insuficiente. O que está em questão é um 
problema global, não apenas do asilo, mas também da psiquiatria do 
setor, das diferentes formas de psicanálise: não se pode mais fazer um 
lapso, sem topar com um fulaninho que o interprete selvagemente. No 
limite, alguém como Ménie Grégoire 11 faz parte dos novos equipa- 
mentos psiquiátricos! 



132 



FÉLIX GUATTARI 



E — Então a instituição psiquiátrica não desapareceu, senão para 
reaparecer mais sorrateiramente? 

F G. — Sim, miniaturizada. Aliás, o que me espanta é que todas as 
grandes formações repressivas, a escola, o exército, que eram antes 
constituídas por conjuntos institucionais formando um só bloco, ten- 
dem agora a ser pulverizadas, e espalhadas por toda parte. É este, a 
meu ver, o erro de Illich: em breve, cada um será para si mesmo sua 
própria miniferramenta repressiva, sua própria escola, seu próprio 
exército . O superego por toda parte . 

Ora, nas grandes entidades repressivas, havia ainda relações de 
força reais, e portanto lutas possíveis. Nas pequenas, cada um está 
acorrentado no seio de sistemas de relações, de influências, de senti- 
mentos, que não se deixam mais atacar, mas que, em todo caso, 
implicam outras formas de "liberação". Para mim, a política de seto- 
rizaçâo da psiquiatria e a psicanálise — aliás, hoje em dia, muito 
relacionadas — correspondem a formas tecnocráticas avançadas de es- 
quadrinhamento, de tomada de poder. Formas que ainda estão se bus- 
cando, mas que acabarão por se encontrar. E se a política de setor, do 
ponto de vista do poder, é ainda hoje um fracasso — com exceção do 
domínio da psiquiatria infantil — , nada indica que ela não tomará 
novo impulso. Uma repressão que não precisasse de polícia nas es- 
quinas, mas que se exercesse permanentemente, discretamente, ao 
nível do trabalho, dos vizinhos, por toda parte, não seria o ideal para o 
poder? Vale o mesmo para a psicanálise. Ela tende a estar por toda 
parte, na escola, na família, na televisão. 

E — Mas ela sofreu alguns danos, e isto principalmente graças a 
Deleuze e a você, ao seu livro, O Anti-Édipo. 

F.G. — Pura ilusão! Os psicanalistas permaneceram impermeáveis. O 
que é absolutamente normal: vá tentar pedir aos açougueiros para 
pararem, por razões teóricas, de vender carne. Ou para virarem vege- 
tarianos! E, do lado dos consumidores, é ilusão pensar que a psica- 
nálise seja ineficaz! Ela funciona admiravelmente. As pessoas pedem 
mais e mais. E têm razão em pagar caro por isso, 12 já que isso funciona. 
Um pouco como uma droga. Além disso, ela fornece uma promoção- 
zinha social que não é de se jogar fora. O Anti-Édipo fez, no máximo, 
uma pequena corrente de ar. O que é engraçado é a palavra de ordem 
de uma sociedade de psicanálise quando o livro saiu. "É melhor nem 
tocar no assunto, a coisa vai passar sozinha." Foi o que aconteceu! 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



133 



Não, o resultado mais palpável do Anti-Édipo é o de ter provocado um 
curto-circuito na conexão psicanálise-esquerdismo. 

E — O que me espanta é que as duas principais vítimas da critica das 
instituições, nestes últimos anos, foram nossos dois avós barbudos, 
Marx e Freud. De Marx, outros se ocuparam. Mas Gilles Deleuze e 
você se lançaram deliberadamente ao ataque a Freud, pois a instituição 
psicanalítica, por mais que se faça, é Freud. 

F.G. — Freud, sim, mas também, na França, Lacan. Na França, a 
psicanálise implantou-se muito tarde, com a chegada de pessoas como 
Lagache ou Boutonnier na Universidade. Antes da guerra, a psicaná- 
lise na França não era nada, ou quase nada. Mas ela recuperou seu 
atraso. Depois de ter vencido resistências enormes, implantou-se por 
toda parte, em Saint- Anne, 13 nas faculdades; até as editoras estão 
transbordando de psicanálise. Nos outros países, em compensação, faz 
uns dez anos que o movimento freudiano acabou. Nos Estados Unidos 
ainda se fala de Jung, mas faz parte do folclore, como as massagens 
psicodélicas ou o Zen-budismo. Pode-se pensar que a França vai seguir 
por aí. Fiquem de olho! Na França, a instituição freudiana conheceu 
um impulso fantástico com o lacanismo. Este não é uma simples 
releitura de Freud. Ê algo de muito mais despótico, do ponto de vista 
da teoria e da instituição, algo de muito mais rigoroso do ponto de vista 
da sujeição semiótica das pessoas que participam dele. E é talvez 
através dele que haverá um novo impulso da psicanálise no mundo, a 
começar pelos Estados Unidos. Não só porque Lacan saiu de seu gueto. 
Mas não excluo a possibilidade de que ele e seus sucessores consigam 
um dia reconstituir uma verdadeira Internacional psicanalítica. 

Mais tarde, creio que se distinguirá freudismo de lacanismo. O 
freudismo era defensivo em relação à medicina, à psiquiatria, à uni- 
versidade. O lacanismo, ao contrário, é ofensivo. Ê um dogma de 
combate. Quanto a isso, seria preciso ver até que ponto ele influenciou 
o althusserianismo, e que espécie de consistência ele deu ao estrutu- 
ralismo em seu conjunto, particularmente por sua concepção do signi- 
ficante. O estruturalismo, sem dúvida, não teria existido tal como o 
conhecemos, sem o lacanismo. O poder, a autoridade do estrutura- 
lismo, por vezes sectária, não teria sido possível sem a introdução, 
pelos lacanianos, de uma concepção matemático-lingúística do incons- 
ciente que tende a cortar essencialmente o desejo da realidade. Consi- 
derar que o desejo não pode fundar-se — simbolicamente — senão em 
sua própria impotência, sua própria castração, implica todo um pano 
de fundo político e micropolítico. 



134 



FÉLIX GUATTARI 



E — Segundo você, então, uma nova instituição se criou, o laconismo? 

F.G. — Sim. Um laboratório, uma tecnologia avançada, o protótipo 
de novas formas de poder. É maravilhoso conseguir sujeitar alguém à 
sua pessoa, mantê-la de pés e mãos atadas, financeiramente, afetiva- 
mente, sem nem se dar ao trabalho de fazer algum esforço de sugestão, 
de interpretação ou de dominação aparente. O psicanalista hoje não 
diz nem mais uma palavra a seu paciente. Chegou-se a um tal sistema 
de canalização da libido, que basta o silêncio. Isto faz pensar naquelas 
formas ideais de pedagogia em que o mestre não precisava mais falar: 
bastava apenas um sinal de cabeça (o nutus latim 14 bastava para que 
ele ensinasse; ele se tornava então um numen: a divindade que mexe a 
cabeça em sinal de aprovação). 

E — O Anti-Édipo não se interessava tanto por Lacan quanto por 
Freud, e, de tanto querer tirar a poeira da estátua, não deixava mais 
muita coisa de pé. 

F.G. — Isto não foi deliberado: nós procedemos por etapas e retoques, 
e é fato que de tanto retocar. . . Mas o questionamento de Freud, no Anti- 
Édipo, ficou muito ligado ao que fizemos com o lacanismo. 

E — No entanto, o que é questionado no Anti-Édipo não é esta nova 
forma de poder que constitui o lacanismo. Ê o próprio Édipo, funda- 
mento do freudismo. E quando o fundamento desaba... Nós assisti- 
mos, portanto, a uma evolução inversa: a instituição psiquiátrica se 
dilui, enquanto que a instituição psicanalítica se reforça numa nova 
forma de poder. 

F.G. — A diferença é que a psiquiatria não funciona e a psicanálise 
funciona maravilhosamente. O que faz com que ela possa até ressusci- 
tar, um dia, alguns setores da psiquiatria! 



NOTAS 

(1) N. do Trad.: Merckx é um ciclista belga, várias vezes vencedor, entre 1970 e 
1978, do Tour de France — campeonato anual de ciclismo — sempre à frente de Pou- 
lidor, ciclista francês. A disputa entre estes dois personagens é suporte para um reavivar 
anual da competição entre França e Bélgica. Neste contexto, o fato de Poulidor voltar 
sempre a concorrer sem se abater com seus reiterados fracassos, faz com que seja um 
personagem muito popular e querido, na França. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



135 



(2) N. do Trad.: Alain Geismar, maoista, secretário- geral do SNESup. Em 68, 
ele, Jacques Sauvageot, trotskista do PSU, vice-presidente da UNEF, e Daniel Cohn- 
Bendit, anarquista do movimento "22 de Março" (cf. nota 10 de "O Fim dos Feti- 
chismos"), foram os três personagens públicos de Maio. Personagens públicos que não se 
constituíram propriamente em dirigentes, responsáveis ou representantes, como a im- 
prensa tentou fazer deles, mas símbolos da "democracia direta", da criatividade na vida 
social, da possibilidade de "agenciamentos coletivos de enunciação" por toda parte. 
Aliás, a inexistência de chefias no movimento de 68, seu anuautoritarismo, foi uma das 
características mais marcantes da ampla mutação ai ocorrida (cf. nota 1 de "Somos 
Todos Grupelhos", nota 3 de "Milhões e Milhões de Alices no Ar" e nota 3 e 4 deste 
artigo). 

(3) N. do Trad.: Serge July, antigo militante da UNEF, da UEC, do "22 de 
Março", e da Gaúche Proletarienne (maoista), é hoje, com 39 anos, o diretor do coti- 
diano parisiense Libération. Podemos dizer que Libération é um lance de revolução 
molecular, e vale contar um pouco da sua história. Foi fundado em 1973 por Jean-Paul 
Sartre, Philippe Gavi, os maoístas Maurice Clavel e Jean-Claude Vernier — criadores da 
Agence de Presse Libération — e July, na época também maoista. O desentendimento 
com os maoístas Clavel e Vernier acabou levando a uma primeira ruptura: em 1974 
ambos se retiram e, após breve paralisação, o jornal recomeça com a entrada de antigos 
membros dos Cahiers de Mai: Mare Kravetz, Jean-Marcel Bouguereau, Jean-Louis 
Péninou. O jornal passa a funcionar em autogestão com as seguintes características: 

— ausência de estrutura organizativa; 

— poder total à assembléia geral; 

— autofinanciamento: 

• recusa absoluta da servidão publicitária; 

• única fonte de renda externa: alguns pagamentos de pequenos anúncios 
do tipo "procura-se..." ou "oferece-se..." e algum adiantamento tomado 
à distribuidora Nouvelles Messageries de ia Presse Parisienne; 

— salário de 3.500 francos (hoje aproximadamente Cr$ 70.000,00), igual para 
todos os membros da equipe: do faxineiro aos redatores, aliás nenhum com 
formação profissional. 

O jornal funcionou neste esquema durante 6 anos. Em março de 1980, uma nova 
crise leva à decisão em assembléia de se eleger uma diretoria, da qual July sairá líder. Em 
fevereiro de 1981, a radicalização da crise anterior leva à ruptura e à saída de uma parte 
da equipe: decide-se instaurar uma estrutura organizativa, com divisão da redação em 
diferentes serviços, cada qual com um responsável, permanecendo July na direção-geral. 
Naquele momento, a imprensa tradicional, bem como a esquerda tradicional, tão ques- 
tionadas pela existência de Libération, pensaram ter finalmente obtido a prova da 
impossibilidade de propostas inovadoras do tipo das de Libération. Choveram artigos 
neste tom. No entanto o jornal continua, e, com exceção da estruturação da divisão 
técnica do trabalho, todas as outras propostas que sempre o caracterizaram foram 
mantidas. 

O produto de Libération segue a mesma postura de seu modo de produção. 
O jornal vem sendo um coadjuvante do processo de mutação social e politica das décadas 
de 70 e 80. Suas páginas são elaboradas por uma espécie de escritor público coletivo 
diferenciado, espaço que nos outros jornais é ocupado por um escritor privado dos minis- 
térios, fabricante de opinião massificadora. 

O leitor encontra aí, entre outras coisas: correspondência com prisioneiros co- 
muns; relatório de alguma greve de prostitutas ou a discussão sobre seu ofício; campanha 
pela liberação do haxixe, ao lado de denúncia do perigo das drogas ditas pesadas; 



136 



FÉLIX GUATTARI 



movimento pelo aborto; crónica cotidiana de flagrantes delitos que de repente trans- 
forma, por exemplo, o espancamento de um trabalhador imigrante árabe num fato 
político de primeira importância — a micropolítica do cotidiano recalcada no cenário dos 
salões da "grande política", e portanto da grande imprensa, retorna com toda força; 
aviso de acontecimentos culturais além do grande espetáculo, por exemplo a programa- 
ção das rádios-livres; pequenos anúncios onde o leitor encontra desde o mais meloso 
correio sentimental até o mais singular convite sexual, passando por dicas de alojamento, 
emprego, viagens e os mais variados objetos; o fórum de expressões contraditórias, num 
suplemento só de leitores, e até a possibilidade de se voltar atrás em algum erro de análise 
política cometido na véspera. 

Libération é um exemplo vivo da alternativa possível na imprensa (tiragem de 
60000 exemplares, e média de venda cotidiana de 45000) e em outros setores. Por tudo 
isso, a própria existência de Libération é um lance de revolução molecular ao lado de 
todos os outros que encontramos em suas páginas. 

(4) N. do Trad.: "Katangais" foi o nome dado a um grupo de delinquentes 
refugiados em Maio de 68 na Sorbonne ocupada, pelo fato de um deles dizer ter sido 
mercenário em Katanga. O grupo aí se instalou durante algumas semanas, autodesig- 
nando-se "serviço de segurança". A comissão de ocupação pediu-lhes que partissem, só 
conseguindo expulsar os últimos recalcitrantes na véspera da retomada da Sorbonne pela 
polícia. 

(5) N. do Trad.: O GIP foi criado por alguns intelectuais, entre os quais Michel 
Foucault e Gilles Deleuze, e ex-presidiários, em decorrência de uma série de revoltas de 
presos, que se deram em escala nacional, no começo dos anos 70. O grupo pretendia criar 
condições para a existência de um espaço de fala dos próprios presos. 

(6) N. do Trad. : O GIA foi criado em seguida ao GIP e nos mesmos moldes, para 
os "psiquiatrizados". 

(7) N. do Trad.: Garde-Fous (que significa barreira-protetora, parapeito, e lite- 
ralmente, guarda-loucos) foi um dos jornais que surgiram por volta de 74, vinculados às 
lutas na psiquiatria (cf. nota 1 de "A Trama da Rede"). 

(8) N. do Trad. : Cahiers pour la Folie (Cadernos pela Loucura), idem . 

(9) N. do Trad.: Cada setor(cf. nota 4 de "As Lutos do Desejo e a Psicanálise") 
de saúde mental infantil, na França, se constitui de uma série de equipamentos coletivos 
— que vão do mais pedagógico (as classes especiais nas escolas), ao mais psiquiátrico 
(hospital-dia), passando por diferentes fórmulas de composição de medicina/psiquia- 
tria/pedagogia/formação técnica — , para onde são encaminhadas as "crianças-pro- 
blema" através da escola ou da família. Trata-se de uma rede eficaz de controle e 
esquadrinhamento da população infantil. Estima-se em torno de 40% a proporção de 
crianças excluídas do circuito de escolaridade "normal" hoje em dia na França, parte 
delas definitivamente estigmatizada e segregada, portadora de carteira de identidade 
correspondente ao estatuto de invalidez. Estamos longe do velho estilo republicano de 
esquadrinhamento da infância a la Jules Ferry (cf . noto 1 de "As Creches e a Iniciação"). 

(10) N. do Trad.: Departamentos são unidades de divisão regional administrativa 
na França. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



137 



(11) N. do Trad.: MénieGrégoire, assim como Madame Soleil, são animadoras de 
rádio; a primeira da RTL (Rádio Télévision Luxembourg) e a segunda da Europe 1, as 
duas únicas estações de rádio privadas existentes na França, pertencendo todas as outras 
ao monopólio estatal de rádio e televisão (ORTF). Grégoire e Soleil renovaram, por volta 
de 65/66, a linguagem dos programas do tipo "correio sentimental" por telefone: a primei- 
ra com a psicologia, que passou a ser de domínio público, a segunda com a astrologia. 

(12) N. do Trad. : No original ça (cf. noto 2 de "A Transferência"). 

(13) N. do Trad.: Sainte-Anne é o hospital psiquiátrico onde se faz a triagem e a 
distribuição dos doentes mentais do Departamento do Sena. Foi aí que se iniciou a 
política de "setorizaçâo" da psiquiatria na década de 50 (cf. nota 4 de "As Lutos do 
Desejoe a Psicanálise"). Ê uma passagem quase que obrigatória para os jovens psiquia- 
tras em Fim de residência. Além disso, foi por muitos anos a sede dos seminários de 
Lacan e de importantes discussões sobre psicanálise em instituição psiquiátrica (cf. noto 
1 de "A Transversalidade"). 

(14) N. do Trad.: Em latim no original. Nutus é um movimento de cabeça que 
expressa uma vontade, um desejo. 



Pistas para uma esquizoanálise 
— os oitos princípios 111 



US 



Seria a esquizoanálise um novo culto à máquina? Talvez. Mas, 
com certeza, nâo no quadro das relações sociais capitalísticas! O pro- 
gresso monstruoso dos maquinismos de toda espécie, em todos os 
campos, e que parece estar levando a espécie humana a uma catástrofe 
inelutável, poderia, da mesma forma, tornar-se a via real de sua liber- 
tação. Então continua o velho sonho marxista? Sim, até um certo 
ponto. Pois, ao invés de apreender a história como sendo essencialmente 
lastrada por máquinas produtivas e económicas, penso, ao contrário, 
que são as máquinas, todas as máquinas, que funcionam à maneira da 
história real, na medida em que ficam permanentemente abertas aos 
traços de singularidade e às iniciativas criadoras. Como contestar, hoje 
em dia, que só uma revolução generalizada poderá não apenas melho- 
rar de maneira sensível o modo de vida na Terra, mas simplesmente 
salvar a espécie humana de sua destruição? Trata-se de afrontar tanto 
imensos meios materiais coercitivos quanto microscópicos meios de 
disciplinarização dos pensamentos e dos afetos, de militarização das 
relações humanas. Tanto faz voltar-se para o Oeste, Leste ou Sul, a 
questão continua sendo a mesma: como organizar a sociedade de outra 
maneira. A repressão continuará sendo um dado de base de toda e 
qualquer organização social? Mas nada disso é inelutável; outros agen- 
ciamentos sociais, outras conexões maquínicas são concebíveis! Neste 
ponto, pouco importa parecer estar recitando o marxismo: não se pode 
esperar nada de bom de uma volta às naturezas primeiras. Nem 
solução geral nem a menor catarse em pequena escala! Não se pode 
resolver coisa alguma sem a instauração de agenciamentos altamente 
diferenciados. Só que deve ficar claro que as máquinas revolucionarias 
que mudarão o curso do mundo só poderão emergir, só poderão ter 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



139 



uma consistência que as faça efetivamente passar ao ato, com uma m 
dupla condição: 

1) que tenham por objeto a destruição das relações de exploração 
capitalísticas e o fim da divisão da sociedade em classes, castas, raças, 
etc; 

2) que se estabeleça em ruptura com todos os valores fundados 
sobre uma certa micropolítica do músculo, do falo, do poder territo- 
rializado, etc. 

Eis que voltamos à questão da esquizoanálise! Não se trata, como 
podemos perceber, de uma nova receita psicológica ou psicossocioló- 
gica, mas de uma prática micropolítica que só tomará sentido em 
relação a um gigantesco rizoma de revoluções moleculares, prolife- 
rando a partir de uma multidão de devires mutantes: devir mulher, 
devir criança, devir velho, devir animal, planta, cosmos, devir invisí- 
vel... — tantas maneiras de inventar, de "maquinar" novas sensibili- 
dades, novas inteligências da existência, uma nova doçura. 

Isto posto, se eu fosse obrigado a concluir com algumas reco- 
mendações de bom senso, algumas regras simples para a direção da 
análise do inconsciente maquínico, eu proporia os seguintes aforismas, 
que, aliás, poderiam ser aplicados a campos completamente diferentes, 
a começar pelo da "grande política": 

1) "Não atrapalhar." Em outras palavras, deixar como está. 
Ficar bem no limite, adjacência do devir em curso, e desaparecer o 
mais cedo possível. (Portanto, ficam fora de cogitação as curas se 
arrastando durante anos, dezenas de anos, como está na moda na psi- 
canálise atualmente.) 

2) "Quando alguma coisa acontece isto prova que alguma coisa 
acontece." Tautologia fundamental para marcar, aí também, uma 
diferença essencial em relação à psicanálise, da qual um dos princípios 
de base reza que: "quando nada acontece, isto prova que, na realidade, 
alguma coisa acontece no inconsciente". Princípio que serve ao psica- 
nalista para justificar sua política do silêncio e das esperas indefinidas. 
Na verdade, é raro que realmente aconteça alguma coisa nos agen- 
ciamentos de desejo! Aliás, convém guardar todo o relevo de tais 
acontecimentos, e toda vitalidade das componentes de passagem que 
são sua manifestação. Os psicanalistas gostariam que acreditássemos 
que eles estão em constante relação com o inconsciente, que eles dis- 
põem de uma conexão privilegiada que os liga a ele, uma espécie de 
telefone vermelho, como o de Cárter e Brejnev! Os despertares do 
inconsciente sabem se fazer ouvir por si próprios. O desejo incons- 
ciente, os agenciamentos que só se exprimem pelos sistemas domi- 
nantes de semiotizaçao, manifestam-se por outros meios, que não 



140 



FÉLIX GUATTARI 



enganam. Eles não têm necessidade alguma de porta- voz, de intér- 
pretes. Que mistificação esta de pretender que o inconsciente trabalha 
em segredo, que não se pode dispensar um certo tipo de detetive para 
decifrar suas mensagens, e sobretudo a de afirmar que ele está sempre 
vivo, latente, recalcado, até mesmo quando ele está visivelmente ador- 
mecido, esgotado, morto, e que não haveria mais outro recurso senão 
reconstruir, às vezes, partindo quase de zero. Que alívio um tanto co- 
varde que é encontrar alguém que te credita, apesar das aparências, 
uma riqueza inconsciente inesgotável, quando tudo ao teu redor — 
a sociedade, a família, tua própria resignação — parecia ter conspirado 
para esvaziar-te de todo e qualquer desejo, de toda e qualquer espe- 
rança de mudar tua vida! Um serviço desses não tem preço e dá para 
compreender por que os psicanalistas se fazem pagar tão caro! 2 

3) "A melhor posição para se escutar o inconsciente não consiste 
necessariamente em ficar sentado atrás do divã." 

4) "O inconsciente molha os que dele se aproximam." Sabe-se 
que "alguma coisa acontece", quando o agenciamento esquizoanalítico 
revela uma "escolha de matéria"; torna-se então impossível ficar neu- 
tro, pois esta escolha de matéria arrasta em seu curso todos aqueles que 
encontra no caminho. 

5) "As coisas importantes nunca acontecem onde esperamos." 
Outra formulação do mesmo princípio: "a porta de entrada não coin- 
cide com a porta de saída". Ou ainda: "as matérias dos componentes 
que esboçam uma mudança não são geralmente da mesma natureza 
que os componentes que efetuam esta mudança". (Exemplo: a fala vai 
virar somática, ou o somático, económico, ou ecológico, enquanto que 
o ecológico vai virar fala ou acontecimentos sócio-históricos, etc, etc.) 
A riqueza de um processo esquizoanalítico vai se medir pela variedade 
e pelo grau de heterogeneidade destas espécies de transferências rizô- 
micas, de maneira que mais nenhuma espécie de semiologia signifi- 
cante, de hermenêutica universal ou de programação política poderá 
pretender traduzi-las, colocá-las em equivalência, teleguiá-las para 
finalmente extrair delas um elemento comum facilmente explorável 
pelos sistemas capitalísticos. Um significante decididamente não repre- 
senta a subjetividade esquizoanalítica por um outro significante! En- 
quanto os componentes não cheguem a organizar seus próprios núcleos 
maquínicos e seus próprios agenciamentos de enunciação, permane- 
cem empacados diante da pretensão dos significantes dominantes de 
querer interpretá-los. E, em seguida, são eles que fagocitam o compo- 
nente significativo. Ê preciso repetir: isso não é absolutamente sinó- 
nimo de um primado sistemático dos componentes não verbais "de 
antes do tempo das máquinas". 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



141 



6) Já se esbarrou na questão da transferência, acho que seria 
bom distinguir, em quaisquer circunstâncias: 

— as transferências por ressonância subjetiva, por identificação 
personológica, por eco de buraco negro; 

— transferências maquínicas (máquinas — transferências) que 
procedem aquém do significante e das pessoas globais, por 
interações diagramáticas a- significantes e que produzem no- 
vos agenciamentos em vez de representar e decalcar indefini- 
damente antigas estratificações. 

7) "Nada é adquirido de uma vez por todas." Nenhuma fase, 
nenhum complexo nunca são vencidos, nunca são superados. Tudo 
permanece sempre em suspenso, disponível a todos os reempregos, mas 
também a todas as degringoladas. Um buraco negro pode esconder um 
outro! Nenhum objeto pode ser designado por uma identidade fixa; 
nenhuma situação é garantida. Tudo é uma questão de consistência de 
agenciamento e de reagenciamento. A colocação no mercado de uma 
consistência simbólica garantida 100% ("como é que você passou seu 
complexo de castração?"), é uma operação desonesta e perigosa. So- 
bretudo por parte de pessoas que pretendem tê-la adquirido, eles 
próprios, no decorrer de uma análise dita didática! 

8) Ultimo, mas de fato, primeiro princípio: "toda idéia de prin- 
cípio deve ser considerada suspeita". A elaboração teórica é tanto mais 
necessária e deverá ser tanto mais audaciosa quanto o agenciamento 
esquizoanalítico tomar a medida de seu caráter essencialmente pre- 
cário. 



NOTAS 



(1) Nâo é por acaso que os diferentes fascismos não pararam de se declarar seus 
adeptos. 

(2) Poderíamos transpor, ipsis litteris, o que dissemos aqui, do psicanalista, para 
o militante profissional incumbido de "fazer existir" a classe-operária-coroo-motor-da- 
história, mesmo quando ela está aplastrada e desmilinguida, cúmplice da ordem domi- 
nante como em certos bastiões do capitalismo ou, o que é pior, quando ela praticamente 
inexiste no campo, como é o caso de inúmeros países do Terceiro Mundo. 



Programa 



Não considerar o desejo uma superestrutura subjetiva que fica 
pisca- piscando. 

Fazer o desejo passar para o lado da infra-estrutura, da família, 
do ego e a pessoa para o lado da antiprodução. 

Abandonar uma abordagem do inconsciente pela neurose e a 
família, para adotar aquela, mais específica, dos processos esquizo- 
frênicos, das máquinas desejantes. 

Renunciar à captura compulsiva de um objeto completo simbó- 
lico de todos os despotismos. 

Desfazer-se do significante. 

Deixar-se deslizar pelos caminhos das multiplicidades reais. 

Parar de ficar reconciliando o homem e a máquina: sua relação é 
constitutiva do próprio desejo. 

Promover uma outra lógica, uma lógica do desejo real, estabe- 
lecendo o primado da história relativamente à estrutura. Promover 
uma outra análise, isenta do simbolismo e da interpretação, e um outro 
militantismo, arranjando meios para libertar-se por si mesmo das 
significações da ordem dominante. 

Conceber agenciamentos coletivos de enunciação que superem o 
corte entre sujeito da enunciação e sujeito do enunciado. 

Ao fascismo do poder opor as linhas de fuga ativas e positivas que 
conduzem ao desejo, às máquinas de desejo e à organização do campo 
social inconsciente. 

Não é fugir, você próprio, "pessoalmente", dar o fora, se man- 
dar, mas afugentar, fazer fugir, fazer vazar, como se fura um cano ou 
um abscesso. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



143 



Fazer os fluxos passarem sob os códigos sociais que querem 
canalizá-los, barrá-los. 

A partir das posições de desejo locais e minúsculas, pôr em 
xeque, passo a passo, o conjunto do sistema capitalista. 

Liberar os fluxos, ir longe no artifício, cada vez mais. 



m 

DESCARTÁVEIS TEÓRICOS 



O amor de Swann 
como colapso semiótico* 



Em Busca do Tempo Perdido é um prodigioso mapa rizomático. 
Não se trata de psicanalisá-lo ou de esquizoanalisá-lo. Ele é, enquanto 
tal, uma monografia esquizoanalírica. Proust, Joyce, Kafka, Becket 
são verdadeiros especialistas em objetos mentais hiperdesterritorializa- 
dos e ninguém entende disso melhor do que eles! Isso não significa que 
seja proibido repertoriar e tentar explorar cientificamente o material 
que eles coletaram. Mas a separação radical do campo literário e do 
campo científico, que parece ser um axioma da cultura ocidental, tem 
como efeito confundir os espíritos. Os literatos não se dão conta de que 
uma obra como A Busca constitui uma exploração científica, da 
mesma maneira que a obra de Freud ou de Newton. E os cientistas 
geralmente não dispõem de meios que lhes permitiriam enfrentar o tipo 
de problemática que é abordado nela. E, além disso, temos que reco- 
nhecer que eles não estão ligados nisso. Logo fará meio século, por 
exemplo, que Von Weizaecker recomendava que se iniciasse o estudo 
sistemático das "sobreposições perceptivas" — hiperestesias sensoriais, 
sinestesias, sinopsias, metamoríosias, etc. Mas, pelo que conheço, 
exceto algumas páginas que Merleau-Ponty consagrou a essas ques- 
tões 1 e alguns trabalhos neurológicos e fisiopatológicos sobre as into- 
xicações por alucinógenos — aliás da maior secura — , é ainda aos 
"trabalhos" de Henri Michaux e aos dos escritores americanos da 
"beat generation" que convém se remeter hoje para dispor de um 
mínimo de informação sobre essas questões tão essenciais para a 
apreensão da diversidade dos modos de subjetivação e semiotização. A 
título de indicação, mas muito sumariamente, muito esquematica- 
mente, apoiando-se na velha classificação de Sherrington, na falta de 
algo melhor, se poderia "situar", por exemplo, uma em relação à 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



147 



outra, as "especialidades" respectivas de Kafka e de Proust. Ambos se 
interessaram pelas mutações dos componentes perceptivos, pelos fenó- 
menos de crescimento, de deslocamento, de sobreposição, de acele- 
ração, de desaceleração, etc, das coordenadas sensoriais. Mas sua 
pesquisa está centrada: 

— para Kafka, em componentes proprioceptivos, tais como os 
da postura, do equilíbrio, do tônus muscular, da tensão arte- 
rial, etc, que provocam dilatações e contrações do tempo e do 
espaço (levando em conta a forma muito singular que ele 
tinha de se ' 'drogar" pela insónia e pela anorexia) ; 

— e, para Proust, em componentes exteroceptivos (tango-re- 
ceptor, termo-receptor, gusto-receptor e fono-receptor) e 
secundariamente interoceptivos, em particular respiratórios. 2 

Sem estabelecer implicitamente uma teoria dos incorporais e das 
máquinas abstratas, Proust não cessará de insistir no fato de que o 
"efeito musical" e, mais geralmente, o das obras de arte não depende 
do imaginário, mas da realidade: "... aquela música me parecia algo 
mais verdadeiro que todos os livros conhecidos. Por instantes, eu 
pensava que aquilo vinha de que o que é sentido por nós da vida, não o 
sendo sob a forma de idéias, a sua tradução literária, isto é, intelectual, 
relata-o, explica-o, analisa-o, mas não o recompõe como a música na 
qual os sons parecem tomar a inflexão do ser, reproduzir esta ponta 
interior e extrema das sensações que é a parte que nos dá esse ine- 
briamento específico sentido de tempos em tempos e que, quando 
exclamamos: 'Que dia lindo! Que bonito sol!', não se dá de todo a 
conhecer do próximo, em quem o mesmo sol e o mesmo dia despertam 
vibrações inteiramente diversas" (in A Prisioneira, t. V, pp. 320-321, 
Globo; t. III, p. 374-375, Plêiade); A Busca está toda focalizada na con- 
sistência existencial de tais realidades inclassificáveis. Ora Proust as 
assimila a entidades materiais, e compara a obra de um músico como 
Vinteuil com a de um Lavoisier ou de um Ampère (i« "Um Amor de 
Swann", No Caminho de Swann, t. I, p. 290, Globo; t. I, p. 351, 
Plêiade), ora ele se inclina em direção a um "realismo das idéias": 
"... Swann considerava os motivos musicais como verdadeiras idéias, 
de um outro mundo, de uma outra ordem, idéias veladas de trevas,' 
desconhecidas, impenetráveis à inteligência, mas que nem por isso 
deixam de ser perfeitamente distintas umas das outras, desiguais de 
valor e significado" (in "Um Amor de Swann", No Caminho de Swann, 
t. I, p. 288, Globo; t. I, p. 349, Plêiade). Em certos momentos, ele é 
tentado a analisar a matéria de expressão da "frasezinha de Vinteuil" 
em termos que evocam o que serão, cinco anos mais tarde, as oposições 
distintivas dos fonologistas do Círculo de Praga: 3 "... ele notara que 



148 



FÉLIX GUATTARI 



era ao leve afastamento das cinco notas que a compunham e ao retorno 
constante de duas dentre elas que se devia aquela impressão de retraída 
e tremula doçura...". Mas como se estivesse consciente dos abusos 
"reducionistas" aos quais dariam lugar as interpretações estrutura- 
listas que estavam por vir, ele se recompõe rapidamente e acrescenta 
que "na verdade sabia que assim raciocinava, não sobre a própria 
frase, mas sobre simples valores que colocara, para comodidade da 
inteligência, no lugar da misteriosa entidade que havia vislumbrado..." 
(in "Um Amor de Swann", No Caminho de Swann, t. I, p. 288, Globo; 
t. I, p. 349, Plêiade). Sem se remeter, na verdade, a uma teoria prefe- 
rencialmente a outra, Proust constantemente dá voltas em torno da 
mesma dificuldade: não pode aceitar o caráter evanescente, o fiou, o 
vago das sensações de que é acometido. O acontecimento inaugural de 
sua obra, recorda-se, foi esse passeio atrelado, a Combray, durante o 
qual, pela primeira vez, ele conseguiu ir até o fundo de sua impres- 
são" 4 ; tratava-se então de exprimir com palavras este "algo assim como 
uma bela frase" que os deslocamentos relativos dos campanários de 
Martinville e de Vieuxvicq continham (in "Combray", No Caminho 
de Swann, t. I, p. 155, Globo; t. I, p. 181, Plêiade). Desta realidade 
"em estado nascente", ele só pode afirmar uma coisa: ela não advém 
unicamente de uma análise discursiva tal como a pode sustentar a 
linguagem humana. É a ela, ao contrário, que devemos nos dirigir para 
enriquecer a linguagem, para fecundá-la e engendrar uma nova discur- 
sividade em conexão direta com o que chamo de economia do desejo. 
"A supressão das palavras humanas — escreve Proust sempre a propó- 
sito da "frasezinha de Vinteuil" — longe de deixar ali reinar a fantasia, 
como se poderia crer, a tinha eliminado: jamais a linguagem falada foi 
tão inflexivelmente necessidade, jamais conheceu a tal ponto a perti- 
nência das perguntas, a evidência das respostas" (in "Um Amor de 
Swann", No Caminho de Swann, t. I, p. 290, Globo; t. I, p. 351, 
Plêiade). E, anos após a redação de "Um Amor de Swann", Proust 
voltará, em A Prisioneira, a esta questão que, parece, não havia 
cessado de persegui-lo: "Aquelas frases, poderiam os musicógrafos 
assinalar- lhes o parentesco, a genealogia, nas obras de outros grandes 
músicos, mas só em virtude de razões acessórias, de semelhanças 
exteriores, de analogias mais engenhosamente achadas pelo raciocínio 
do que sentidas pela impressão direta. A que davam essas frases de 
Vinteuil era diferente de qualquer outra, como se, a despeito das 
conclusões que parecem resultar da ciência, o individual existisse" (in 
A Prisioneira, t. V, p. 216, Globo; t. III, pp. 255-256, Plêiade). Uma 
ciência do individual, eis sobre o que tropeça o pensamento de Proust, 
influenciado que era pela concepção cientificista da matéria, que então 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



149 



reinava, inclusive nos meios científicos. Seja como for, sua religião é 
baseada ao menos num ponto: não se pode considerar a subjetividade 
humana como algo de indiferenciado e de vazio que seria preenchido e 
animado pelo exterior. 5 Toda a sua análise o conduz à apreensão de 
maqumismos abstratos transubjetivos e transobjetivos, dos quais nos 
fornece uma rigorosa descrição, e, não preciso dizer, de uma elegância 
suprema: "Mesmo quando não pensava na frasezinha, ela existia la- 
tente em seu espírito, da mesma forma que algumas outras noções sem 
equivalente, como as noções da luz, do som, do relevo, da volúpia 
física, que são as ricas posses com que se diversifica e realça o nosso 
domínio interior" (in "Um Amor de Swann", No Caminho de Swann, 
t. I, p. 289, Globo; t. I, p. 350, Plêiade). E quando, nas voltas de um 
paragrafo, a frasezinha de Vinteuil emite suas próprias opiniões 
(w "Um Amor de Swann", No Caminho de Swann, 1. 1, p. 288, Globo; 
t. I, pp. 348-349, Plêiade), substituindo, por um instante, três inter- 
locutores habituais dessa "região" da Busca — Swann, o Narrador e o 
propno Proust enquanto escrevedor — é sob sua face mais a-subjetiva 
mais a-significante que, num breve instante, o agenciamento coletivô 
de sua enunciação se revela. 

Nada predispunha Swann a se apaixonar por Odette. Frequenta- 
dor habitual dos salões principais, para se proteger de relações muito 
exclusivas, ele havia tomado por princípio equilibrar suas ligações com 
mulheres da alta sociedade, cortejando serventes de "carne sadia, 
abundante e rosada' ' (in "Um Amor de Swann", No Caminho de Swann 
t. I, p. 164, Globo; t. I, p. 192, Plêiade). Que Odette tenha sido, no 
momento de seu encontro, uma "semi-mundana" — o que ele igno- 
rava, ou melhor, se recusava inconscientemente a saber — não consti- 
tuía, pois, em si, um obstáculo a que ele tivesse uma simples "aven- 
tura" com ela. Mas seu género de beleza não o "agradava". Foi ela 
quem ficou primeiro perdidamente apaixonada — ela confessava isso 
muito mais tarde ao Narrador. Ela arranjará todos os pretextos para o 
visitar ou para o atrair à sua casa. Aliás, sem nenhum resultado, 
durante muito tempo! Seu primeiro sucesso consistirá em fazê-lo acei- 
tar ir a uma recepção em casa da Senhora Verdurin, sua protetora e seu 
único verdadeiro apoio no "mundo". Os salões funcionavam então 
como os "campos de iniciação" das tribos da alta sociedade. Swann 
chega à casa da Senhora Verdurin, mais ou menos como um etnólogo 
estabelece um primeiro contato com uma etnia desconhecida. As pes- 
soas do salão Verdurin estavam, com efeito, bem abaixo de sua condi- 
ção. E, no entanto, foi esse salão burguês, um pouco vulgar e algumas 
vezes francamente ridículo, que se tomou "o conversor semiótico" e 
mesmo a máquina infernal que iria subverter toda a sua existência. 6 



150 



FÉLIX GUATTARI 



O agenciamento coletivo Verdurin põe em ação dois componentes 

de passagem. 

— uma ladainha: "frasezinha de Vinteuil"; 

— uma constelação de traços de rostidade resultante da mistura 
de dois rostos: o de Odette e o de Céfora, uma figura bí- 
blica extraída de um afresco de Botticelli. 

Durante todo o período do "Amor de Swann", esses dois compo- 
nentes têm um destino mais ou menos paralelo: 

— ou subvertem a ordem dos outros componentes semióticos e 
esboçam transformações "liberadoras" na vida de Swann; 

— ou abrem espaço para reterritorializações obsessivas e opres- 
sivas. (Mas é principalmente essa segunda perspectiva que se 
imporá.) 

Durante o período do "amor do Narrador", período muito mais 
longo na economia do romance, tais componentes irão em sentidos 
geralmente divergentes: 

— os traços de rostidade, depois de diferenciados e diagrama- 
tizados ao extremo, trarão, em reação, uma reterritorializa- 
ção maciça da paixão do Narrador por Albertina e acabarão 
por perder toda a sua eficácia-, 

— a ladainha, por seu lado, não cessará de sair de si mesma, 
de se transversalizar, e conduzirá o Narrador a operar uma 
verdadeira e duradoura mutação micropolítica. 

Assim, pode-se considerar que a parte do romance que é consa- 
grada a Swann está dentro daquilo que chamo de esquizoanálise gene- 
rativa (a das interações molares fracas, a dos objetos e das relações 
estratificadas) e que o resto da obra constitui uma retomada esquizo- 
analítica transformacional desse primeiro núcleo, dessa experiência 
passional que levou Swann à beira da loucura ("Que charme! Estou 
ficando um nevropata...!"; in "Um Amor de Swann", No Caminho de 
Swann, 1. 1, p. 263, Globo; 1. 1, p. 317, Plêiade). 

Não poderemos apreender a natureza do desfecho ao 1 empo 
Redescoberto, isto é, do desencadeamento dz Busca enquanto processo 
analítico do inconsciente maquínico, senão após haver seguido ao longo 
de toda a obra o movimento da alternância entre os componentes de 
ladainha e os componentes de rostidade. A "frasezinha de Vinteuil" 
aparece anteriormente no complexo Odette-Céfora. Ela cristaliza o 
novo agenciamento em estado puro, antes de qualquer encarnação 
rostitária, quando Swann, alguns meses antes de encontrar Odette, 
ouve pela primeira vez a música de Vinteuil. Sua paixão à primeira 
vista por essa sequência musical desterritorializada permite a Swann 
esperar a "possibilidade de um certo rejuvenescimento" 7 (in "UmAmor 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



151 



de Swann", No Caminho de Swann, t. I, p. 178, Globo; t. I, p. 210, 
Plêiade). Mas a aparição de um buraco negro, neurótico, centrado na 
rostidade de Odette fará ruir todas as suas esperanças. Não somente ele 
não mais dominará o componente de ladainha, mas perderá além disso 
o controle que tinha, até então, dos componentes rostitários. A mu- 
tação maquínica, da qual a frasezinha de Vinteuil é portadora, o pega, 
com efeito, completamente desprevenido. Ele próprio não é músico e, 
ainda que esteja a par das transformações revolucionárias que a música 
conhece em sua época, ele não as vive verdadeiramente "de dentro". 
Sua posição, até aqui, era completamente outra em relação aos compo- 
nentes icônicos. Ele é considerado um dos críticos de arte mais ouvidos 
dos salões aristocráticos: acompanha especialmente com grande com- 
petência os primeiros desenvolvimentos da arte moderna. E, de uma 
forma geral, um rosto novo não conseguiria desnorteá-lo por muito 
tempo; ele até adotou um procedimento bastante particular para "fixá- 
lo" ou para lhe dar um atrativo suplementar que consiste em associá-lo 
a uma tela que ele conhece bem. É seu modo, nos explica Proust, de 
conjurar seu "remorso de ter limitado sua vida às relações mundanas" 
(in "Um Amor de Swann", No Caminho de Swann, t. I, p. 188, Globo; 
1. 1, p. 223, Plêiade). Ao fazer desse modo penetrar o mundo frívolo na 
arte, parece-lhe que ele o exorciza. Entretanto, pode-se pensar que esse 
procedimento tem por finalidade igualmente precavê-lo contra arreba- 
tamentos passionais que o conduziriam a sair efeíivamente de seu 
mundo, e não somente como explorador do salão Verdurin ou paque- 
rador de empregadinhas. "Estetizando" seus encontros, ele sempre 
conseguiu "recuperar" e neutralizar todas as asperezas semióticas, 
todos os indícios maquínicos, as linhas de fuga e as cargas de desejo de 
ordem icônico. Desta vez, no entanto, seu procedimento não funcio- 
nará. A que se deve isso? 

Qual é a origem desta potência devastadora do rosto de Odette? 
O que é que faz com que a constelação de traços de rostidade que a 
habita tenha a capacidade de desencadear um tal colapso semiótico? 
Será que não se trata, da parte de Swann, de uma "identificação 
regressiva" a um personagem materno? Da consequência de uma 
carência, nele, de um pólo simbólico paterno que o proibiria de "assu- 
mir" convenientemente sua "castração"? Bastaria abandonar-se, por 
um só instante, às fantasias psicanalíticas habituais, para reconstituir 
uma psicogênese tranquilizadora. Afinal de contas, esta Céfora, cujo 
rosto se superpõe ao de Odette, não fora dada a Moisés por seu pai, o 
sacerdote Jetro, como penhor de seu retorno ao Deus de Abraão? E 
este afresco da Capela Sixtina não foi concebido como um contraponto 
entre a vida de Jesus e a vida de Moisés? Isso não nos indicaria que 



152 



FÉLIX GUATTARI 



estamos aqui num duplo registro: o de uma fixação arcaica de Swann 
num equivalente imaginário da má mãe-puta-filha incestuosa, e o de 
uma inscrição cristã essencialmente simbólica de uma falta originária 
da função paterna? Aliás, não é em consequência de seu casamento 
com Odette, e de uma sublimação de sua paixão incestuosa, que, na 
ocasião do caso Dreyfus, Swann conseguirá ulteriormente assumir sua 
condição judaica? Para que se interrogar, a partir disso, sobre a 
singularidade desse rosto, a matéria de expressão dessa frase musical, o 
agenciamento desse salão, as circunstâncias dessa conversão políti- 
ca?... Com um pouco de autoridade e muito blefe, poder-se-á sempre 
fazer entrar à força todos esses detalhes no quadro das interpretações 
psicanalíticas tradicionais. Por que recolocar em questão esse tipo de 
explicações que, hoje em dia, não parece mais ser problema para 
ninguém? Não pretendo certamente substituir um crivo de leitura por 
outro, que garantiria a "boa resposta". É o próprio princípio da 
interpretação que pretendo contestar. A análise do inconsciente deveria 
seguir — com seus riscos e perigos — todas as linhas do rizoma que 
constituem um agenciamento, sejam quais forem as matérias de ex- 
pressão de seus componentes e os efeitos de buraco negro que eles 
desencadeiam, sejam quais forem as rupturas ou as reações em cadeia 
que um tal processo pode implicar... Ela não dirá, por exemplo, no 
caso de Swann, que a identificação não é nada) Mas a considerará 
simplesmente como um procedimento particular funcionando no qua- 
dro de agenciamentos particulares e a partir de componentes e de 
matérias de expressão particulares. 8 Considerada isoladamente, ela 
não apresenta interesse algum; ela não conseguiria dar lugar a ne- 
nhuma interpretação a priori, ou remeter a nenhum "materna" ou a 
nenhuma "imago" universal. A esquizoanálise se colocará uma ques- 
tão totalmente diferente: por exemplo, será que tal comportamento, tal 
hábito, tal ritual, é chamado a ter um papel diagramático? Será que é 
concebível apoiar-se nele para transformar um agenciamento? E como 
sabê-lo, senão por uma compilação sistemática dos traços de singula- 
ridade, por uma paciente exploração não somente das "estradas asfal- 
tadas" mas também de todos os atalhos, de todos os caminhos intran- 
sitáveis, e até mesmo daquilo que parece ser um beco sem saída? 
Os princípios gerais não nos serão de ajuda alguma quando se trata de 
determinar se tal componente de passagem poderá ou não continuar a 
funcionar fora de um campo pragmático dado. Devemos nos interro- 
gar, por exemplo, sobre o fato de que a técnica de identificação rosto- 
retrato, tão importante no amor de Swann, não mais se encontra, nos 
amores do Narrador, enquanto que, em compensação, a frasezinha de 
Vinteuil, após um longo eclipse, terá um lugar essencial, desempe- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



153 



nhando até um papel decisivo na "resolução" do romance. Constata- 
remos que essa diferença não se deve a qualidades intrínsecas do 
componente iconico ou do componente de ladainha, mas unicamente 
ao fato de que este último é o único que consegue fazer "proliferar" a 
maquina da escrita. A música não terá sido, aqui, um "quebra-galho" 
sublimatóno, abrindo uma via de derivação simbólica da libido mas 
uma ferramenta essencial ao lançamento de uma máquina que catalisa 
novos componentes semióticos, liberando novas potencialidades de 
desterritonalização e acarretando, em compensação, crispações do 
ego, fazendo aparecer formações patológicas que se inserem como 
época^ 81 Pr ° prÍaS n ° 8610 de certas "inércias" sociológicas da 

Não deveremos tampouco perder de vista que a frasezinha jamais 
sera completamente idêntica a si própria, que nem sempre ela levará à 
mesma politica no seio dos diversos agenciamentos em que a encon- 
traremos, e que, de um campo a outro, será levada a pôr em primeiro 
plano e explorar aspectos diferentes de suas matérias de expressão, 
bera, pois, impossível que lhe seja assinalada uma única qualidade 
essencial, uma única função estrutural, como será quase sempre o caso 
7 ma Í. um J cam ente por razões contingentes - do componente icônico 
de rostadade. E todo um registro de traços maquínicos, de signos- 
paruculas a-significantes que será aqui discernibilizado, posto em ação 
à mercê das diferentes consistências de campo e dos diferentes modos 
semióticos de eficiência dos agenciamentos de enunciação. Indício 
maquimco a-signifícante quando do "pressentimento" de um novo 
amor, no ano precedente ao encontro de Odette, a frasezinha se tor- 
nara uma espécie de indicativo etológico 9 da entrada de Swann no 
território dos Verdurin. Reduzida ao estado de lenga-lenga obsessiva, 
de ponto de amarra de um buraco negro em formação, isto é, de ponto 
de engolf amento tanto de tudo aquilo que faz o sentido da vida como 
das significações mais ordinárias, ela se anunciará igualmente como o 
canto do cisne da paixão de Swann por Odette, contribuirá mesmo 
para esclarecer certos aspectos neuróticos dela sem se transformar por 
isso em um componente de passagem diagramático que esboçaria uma 
radical renovação de sua existência. Swann, com efeito, jamais se recu- 
perara completamente dessa crise amorosa. Alguma coisa nele perma- 
necera definitivamente rompida. O Narrador e o barão Charlus con- 
frontados por sua vez com o mesmo tipo de buraco negro passional 
com o mesmo tipo de neurose de ciúme, terão, eles também, que enfren- 
tar provas iniciáticas similares (comportando igualmente a intrusão em 
sua vida de um componente musical hiperdesterritorializado). Mas 
eles se engajarão em vias radicalmente opostas. 



154 



FÉLIX GUATTAR1 



O barão Charlus se afundará até a completa decadência em sua 
paixão ciumenta por UM MÚSICO, enquanto o Narrador utilizará seu 
amor e seu conhecimento DA MÚSICA para desmontar um meca- 
nismo passional contra o qual ele se rebela e operar em si mesmo uma 
profunda revolução que lhe permitirá consagrar-se de corpo e alma à 
sua obra. Tal como um herói híbrido do mundo grego e do Antigo 
Testamento, o Narrador só poderá acabar com os obstáculos que 
barram seu caminho com a condição de ele próprio conduzir ao sacri- 
fício as pessoas que lhe são mais caras: sua avó, sua mãe, Albertina. 
Para aceder a um certo tipo de devir feminino, que constitui o motor 
essencial de sua criação, será preciso destruir tudo o que o ligava ao 
mundo das mulheres. A dupla morte de Odette — com aquilo que 
contém de artifício — não poderia, a meu ver, ser explicada diferen- 
temente. No final das contas, a chave do enigma passional do agen- 
ciamento Swann-Charlus-Narrador não tem nada a ver com o drama de 
Édipo, relaciona-se antes com uma descoberta surpreendente relativa 
ao destino de Orfeu, pois foi ele e mais ninguém quem precipitou Eurí- 
dice aos Infernos e ele só usa seus poderes musicais para fazê-la 
ressuscitar a fim de ter oportunidade de renovar seu sacrifício, mani- 
festando assim abertamente- que ele acabou mesmo com aquela espécie 
de paixão que o paralisou por tanto tempo. 10 

Proponho- me a estudar presentemente os diferentes agencia- 
mentos de enunciação da "frasezinha" que balizam a Busca} 1 Des- 
creverei sumariamente as circunstâncias, o contexto que os caracteri- 
zam, e também as diversas matérias de expressão que eles põem em 
ação. A propósito de cada um deles, tentarei destacar a resultante 
micropolítica que me parece mais significativa. (Existe, por exemplo, 
um componente dominante, um componente de passagem, uma aber- 
tura rizom ática, um efeito de arborescência, de buraco negro, etc.) 12 



NOTAS 

(1) Merleau-Ponty, Phénoménologie de la Perception, Gallimard, pp. 263-274. 
(N. do Trad.: Em português. Fenomenologia da Percepção, Livraria Freitas Bastos, 
1971.) 

(2) "Como diante daquela xícara de chá, as sensações de luz, de rumores claros, 
de ruidosas cores que Vinteuil nos enviava do mundo em que compunha, faziam passear 
em minha imaginação com insistência, mas com demasiada rapidez para que ela pudesse 
apreendê-la, alguma coisa que eu poderia comparar à seda olorosa de um gerânio. 
Somente, ao passo que, na lembrança, esse vago pode ser, se nao aprofundado, ao menos 
tornado mais preciso graças a uma sinalização de circunstâncias, que explicam por que 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



155 



Plêiade GaUimard) N do Trad t^fZ^ * , J tmpt Perdu ' Bibliothèque de k 

(4) O que nestes ensaios tento exprimir pelo verbo: semiotizar. 
r ec£o°=^ 

salões podem ser pintados numa^mobLdS «Sca a£ZlL ^"7 meSm ° ° S 
estudo dos caracteres, os quais também deverão ^ CO m 0 aU e TLa m *° 

todas as peças e lhe ^^^lo^nZ\t^T%r ^ P ° r 
No Caminho deSvann, 1. 1, p. l^G.oC l p "KiadeT. ^ * SWa " n " 

t^s^-^s^í^r^^ ateum tó 7°' emb - ihe 
£^^£SZ£^£i7i pi r a s;rá de L * d « 

terizará sua paixão por OdeU^ ^ * desabament ° semiótico que carac- 



156 



FÉLIX GU ATT A RI 



(9) Desenvolvendo-se, no essencial, no prolongamento da etologia animal, a 
etologia humana se ligou, até o presente, sobretudo ao estudo dos componentes mais 
visíveis, mais territorializados dos comportamentos humanos. Mas uma inversão dessa 
relação de dependência não é inconcebível e todas as esperanças são permitidas quando 
um etólogo como W. H. Thorpe vem declarar, a esse respeito, que algumas caracterís- 
ticas tão fundamentais do comportamento humano quanto a linguagem articulada, o 
manejo dos conceitos de número, o uso de símbolos, apreciações e mesmo criações 
artísticas, não estão absolutamente ausentes do mundo animal. W. H. Thorpe, Learning 
and Instinct in Animais. Methuen and Co., London, 1969, p. 469. 

(10) . A questão da morte do objeto amado se colocará de forma inteiramente 
diferente para o Narrador e para o barão Charlus. Este último tinha previsto realmente 
assassinar Morel (ín "O Tempo Redescoberto", t. VII, pp. 74-75, Globo; t. III, pp. 804- 
805, Plêiade), enquanto que os "assassinatos" de que o Narrador se acusa revelam 
somente o encadeamento de circunstancias que ele não conseguiu ou não quis desviar. 
"... me parecia que, por causa de minha ternura unicamente egoísta, eu havia deixado 
Albertina morrer, como havia assassinado minha avó" (ín "A Fugitiva", t. VI, pp. 
61-65, o trecho p. 65, Globo; t. III, pp. 496-501, o trecho p. 501, Plêiade). A morte de 
Albertina não procede de uma "pulsão criminal" do Narrador como o que sugere 
Charlus quando manifesta uma intenção mortífera em relação a Morel; ela concerne 
menos aos PERSONAGENS do que ao PROCESSO criativo do romance, ela é chamada 
pela perspectiva de uma renovação radical das situações e dos agenciamentos de enun- 
ciação. 

(11) N. do Trad.: Este trabalho do autor encontra-se nos outros ensaios de 
L 'Inconscient Machinique que com esse formam a unidade "Les Ritournelles du Temps 
Perdu" ("As Ladainhas do Tempo Perdido"). 

(12) Não farei, nesse ensaio, nenhuma referência explicita ao livro de Gilles De- 
leuze, Proust et Les Origines (PUF), ainda que me tenha constantemente inspirado nele. 
No entanto teria sido necessário que eu o citasse em cada página! Não fiz tampouco 
referência ao livro de Georges Matoré e Irene Mecz, Musique et Structure Romanesque 
dans la Rechercke du Temps Perdu (Ed. Klincksieck), não tendo tomado conhecimento 
dele senão depois de ter realizado minha própria pesquisa sobre a "frasezinha de Vin- 
teuil". £ lamentável que os autores desta obra extremamente cuidada e documentada, 
por não terem sabido resistir às mais escolares interpretações psicanalíticas, não nos 
proponham senão explicações reducionistas do papel da música em A Busca, que se 
limitaria, segundo eles, seja a uma função sublimatória das pulsões obsessivas ou per- 
versas de Proust, seja a uma simples ilustração de seu pensamento. 



Falação em torno de velhas 
estruturas e novos sistemas* 



Partamos de duas definições: 

1) A definição de estrutura dada por Lévi-Strauss: 

". . . para merecer o nome de estrutura, os modelos devem, exclu- 
sivamente, satisfazer quatro condições. 

"Em primeiro lugar, uma estrutura oferece um caráter de sis- 
tema. Ela consiste em elementos tais que uma modificação qualquer de 
um deles acarreta uma modificação de todos os outros. 

"Em segundo lugar, todo modelo pertence a um grupo de trans- 
formações, cada uma das quais corresponde a um modelo da mesma 
família, de modo que o conjunto des'sas transformações constitui um 
grupo de modelos. 

"Em terceiro lugar, as propriedades acima indicadas permitem 
prever de que modo reagirá o modelo, em caso de modificação de um 
de seus elementos. 

"Enfim, o modelo deve ser construído de tal modo que o seu 
funcionamento possa explicar todos os fatos observados." 1 
2) A definição de sistema dada por Gilles Ladrière: 

"Um sistema é um objeto complexo, formado de componentes 
distintos ligados entre si por um certo número de relações. Os compo- 
nentes são considerados como subsistemas, o que significa que entram 
na mesma categoria de entidades que os conjuntos aos quais per- 
tencem. Um subsistema pode por sua vez ser decomposto em sub- 
sistemas de ordem inferior ou ser tratado (pelo menos provisoriamente) 
como um sistema indecomponivel, isto é, como um sistema reduzido a 
um único elemento. 

"A idéia essencial é que o sistema possui um grau de comple- 
xidade maior que suas partes, ou melhor, possui propriedades irredu- 



158 



FÉLIX GUATTARI 



tíveis às de seus componentes. Esta irredutibilidade deve ser atribuída 
à presença de relações que unem os componentes. Poderemos falar, 
nesse caso, de relações definidoras." 2 

Um fato social, na medida em que se submetesse às exigências 
estruturais lévi-straussianas, só teria que "ficar bem comportadinho". 
Quero dizer que sua consistência deverá se aproximar mais da de um 
fenómeno homeostático inanimado — por exemplo, um estado de 
equilíbrio termodinâmico — do que da de uma realidade viva, capaz de 
inovações e mutações. Uma estrutura desse tipo se comporta, em 
relação ao seu objeto, como um corpo axiomático em relação ao seu 
universo matemático. Não se contenta em exigir — o que seria o mínimo 
— que suas partes permaneçam interdependentes do todo; pretende 
reger a totalidade de seu campo de realidade como um désposta que 
determinaria previamente os fatos e gestos de seus súditos, que progra- 
maria as consequências de todos os acontecimentos que poderiam vir a 
ocorrer, de todos os encontros que poderiam se dar. Comporta-se, em 
suma, como o sujeito sobrecodificador, o superego, o supersujeito do 
conjunto material e semiótico ao qual ela se aplica. Mas um super- 
sujeito mecanicista, enrijecido, morto, ou, se quiserem, um supersujeito 
da morte. 

Um sistema, embora requerendo uma consistência rigorosa- 
mente formalizável das interações que o constituem, parece ter exigên- 
cias menos despóticas que uma estrutura desse tipo. Ele não implica 
em uma abrangência totalitária das singularidades recolhidas em seu 
curso e se contenta com um mínimo de garantia de existência das 
correspondências que ele estabelece entre o objeto estudado e ele 
próprio. Um sistema não rege o conjunto do território ao qual se aplica; 
não só tolera as singularidades que encontra, mas pode até ser influen- 
ciado por elas. Além do mais, pode ficar fora desse território, compor- 
tando-se diante dele segundo um modelo do tipo "esquema diretor". 
Levantar interações sistémicas, por exemplo, na circulação de automó- 
veis da cidade de Paris, não implica que se pretenda chegar a uma 
descrição estrutural exaustiva. Modificar um subsistema pode levar a 
uma mudança de sistema e, aos poucos, arrastar este último para um 
desvio evolutivo. Por outro lado, nenhuma modificação em uma de 
suas subestruturas poderia provocar um tal processo dentro de uma 
estrutura. Ou ela se adapta localmente à mudança, ou ela se rompe. Na 
melhor das hipóteses, ela poderá se engajar, entre esses dois extremos, 
numa morfogênese que se refira a metaestruturas que lhe sejam 
homeomorfas. Certamente não se troca de sistema como de camisa, e o 
interesse das teorias sistémicas reside precisamente no fato de se pro- 
porem a formalizar as condições de tais mudanças. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



159 



Mesmo considerando a evolução dos costumes e das modas nesse 
campo, creio que se pode considerar que a abordagem sistémica atual 
apresenta-se como menos "possessiva" que a abordagem estrutural, 
em voga nos anos 60. É verdade que nenhum estruturalista nunca 
pensou em respeitar as exigências da definição lévi-straussiana e que 
todos tinham mais ou menos enfatizado o caráter de abertura das 
estruturas que estudavam. Pouco importam agora as escaramuças 
entre seguidores das diversas escolas. Digamos apenas que pode pare- 
cer cómodo hoje distinguir uma abordagem estruturalista mais globali- 
zante de uma abordagem sistémica mais prospectiva, mais aberta para 
a mudança. Essa questão da centralização da estrutura em uma chave 
operatória, em um supersujeito que supostamente garante sua homo- 
geneidade, pode nos orientar no sentido de tentar distinguir melhor as 
vantagens e os inconvenientes das fórmulas presentes e de nos enca- 
minhar para uma outra direção: a dos agenciamentos. O supersujeito 
estrutura] está enquistado no seio do "grupo de modelos" ao qual se 
refere Lévi-Strauss. Ele é que confere a unidade totalizante, o caráter 
de grupo aos diferentes sistemas de modelização. Por sua vez, a "subje- 
vidade" sistémica parece desenvolver-se de modo mais linear. Os sub- 
sistemas, os sistemas e os supersistemas podem começar a proliferar a 
partir das mesmas raízes — contanto que respeitem as cláusulas já 
citadas de relações definidoras (o que, aliás, parece colocar um sério 
problema). 

Ao enquistamento do supersujeito corresponde o caráter de 
reversibilidade inerente aos modos de temporalização das relações 
estruturais. Dentro do campo relativamente fechado da estrutura, os 
componentes vão e vêm, não param de voltar aos seus estados iniciais 
Os sistemas que Ilya Prigogine e Isabelle Stengers nos descrevem, 
podem, ao contrário, desenvolver-se segundo modos de temporalização 
interna e irreversível. Engajam-se, então, em "zonas de escolha" de 
onde surgirão novos estados sistémicos, modificando profundamente as 
leis dos estados anteriores. 3 

Parece que, de um modelo para o outro, ganhamos uma condição 
melhor das singularidades, que parecem conservar um direito à exis- 
tência, uma legitimidade e mesmo certos "graus de liberdade" na 
teoria dos sistemas. Mas será que com isso ultrapassamos uma etapa 
decisiva que nos permitiria alcançar verdadeiros motores subjetivos dos 
agenciamentos de enunciação? 

Foi por convenção, e também por provocação, que chamei de 
supersujeito a instância que mantém juntos os componentes de uma 
estrutura, que garante a consistência de seu metabolismo interno, que 
instaura sua individuação, que regula suas interações externas. Foi 



160 



FÉLIX GUATTARI 



também para tentar acompanhar o que acontecerá com essa problemá- 
tica, quando for transferida para o campo dos sistemas e depois para o 
dos agenciamentos de enunciação. A hipótese subjacente a essa extra- 
polação é que, se existe um sujeito em algum lugar, na "chegada", do 
lado do mundo real, é preciso que ele exista em toda parte, de outras 
formas, pelo menos potencialmente. Algo como uma proto-subjetivi- 
dade. Pouco importa que nome lhe daremos, contanto que nos permita 
diferenciar uma subjetividade sistémica do sujeito da estrutura. Longe 
dos estados de equilíbrio, as "chaves" sistémicas se modificam, entram 
em efervescência. 

Não se trata mais de uma única chave-sujeito da estrutura, mas 
de uma série evolutiva de chaves, melhor dizendo, de um processo de 
subjetivação. Trata-se de destacar o fato de que a escalada das relações 
definidoras entre os subconjuntos e os conjuntos sistémicos não leva a 
um jogo, do tipo "mecânico", visto que seu ponto de chegada não é 
necessariamente idêntico a uma "soma" dos sistemas constitutivos e 
que um enriquecimento dos últimos é possível no decorrer da agre- 
gação. 

Os estruturalistas tiveram o mérito de colocar a questão do 
sujeito, sem contudo resolvê-la. Os sistematas terão talvez o mérito de 
renovar a questão do tempo e dos modos internos de temporalização. 
Mas fica em suspenso a questão da história em seus aspectos mais 
radicais de inovação e de criatividade. 

O tempo irreversível do sistema não é ainda o tempo da história. 
A irreversibilidade intra-sistêmica fica fora do verdadeiro núcleo do 
agenciamento que abriga o que eu denominaria seu "capital de pos- 
sível". 4 O cálculo sistémico é concebido de modo a permitir a previsão 
do retorno ao estado inicial do possível, a reconstituição dos dados do 
sistema de partida. Mas é claro que a história não se presta nunca a 
este tipo de formalização. Não podemos conceber, por exemplo, a 
recomposição das condições que engendraram a Revolução Francesa 
ou a Revolução de Outubro, a não ser num romance ou no cinema. 
O "sistema" da história real escapa radicalmente de qualquer tentativa 
desta natureza. 

Uma teoria dos agenciamentos (agenciamentos "maquínicos" 
e/ou agenciamentos de enunciação) partirá de um outro enfoque. Nem 
sujeito transcendente estrutural, nem processo formal de subjetivação 
sistémica, o núcleo "maquínico" do agenciamento opera uma concate- 
nação direta dos fluxos, dos códigos, das realidades materiais, dos 
modos de representação, sem que jamais lhe seja possível "voltar 
atrás". Irreversível, seu processo aqui é irreversível simultaneamente 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



161 



ao nível do tempo, da experimentação e dos cálculos relativos a ambos. 
A história não repete nunca duas vezes os mesmos cálculos. Tal seria o 
principio dos mapas diagramáticos da es quizoan alise. Nunca aparece 
duas vezes o mesmo complexo; de modo que seria absurdo pretender 
designar qualquer um deles com um nome genérico ("Édipo" "Cas- 
tração", etc). A realidade só tinha que "ficar bem comportadinha" 
dentro de uma axiomática estrutural; a mudança sistémica permanecia 
pre-programada dentro de uma certa ordem probabilística. 

De modo diferente, a realidade e o tempo do agenciamento 
"prendem-se" ao acontecimento. A história agencia sem retorno possí- 
vel às suas criações, suas criaturas e seus modos de temporalização 
específicos. Os agenciamentos históricos não originam a individuação 
a corporização de seus objetos a partir de um sujeito ou de um processo 
de subjetivação: ela os encontra ou não os encontra em suas trajetórias 
que tem de particular o fato de resistirem a qualquer programação e 
so se prestarem a um trabalho de cartografia. 

Um agenciamento pode cair dentro da reversibilidade estrutural 
ou do telecomando do possível sistémico. Será apenas um caso de 
figura inerente ao seu próprio capital de possível, de modos particu- 
lares de marcar o tempo, como tempo suspenso, como ladainhas, que 
não afetarão sua irreversibilidade fundamental. O tempo da história 
não é nem interno, nem universal, é o tempo da "intervenção" dos 
diferentes modos de temporalização, é o tempo no estado nascente, o 
tempo "maquínico" da diferenciação entre um dentro e um fora, entre 
um estrato e um processo. 

Os estruturalistas e os sistematas desenvolveram toda espécie de 
procedimentos para afinar a análise do "déjà là". Sua contribuição não 
e absolutamente desprezável e a fecundidade de suas pesquisas não se 
discute. Mas não se pode esperar que suas previsões sejam mais que 
simples projeções do "déjà là" no futuro. Nenhum deles está em 
condições de "calcular" o novo, a mutação, a revolução, ou então 
trata-se de falsas mutações, falsas revoluções, redundâncias do passado 
(ou, pior ainda, uma política dissimulada de defesa do conforme, do 
normativo). Um agenciamento coletivo, na medida em que traça seu 
próprio caminho através das estruturas e dos sistemas, não é nem 
estrutural nem sistémico. O que não significa que alguns de seus 
aspectos não possam ser estudados sob tais perspectivas. Às máquinas 
vivas, às máquinas que gerem uma parte de seu próprio destino e do 
seu ambiente, deve ser reconhecida a capacidade de criar verdadei- 
ramente algo de novo, isto é, algo que não esteja inscrito nem no 
mundo das formas ideais, nem no da repetição estrutural ou da pre- 
visão sistémica. 



162 



FELIX GUATTARI 



Mas qual poderia ser a natureza desse outro possível que seria 
então capaz de se desgarrar do "déjà là"? O que pode haver de novo a 
partir do momento em que estamos lidando com energia, matéria, 
constantes universais... Eu ficaria tentado a abordar esta questão 
recorrendo ao mesmo tipo de princípio que me conduzia antes a fazer a 
hipótese de uma proto-subjetividade cósmica. Se deve haver história na 
chegada... é porque já havia no princípio, por toda parte. A história do 
cosmos, como a do mundo humano — mas segundo outros tempos, 
outras ladainhas — é a de uma deriva, uma desterritorialização multi- 
forme que se agarra a encontros singulares, que estratifica, estabiliza 
casos de espécies. Assim, a postulação de leis eternas para esta história 
do cosmos me parece apresentar os mesmos inconvenientes que para a 
história humana. Um "deslizamento" infinitamente retroativo e pros- 
pectivo das leis da natureza nos precipitaria em um sistema de limite 
absoluto da criatividade potencial dos tempos e dos estados que lhes 
cabe ordenar, em direção a um aquém e um além intransponíveis do 
campo da "inovação" cósmica, a um apocalipse de recuperação geral, 
a partir do qual tudo poderia ser repensado, recalculado, refeito. 
Semelhante idéia de uma parada da desterritorialização não pode ser 
sustentada. No tempo zero ou no tempo terminal, todas as coordenadas 
espácio-temporais cairiam por terra. Ainda que não houvesse mais 
nada para contar, apareceria retroativamente a precariedade de todo e 
qualquer cálculo. Justamente pelo fato de o "déjà là" ser solidamente 
calculável é que o futuro está cheio de potencialidades imprevisíveis. 
A legitimidade das leis só diz respeito ao passado desse "déjà là" e a 
um futuro calcado nesse passado, um futuro probabilístico, um futuro 
livre de toda improbabilidade maior, em outras palavras, de todo 
acontecimento singular. Assim, é a própria idéia de recapitulação sisté- 
mica do "déjà là" que é contrária ao tempo da história. Resta o recurso 
de se entregar a uma instância transcendente. Mas, supondo que um 
deus das estruturas e dos sistemas um dia tivesse a idéia — tão absurda 
— de vir à existência, podemos admitir que ele certamente seria 
incapaz de assumir a parada dos tempos implicada: 

1) pela reversibilidade estrutural; 

2) pela excessivamente relativa irreversibilidade sistémica. 

Um deus eterno, fora do tempo, não conseguiria nunca sair de 
seu buraco negro. Em perpétua implosão, ele permanecerá impotente, 
catatônico, sem controle sobre qualquer realidade — quer ele tenha ou 
não o capricho de inventar um filho e atirá-lo na história! (O milagre da 
Encarnação, na verdade, se inscreve em um modo ainda muito "calcu- 
lador" no registro do possível. O único milagre que me pareceria convir 
ao universo das singularidades verdadeiras seria o de um deus absolu- 



REVOLUÇÂO MOLECULAR 



163 



tumente improvável, infinitamente afastado de qualquer zona de equi- 
líbrio probabilístico, em resumo, sem existência possível. Este deus de 
pura especulação, sem relação com o que quer que haja de tangível, é, 
no fundo, o conjunto das singularidades, na medida em que um tal 
conjunto é impossível por essência, sua existência escapando por todos 
os lados a uma velocidade infinita. Então, depois da teoria dos sub- 
conjuntos vagos, a dos conjuntos impossíveis...) 

Em resumo, a estrutura expulsa as singularidades, e, por isso 
mesmo, expulsa a história. A propósito, um psicanalista estrutural não 
poderia ser mais malandro que o bom deus! As singularidades que 
transitam pelas palavras, pelos signos não verbais, pelos sintomas 
físicos de seu paciente não lhe servem para nada: para ele só resta a 
estrutura da mensagem que ele batizará complexo disto ou daquilo e 
que não poderá senão escapar às contingências históricas. Em princí- 
pio, o sistema não expulsa as singularidades, ele as extrai, para ex- 
plorá-las para seus próprios fins. Desta extração resulta uma perda de 
substância do agenciamento, um deslastro dos traços de heterogenei- 
dade que especificam suas singularidades. O acontecimento, os traços 
singulares, que para os estruturalistas eram apenas artefatos, resíduos, 
inimigos da alegria de estruturar, tornaram-se para os sistematas pon- 
tos de declinação de um possível "em conserva", catalisadores de 
"zonas de escolha relativas". Da perspectiva dos agenciamentos 
"maquínicos", as singularidades podem igualmente ser levadas a essas 
diversas condições de resíduos, de objetos parciais, ou de esboços de 
uma mudança calculável. Mas não deixam de constituir o lugar de um 
outro possível a partir do qual poderá se desenvolver um antes e um 
depois, rupturas, coordenadas de espaço, de tempo, de substância. 
Não qualquer substância! Mas aquelas que conferem, em última aná- 
lise, sua consistência, sua compacidade aos agenciamentos em que 
habitam (por isso são elas que datam e designam autenticamente os 
agenciamentos). A consistência precede a existência. O acontecimento 
singular da "tomada de consistência" gera os tempos, os espaços e as 
substâncias próprias dos agenciamentos. Enquistadas, teleguiadas ou 
em estado livre — isto é, no estado de perpétuo nascimento — , são as 
singularidades que produzem territórios desterritorializando outros, 
que inventam novos agenciamentos, que secretam processos inéditos de 
semiotízação e de subjetivação. Estão na raiz dos agenciamentos de 
enunciação antes mesmo que qualquer coordenada seja desenvolvida, 
que qualquer produção tenha sido programada. Só a singularidade é 
criadora de processo singular, isto é, de história. 



NOTAS 

(1) In Antropologia Estrutural, Cap. XV, I, p. 316, Tempo Brasileiro, RJ, 1975. 

(2) Encyclopediae Universalis. J. Ladrière, artigo: "Systèmes". 

(3) Cf. La Nouvelle Alliance , Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, Gallimard, 1979. 

(4) Cf. "L"InconscieníMachinique". 



O inconsciente maquínico e 
a revolução molecular* 



Os comportamentos individuais e coletivos são regidos por múl- 
tiplos fatores. Alguns são de ordem racional — ou parecem ser — 
como, por exemplo, os que se podem tratar em termos de relação de 
força ou de relações económicas. Outros, ao contrário, parecem depen- 
der principalmente de motivações passionais, sendo difícil decifrar suas 
finalidades e podendo, às vezes, conduzir os indivíduos e os grupos 
implicados a agir contrariamente aos seus interesses manifestos. 

Há muitas maneiras de abordar esse "avesso" da racionalidade 
humana. Pode-se negar o problema ou reduzi-lo ao domínio da lógica 
habitual, da normalidade e da boa adaptação social. Considerar- se-á, 
afinal, que o mundo dos desejos e das paixões se reduz a uma pertur- 
bação no conhecimento objetivo, um "ruído" , no sentido em que a teoria 
da informação emprega esse termo. Dessa perspectiva, nada mais resta 
que tentar corrigir tais falhas, de modo a retornar às normas dominan- 
tes. Inversamente, pode-se considerar que esses comportamentos de- 
pendem de uma lógica diferente, que deve ser estruturada como tal. Em 
vez de abandoná-los à sua irracionalidade aparente, vamos então tratá- 
los como uma espécie de matéria-prima, como uma espécie de mineral 
de que se podem extrair elementos essenciais à vida da humanidade, es- 
pecialmente à sua vida de desejo e às suas potencialidades criativas. 

Segundo Freud, esta era a tarefa à qual a psicanálise devia se 
dedicar. Mas até que ponto ela cumpriu esse objetivo? Tornou-se real- 
mente uma nova química do psiquismo inconsciente, ou não passa de 
uma espécie de alquimia, cujos mistérios evaporaram com o tempo e 
cujas simplificações, cujo "reducionismo", são cada vez menos tole- 
rados, quer por ação de suas correntes ortodoxas ou de seus ramos 
estruturalistas? 



166 



FÉLIX GUATTARI 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



167 



Após longos anos de formação e de prática, fui chegando à con- 
clusão de que a psicanálise devia reformar radicalmente seus métodos e 
suas referências teóricas, caso contrário estaria condenada a vegetar na 
esclerose e no conformismo que a caracterizam atualmente, ou até 
mesmo a perder toda credibilidade e a desaparecer completamente. 
O que, eu insisto, me pareceria prejudicial por muitas razões. Pouco 
importa, creio eu, que as sociedades, as escolas psicanalíticas e a 
própria profissão de psicanalista desapareçam, contanto que a análise 
do inconsciente subsista enquanto prática, segundo novas modali- 
dades. 

Em primeiro lugar, creio que é a própria concepção de incons- 
ciente que deve ser revista. Não sei como é no México, mas na Europa o 
inconsciente faz parte da bagagem mínima de toda e qualquer pessoa. 

Ninguém duvida de sua existência. Falá-se dele como da memó- 
ria ou da vontade, sem se perguntar muito o que é, na verdade. 
O inconsciente deve ser alguma coisa que fica no fundo da cabeça, uma 
espécie de caixa preta onde estão armazenados os segredos íntimos, 
os sentimentos confusos, as segundas intenções suspeitas. Em todo 
caso, algo que deve ser manejado com cuidado. 

Sem dúvida, os psicanalistas por profissão não se contentam com 
uma definição assim tão vaga. Exploradores ou conservadores de um 
domínio que consideram seu, eles têm ciúmes de suas prerrogativas. De 
acordo com eles, não poderíamos ter acesso ao mundo do inconsciente 
senão depois de uma longa e custosa preparação, depois de uma 
espécie de ascese extremamente controlada. Para ter sucesso, a análise 
didática, bem como a análise dos não iniciados, exige muito tempo e 
requer o estabelecimento de um dispositivo muito particular (relação 
de transferência entre o analista e o analisado, condução da anamnese e 
da exploração das identificações e das phantasias pela supressão das 
resistências e pela interpretação, etc). 

Este inconsciente, que se supõe existir no coração de cada indi- 
víduo e ao qual, entretanto, nos referimos a respeito de tudo — neu- 
roses, psicoses, vida cotidiana, arte, política, etc. — , seria, então, 
essencialmente um assunto de especialistas. E o que há de espantoso 
nisso? Atualmente, muitas coisas que, antes, pareciam pertencer ao 
domínio comum para todo o sempre, aos poucos acabam caindo nas 
mãos de especialistas. A água, o ar, a energia, a arte estão em vias de se 
tornar propriedades privadas! 

E por que não a phantasia e o desejo? 

Ê de uma concepção de inconsciente muito diferente que eu gos- 
taria de falar hoje. Não de um inconsciente de especialistas, mas de um 
campo ao qual cada um poderia ter acesso tranquilamente e sem 



preparo especial, um território aberto de todos os lados às interações 
sociais e económicas, diretamente ligado às grandes correntes histó- 
ricas, e, portanto, não exclusivamente centrado nas disputas de família 
dos heróis trágicos da Antiguidade grega. Este inconsciente, eu o deno- 
minarei "esquizoanalítico", por oposição ao inconsciente psicanalítico, 
porque se inspira mais no "modelo" da psicose do que no das neuroses 
a partir das quais foi construída a psicanálise. Eu o qualificaria igual- 
mente de "maquínico", porque não está essencialmente centrado na 
subjetividade humana, mas participa dos mais diversos fluxos de sig- 
nos, fluxos sociais e fluxos materiais. Os antigos territórios do Ego, da 
família, da profissão, da religião, da etnia, etc, desfazem-se uns após 
os outros — se desterritorializam. Não existe mais nada evidente no 
registro do desejo. E porque o inconsciente moderno é constantemente 
manipulado pelos meios de comunicação, pelos Equipamentos Cole- 
tivos, pelos especialistas de todo tipo, que não podemos mais nos 
contentar hoje em defini-lo simplesmente em termos de entidade intra- 
psíquica, como fazia Freud na época em que elaborou suas diferentes 
tópicas. Isso não significa que o inconsciente maquínico seja necessa- 
riamente mais padronizado, mais "impessoal" ou arquetípico que o 
inconsciente tradicional. Sua missão é a de abranger tanto mais as 
singularidades individuais quanto "amarra" mais intensamente as for- 
ças sociais e as realidades históricas. Portanto, as problemáticas nele 
inseridas não poderiam mais depender exclusivamente do domínio da 
psicologia. Elas compreendem as "escolhas de sociedade" mais funda- 
mentais: o "como viver" num mundo transpassado em todos os sen- 
tidos por sistemas maquínicos que tendem a expropriar toda singula- 
ridade, toda vida de desejo. 

Convém notar, entretanto, que o novo modelo de inconsciente 
aqui proposto não se opõe termo a termo ao antigo modelo psicana- 
lítico. Retoma alguns de seus elementos, ou ao menos os reconstitui 
a título de variantes, de casos de figuras possíveis. Na verdade, existe 
uma fórmula de inconsciente circunscrito num espaço intrapsíquico 
fechado e no qual se acumulam materiais mentais recalcados por 
ocasião das primeiras fases da vida psíquica. Não se pode desconhecer 
que esse território imaginário, esse espaço maldito dos desejos proi- 
bidos, espécie de principado secreto, de Estado dentro do Estado, 
tende a impor sua lei ao conjunto do psiquismo e dos comportamentos. 
Essa fórmula de inconsciente privado, personológico, familialista, edi- 
piano, teve, aliás, uma grande importância em nossas sociedades, pois 
nela se apóia todo o sistema de culpabilização, de interiorização das 
normas que permite que elas funcionem. Mas, eu repito, trata-se 
apenas de um caso de figura do inconsciente, e não de todo o incons- 



1 



168 



FÉLIX GUATTARI 



ciente. Existem outras possibilidades de funcionamento e cabe a um 
novo tipo de análise descobri-las e promovê-las. 

Lembramo-nos que no modelo freudiano o inconsciente resultava 
de um duplo movimento: de um movimento de repulsão dos "repre- 
sentantes pulsionais" que o consciente e o pré-consciente não podiam 
tolerar (enunciados, imagens, phantasias proibidas) e de um movi- 
mento de atração originado a partir de formações psíquicas recalcadas 
desde sempre no inconsciente: recalque primário. Os conteúdos mar- 
cados com o rótulo de proibido transitariam primeiro pelo consciente e 
pré-consciente e depois cairiam inelutavelmente nessa espécie de 
"inconsciente-descarga" que é regido por uma sintaxe particular deno- 
minada processo primário (exemplo dessa sintaxe: os mecanismos de 
condensação e de deslocamento que atuam no sonho). Nada, nesse 
duplo movimento, autoriza a possibilidade de processo criativo. Tudo 
está previamente determinado, todos os percursos estão marcados. De 
forma diferente do inconsciente maquínico, aberto a todos os possíveis, 
o inconsciente psicanalítico está programado como um destino. 

No lugar de uma pesada maquinaria de dois tempos — sistema 
de recalque-atração do inconsciente clássico — , o inconsciente esquizo- 
analítico faz proliferar todo um conjunto de máquinas desejantes. 
Agora não se trata mais de "objetos parciais" tipificados — o seio, 
as fezes, o pênis, etc. — , mas de uma multidão de objetos singulares, 
heterogéneos uns em relação aos outros, articulando-se em conste- 
lações funcionais nunca redutíveis a complexos universais. 

* * * 

Recapitulemos as principais características do inconsciente ma- 
quínico: 

1) Não é a sede exclusiva de conteúdos representativos (repre- 
sentação de coisas, representação de palavras, etc), mas o lugar de 
intenção entre componentes semióticos e sistemas de intensidade os 
mais diversos (semióticos linguísticos, semióticos "icônicos", semióti- 
cos etológicos, semióticos económicos, etc). Em outras palavras, não 
corresponde ao célebre axioma formulado pelo Dr. Lacan, quando 
afirma que o inconsciente é "estruturado como uma linguagem" . 

2) Seus diferentes componentes não dependem de uma sintaxe 
universal. A disposição de seus conteúdos e de seus sistemas de inten- 
sidades (tal como pode se manifestar no sonho, nas phantasias, nas 
pulsões) é singular e não se presta a procedimentos analíticos reducio- 
nistas, do tipo complexo de castração, complexo de Édipo. Tais casos 
de figura existem, mas unicamente a título de casos particulares, 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



169 



ligados a tal ou qual área cultural ou social, ou a determinada estrutura 
psicopatológica que aparece em contextos bem definidos. 

3) As relações inconscientes que se estabelecem entre os indiví- 
duos também não dependem de estruturas universais, como a corrente 
estruturalista moderna da psicanálise tentou estabelecer [espécie de 
teoria dos jogos da intersubjetividade, fundamentada no que Lacan 
denomina "maternas" do inconsciente (o grande outro (A), o pequeno 
outro (a), o ego, o ideal do ego, o ego ideal, o falo, a castração, etc)]. 
Sem dúvida, as relações intersubjetivas e interpersonológicas ocupam 
uma posição essencial no interior dos agenciamentos inconscientes, 
mas não são tudo. Outras relações não menos essenciais ocorrem no 
seu interior. Sistemas de entidades abstratas (maquinismo abstraio), 
ladainhas musicais (por exemplo, a "pequena frase de Venteuil", na 
obra de Proust), traços de rostidade que não pertencem propriamente 
às identificações humanas, traços de animalidade, de paisageneidades, 
sistemas maquínicos, económicos dos mais diversos. Existe, em Paris, 
uma loja de departamentos que se chama La Samaritaine. Sua divisa é: 
"Encontra-se de tudo na Samaritaine" . A mesma coisa acontece com 
esse inconsciente maquínico. É absolutamente essencial que nele se 
encontre de tudo; só sob essa condição se poderá dar conta de seu 
caráter heteróclito e de sua sujeição à sociedade de consumo, bem 
como de sua riqueza criativa e de sua infinita disponibilidade às trans- 
formações do mundo. 

4) O inconsciente pode voltar-se para o passado e retrair-se no 
imaginário, mas pode igualmente abrir-se para o aqui e agora, ter 
escolha com relação ao futuro. As fixações arcaicas (narcisismo, ins- 
tinto de morte, medo à castração, etc) não são fatalidades. Não 
constituem, como pretendeu Freud, o rochedo derradeiro do incons- 
ciente. 

5) O inconsciente maquínico, evidentemente, não é o mesmo em 
todo o mundo, e não pára de evoluir no decorrer da história. A 
economia do desejo dos trobriandeses de Malinowski não é idêntica à 
dos habitantes do Brooklyn, e as phantasias dos habitantes de Teo- 
tihuacán, na época pré-colombiana, não têm muito mais a ver com as 
dos mexicanos de hoje. 

6) As estruturas de enunciação analíticas relativas ao incons- 
ciente não passam necessariamente pelos serviços de uma corporação 
de analistas. A análise pode ser um empreendimento individual ou 
coletivo. As noções de transferência, interpretação, neutralidade, fun- 
damentadas na cura-padrão, também têm que ser revistas. Só são 
admissíveis em dispositivos muito particulares, dependendo de indica- 
ções provavelmente muito delimitadas. 



170 



FÉLIX GUATTARI 



Mas será que nao existem, apesar das reviravoltas da história e 
das transformações tecnológicas e culturais, elementos estruturais que 
se encontram necessariamente em todas as formações inconscientes? 
As oposições eu-outro, homem-mulher, pai-filho, etc, não se cruzam 
de modo a constituir um crivo, uma espécie de matemática verdadei- 
ramente universal do inconsciente? Em que medida a existência de um 
crivo desses viria necessariamente proibir a diversificação dos incons- 
cientes? 

Uma das maiores contribuições de Freud consiste em ter desco- 
berto o fato de que o inconsciente não conhecia a negação, pelo menos 
não o mesmo tipo de negação que o da nossa lógica consciente. Assim, 
constitui um universo onde as oposições estritas que acabei de enu- 
merar nunca são evidentes. Podemos ser, e até somos necessariamente, 
sempre ao mesmo tempo: Eu e Outro, homem e mulher, pai e filho... O 
que importa, agora, não são mais entidades polarizadas, reificadas, 
mas processos maquínicos, que, juntamente com Gilles Deleuze, deno- 
mino "devir": "devir" sexual, "devir" planta, "devir" animal, "devir" 
invisível, "devir" abstraio. O inconsciente maquínico nos faz transitar 
pelos platôs de intensidade constituídos por esses devires, nos permite 
penetrar em universos transformacionais, quando tudo parecia estrati- 
ficado e definitivamente cristalizado. Instala-se no lugar onde se entre- 
laçam os efetivos motores da práxis, isto é, antes da oposição reali- 
dade-representação. 

Se acontece, por exemplo, de um paciente falar de seu patrão ou 
do Presidente da República para o seu psicanalista, este provavelmente 
só registrará identificações paternas. Por trás da balconista dos Cor- 
reios ou da apresentadora de televisão, ele não perceberá nada mais do 
que uma imago materna universal. E, de modo mais geral, em todas as 
formas que se animam à nossa volta, ele reconhecerá sexos masculinos 
ou femininos, instrumentos de castração simbólica, etc. Todo este sis- 
tema de correspondência simbólica não deixaria de ter seu encanto, se 
não fosse tomado num único sentido. Pois se, por trás do patrão, às 
vezes está o pai — por isso mesmo que se fala em "paternalismo" — , 
por trás do pai de uma criança existe também e muito concretamente 
um patrão ou um superior hierárquico. A função paterna dentro do 
inconsciente é inseparável da inserção sócio-profissional daquele que é 
o seu suporte. Por trás da mãe, existe também um certo tipo de con- 
dição feminina dentro do contexto de um inconsciente social e político 
particular. A criança não vive dentro de um mundo fechado, que seria 
o da família. A família é permeável a todas as forças circundantes, a 
todas as influências do campo social. Os Equipamentos Coletivos, os 
meios de comunicação, a publicidade não param de interferir nos 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



171 



níveis mais íntimos da vida subjetiva. O inconsciente, insisto, não é 
algo que se encontra unicamente em si próprio, uma espécie de uni- 
verso secreto. É um nó de interações maquínicas através do qual somos 
articulados a todos os sistemas de potência e a todas as formações de 
poder que nos cercam. Os processos inconscientes não podem ser ana- 
lisados em termos de conteúdo específico, ou em termos de sintaxe 
estrutural, mas antes de mais nada em termos de enunciação, de agen- 
ciamentos coletivos de enunciação. Estes, por definição, não coincidem 
com as individualidades biológicas. A enunciação maquínica circuns- 
creve conjuntos-sujeitos que atravessam ordens muito diferentes umas 
das outras (os signos, a "matéria", o espírito, a energia, a "meca- 
nosfera", etc). 

As reduções familialistas do inconsciente, a que estão habituados 
os psicanalistas, não são "erros". Correspondem a um certo tipo de 
agenciamento coletivo de enunciação. Procedem de uma micropolítica 
particular relativa ao inconsciente. A mesma que preside a uma certa 
organização capitalística da sociedade. Um inconsciente maquínico 
muito diversificado, muito criativo, seria contrário à boa manutenção 
de relações de produção baseadas na exploração e na segregação social. 
É por isso que todas as técnicas de recentralização do inconsciente no 
sujeito individuado, e em objetos parciais reificados, impedem a sua 
plena expansão no mundo das realidades presentes e das transforma- 
ções possíveis, e têm, atualmente, uma posição privilegiada dentro da 
gigantesca indústria de normalização, de adaptação e de esquadri- 
nhamento do socius na qual se apóiam as sociedades capitalísticas. 
(Nas quais incluo as sociedades socialistas burocráticas.) 

A divisão social do trabalho, a designação dos indivíduos a seus 
postos de produção não dependem unicamente dos meios de coerção ou 
do sistema de remuneração monetária; mas também, e talvez de modo 
mais fundamental, das técnicas de modelização dos agenciamentos 
inconscientes operados pelos equipamentos sociais, pelos meios de 
comunicação, pelos métodos psicológicos de adaptação de todos os 
tipos. Nas sociedades pré-capitalistas a libido estava ligada a estruturas 
relativamente estáveis (família, profissão, castas, classes, etc). Os 
novos modos de produção, a instauração de um Capitalismo Mundial 
Integrado, tendem inexoravelmente para a destruição das antigas 
estruturas territorializadas dos agenciamentos inconscientes. E a ex- 
pansão tentacular do maquinismo tem como efeito o desenvolvimento 
de uma espécie de angústia coletiva, que leva, em contrapartida, ao 
reaparecimento de ideologias religiosas, de mitos arcaicos, etc. 

É neste contexto que convém situar um certo conservadorismo da 
psicanálise atual. Entretanto, qualquer que seja a amplitude das ope- 



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FÉLIX GUATTARI 



rações subjetivas de freamento, de reterritorialização, que acabo de 
lembrar, a integração maquínica da humanidade continuará a avan- 
çar. Toda a questão está em saber segundo quais modalidades últimas 
ela se orientará. Irá, como atualmente, contra a corrente das linhas 
criativas do desejo e das finalidades humanas mais fundamentais — 
pensemos na imensa miséria, tanto física quanto moral, que reina na 
maior parte do planeta — ? A economia do desejo, ao contrário, conse- 
guirá ficar em harmonia com os progressos técnicos e científicos? Só 
uma profunda transformação das relações sociais em todos os níveis, 
um imenso movimento de "retomada" das máquinas técnicas pelas 
máquinas desejantes, o que eu denomino uma "revolução molecular", 
correlativa da promoção de práticas analíticas e micropolíticas novas, 
permitirão alcançar um tal ajustamento; inclusive, o destino da luta 
das classes oprimidas — constantemente arriscadas a mergulhar em 
relações especulares com os poderes constituídos, a reproduzir relações 
de dominação — me parece estar ligado a esta revolução molecular. 

Todas estas considerações, que não posso desenvolver mais 
extensamente dentro deste trabalho, me levam a afirmar que a análise 
do inconsciente deve se tornar "assunto de todos". Significa que ela 
terá que renovar seus métodos, diversificar suas abordagens, enrique- 
cer-se em contato com todos os campos da criação. Em resumo, fazer 
exatamente o contrário do que a psicanálise oficial faz atualmente. 



Micropolítica do fascismo* 



O fascismo é um tema-chave para abordar a questão do desejo no 
campo social. Além do mais, não conviria aproveitar para falar disso, 
enquanto ainda se pode fazê-lo livremente? 

A proposta de uma micropolítica do desejo não consiste em 
estabelecer uma ponte entre a psicanálise e o marxismo, enquanto 
teorias já constituídas. Isto não me parece nem desejável nem possível. 
Não creio que um sistema de conceitos possa funcionar conveniente- 
mente fora de seu meio de origem, fora dos agenciamentos coletivos de 
enunciação que o produziram. Quando falo de desejo, não estou to- 
mando esta noção emprestada da psicanálise ortodoxa ou da teoria 
lacaniana. Não pretendo fundar um conceito científico; tento, simples- 
mente, esboçar um conjunto teórico provisório, onde está em questão o 
funcionamento do desejo no campo social. Enquanto que não é possível 
manter juntos numa mesma frase o prazer e o gozo com a revolução — 
não se pode dizer que exista um "prazer da revolução" ou um "gozo da 
revolução" — , ninguém mais se espanta, hoje em dia, em ouvir falar de 
um "desejo de revolução" ou de um "desejo revolucionário". Isto me 
parece estar ligado ao fato de que o sentido que geralmente é dado ao 
prazer e ao gozo seja inseparável de um certo modo de individuação da 
subjetividade hiper-solitária, que encontra uma espécie de realização 
no espaço do divã. Não ocorre o mesmo com a libido e o desejo. 

O desejo não está intrinsecamente ligado a uma individuação da 
libido. Uma máquina de desejo encontra formas de individuação, ou 
seja, de alienação. O desejo não é um desejo ideal, nem tampouco sua 
repressão. Não há desejo em si nem repressão em si. O ideal de uma 
"castração bem sucedida" faz parte das mistificações mais reacioná- 
rias. O desejo e a repressão funcionam numa sociedade real e são mar- 



174 



FÉLIX GUATTARI 



cados por cada uma de suas etapas históricas; nao se trata, pois, de 
categorias gerais transpoilíveis de uma situação para outra. 



Micro e macropolíticas do desejo 

A distinção que propomos estabelecer entre micropolítica e ma- 
cropolítica do desejo deveria funcionar como algo que tende a liquidar 
a pretensa universalidade de modelos aventados pelos psicanalistas, e 
que lhes servem para precaver-se contra contingências políticas e so- 
ciais. Considera- se como óbvio que a psicanálise concerne ao que se 
passa em pequena escala, apenas a da família e da pessoa, enquanto 
que a política só concerne a grandes conjuntos sociais. Queria mostrar 
que, ao contrário, há uma política que se dirige tanto ao desejo do 
indivíduo quanto ao desejo que se manifesta no campo social mais 
amplo. E isso sob duas formas: seja uma micropolítica que vise tanto os 
problemas individuais quanto os problemas sociais, seja uma macro- 
política que vise os mesmos campos (indivíduo, família, problemas de 
partido, de Estado, etc). O despotismo que, frequentemente, reina nas 
relações conjugais ou familiais, provém do mesmo tipo de agencia- 
mento libidinal que aquele existente no campo social. Inversamente, 
não é absurdo abordar um certo número de problemas sociais em 
grande escala, por exemplo os do burocratismo e do fascismo, à luz de 
uma micropolítica do desejo. O problema, portanto, não é o de cons- 
truir pontes entre campos já constituídos e separados uns dos outros, 
mas de criar novas máquinas teóricas e práticas, capazes de varrer as 
estratificações anteriores e estabelecer as condições para um novo 
exercício do desejo. Não se trata mais, neste caso, simplesmente de 
descrever objetos sociais preexistentes, mas de também intervir ativa- 
mente contra todas as máquinas de poder dominante, quer se. trate do 
poder do Estado burguês, do poder das burocracias de toda e qualquer 
espécie, do poder escolar, do poder familial, do poder falocr ático no 
casal, e até mesmo do poder repressivo do superego sobre o indivíduo. 



Três modos de abordagem da questão do fascismo 

Pode-se esquematizar três modos de abordagem dessas questões: 
um primeiro, sociológico, que qualificaremos de analítico-formalista; 
um segundo, neomarxista, sintético-dualista, e um terceiro, analítico- 
político. O primeiro e o segundo mantêm a separação entre os grandes 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



175 



e os pequenos conjuntos sociais, enquanto que o terceiro tenta ultra- 
passá-los. 

O pensamento sociológico analítico-formalista se propõe a dis- 
tinguir traços comuns e separar espécies, seja por um método de analo- 
gias sensíveis — procurará, então, fixar pequenas diferenças relativas, 
como, por exemplo, distinguir as similitudes e os traços particulares 
que caracterizaram os três tipos de fascismo, italiano, alemão e espa- 
nhol — , seja por um método de homologias estruturais — procurará, 
então, fixar diferenças absolutas, por exemplo, entre o fascismo, o sta- 
linismo e as democracias ocidentais. De um lado, minimizam-se as dife- 
renças para extrair um traço comum, e, do outro, ampliam-se as dife- 
renças para separar planos e constituir espécies. 



O édipo militante neomarxista 

O pensamento sintético-dualista neomarxista pretende superar 
tal sistema, não separando jamais a descrição teórica de uma prática 
social militante. No entanto, esta prática encontra, geralmente, seu 
limite em um modo de corte de caráter .diferente; entre a realidade do 
desejo das massas e as instâncias que são supostas representá-las. 
O modo de pensamento sociológico procede coisificando os objetos 
sociais e desconhecendo o desejo e a criatividade das massas; o do 
pensamento militante marxista tenta superar este desconhecimento, 
mas constitui-se, ele próprio, em um sistema coletivo de representação 
do desejo das massas. Ele só reconhece a existência de um desejo 
revolucionário à medida que consegue impor-lhe a mediação da repre- 
sentação teórica do marxismo e da representação prática do Partido, 
suposto ser sua expressão. Instala-se, assim, todo um mecanismo de 
correias de transmissão entre a teoria, a direção dos partidos e os 
militantes, de modo que as inúmeras diferenças que atravessam o 
desejo das massas encontram-se "massificadas" e reduzidas a formu- 
lações padronizadas, cuja necessidade se pretende justificar, em nome 
da coesão da classe operária e da unidade de seu partido. Passou-se da 
impotência de um sistema de representação mental à impotência de um 
sistema de representatividade social. De fato, não é por acaso que este 
método de pensamento e de ação neomarxista perde-se em práticas 
burocráticas; isto se deve ao fato dele nunca ter, realmente, livrado sua 
pseudodialética de um dualismo ranheta entre a representação e a rea- 
lidade, entre a casta dos portadores das boas palavras de ordem e as 
massas que se pretende alfabetizar e catequizar. Este dualismo redutor 
dos neomarxistas reencontraremos por toda parte: ele contamina sua 



176 



FÉLIX GUATTARI 



concepção da oposição esquemática entre a cidade e o campo, suas 
alianças internacionais, sua política do campo da paz e do campo da 
guerra, etc. Esse sistema de bipolarização de qualquer problema, que 
gira em torno de um objeto terceiro, nem por isso constitui uma 
"síntese dialética". Este objeto coloca, essencialmente, em jogo o poder 
e, em primeiro lugar, o poder do Estado e o contrapoder do Partido, 
que se propõe a tomar seu controle e que não pára de reproduzir quase 
ipsis litteris a mesma modalidade de poder. Qualquer luta parcial é 
reduzida a este tipo de objeto terceiro transcendente; tudo deve tomar 
significação a partir dele, até mesmo quando a história real o mostra 
naquilo que é, ou seja, um logro; da mesma forma que ocorre com o 
objeto fálico da relação triangular edipiana. Poder-se-ia, aliás, dizer 
deste dualismo e do objeto transcendente por ele erigido que consti- 
tuem o núcleo do édipo militante com o qual deverá se confrontar uma 
análise política. 

Uma micropolítica do desejo 

Uma análise política que se pretendesse inseparável de uma polí- 
tica da análise, só poderia recusar-se a deixar subsistir o corte tradi- 
cional entre os grandes conjuntos sociais e os problemas individuais, 
familiais, escolares, profissionais, etc. Não mais se trataria de reduzir 
mecanicamente a problemática das situações concretas a uma simples 
alternativa de classes ou de campos e de pretender encontrar todas as 
respostas, a partir da ação de um partido revolucionário único, deposi- 
tário central da verdade teórica e prática. Portanto, uma micropolítica 
do desejo não mais se proporia a representar as massas e a interpretar 
suas lutas. Isso não quer dizer que ela condene, a priori, toda ação de 
partido, toda idéia de linha, de programa, ou mesmo de centralismo; 
mas eia se esforça para situar e relativizar sua ação, em função de uma 
prática analítica, opondo-se passo a passo aos hábitos repressivos, ao 
burocratismo, ao maniqueísmo moralizante que contaminam atual- 
mente os movimentos revolucionários. Deixaria de se apoiar em um 
objeto transcendente para ter segurança; não mais se centraria num só 
ponto: o poder de Estado — a construção de um partido representativo 
capaz de conquistá-lo, no lugar das massas. Ela investiria, ao contrá- 
rio, uma multiplicidade de objetivos ao alcance imediato dos mais 
diversos conjuntos sociais. É a partir do acúmulo de lutas parciais — e 
esse termo já é um equívoco, pois elas não são parte de um todo já 
constituído — que poderiam desencadear-se lutas coletivas de grande 
envergadura. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



177 



Uma multiplicidade de desejos moleculares 

A idéia de micropolítica do desejo implica, portanto, um questio- 
namento radical dos movimentos de massa decididos centralizada- 
mente e que fazem funcionar indivíduos serializados. O que se torna 
essencial é conectar uma multiplicidade de desejos moleculares, cone- 
xão esta que pode desembocar em efeitos de "bola de neve", em provas 
de força em grande escala. Exatamente o que se passou no começo do 
movimento de Maio de 68: a manifestação local e singular do desejo de 
pequenos grupos encontrou ressonância em uma multiplicidade de 
desejos reprimidos, isolados uns dos outros, esmagados pelas formas 
dominantes de expressão e de representação. Em tal situação, não se 
está mais em presença de uma unidade ideal, representando e mediando 
interesses múltiplos, mas de uma multiplicidade equívoca de desejo, 
cujo processo secreta seus próprios sistemas de referências e de regu- 
iagem. Essa multiplicidade de máquinas desejantes não é composta de 
sistemas estandardizados e ordenados, que se poderia disciplinar e 
hierarquizar, em função de um objetivo central. Ela se estratifica, 
segundo diferentes conjuntos sociais, de acordo com as faixas etárias, 
os sexos, as origens geográficas e profissionais, as práticas sexuais, etc. 
Não realiza uma unidade totalizante. Ê a univocidade dos desejos e dos 
afetos das massas, e não seu agrupamento em torno de objetivos 
padronizados, que funda a unidade de sua luta. A unificação aqui não 
é antagónica à multiplicidade e à heterogeneidade dos desejos, como 
era o caso quando estes eram "tratados" por uma máquina totalitária- 
totalizante de um partido representativo. 



A fala fora do sujeito 1 

Nesta perspectiva, a expressão teórica não mais se interpõe entre 
o objeto social e a práxis. O objeto social é colocado em condições de 
tomar a palavra, sem ter que recorrer a instâncias representativas para 
exprimir-se. A coincidência entre a luta política e a análise do desejo 
implica, desde então, que o "movimento" permaneça na escuta cons- 
tante de qualquer pessoa que se exprima a partir de uma posição de 
desejo, mesmo e sobretudo que ela se situe "fora do assunto", "fora do 
sujeito". Em família, reprime-se uma criança que se exprime "fora do 
assunto", "fora do sujeito", e isto continua na escola, no quartel, na 
fábrica, no sindicato, na célula do partido. É preciso se estar sempre 
"no assunto", "no sujeito" e "na linha", mas o desejo, por sua 
própria natureza, tem sempre a tendência de "sair do assunto", "sair 



178 



FÉLIX GUATTARI 



do sujeito" e derivar. Um agenciamento coletivo de enunciação dira 
algo do desejo sem reduzi-lo a uma individuação subjetrva, sem en- 
quadrá-lo num sujeito, num assunto, preestabelecido ou em signifi- 
cações previamente codificadas. A análise, nestas condições não po- 
deria se instaurar "acima" do estabelecimento dos termos e das rela- 
ções de força; "após" a cristalização do socius em diversas instancias 
fechadas umas em relação às outras: ela participa dessa cristalização, 
tornou-se imediatamente política. "Quando dizer é fazer", atenua-se a 
divisão de trabalho entre os especialistas do dizer e do fazer. 

Os agenciamentos coletivos de enunciação 

Os agenciamentos coletivos de enunciação produzem seus pró- 
prios meios de expressão - podendo tratar-se de uma Ungua especial, 
de uma gíria, da volta de uma língua antiga. Para eles, trabalhar os 
fluxos semióticos, os fluxos materiais ou os fluxos sociais são uma so 
coisa Não mais se tem face a face um sujeito e um objeto e, em terceira 
posição, um meio de expressão; não mais se tem a tripartição entre o 
campo da realidade, o campo da representação e da representatividade 
e aquele da subjetividade. O que se tem é um agenciamento coletivo 
que é, ao mesmo tempo, sujeito, objeto e expressão. O individuo não 
mais é aquele que responde universalmente pelas significações domi- 
nantes. Aqui, tudo pode participar da enunciação - tanto indivíduos 
quanto zonas do corpo, trajetórias semióticas ou maquinas ligadas em 
todas as direções. O agenciamento coletivo de enunciação une os fluxos 
semióticos, os fluxos materiais e os fluxos sociais, muito aquein da 
retomada que pode fazer dele um corpus linguístico ou uma metalin- 
guagem teórica. Como é possível tal passagem? Trata-se, aqui, de um 
retorno às utopias anarquistas? Querer dar palavra às massas numa 
sociedade industrial altamente diferenciada, não é uma ilusão? Como 
um objeto social - um grupo sujeito - poderia substituir o sistema 
das representações e as ideologias? A medida que avanço em minha 
exposição, um paradoxo se interpõe: como é concebível falar dessas 
espécies de agenciamento coletivo de enunciação, sentado numa ca- 
deira, frente a um público comportadamente arrumado numa sala? 
Tudo o que estou dizendo leva a estabelecer que uma verdadeira 
análise política não poderia depender de uma enunciação individuada, 
menos ainda quando ela é o fato de um conferencista estrangeiro e, 
portanto, estranho à língua e aos problemas de seu auditório! Um 
enunciado individual só tem alcance na medida em que pode entrar em 
conjunção com agenciamentos coletivos já funcionando efetivamente. .. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



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Minha fala periga entào de se destruir a si mesma. Minha única "porta 
de saída" está na sala, pois, com efeito, um discurso desse tipo só 
poderia se sustentar na condição de ser revezado por aqueles que o 
escutam... ou o suportam. Senão, a quem é que se está falando? 
A um interlocutor universal? A alguém que já conhece os códigos, as 
significações e todas as combinações possíveis? A enunciação indivi- 
duada é prisioneira das significações dominantes. Só um grupo sujeito 
pode trabalhar os fluxos semióticos, quebrar as significações, abrir a 
linguagem para outros desejos e forjar outras realidades! 



A análise micropolítica do fascismo 

Voltemos à questão do fascismo e às suas relações com o stali- 
nismo e as "democracias" do tipo ocidental. Não se trata, para nós, de 
fazer comparações redutoras mas, ao contrário, de tornar os modelos 
complexos, e isto até o ponto em que todo o processo posto em jogo 
esteja sob controle. A análise aqui não é gratuita, ela diz respeito tanto 
ao presente quanto ao passado. 

Há toda espécie de fascismo, toda espécie de stalinismo e toda 
espécie de democracia burguesa. E estes três conjuntos se deslocam em 
numerosos subconjuntos, desde que se venha a considerar a situação 
das componentes, como a máquina industrial, a máquina bancária, 
a máquina militar, a máquina político-policial, as tecnoestruturas 
estatais, a Igreja, etc. O importante seria chegar-se a desvendar as 
componentes que fizeram funcionar essa ou aquela fórmula de poder. 
Os sistemas totalitários contemporâneos inventaram um certo número 
de protótipos de partido policial; o partido policial nazista, por exem- 
plo, mereceria ser estudado em comparação com o partido policial 
stalinista; eles talvez sejam mais próximos um do outro do que as 
componentes estatais correspondentes a cada um destes sistemas. Seria 
interessante distinguir as diversas espécies de máquinas de desejo que 
entram em sua composição. E a gente perceberia, então, que não dá 
para se contentar em ver as coisas com tanta distância assim. 



Molecularizar os objetos de análise 

A análise só poderia progredir, de fato, na condição de avançar 
cada vez mais no sentido de uma molecularização de seu objeto, o que 
lhe permitirá captar mais acuradamente sua função no seio dos gran- 
des conjuntos sociais. Não há um partido nazista; não só este evoluiu, 



180 



FÉLIX GUATTARI 



como em cada período teve uma função diferente, segundo os diversos 
campos nos quais interveio. A máquina SS de Himmler não era a 
mesma que a dos SÀ, e ambas eram diferentes das organizações de 
massas, tal como as concebiam os irmãos Strasser. No próprio seio da 
máquina SS, descobriríamos certos aspectos de inspiração quase reli- 
giosa — lembremo-nos que Himmler desejava que os SS fossem for- 
mados segundo métodos similares aos dos jesuítas — , coexistindo com 
práticas francamente sádicas, como as de um Heydrich. Não se trata 
aqui de uma pesquisa gratuita, mas sim de uma recusa das simpli- 
ficações que nos impedem de apreender a genealogia e a permanência 
de certas maquinarias fascistas. A Inquisição já havia instalado uma 
certa máquina fascista que só se efetivaria muito mais tarde com o 
partido jacobino, os partidos bolcheviques, os partidos fascistas, etc. 
Tal análise dos componentes moleculares do fascismo poderia, assim, 
concernir aos mais variados campos, tanto na escala macropolítica, 
quanto na escala microscópica. Ela deveria propiciar-nos entender 
melhor como o mesmo fascismo, sob outras formas, continua funcio- 
nando, hoje, na família, na escola ou num sindicato. 

A máquina totalitária 

Há inúmeras maneiras de abordar essas questões do desejo no 
campo social. Pode-se, pura e simplesmente, ignorá-lás ou reduzi-las a 
alternativas políticas simplificadas. Pode-se, também, procurar apre- 
ender suas mutações, seus deslocamentos e as novas possibilidades que 
abrem para uma ação revolucionária. O stalinismo e o fascismo foram, 
por muito tempo, considerados como sendo de ordens de definição 
radicalmente diferentes, ao passo que se classificava as diferentes 
formas de fascismos numa mesma rubrica. No entanto, as diferenças 
são, talvez, muito maiores entre os próprios fascistas do que entre 
certos aspectos do stalinismo e certos aspectos do nazismo. Sem querer 
forçar comparações nem desembocar em amálgamas — do tipo Han- 
nah Arendt, que denunciava Jean-Pierre Faye 2 — , somos obrigados a 
admitir a continuidade de um mesmo maquinismo totalitário, bus- 
cando seu caminho através de todas as estruturas fascistas e stalinistas, 
democratas burguesas, etc. Sem voltar até o Baixo Império de Dio- 
cleciano e Constantino, pode-se apontar sua filiação, nas condições do 
capitalismo, desde a repressão contra os communards 3 de 1871, até 
suas formas atuais. Diferentes "fórmulas" de captura do desejo das 
massas foram assim produzidas pelos diferentes sistemas totalitários, 
em função da transformação das forças produtivas e das relações de 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



181 



produção. Devia-se fazer um esforço para extrair sua composição 
maqumtca — um pouco como uma espécie de composição química, 
mas de uma química social do desejo que atravessa, não apenas á 
História, mas também o conjunto do espaço social. 

A transversalidade histórica das máquinas de desejo, sobre as 
quais se apoiam os sistemas totalitários, é inseparável de sua transver- 
salidade social. A análise do fascismo não poderia, portanto, ser uma 
simples especialidade de historiador, pois aquilo que ele colocou para 
funcionar ontem, repito, continua a proliferar sob outras formas no 
conjunto do espaço social contemporâneo. Toda uma química totali- 
tária trabalha as estruturas do Estado, as estruturas políticas e sindi- 
cais, as estruturas institucionais e familiais, e até as estruturas indi- 
viduais, na mesma medida em que se pode falar, como o evocamos 
antes, numa espécie de fascismo do superego na culpabilidade e na 
neurose. 



As montagens maquínicas infra-humanas do capitalismo 

A evolução da divisão social do trabalho implicou na constituição 
de conjuntos produtivos cada vez mais gigantescos. Mas este agigan- 
tamento da produçào provocou uma molecularização cada vez mais 
acentuada dos elementos humanos que eles colocavam em jogo nos 
agenciamentos maquínicos da indústria, da economia, da formação, 
da informação, etc. Nunca é um homem que trabalha — e pode-se' 
dizer o mesmo quanto ao desejo — , mas um agenciamento de órgãos e 
maquinas. Um homem não mais se comunica diretamente com seus 
semelhantes: os órgãos, as funções, participam de uma "montagem" 
maquínica, que coloca em conjunção cadeias semióticas e todo um 
cruzamento de fluxos materiais e sociais. (Exemplo: dirigindo um 
carro, os olhos lêem a estrada, praticamente sem intervenção da cons- 
ciência; a mão e o pé estão integrados às engrenagens da máquina 
etc.) Em contrapartida ao fato de terem explodido as territorialidades 
humanas tradicionais, as forças produtivas estão hoje aptas para li- 
berar a energia "molecular" do desejo. Não podemos avaliar, ainda, o 
alcance revolucionário desta revolução maquínico-semiótica, mas ela é 
manifestamente irreversível. Ê, aliás, o que leva os sistemas totalitários 
e socialistas-burocráticos a aperfeiçoar e a miniaturizar ininterrupta- 
mente seus sistemas repressivos. 

A determinação da composição maquínico-semiótica das dife- 
rentes formações de poder constitui portanto, a meu ver, uma condição 
essencial das lutas micropolíticas do desejo, seja qual for o campo Por 



182 



FÉLIX GUATTARI 



falta de uma análise do género, oscila-se constantemente, entre uma 
posição de abertura revolucionária "aventurista" e uma posição de 
fechamento totalitário. A análise molecular não pode ser senão a ex- 
pressão de um agenciamento de potências moleculares, associando 
teoria e prática. Não se trata, então, como quiseram nos acusar, de 
tomar a História pelo lado mesquinho das coisas ou de pretender, como 
Pascal, que, se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais comprido, o curso 
da História teria mudado. Trata-se apenas de não perder o impacto do 
maquinismo totalitário que não pára de evoluir, de se adaptar à mercê 
das relações de força e das transformações da sociedade. O papel de 
Hitler, enquanto indivíduo portador de um certo tipo de competência, 
foi, certamente, desprezível, mas seu papel, enquanto cristalizador de 
uma nova figura desta máquina totalitária, foi e continua sendo funda- 
mental. Hitler ainda está vivo! Ele circula nos sonhos, nos delírios, nos 
filmes, nos comportamentos tortur adores dos policiais, entre os bandos 
de jovens que veneram seus ícones, sem nada conhecerem do nazismo! 



As cristalizações fascistizantes 

Paremos um pouco na questão histórica que continua a "traba- 
lhar" de maneira subterrânea os assuntos políticos mais atuais. Por 
que o capitalismo alemão, depois da debandada de 1918 e da crise de 
1929, não se contentou em se apoiar numa simples ditadura militar? 
Por que Hitler, ao invés do General Von Schleicher? Daniel Guérin nos 
diz a este respeito que o Grande Capital hesitou em "privar-se" deste 
meio incomparável, insubstituível, de penetrar em todas as células da 
sociedade, que são as organizações das massas fascistas. 4 Efetiva- 
mente, uma ditadura militar não teria conseguido esquadrinhar as 
massas com a mesma eficácia que um partido organizado de modo 
policial. Uma ditadura militar não capta a energia libidinal da mesma 
maneira que uma ditadura fascista, mesmo que alguns de seus resul- 
tados possam parecer idênticos, mesmo que se chegue às mesmas espé- 
cies de métodos repressivos, às mesmas torturas, aos mesmos campos, 
etc. A conjunção na pessoa de Hitler de pelo menos quatro séries libi- 
dinais fez cristalizar nas massas a mutação de um novo maquinismo 
desejante: 

— um certo estilo plebeu que lhe dava condições de apoiar-se 
em pessoas mais ou menos marcadas pelas máquinas sociais 
democratas e bolcheviques; 

— um certo estilo veterano de guerra, simbolizado pela sua Cruz 
de Ferro da guerra de 1914, que lhe dava condições de neu- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



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tralizar os elementos do estado-maior militar, já que não 
podia ganhar sua total confiança; 

— um oportunismo de negociante, um certo jogo de cintura 
uma debilidade que lhe dava condições de negociar com os 
magnatas da indústria e das finanças, deixando-os, ao mesmo 
tempo, crer que poderiam controlá-lo e manipulá-lo facil- 
mente; 

- enfim, e talvez isso seja o essencial, um delírio racista, uma 
energia paranóica louca, que o colocava no diapasão da pul- 
sao de morte coletiva que havia exalado dos ossários da Pri- 
meira Guerra Mundial. É óbvio que esta descrição fica dema- 
siado esquemática! Mas o ponto sobre o qual eu queria in- 
sistir, e que aqui só daria para evocar, é o fato de que as 
condições locais da "irresistível ascensão" do Fúhrer, a crista- 
lização maquínica singular do desejo que se operou sobre o 
nome, o rosto, os gestos, a fala de Hitler, não poderiam ser 
tidas como negligenciáveis! 



Permanência do fascismo 

Ê toda uma micropolítica que está em jogo a este nível, e, repito 
nao se rata, em absoluto, de um problema histórico, biográfico oú 
psicanalítico puramente especulativo. A micropolítica que fabricou 
HiUer nos concerne aqui e agora, no seio dos movimentos políticos 
sindicais, no seio dos grupelhos, na vida familiar, escolar, etc na 
medida em que novas microcristalizações fascistizantes subsrituem-se 
as antigas, no mesmo filo do maquinismo totalitário. Sob o pretexto de 
que o papel do indivíduo na História seria desprezível, nos aconselham 
a ficar de braços cruzados diante das gesticulações histéricas ou as 
manipulações paranóias dos tiranos locais e dos burocratas de toda 
espécie O papel de uma micropolítica do desejo será o de opor-se a 
uma tal renuncia e de recusar-se a deixar passar toda e qualquer 
formula de fascismo, seja qual for a escala em que se manifeste O 

ZíVa 1 í 80stariam de nos fazer <*er que o nazismo, no 
tundo, não passou de um mau momento, uma espécie de erro histórico 
e, também, uma bela página de História para os heróis. Não eram 
emocionantes aquelas bandeiras misturadas do capitalismo e do socia- 
lismo? Queriam nos fazer acreditar na existência de um antagonismo 
real entre o eixo fascista e os aliados. De fato, o que estava, na ocasião 
em questão, era a seleção de um bom modelo. A fórmula fascista ia de 
mal a pior. Tornara-se necessário eliminá-la e encontrar uma melhor 



184 



FÉLIX GUATTARI 



Radek tinha definido o nazismo como algo exterior à burguesia; ele o 
comparava com uma série de círculos de ferro com os quais a burguesia 
tentava consolidar "o barril furado do capitalismo". Mas a imagem era 
exageradamente tranquilizadora. O fascismo permaneceu exterior à 
burguesia, em termos; esta só decidiu rejeitá-lo a partir do momento 
em que se convenceu de que, em razão de sua instabilidade e do desejo 
demasiadamente poderoso que ele despertava nas massas, ameaçava 
fazer explodir de dentro os regimes da democracia burguesa. 

A seleção das máquinas totalitárias 

Aceito na fase paroxística da crise, o remédio mostrou-se, depois, 
mais perigoso que o próprio mal. No entanto, o capitalismo interna- 
cional não podia pensar em eliminá-lo, senão na medida que tivesse a 
seu alcance outros meios para controlar a luta de classes, uma vez que 
iá tivesse experimentado outras fórmulas totalitárias para dominar o 
desejo das massas. A partir do momento em que o stalinismo negociara 
tal fórmula de substituição, a aliança com ele tornava-se possível. 
A ditadura stalinista apresentava muito mais vantagens do que a hitle- 
riana. Os regimes fascistas, efetivamente, não conseguiram cercar o 
problema como deviam. A missão impossível conferida a seus lideres 

consistia em: _ , 

— estabelecer um compromisso entre diferentes formações de 
poder que procuravam guardar sua autonomia: a máquina 
militar, as facções político-policiats, o aparelho económico, 
etc -s 

— reprimir e canalizar a efervescência revolucionária sempre 
suscetível de renascer no contexto apocalíptico da época. 
Liquidando uma por uma as antigas classes politicas, as 
nacionalidades colonizadas mais turbulentas, os velhos bol- 
cheviques, os jovens burocratas, etc, a máquina stalinista 
iria muito além da máquina nazi, no aperfeiçoamento do 
modelo repressivo. Os nazistas exterminaram milhões de ju- 
deus e centenas de milhares de militantes de esquerda; na 
medida em que estes extermínios atingiam elementos que eles 
consideravam exteriores à sua raça, bodes expiatórios, estes 
extermínios tinham algo de sacrificatório. Não se pode drzer 
que os nazistas se lançaram sistematicamente ao ataque dos 
dirigentes da burguesia alemã. O método stalinista foi total- 
mente diferente. A força do burocratismo soviético talvez 
tenha sido a de ter espalhado o terror por toda parte, ínclu- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



185 



sive em seu próprio seio, muito além do que os SS tinham sido 
levados a fazê-lo, em certas circunstâncias, no seio do apa- 
relho de enquadramento nazista. De qualquer maneira, o 
objeto da aliança entre as democracias ocidentais e o totali- 
tarismo stalinista não foi, absolutamente, o de "salvar a 
democracia". Tratava-se, antes de mais nada, de eliminar 
uma máquina louca que ameaçava seu próprio sistema de do- 
minação. Durante todo este período, uma espécie de crise de 
fim de mundo tomou conta do planeta; é como se todos os 
antigos mecanismos reguladores social- democratas, sindi- 
cais, etc. — a partir dos quais os antigos equilíbrios podiam 
ser mantidos — se revelassem carentes. É verdade que não se 
deve esquecer que as organizações de esquerda tinham sido 
previamente liquidadas na Itália e na Alemanha. Mas por 
que teriam elas desabado como castelos de areia? Elas nunca 
haviam proposto às massas alguma verdadeira alternativa, 
nada que pudesse captar sua vontade de luta e sua energia 
do desejo ou, pelo menos, desviá-las da religião fascista (as 
análises de Reich, sobre este aspecto, me parecem defini- 
tivas). Enfatizou-se, frequentemente, que os regimes fascis- 
tas, quando iniciaram, trouxeram um mínimo de soluções 
económicas aos problemas mais urgentes — falso arranque 
económico, reabsorção do desemprego, programação de 
grandes obras, controle de capitais — , e se opõe estas me- 
didas, por exemplo, à impotência dos governos social- demo- 
cratas da República de Weimar. As pessoas se contentam 
com explicações do género: os socialistas e os comunistas ti- 
nham um programa ruim, maus dirigentes, má organização 
e péssimas alianças. E não se acabaria nunca de enume- 
rar suas fraquezas e traições. Mas nada nessas explicações 
dá conta do fato de que a nova máquina desejante totali- 
tária tenha podido cristalizar-se nas massas, a ponto de ser 
sentida pelo próprio capitalismo internacional como mais 
perigosa ainda do que a ditadura nascida da Revolução de 
Outubro. O que não se quer ver é que a máquina fascista, 
em sua forma italiana ou alemã, ameaçava o capitalismo e o 
stalinismo, porque as massas investiam nela uma fantástica 
pulsão de morte coletiva. Ao reterritorializar seu desejo em 
um chefe, um povo, uma raça, elas aboliam, numa phan- 
tasia de catástrofe, uma realidade que detestavam e que os 
revolucionários não tinham sabido ou querido tocar. A viri- 
lidade, o sangue, o espaço vital, a morte, substituíam, para 



186 



FÉLIX GUATTARI 



elas, um socialismo demasiadamente respeitoso dos valores 
dominantes. E isto, apesar da má fé intrínseca do fascismo, 
daquelas falsas provocações às raias do absurdo, de todo seu 
teatro de histeria coletiva e de debilidade que os trazia de vol- 
ta a estes mesmos valores. Mas, no final das contas, o desvio 
no fascismo era, seguramente, muito maior, e a mistificação 
e a sedução muito mais intensas do que no stalinismo. Todas 
as significações fascistas acabam caindo numa representação 
composta de amor e de morte, passando Eros e Tânatos 
a confundir-se. Hitler e os nazistas lutavam pela morte, inclu- 
sive, e sobretudo, a da Alemanha. E as massas alemãs acei- 
taram segui-los até à destruição delas próprias. Seria, efeti- 
vamente, impossível compreender de outra maneira que elas 
tenham aceitado continuar a guerra tantos anos depois de 
terem-na manifestamente perdido. Ao lado de um tal fenó- 
meno, a máquina stalinista, sobretudo vista de fora, parecia 
muito mais prudente. Ela não era apenas implacável. Era, 
sobretudo, muito mais estável. Não é de se espantar que o 
capitalismo inglês e americano não tivessem muita apreensão 
em aliar- se a ela. Após a liquidação da Terceira Internacio- 
nal, ela se apresentava como um sistema de reposição para 
manter as massas sob controle. Quem melhor que a polícia 
stalinista e seus agentes, no período de reconstrução, estaria 
em condições de controlar os movimentos mais turbulentos da 
classe operária, das massas coloniais e das minorias nacio- 
nais oprimidas? 

Máquinas totalitárias capitalistas 

Diferentemente do fascismo, as máquinas totalitárias capitalis- 
tas, ao mesmo tempo que captam a energia do desejo dos trabalha- 
dores, esforçam-se para dividi-los, particularizá-los e molecularizá-los. 
Infiltram-se em suas fileiras, suas famílias, seus casais, sua infância; 
instalam-se no coração de sua subjetividade e de sua visão de mundo. O 
capitalismo teme os grandes movimentos de massa. Ele procura apoiar- 
se em sistemas automáticos de regulagem. Ê o papel que é destinado ao 
Estado e aos mecanismos de contratualização entre os "parceiros so- 
ciais", aos Equipamentos Coletivos e aos meios de comunicação de 
massa. E, quando um conflito transborda os quadros preestabelecidos, 
procura limitá-lo a guerras económicas ou guerras locais. Deste ponto 
de vista, somos obrigados a reconhecer que a máquina totalitária 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



187 



stalinista está agora prestes a ser totalmente superada por aauela do 
otahtansmo ocidental. O que era qualidade do^sUdo^Sa e t 
aos ' E° st ? d ?:f ° ™^>?™™ seu principal defeito, em relaç£ 
aos Estados democráticos". O Estado stalinista tinha sobre õ fascismo 

mesmoXno! eS í abÍHdade maior = ° P-tido não era coioSdo no 
econZF 1 F, 9 t maq "r militar ' a má 1 uina Policial e a máquina 
«onomica. Ele sobrecodificava rigorosamente todas as máquinas de 
poder, e esquadrinhava impecavelmente as massas. Além disS conse 

ASSTolín' 6 " d f/ an ^ arda d ° Proletariado internaclonS. 
mSTZ ♦ st í n ™ classico - que é, sem dúvida, um dos traços 
mais marcantes do penodo atual - se deve, provavelmente, ao fato de 
ele n ã0 ter ?odáo adaptar . se à ^ ^ produ ' tív Jf^ 

particular aquilo que chamei de molecularização da força de tSbalhT 

o 0 n?mL a a dUZ1U "5 ^ eri ° r da RÚSSÍa P ° r uma série - de cLs polcas e 
económicas, por deslocamentos sucessivos de poder, que restituíram 

em detnmento do Partido, uma autonomia de fato, Te ativ porém 

eSr e rPo"tod áqUÍn r d ° EStad °' da P roduca °. *o exército^S 
regiões, etc. Por toda parte as questões nacionais e regionais os oarti 

culansmos, voltaram a ter um peso determinante. IssfpTmítiu entre 

outras coisas, aos países da Cortina de Ferro recuperar uma certa 

Uberdade de ação, e aos países capitalistas recuperar e integ™ pTr 

cialmente, seus partidos comunistas locais. Deste ponto de vista a 

Ífsmo Ça de , Stahn S \ PerdeU com P leta -ente. É verdade que Ci- 
nismo continua a sobreviver em alguns partidos e sindicatos mas 
ele hoje funciona mais próximo do antigo modelo socW-dSo^lí " 
por esta razão as lutas revolucionárias autónomas e as teS 
como as de Maio de 68 ou da LIP,< tenderão cada vez maS ; a eS 

Desterritorialização da produção 
e molecularização do fascismo 

O que assegura a passagem das grandes entidades fascistas clás- 

etf a a H m °t leCU anZ f Çâ ° d ° faSCÍSm ° a < ue assistimos hoje? O que ata - 
reta a destemtonalização das relações humanas? O que as faz perder 

ria? etc S "oualTr S f^T' n ° nas ^ " 

nas, etc? Qual e a natureza desta desterritorialização, que gera nor 

sua vez, a escalada de um microfascismo? Não se trata TuSa mera 

questão de onentação ideológica ou estratégica por parte TLpTta 

ismo mas de um processo material fundamental: é pelo fato de as 

sociedades industriais funcionarem a partir das máquinas semiótica 



188 



FÉLIX GUATTAR1 



que decodificam, cada vez mais, todas as realidades, todas as terri- 
torialidades anteriores; é pelo fato de as máquinas técnicas e sistemas 
económicos serem cada vez mais desterritorializados, que estão em 
condições de liberar fluxos de desejo cada vez maiores; ou, mais exa- 
tamente, é pelo fato de seu modo de produção ser forçado a operar esta 
liberação, que as formas de repressão também são levadas a se molecu- 
larizarem. Uma simples repressão maciça, global, cega não é mais 
suficiente. O capitalismo é obrigado a construir e impor seus próprios 
modelos de desejo, e é essencial para sua sobrevivência que consiga 
fazer com que as massas que ele explora os interiorizem. Convém 
atribuir a cada um: uma infância, uma posição sexual, uma relação 
com o corpo, com o saber, uma representação do amor, da honesti- 
dade, da morte, etc. As relações de produção capitalistas não se esta- 
belecem só na escala dos grandes conjuntos sociais; é desde o berço que 
modelam um certo tipo de indivíduo produtor-consumidor. A molecu- 
larização dos processos de repressão e, por consequência, esta perspec- 
tiva de uma micropolítica do desejo não estão ligadas a uma evolução 
de ideias, mas a uma transformação dos processos materiais, a uma 
desterritorialização de todas as formas de produção, quer se trate da 
produção social ou da produção desejante. 

Por não dispor de modelos comprovados, e considerando a desa- 
daptação das antigas fórmulas fascistas, stalinistas e, talvez, também 
social-democratas, o capitalismo é levado a buscar, em seu próprio 
seio, fórmulas de totalitarismo melhor adaptadas. Enquanto não as 
tiver encontrado, será tomado, em contracorrente, por movimentos que 
se situarão em frentes, para ele, imprevisíveis (greves selvagens, movi- 
mentos de autogestão, lutas de imigrados, de minorias raciais, sub- 
versão nas escolas, nas prisões, nos hospícios, lutas pela liberdade 
sexual, etc). Esta nova situação, onde não se está mais lidando com 
conjuntos sociais homogéneos, cuja ação possa ser facilmente canali- 
zada para objetivos unicamente económicos, tem como contrapartida 
fazer proliferar e exacerbar respostas repressivas. Ao lado do fascismo 
dos campos de concentração — que continuam a existir em inúmeros 
países 7 — , desenvolvem- se novas formas de fascismo molecular: um 
banho-maria no familialismo, na escola, no racismo, nos guetos de 
toda natureza, supre com vantagens os fornos crematórios. Por toda a 
parte, a máquina totalitária experimenta estruturas que melhor se 
adaptem à situação: isto é, mais adequadas para captar o desejo e 
colocá-lo a serviço da economia de lucro. Dever-se-ia, portanto, renun- 
ciar definitivamente a fórmulas demasiado simplistas do género: "o 
fascismo não passará". Ele não só já passou, como passa sem parar. 
Passa através da mais fina malha; ele está em constante evolução; 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



189 



parece vir de fora, mas encontra sua energia no coração do deseio de 
cada um de nós . Em situações aparentem * ente sem p Ç roble t a d s eSe c ' a 0 tá d s e 
trofes podem aparecer de um dia para o outro.' O fascismo assim 
como o desejo, está espalhado por toda parte, em peças dSartáve^ 
no conjunto do campo social; ele toma forma, num lugar o VnZTSn 

aSlti:^ 5 * fOTÇ " P ° de " Se dizer dele - mTsmo fempo 
que e superpotente e de uma fraqueza irrisória 

Em última análise, tudo depende do talento dos grupos humanos 

Svek Tf arem SUJC tOS da HÍStÓria ' ÍSt ° é ' em ^nc^em todos o 
mveis, as forças materiais e sociais que se abrem para um deseio de 
viver e mudar o mundo. J fle 



NOTAS 



brar, excepcionalmente, aexpressàoem "fora do assunto" e-foradòsS' 

(2) Cf. La Critique du Langage et Son Economie de Jean-Pierre Faye. Galilée. 

(3) N. do Trad. : Nome dado aos que participaram da Comuna de Paris. 

(4) Fascisme et Grand Capital, Maspero. 

h™,v» <5) é , preciso re P etir 1 ue esta mos simplificando as coisas ao extremo Não 

rasar etsss^í 

- tanto a CGÍa^nT a P rpnT ^ T m ™ mento foi um de revolução molecular 
importante questionamento da Organização sindicT " ° C ° n ' rán0 ' Pr ° V0C0U 



190 



FÉLIX GUATTARI 



Houve violentas tentativas da policia para desocupar as instalações da UP Em 
vao- a lute dlLIP persiste, com menos intensidade, ainda hoje, e sua venda à muluna- 

^SÍf^SÍ. inematográfico sobre esta luta, realizado por SLON coo- 
pera J de qu^rticipa Chris Marker; hà ^bém inúmeros arugos e hvros, entre os 
quais o de René Lourau L Analyseur HP, 10/18, IV /4. 

(7) Uma das maiores preocupações do capitalismo contemporâneo é a busca de 
formas de totalitarismo adaptadas ao Terceiro Mundo. 

(8) Um desastre como o do Chile deveria nos levar a desconfiar, de uma vez por 

nenhuma exceçao. O que, aliás, nao retira nada de seus respectivos mentos. 



O capital como integral 
das formações de poder* 



O capital não é uma categoria abstrata, é um operador semiótico 
a serviço de formações sociais determinadas. Sua função é de assumir o 
registro, a regulagem, a sobrecodificação das formações de poderes 
próprios às sociedades industriais desenvolvidas, das relações de força e 
dos fluxos relativos ao conjunto das potências económicas do planeta. 
Encontramos, também, em múltiplas formas, sistemas de capitali- 
zação dos poderes nas sociedades mais arcaicas (capital de prestigio, 
capital de potência mágica, encarnando-se num individuo, numa li- 
nhagem, numa etnia). Mas parece que só no seio do modo de produção 
capitalista é que se autonomizou um procedimento geral de semioti- 
zação de tal capitalização, que se desenvolveu ai segundo os dois 
seguintes eixos: 

— uma desterritoríalização dos modos locais de semiotização de 
poderes, que ficam, assim, sob o controle de um sistema geral 
de inscrição e de quantificação do poder; 

— uma reterritorialização deste último sistema numa formação 
de poder hegemónico: a burguesia dos Estados-Nações. 

O capital económico, expresso em linguagem monetária, conta- 
bilizável, bolsista, etc., repousa sempre, em última instância, sobre 
mecanismos de avaliação diferencial e dinâmica de poderes confron- 
tando-se num terreno concreto. Uma análise exaustiva de um capital, 
seja qual for sua natureza, implicaria, portanto, na consideração de 
componentes extremamente diversificados, relativos tanto a prestações 
mais ou menos monetarizadas — por exemplo, de ordem sexual ou 
doméstica (os brindes, os direitos adquiridos, os "benefícios secundá- 
rios", as ajudas de custo, os pecúlios, etc.) — quanto a gigantescas 
transações internacionais que, sob pretexto de operações de crédito, de 



192 



FÉLIX GUATTARI 



investimento, de implantações industriais, de cooperações, etc, não 
são, de fato, mais que afrontamentos econômico-estratégicos. Deste 
ponto de vista, toda vez que se quer insistentemente referenciar o 
capital a um equivalente geral, ou moedas a sistemas de paridade fixos, 
etc, se está desmascarando a natureza real dos processos de sujeição e 
de servomecanismo 1 capitalistas, ou seja, o emprego de relações de 
força sociais e microssociais, de deslocamentos de poder, de avanços e 
recuos de uma formação social em relação a outra, ou de atitudes 
coletivas de aceleração desenfreada do processo inflacionário, com 
vistas a conjurar perda de terreno, ou, ainda, de tomadas de poder 
imperceptíveis, que só se revelarão claramente ao final. Os padrões de 
referência não têm outro papel senão o de contagem, referenciação 
relativa, regulagem transitória. Uma verdadeira quantificação dos po- 
deres só poderia basear-se em modos de semiotização, em conexão 
direta com formações de poder e com agenciamentos produtivos (tanto 
materiais quanto semióticos), devidamente localizados em coordenadas 
sociais. 



/. Trabalho maquínico e trabalho humano 

O valor do trabalho posto à venda no mercado capitalista de- 
pende de um f ator quantitativo — o tempo de trabalho — e de um fator 
qualitativo — a qualificação média do trabalho. Neste segundo aspecto 
de servomecanismo maquínico, ele não pode ser circunscrito a um 
plano individual; primeiro, porque uma performance de qualificação é 
inseparável de um ambiente maquínico particular; depois, porque sua 
competência é sempre dependente de uma instância coletiva de forma- 
ção e de socialização. Marx fala, frequentemente, do trabalho como 
resultante de um "trabalhador coletivo", mas, para ele, tal entidade 
fica sendo de ordem estatística: "o trabalhador coletivo" é um perso- 
nagem abstraio resultante de um cálculo feito a partir do "trabalho 
social médio". Essa operação lhe permite superar diferenças indivi- 
duais no cálculo do valor do trabalho, que se encontra, assim, inde- 
xado a fatores quantitativos unívocos, tais como o tempo de trabalho 
necessário a uma produção e o número de trabalhadores concernentes. 
A partir daí, ele pode decompor este valor em duas partes: 

— uma quantidade correspondente ao trabalho necessário para 
a produção do trabalho; 

— uma quantidade constitutiva da mais-valia, que é identificada 
à extorsão de um sobretrabalho pelo capitalismo. 2 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



193 



Tal concepção da mais- valia encontra talvez sua correspondência 
numa prática contabilizável do capitalismo, mas, certamente, não em 
seu funcionamento real, em particular na indústria moderna. A nosso 
ver, a noção de "trabalhador coletivo" não deveria ser reduzida a uma 
abstração. A força de trabalho se apresenta sempre através dos agen- 
ciamentos de produção concretos, mesclando intimamente as relações 
sociais aos meios de produção, o trabalho humano ao trabalho da 
máquina. Da mesma forma, o caráter esquemático da composição 
orgânica do capital, que Marx divide em capital relativo aos meios de 
produção (capital constante) e capital relativo aos meios de trabalho 
(capital variável), deveria ser equacionado. 

Vamos lembrar que Marx distingue a composição em valor do 
capital (capital constante, capital variável) de sua composição técnica 
"no campo", relativa à massa real dos meios de produção engajados na 
valorização de um capital, e a quantidade objetiva de trabalho social- 
mente necessário para colocá-los em andamento. Passa-se, assim, com 
razão, de um jogo de valor de signo a um jogo de relação de força 
material e social. O modo de produção capitalista, com os progressos 
do maquinismo, levaria fatalmente, segundo Marx, a uma diminuição 
relativa do capital variável em relação ao capital constante, da qual ele 
deduz uma lei de baixa tendencial da taxa de lucro, que seria como 
uma espécie de destino histórico do capitalismo. Mas, no quadro real 
dos agenciamentos de produção, o modo marxista de cálculo da mais- 
valia absoluta, baseado na quantidade de trabalho social médio — do 
qual uma parte seria, por assim dizer, roubada pelos capitalistas — , 
está longe de ser tão óbvio. Este fator tempo não constitui, de fato, 
senão um parâmetro da exploração, entre outros. Sabe-se hoje que a 
gestão do capital de conhecimento, o grau de participação na organi- 
zação do trabalho, o espírito "da casa", a disciplina coletiva, etc, 
podem igualmente adquirir uma importância determinante na produ- 
tividade do capital. Quanto a isso, pode-se até mesmo admitir que a 
idéia de uma média social de rendimento horário para um determinado 
ramo, enquanto tal, não tem o menor sentido. São as equipes, as 
oficinas, as fábricas; onde aparece, por um número x de razões, uma 
diminuição local da "entropia produtiva", que fazem avançar, que 
"pilotam", de algum modo, este género de média num ramo de indús- 
tria ou num país, enquanto que a resistência coletiva operária, o buro- 
cratismo da organização, etc, a freiam; ou seja, são agenciamentos 
complexos — relativos à formação, à inovação, às estruturas internas, 
às relações sindicais, etc. — que delimitam a amplidão das zonas de 
lucro capitalistas, e não uma simples extração de tempo de trabalho. 
Aliás, o próprio Marx tinha percebido perfeitamente a instirucionali- 



194 



FÉLIX GUATTARI 



zação de uma defasagem entre as componentes maquínicas, as compo- 
nentes intelectuais e as componentes manuais do trabalho. No Grun- 
drisse, tinha assinalado que o conjunto dos conhecimentos tende a 
tornar-se "uma potência produtiva imediata": "à medida que a grande 
indústria se desenvolve, a criação da riqueza verdadeira depende me- 
nos do tempo e da quantidade de trabalho, do que da ação dos fatores 
postos em movimento no decorrer do trabalho, cuja poderosa eficácia é 
incomparável com o tempo de trabalho imediato que custa a produção; 
ela depende, antes de mais nada, do estado geral da ciência e do pro- 
gresso tecnológico, aplicação desta ciência à produção". Ele insistia, 
então, no caráter absurdo e transitório de uma medida do valor, a 
partir do tempo de trabalho. "Quando em sua forma imediata o traba- 
lhador deixar de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho 
cessará e deverá cessar de ser a medida do trabalho, assim como o valor 
de troca cessará de ser a medida dos valores de uso." 3 

Assinalemos aqui a fragilidade desse último paralelo: com efeito, 
se hoje em dia parece que o reino absoluto da medida do tempo de 
trabalho está prestes a desaparecer, o mesmo não ocorre, de maneira 
alguma, com o do valor de troca. É verdade que, se o capitalismo 
parece ser capaz de viver sem o primeiro, é inimaginável que sobreviva 
a um desaparecimento do segundo, que só poderia ser efeito de trans- 
formações sociais revolucionárias. Marx considerava que a eliminação 
da oposição lazer-trabalho coincidiria com o controle do sobretrabalho 
pelas massas operárias. 4 Infelizmente, é perfeitamente concebível que 
o próprio capitalismo seja levado a suavizar cada vez mais a medida de 
tempo de trabalho e a levar uma política de lazer e de formação mais 
aberta, quanto melhor ela a colonizar (quantos operários, empregados, 
quadros, passam assim, hoje em dia, suas noites e seus fins de semana 
preparando sua promoção de carreira!). O remanejamento da quanti- 
ficação do valor a partir do tempo de trabalho não terá, então, sido, 
como pensava Marx, o apanágio de uma sociedade sem classes! E, de 
fato, através dos modos de transporte, dos modos de vida urbano, 
doméstico, conjugal e pelos meios de comunicação de massa, a indús- 
tria dos lazeres e até dos sonhos... em instante algum tem-se a im- 
pressão que poderá escapar ao controle do capital. 

Não se paga ao assalariado uma pura duração de funcionamento 
de "trabalho social médio", mas, para que ele fique à disposição, uma 
compensação para um poder que excede aquele exercido durante o 
tempo de presença na empresa. O que conta aqui é a ocupação de uma 
função, um jogo de poder entre os trabalhadores e os grupos sociais que 
controlam os agenciamentos de produção e as formações sociais. O 
capitalista não extorque um acréscimo de tempo, mas um processo 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



195 



qualitativo complexo. O trabalho aparentemente mais serial, por 
exemplo, empurrar uma alavanca, vigiar um dispositivo de segurança, 
supõe sempre a formação prévia de um capital semiótico cem múltiplas 
componentes — o conhecimento da língua, dos usos e costumes, dos 
regulamentos, das hierarquias, controle dos processos de abstração 
progressiva, itinerários, interações próprias aos agenciamentos pro- 
dutivos... O trabalho não é mais, se é que o foi algum dia, um simples 
ingrediente, uma simples matéria-prima da produção. Dito de outra 
forma, a parte de servomecanismo maquínico que entra no trabalho 
humano nunca é quantificável enquanto tal. Em compensação, a su- 
jeição subjetiva, a alienação social inerente a um posto de trabalho ou a 
qualquer outra função social, o é perfeitamente. É esta, aliás, a função 
que cabe ao capital. Os dois problemas que concernem, por um lado, 
ao valor trabalho, seu papel na mais-valia, e por outro à incidência da 
elevação da produtividade pelo maquinismo sobre a taxa de lucro, 
estão indissoluvelmente interligados. O tempo humano é cada vez mais 
substituído por um tempo maquínico. 

Como ainda diz Marx, não é mais o trabalho humano que se 
insere no maquinismo: "É o homem que, diante desse processo, com- 
porta-se como vigia e regulador". Parece que o trabalho na linha de 
produção e as diferentes formas de taylorismo nos ramos mais moder- 
nos da economia estão em vias de depender ainda mais dos métodos 
gerais de sujeição social, do que de procedimentos de servomecanismos 
específicos às forças produtivas. 5 Esta alienação taylorista do tempo de 
trabalho, estas formas neo-arcaicas de sujeição ao posto de trabalho, 
continuam sendo, em princípio, mensuráveis, a partir de um equiva- 
lente geral. O controle do trabalho social médio, teoricamente, pode 
sempre encarnar-se num valor de troca dos poderes {poderia-se, assim, 
comparar o tempo formal de alienação de um camponês senegalês ao 
de um funcionário do Ministério das Finanças ou ainda ao de um 
operário da IBM!). Não mais seria válido fundar o controle real dos 
tempos maquínicos, do servomecanismo dos órgãos humanos aos agen- 
ciamentos produtivos, em tal equivalente geral. Pode-se medir um 
tempo de presença, um tempo de alienação, uma duração de encar- 
ceramento numa fábrica ou numa prisão; não se pode medir suas 
consequências em um indivíduo. Pode-se quantificar o trabalho apa- 
rente de um físico em um laboratório, não o valor produtivo das fór- 
mulas que ele elabora. O valor marxista abstrato sobrecodifica o con- 
junto do trabalho humano concretamente destinado à produção dos 
valores de uso. Mas o movimento atual do capitalismo tende a que 
todos os valores de uso tornem-se valores de troca e que todo trabalho 
produtivo dependa do maquinismo. Os próprios pólos da troca passa- 



196 



FÉLIX GUATTARI 



ram para o lado do maquinismo, os computadores dialogam de um 
continente ao outro e ditam para os executivos as cláusulas das trocas. 
A produção automatizada e informatizada não extrai mais sua consis- 
tência de um fator humano de base, mas de um filo maquínico que 
atravessa, contorna, dispersa, miniaturiza, recupera todas as funções, 
todas as atividades humanas. 

Estas transformações não implicam que o novo capitalismo 
substitua completamente o antigo. O que há é uma coexistência, 
estratificação e hierarquização de capitalismos de diferentes níveis que 
põem em jogo: 

— de um lado, os capitalismos segmentários tradicionais, terri- 
toríalizados nos Estados-Nações e que secretam sua unifica- 
ção a partir de um modo de semiotização monetária e finan- 
ceira; 6 

— e, de outro lado, um capitalismo mundial integrado, que não 
mais se apôia unicamente no modo de semiotização do capital 
financeiro e monetário mas, mais fundamentalmente, sobre 
todo um conjunto de procedimentos de servomecanismo-téc- 
nico-científico, macro e microssociais, e de meios de comu- 
nicação de massa, etc. 

A fórmula da mais-valia marxista está essencialmente ligada aos 
capitalismos segmentários. Ela não consegue explicar o duplo movi- 
mento de mundialização e de miniaturização que caracteriza a evolu- 
ção atual. Por exemplo, no caso-limite onde cada ramo da indústria 
seja inteiramente automatizado, não dá para enxergar onde foi parar 
esta mais-valia! Atendo-se rigorosamente às equações marxistas, ela 
deveria desaparecer completamente — o que é um absurdo! Devería- 
mos, então, calculá-la unicamente em função do trabalho maquínico? 
Por que não? Poderíamos sugerir uma fórmula, segundo a qual uma 
mais-valia maquínica corresponderia a um sobre trabalho "exigido" da 
máquina para além de seu custo de manutenção e reposição; mas não 
é, certamente, tentando arranjar desta maneira a vertente quantitati- 
vista do problema que poderemos ir muito longe. Na verdade, num 
caso desses — mas também em todos os casos intermediários de dimi- 
nuição muito forte do capital variável em relação ao capital constante 
— a extração da mais-valia escapa, em grande parte, à empresa, à 
relação imediata patrão-assalariados, e remete à segunda fórmula do 
capitalismo integrado. 

A dupla equação estabelecida por Marx, fazendo equivaler "o 
grau real de exploração do trabalho", a taxa de mais-valia e o tempo de 
sobretrabalho relativo ao capital variável, não pode ser aceita enquanto 
tal. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



197 



A exploração capitalista leva a tratar os homens como máquinas, 
a pagar-lhes como máquinas, de maneira unicamente quantitativista' 
Mas a exploração, como já pudemos constatar, não se limita a isso! 
Os capitalistas extraem muitas outras mais-valias, muitos outros lu- 
cros, passíveis também eles de inscrição no padrão do capital. O capi- 
talismo se interessa tanto pelo social quanto os explorados! Mas, en- 
quanto que, para ele, o maquínico precede o social e deve controlá-lo, 
para esses, ao contrário, o maquínico deveria ser um servomecanismo 
do social. O que separa essencialmente o homem da máquina é o fato 
de ele não se deixar explorar passivamente como ela. Pode-se admitir 
que, nas atuais condições, à exploração concernem, em primeiro lugar 
os agenciamentos maquínicos — tendo o homem e suas faculdades sê 
tornado partes integrantes destes agenciamentos. A partir desta explo- 
ração absoluta, num segundo tempo, as forças sociais entram em luta 
pela partilha do produto maquínico. Tendo o critério de sobrevivência 
do trabalhador se tornado relativo — como apreciar, efetivamente o 
mínimo vital, a parte de valor correspondente ao trabalho necessário à 
reprodução do trabalho? -, todas as questões de repartição de bens 
económicos e sociais tornaram-se, essencialmente, assuntos políticos 
Isto, desde que se amplie o conceito de política e que se integre nele o 
conjunto das dimensões micropolíticas que engajam os diversos modos 
de viver, de sentir, de falar, de projetar o futuro, de memorizar a 
Historia... 

Tentando mostrar que a sujeição do trabalhador não põe em jogo 
senão de maneira acessória, o fator quantitativo de "trabalho social 
médio", fizemos um esforço para descolar a taxa de exploração da taxa 
da mais-valia marxista. Ao fazer isto, a descolamos implicitamente da 
taxa de lucro, que em Marx é seu parente próximo. 7 

Uma confirmação desta distinção nos é fornecida pelo fato de 
que se tornou frequente, nos ramos sustentados pelo Estado, que em- 
presas "vendendo com perda" produzam, no entanto, um lucro consi- 
derável (apesar da mais-valia teoricamente negativa, segundo a fór- 
mula marxista, elas geram um lucro positivo). O lucro hoje pode de- 
pender de fatores não somente externos à empresa, mas também à 
Nação, por exemplo, uma exploração "à distância" do Terceiro Mundo 
através do mercado internacional das matérias-primas . 

Notemos, enfim, que a pretensa lei de baixa tendencial da taxa 
de lucros não poderia subsistir num campo político-econÔmico no seio 
do qual os mecanismos transnacionais adquiriram tal importância que 
tsrnou-se inconcebível determinar a taxa local de mais-valia podendo 
ser relacionada com uma taxa de crescimento local do maquinismo 
correspondente ao Capital constante. 8 A criação de zonas de lucros — 



198 



FÉLIX GUATTARI 



exemplo: a pseudocrise do petróleo e a criação de novos ramos indus- 
triais; tal como o nuclear - depende atualmente, em sua essência, de 
estratégias mundiais que implicam a consideração de uma multipli- 
cidade e de uma complexidade de fatores, sem o menor termo de 
comparação com aqueles que Marx tinha captado. 



77. A composição orgânica do capital mundial integrado 

Diferentemente do que havia pensado Marx, o capital foi capaz 
de se livrar de uma fórmula que o teria fechado num modo de quanti- 
ficação cega dos valores de troca» - isto é, de tomada de controle do 
conjunto dos modos de circulação e de produção dos valores de uso. A 
valorização capitalista ainda não pegou o câncer maquimco que, da 
baixa tendencial da taxa de lucro às crises de superprodução deveria 
tê-la levado ao impasse e, com isto, levado o capitalismo ao isolamento 
total. À semiotizaçâo do capital se deu um número cada vez maior de 
meios para estar em condições de detectar, quantificar, manipular as 
valorizações concretas de poder e, com isso, nao só sobreviver, mas 
também proliferar. Quaisquer que sejam as aparências que ele de, o 
capital não é racional. Ele é hegemonista. Ele não harmoniza as 
formações sociais; acomoda pela força as disparidades sócio-economi- 
cas. É uma operação de poder, antes de ser uma operação de lucro. 
Não se deduz de uma mecânica de base de lucro, mas se impõe de 
cima. Ontem, a partir do que Marx chamava de "o capital social de 
todo um país" 1 » e hoje a partir de um capital mundialmente inte- 
grado. Ele sempre se constituiu como movimento geral de desterrito- 
rialização de todos os campos da economia, das ciências e técnicas, dos 
costumes, etc. Sua existência semiótica insere-se sistematicamente no 
conjunto dos movimentos locais de desterritorialização técnicos e so- 
ciais que ele "diagramatiza" e reterritorializa nas formas de poder 
dominantes. Mesmo na época em que parecia estar unicamente cen- 
trado numa extração de lucro monetário, a partir de atividades comer- 
ciais, bancárias, industriais, o capital - como expressão das classes 
capitalistas mais dinâmicas - já levava fundamentalmente este tipo de 
política de destruição e de reestruturação (desterritorialização dos cam- 
pesinatos tradicionais, constituição de uma classe operária urbana, 
expropriação das antigas burguesias comerciais e dos antigos artesana- 
tos, liquidação dos "arcaísmos" regionais nacionahtános, expansio- 
nismo colonial, etc). . „„_ i+ _i 
Não basta, portanto, evocar aqui a politica do capital. U capitai 
enquanto tal nada mais é do que o político, o social, o técnico-cien- 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



199 



tífico, articulados uns aos outros. Esta dimensão diagramática geral 
aparece cada vez mais claramente com o papel crescente do capitalismo 
estatal, como trampolim da mundialização do capital. Os Estados- 
Nações manipulam um capital multidimensional: massas monetárias, 
índices económicos, quantidades de "alinhamento" dessa ou daquela 
categoria social, fluxos de inibição para manter as pessoas na linha, 
etc. Assiste-se a uma espécie de coletivização do capitalismo — querela 
esteja, ou não, circunscrita a um quadro nacional. Mas isso não signi- 
fica absolutamente que ele esteja em vias de degenerar. Pelo enrique- 
cimento contínuo de suas componentes semióticas, 11 toma o controle, 
para além do trabalho assalariado e dos bens monetarizados, de uma 
infinidade de quanta de poder que antigamente ficavam circunscritas à 
economia local, doméstica e libidinal. Hoje, cada operação particular 
de tomada de lucro capitalista — em dinheiro e poder social — engaja, 
pouco a pouco, o conjunto das formações de poder. As noções de 
empreendimento capitalista e de posto de trabalho assalariado torna- 
ram-se inseparáveis do conjunto do tecido social, que se encontra, ele 
próprio, diretamente produzido e reproduzido sob o controle do capi- 
tal. A própria noção de empresa capitalista deveria se estender aos 
Equipamentos Coletivos, e a de posto de trabalho, à maioria das ativi- 
dades não assalariadas. De certa maneira., a dona-de-casa ocupa um 
posto de trabalho em seu domicílio; a criança ocupa um posto de 
trabalho na escola, o consumidor no supermercado, o telespectador 
diante de seu vídeo... Quando as máquinas na fábrica parecem traba- 
lhar sozinhas, na verdade o conjunto da sociedade é adjacente a elas. 
Seria totalmente arbitrário considerar, hoje, o assalariado de empresa 
independentemente dos múltiplos sistemas de salários diferidos, de 
assistência e dos custos sociais, afetando de perto ou de longe a repro- 
dução da força coletiva de trabalho, que passam fora do circuito 
monetário da empresa e que são assumidos pelas instituições. Acres- 
centemos a isso um ponto essencial que retomaremos depois: não só o 
capitalismo explora o assalariado além do seu tempo de trabalho, 
durante o seu tempo de "lazer", como, além disso, serve-se dele como 
trampolim para explorar aqueles a que sujeita em sua esfera de ação 
própria: seus subalternos, seus parentes não assalariados, mulheres, 
crianças, velhos, assistidos de toda espécie... 

Sempre acabamos voltando à idéia central: através do sistema de 
assalariados, o capitalismo visa, antes de mais nada, o controle do 
conjunto da sociedade! E, de modo recorrente, parece que em toda e 
qualquer circunstância o jogo de valores de troca sempre dependeu das 
relações sociais, e não o contrário. Mecanismos como os da inflação 
ilustram bem. a esse respeito, a intrusão constante do social no eco- 



200 



FÉLIX GUATTARI 



nômico. O que é "normal" é a inflação e não o equilíbrio de preços, 
pois que, para ela, trata-se de ajustar as relações de poder em evolução 
permanente (poder de compra, poderes de investimento, poderes de 
trocas internacionais das diferentes formações sociais). Estando a 
mais-valia económica indissoluvelmente vinculada às mais-valias de 
poder que têm por objeto o trabalho, as máquinas e os espaços sociais, 
a redefinição do capital como modo geral de capitalização das semió- 
ticas de poder (e não como de quantidade abstrata, universal) implica 
assim num reexame de sua composição técnica. Esta não mais se apoia 
em dois dados de base: o trabalho vivo e o trabalho cristalizado no seio 
dos meios de produção, mas em pelo menos quatro componentes, 
quatro agenciamentos irredutíveis uns aos outros: 

1) as formações de poder capitalistas, que realizam um capital 
de manutenção da ordem, garantem a propriedade, as estratificações 
sociais, a repartição de bens materiais e sociais... Sendo o valor de um 
bem, qualquer que seja ele, inseparável da credibilidade dos equipa- 
mentos repressivos de direito, de polícia... e, também, da existência de 
um certo grau de consenso popular a favor da ordem estabelecida; 

2) os agenciamentos maquínicos relativos às forças produtivas, 
constitutivas do capital fixo (máquina, fábrica, transporte, reserva de 
matérias-primas, capital de conhecimentos técnico-científicos, técnicas 
de servomecanismos maquínicos, instrumentos de formação, labora- 
tórios, etc). Aqui, estamos no campo clássico das forças produtivas; 

3) a força coletiva de trabalho e o conjunto das relações sociais 
sujeitadas pelo poder capitalista: aqui, a força coletiva de trabalho não 
é mais considerada em sua face de servomecanismo maquínico, mas 
sim de alienação social. Ela é sujeitada às burguesias e burocracias, ao 
mesmo tempo que é fator de sujeição de outras categorias sociais (as 
mulheres, as crianças, os imigrantes, as minorias sexuais, etc). Esta- 
mos aqui no campo clássico das relações de produção e das relações 
sociais; 

4) a rede de equipamentos, dos aparelhos de poder estatal e 
paraestatal e os meios de comunicação de massa: esta rede, ramificada 
tanto na escala micfossocial quanto na escala planetária, tornou- se 
peça essencial do capital. É através dela que ele extrai e integra as 
capitalizações setoriais de poder relativas às três componentes prece- 
dentes. 

O capital, enquanto operador semiótico do conjunto das for- 
mações de poder, desenvolve, assim, uma cena desterritorializada, na 
qual irão evoluir estas quatro componentes. Mas insistamos no fato de 
que não se trata apenas de uma cena onde se desenrolará uma repre- 
sentação, espécie de teatro parlamentar onde seriam confrontados os 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



201 



diferentes pontos de vista presentes Tratar-se-á i»,, a 
atividade diretamente p TO L <va , £^^™*Í££ 
parte da ordenação dos agenciamentos maquínicos e sociais e de 
uma sene de operações prospectivas que lhes dizem rSpeio A s fun 
çoes diagramaticas específicas do capital - isto é in«J^*»«. * 

acrescentam algo de essencial ao que seria um simples acúmulo dos 
diversos componentes evocados precedentemente. A elevação dc níve 
de abstraçao seimóhca correspondente a esse diagramaimo Dode 
evocar aquilo que Bertrand Russel descrevia em suíteoS dos Imos 
lógicos, ou seja, que existe uma descontinuidade fundamentS entS 
uma classe e seus membros. Mas estamos em preVenç ^ com o capitd 
de uma descontinuidade que não é apenas de ordem TòLTmls 

SlZT- n ° Sentid ° ^ ^ da nã ° <* era -icSntTa 
parto de fluxos de signos, mas também de fluxos materiais e sociais 

De ato, a potênc a multiplicadora do diagramátísmo próprio ao cí 

americana contra a Europa das pátrias, o liber^rsmT^Sâr 
contra o social-capitalismo da URSS, o Norte contra osJi 
cap tal tudo isso são mais desafios^Sa^o CO mo ÍZulSte 
destemtonahzação. Uma alternativa revolucionária, se é que eía exis 
te, seguramente não pode se apoiar em bases deste típol 



///. O capital e as funções de alienação subjetivas 

mm ° ^ Xer f ci ° d ,° poder P° r mei ° ^s semióticas do capital tem 
como partículandade proceder concorrentemente, a partir de um con 
trole de cúpula dos segmentos sociais, e pela sujeição de todos oslns 
tantas de cada indivíduo. Se bem que sua enunciação seja ndiv duada 

T± ^::^ T -Vf jet T dade -pitahstA sobrecodS 
cação, pelo capital, das atividades, dos pensamentos, dos sentimento, 
humanos, acarreta a equivalência e a ressonância de tis ôs m od o 
particularizados de subjetivação. A subjetividade é nacTonaSada O 
conjunto de valores de desejo é reorganizado numa ecoTmTa^„dada 
na dependência sistemática dos valores de uso em relação Tos vâfores 
de troca, a ponto de fazer com que esta categoria de valore de uso 



202 



FÉLIX GUATTARI 



perca seu sentido. Passear •'livremente" numa rua, ou no campo, 
respirar ar puro, cantar meio alto, tornaram-se atividades quantificá- 
veis de um ponto de vista capitalístico. Os espaços verdes, as reservas 
naturais, a livre circulação, têm um custo social e industrial. Em 
última análise, os sujeitos do capitalismo — no sentido em que se 
falava dos súditos 12 do rei — só assumem de sua existência a parte que 
pode ser inscrita no equivalente geral: o capital, segundo a definição 
ampliada que propomos aqui. A ordem capitalista pretende impor aos 
indivíduos que vivam unicamente num sistema de troca, uma tradu- 
zibilidade geral de todos os valores para além dos quais tudo é feito, de 
modo que o menor de seus desejos seja sentido como associai, perigoso, 
culpado. 

Para que tal operação de sujeição possa cobrir o conjunto do 
campo social e, ao mesmo tempo, "visar" com precisão suas menores 
disparidades, ela não poderia se contentar com um controle social ex- 
terior. O mercado geral de valores produzido pelo capital tomará, por- 
tanto, as coisas de dentro e de fora, ao mesmo tempo. Esta traduzi- 
bilidade geral dos modos locais de semiotização de poder não depende 
unicamente dos dispositivos centrais, mas de "condensadores semió- 
ticos" adjacentes ao poder de Estado, ou que lhe estão diretamente 
enfeudados, e dos quais uma das principais funções consiste em fazer 
com que cada indivíduo assuma os mecanismos de controle, de re- 
pressão, de modelização da ordem dominante. 13 

No contexto do capitalismo mundial integrado, pode-se consi- 
derar que os poderes centrais dos Estados-Nações são, ao mesmo 
tempo, tudo e nada; nada ou quase nada aos olhos de uma eficiência 
económica real; tudo ou quase tudo aos olhos da modelização e do 
controle social. O paradoxo é que, em certa medida, a própria rede dos 
aparelhos, equipamento e burocracia de Estado tende a escapar ao 
poder do Estado. De fato, muitas vezes, é esta rede que o manipula e 
teleguia: seus verdadeiros interlocutores são os "parceiros sociais", os 
grupos de pressão, os lobbies. A realidade do Estado tende, assim, a 
coincidir com as tecnoestruturas estatais e paraestatais que ocupam, 
por essa razão, um lugar muito ambíguo nas relações de produção, e 
nas relações de classe, pois que, por um lado, controlam postos reais de 
direção, contribuem de maneira efetiva para a manutenção da ordem 
dominante, e, por outro, elas próprias são objeto de uma exploração 
capitalista, da mesma maneira que os diferentes componentes da classe 
operária. 

Marx considerava o professor primário um trabalhador produ- 
tivo, na medida em que preparava seus alunos para trabalhar para os 
patrões. 14 Mas o professor primário, hoje em dia, multiplicou-se infi- 



REVOLUÇÀO MOLECULAR 



203 



nitamente, na forma desta rede capitalística, geradora de formações e 
de sociabilidade, a ponto de chegarmos a um conglomerado de "agen- 
ciamentos coletivos de produção", o qual seria agora totalmente arbi- 
trário pretender decompor em esferas autónomas de produção mate- 
rial, á&socius, de modos de semiotização e de subjetívação. 

Encontra-se a mesma ambiguidade, a mesma ambivalência entre 
a produção e a repressão que caracteriza as tecnocracias, nas massas 
operárias: os trabalhadores estão se "trabalhando", enquanto traba- 
lham na produção de bens de consumo. De qualquer jeito, todos parti- 
cipam da produção de controle e de repressão. De fato, como vimos, 
num mesmo dia, um mesmo indivíduo não pára de mudar de papéis: 
explorado na oficina ou no escritório, torna-se por sua vez explorador 
na família, no casal, etc. Em todos os níveis do socius, encontramos 
uma mistura inextrincável de vetores de alienação. Por exemplo, os 
trabalhadores e os sindicatos de tal setor avançado defenderão arden- 
temente o lugar de sua indústria na economia nacional, e isto apesar 
de seus efeitos colaterais no campo da poluição, apesar do fato de 
equiparem aviões de caça que servirão para metralhar as populações 
africanas... As fronteiras de classe, as "frentes de luta", tornaram-se 
vagas; mas será que elas desapareceram? Não, ao contrário, elas se 
multiplicaram infinitamente, e, mesmo quando surgem afrontamentos 
diretos, estes tomam, na maioria das vezes, um "caráter exemplar", 
sendo seu objeto primeiro o de chegar a repercutir nos meios de comu- 
nicação de massa que, por sua vez, os manipulam à vontade. 

Na base dos mecanismos de modelização da força de trabalho, 
em todos os níveis da interpenetração entre ideologias e afetos, reen- 
contramos esta rede maquínica tentacular dos equipamentos capita- 
lísticos. O ponto no qual não poderíamos nos deter é que não se trata, 
em absoluto, de uma rede de aparelhos ideológicos, mas de uma "bela" 
megamáquina, composta de uma multidão de elementos esparsos, que 
concerne não somente aos trabalhadores, mas que bota para produzir, 
permanentemente, mulheres, crianças, velhos, marginais, etc. Hoje em 
dia, por exemplo, uma criança desde o seu nascimento, através da 
família, da televisão, da creche, dos serviços sociais, é "posta para 
trabalhar" e se engaja num processo complexo de formação, ao termo 
do qual seus diversos modos de semiotização deverão estar adaptados 
às funções produtivas e sociais que a esperam. 

Sabemos da importância que a avaliação da manutenção indus- 
trial tomou hoje em dia na gestão das empresas. Será que poderíamos 
nos contentar em dizer que o Estado assume uma espécie de "manu- 
tenção social" generalizada? Seria, a nosso ver, totalmente insufi- 
ciente! Em realidade, tanto nos regimes burocráticos do Leste como 



204 



FÉLIX GUATTARI 



nas democracias burguesas do Oeste, o Estado está diretamente ligado 
aos componentes essenciais do capital — da mesma forma, podemos 
nos permitir falar, nesses dois casos, do capitalismo de Estado, na 
condição no entanto de modificar simultaneamente a definição da 
composição orgânica do capital e a do Estado. Aquilo que chamamos 
de rede de equipamentos do capital, no seio dos quais convém incluir, 
até certo ponto, os meios de comunicação de massa, os sindicatos, as 
associações, etc, têm por função tornar homogéneo o capital, funcio- 
nando strictu sensu, a partir dos valores de troca, e o capital social, a 
partir dos valores de poder. Isso gere tanto as atitudes coletivas, os 
padrões de conduta, as referências de qualquer espécie compatíveis 
com o bom andamento do sistema, quanto os meios de intervenção 
regulamentares e financeiros para repartir as massas de poder de 
compra e de investimento entre os diferentes setores sociais e indus- 
triais, ou, ainda, os grandes complexos militares-industriais que lhe 
servem, por assim dizer, de coluna vertebral em escala internacional. 

É essencial não remeter cada um destes campos a categorias 
estanques. Em última análise, trata-se, de cada vez, do mesmo capital 
manipulado pelos poderes dominantes: o capital do conhecimento, o 
capital de adaptação e de submissão da força de trabalho ao meio 
ambiente produtivo e, mais geralmente, do conjunto das populações ao 
meio ambiente urbano e rural urbanizado, o capital de íntrojeçao 
inconsciente dos modelos do sistema, o capital de força repressiva e 
militar... não só participam de pleno direito da composição orgânica 
do capital contemporâneo mas, além disso, ocupam nele uma parte 
cada vez mais importante. 

Assim, o desenvolvimento de um mercado geral de valores capi- 
talísticos, a proliferação da rede multicentrada dos equipamentos capi- 
talistas e dos equipamentos estatais que são seu suporte, longe de 
entrar em contradição com a existência dos poderes centrados nos 
Estados-Nações — e que em geral tendem até a se reforçar — , lhe são, 
ao contrário, complementares. Efetivamente, o que é capitalizado e 
muito mais um poder pela imagem do poder do que uma verdadeira 
potência nos campos da produção e da economia. Pelas mais diversas 
vias, o Estado e suas inúmeras ramificações tentam recriar um mínimo 
de pontos de referência, de territorialidades sobressalentes, a fim de 
permitir às massas reorganizar mais ou menos artificialmente sua vida 
cotidiana e suas relações sociais. Os verdadeiros postos de decisio- 
nalidade, em compensação, estão em outra parte; eles atravessam ou 
contornam os modos de territorializaçâo antigos e novos e dependem 
cada vez mais do sistema das redes capitalísticas integradas em escala 
mundial. 15 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



205 



Os espaços do capitalismo contemporâneo não mais aderem aos 
torrões natais, às castas, às tradições étnicas, religiosas, corporativas 
"pré-capitalistas", e, cada vez menos, às metrópoles, às cidades indus- 
triais, às relações de classe e às burocracias do capitalismo segmen- 
tário da era dos Estados-Nações. Eles são confeccionados na escala 
planetária tanto quanto na escala microssocial e microfísica. Mesmo o 
sentimento de "fazer parte de alguma coisa" parece resultar de uma 
espécie de produção em cadeia, da mesma forma que o esquema de 
vida. Compreende-se melhor, nestas condições, que o poder de Estado 
não possa mais se contentar em dominar do alto da pirâmide social, de 
legiferar à distância do povo, e que seja obrigado a intervir permanen- 
temente na modelagem e na recomposição do tecido social, retomar e 
revisar constantemente suas "fórmulas" de hierarquização, de segre- 
gação, de prescrição funcional, de qualificação específica. O capita- 
lismo mundial está comprometido numa incontrolável e vertiginosa 
aceleração. Ele tem que apelar para tudo e não pode mais se dar ao 
luxo de respeitar tradições nacionais, textos e instituições legislativas 
ou judiciárias, que limitariam no que quer que fosse sua liberdade de 
manobra. 



IV. O capital e as funções de servomecanismo maquínico 

Aos meios tradicionais de coerção direta, o poder capitalista não 
pára de acrescentar dispositivos de controle que requerem, se não a 
cumplicidade de cada indivíduo, pelo menos seu consentimento pas- 
sivo. Mas tal ampliação de sua ação não é possível, na medida em que 
esta esteja em condições de atingir as próprias molas da vida e da 
atividade humana. A miniaturização dos meios vai aqui bem além dos 
maquinismos técnicos. É no funcionamento de base dos comporta- 
mentos perceptivos, sensitivos, afetivos, cognitivos, linguísticos, etc, 
que se engasta a maquinaria capitalística, cuja parte desterritoriali- 
zada "invisível" é, sem dúvidas, a mais implacavelmente eficaz. Não 
podemos aceitar as explicações teóricas da alienação das massas a 
partir de uma engambelação ideológica qualquer ou de uma paixão 
coletiva masoquista. O capitalismo se apodera dos seres humanos por 
dentro. Sua alienação pelas imagens e idéias é apenas um dos aspectos 
de um sistema geral de servomecanismo de seus meios fundamentais de 
semiotização, tanto individuais quanto coletivos. Os indivíduos são 
"equipados" de modos de percepção ou de normalização de desejo, da 
mesma forma que as fábricas, as escolas, os territórios. A ampliação da 
divisão do trabalho na escala do planeta implica, por parte do capi- 



206 



FÉLIX GUATTARI 



talismo mundial, não só uma tentativa de integração de todas as cate- 
gorias sociais às forças produtivas, mas ainda por cima uma recom- 
posição permanente, uma reinvenção desta força coletiva de trabalho. 
Idealmente, o capital gostaria de não mais ter que lidar com indiví- 
duos, mas somente com subconjuntos maquínicos. Além disso, ele não 
gostaria mais de saber senão de dois tipos de categorias sociais, as rela- 
tivas aos assalariados e as relativas à assistência. Seu objetivo é de 
apagar, de neutralizar, senão de suprimir, todas as categorizações 
sociais fundadas em outra coisa que não sua axiomática de poder e 
seus imperativos tecnológicos. Quando, no fim da linha, ele "reen- 
contra" homens, mulheres, crianças, velhos, ricos, pobres, trabalha- 
dores manuais, intelectuais, etc, pretende recriá-los por ele mesmo, 
redefini-los em função de seus próprios critérios. 

Mas, precisamente em razão de ele intervir ao nível mais funcio- 
nal — sensitivo, afetivo, práxico — , o servomecanismo maquínico 
capitalista é suscetível de inverter seus efeitos e de levar a revelação de 
um novo tipo de mais-valia maquínica perfeitamente percebida por 
Marx. (Desdobramento do possível da raça humana, renovação cons- 
tante do horizonte de seus desejos e de sua criatividade. 16 ) O capita- 
lismo pretende se apoderar das cargas de desejo que a espécie humana 
traz em si. É por intermédio do servomecanismo maquínico que e«e se 
instala no coração dos indivíduos. Não se pode contestar, por exemplo, 
que a integração social e política das elites operárias e dos quadros de 
direção não seja exclusivamente baseada num interesse material, mas 
também em seu apego por vezes muito profundo à sua profissão, sua 
tecnologia, suas máquinas... De modo mais geral, é claro que o meio 
ambiente maquínico secretado pelo capitalismo está longe de deixar 
indiferentes as grandes massas da população e isto não se deve somente 
às seduções da publicidade, à interiorização, pelos indivíduos, dos 
objetos, dos valores da sociedade de consumo. Parece que algo da 
máquina participa "pra valer" da essência do desejo humano. Toda 
questão está em saber qual máquina e para quê. 

O servomecanismo maquínico não coincide com a alienação so- 
cial. Enquanto a alienação engaja pessoas globais, representações sub- 
jetivas facilmente manipuláveis, o servomecanismo maquínico agencia 
elementos infrapessoais, infra-sociais, em razão de uma economia 
molecular de desejo, muito mais difícil de se "segurar" no seio das 
relações sociais estratificadas. 17 Conseguindo assim colocar direta- 
mente no trabalho funções perceptivas, afetos, comportamentos in- 
conscientes, o capitalismo toma posse de uma força de trabalho e de 
desejo que ultrapassa consideravelmente a das classes operárias no 
sentido sociológico. Nestas condições, as relações de classe tendem a 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



207 



evoluir diferentemente. Elas são menos bipolarizadas, tendem cada vez 
mais a engajar estratégias complexas (o destino da classe operária fran- 
cesa, por exemplo, não depende mais unicamente de seus patrões, ma" 
de um lado, do Estado, da Europa, do Terceiro Mundo, das muni 
nacionais, e de outro, dos trabalhadores imigrantes, do trabalho femi- 

T S^^T^ etc - > - A própria ™ d0 » i 

natureza. Ela não esta mais porosamente comprometida, ao menos 
na sua parte mais modernista, com a defesa da posse pessoal dos meios 
de produção - seja a titulo individual, seja a título coletivo. Seu 
problema hoje e o de controlar coletiva e globalmente a rede de 
base dos equipamentos capitalísticos. É disso que ela tira todos seus 
poderes, não so monetários, mas também sociais, libidinais, culturais, 
etc. E esse terreno que eia pretende não se deixar expropriar. E. quanto 
a isso, temos que reconhecer que ela demonstrou uma capacidade 
surpreendente de adaptação, de renovação, de regeneração, particu- 
larmente nos regimes do socialismo capitalista do Leste. Enquanto ela 
perde terreno do lado dc capitalismo privado, não pára de ganhar do 
lado do capitalismo de Estado, do lado dos equipamentos coletivos 
dos meios i de i comunicação de massa, etc. Ela não só incorpora novas 
camadas de burocratas de Estado e de aparelhos, de tecnocratas, de 
supervisores de produção, de professores, mas também, em diferentes 
graus, consegue contaminar o resto da população. 

Que limites encontrarão, então, as classes capitalísticas em seu 
empreenoimento de conversão generalizada de todas as atividades 
humanas a um equivalente unicamente negociável, a partir de suas 
redes semióticas? Até que ponto uma luta de classes revolucionária é 
amda concebível em tal sistema de contaminação generalizada? Sem 
duvida esses limites não devem ser buscados na mesma porta em que os 
movimentos revolucionários tradicionais vem batendo há tanto tempo' 
A revolução não está em jogo unicamente ao nível do discurso político 
manifesto mas também num plano muito mais molecular, na direção 
das mutações de desejo e das mutações técnico-científicas, artísticas 
etc. Em sua aceleração desenfreada e vertiginosa, o capitalismo se en- 
gajou no caminho de um controle planetário, visando cada indivíduo 
Sem duvida ele chega hoje - com a integração atual da China - ao 
ápice de sua potencia, mas talvez, também, ao ponto extremo de sua 
fragilidade! Ele desenvolveu um tal sistema de dependência generali- 
zada que o menor grilo em seu funcionamento acabará tendo, talvez 
consequências incontroláveis. 



NOTAS 



(1) N. do Trad.: No original, asservissement, do latim servus (servo), tem um 
duplo sentido: 

a) o de servidão, tanto a condição do servo ou do escravo e o ato de subjugar — 
escravidão, sujeição, submissão — quanto o sistema de dependência que liga o servo ao 
feudo, definindo o servo como um indivíduo que não tem direitos, não dispõe de sua 
pessoa ou de bens e cujos serviços são adstritos à gleba e com ela se transferem; 

b) o sentido cibernético de servomecanismo: sistema de controle automático, com 
retroalimentação — feed-back — largamente aplicada na indústria de mecanismos, 
como amplificador de energia, cuja especialidade ê o controle de elementos. 

O termo servo marca aqui uma servidão mecânica. 

O servomecanismo invariavelmente possui como componente um servo ou servc- 
motor — motor elétrico, hidráulico ou de outro tipo — que funciona como elemento de 
controle final. 

Os servomecanismos diferem dos sistemas reguladores na medida em que estes 
têm entrada (input) constante por longos períodos e visam manter a saída (output) 
controlada constante, enquanto que os primeiros controlam a saída de acordo com uma 
variação de entrada. São usados para manter o equilíbrio de entrada e saída, sejam quais 
forem as variações e perturbações da entrada. 

Os servomecanismos são normalmente representados por diagramas de blocos 
que tevelam a dependência funcional entre os elementos de um sistema de controle: 



Entrada 



Homens 



Elemento 
controlado 



Resposta 
do sistema 



Feed-back 



A entrada é a meta (ideal) do sistema sob controle, que recebe comandos (en- 
tradas) de "operadores humanos" num sistema homem-máquina. Neste contexto, os 
homens são encarados como dispositivos que processam (transformam) informação para 
uma ação conformada às necessidades de um dado sistema. Deste ponto de vista as ações 
humanas iimitam-se a ser pensadas como adequadas ou não enquanto funções de um 
sistema global. 

A inexistência em português de uma palavra que contenha ambos os sentidos nos 
levou a optar por "servomecanismo" pelas seguintes razões: 

— marca-se o sentido cibernético e fica evocado o sentido de uma servidão 
mecânica ou de um mecanismo servilizado; 

— diferencia-se de sujeição, no original assujetissement, que para Guattari en- 
globa tanto o servomecanismo (asservissement) — controle de elementos infra- 
pessoais e infra-sociais — quanto a alienação social — controle de pessoas 
globais e representações subjetivas. 

(2) Marx assim. define a mais-valia: "Chamo de mais-valia absoluta a produzida 
pelo prolongamento da jornada de trabalho, e de mais-valia relativa a decorrente da 
contração de trabalho necessário e da correspondente alteração na relação quantitativa 
entre ambas as partes componentes da jornada de trabalho (O Capital, Livro 1, vol. 1, 
Cap. X, Civilização Brasileira, p. 363; no original, Plêiade, tomo I, p. 852). 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



209 



A taxa de mais-valia é representada pelas seguintes fórmulas: 

T Mais-valia m mais-valia 

Tmv - — ou seja . 

capital variável y valor da força de trabalho 

trabalho excedente 
trabalho necessário 

Ele precisa que: "as duas primeiras fórmulas expressam como relação entre 
valores o que a terceira expressa como relação entre espaços de lempo nos quais esses 
valores são produzidos" (O Capitai, Livro 1, vol. 1, Cap. XVI, Civilização Brasileira 
p. 608; no original, Plêiade, t. 1, p. 1024). (N. do Trad.: Guattari cita a tradução 
francesa de Marx da Plêiade, com a qual comparamos a tradução para o português da 
Civilização Brasileira. Optemos, salvo algumas exceções, pela reprodução literal da 
tradução brasileira.) 

(■3). Karl Marx, obras, NRF, tomo II, pp. 304-312. 

(4) Sendo a verdadeira riqueza a plena potência produtiva de todos os indivíduos, 
o padrão de medida não será o tempo de trabalho, mas o tempo disponível. Adolar ó 
tempo de trabalho como padrão da riqueza é fundamentar esta na pobreza; é querer que 
o lazer não exista senão na oposição ao tempo de sobretrabalho e através dela; é reduzir o 
tempo inteiro ao tempo de trabalho unicamente e degradar o indivíduo ao papel exclusivo 
de operário, de instrumento de trabalho (Plêiade, t. II, p. 308). 

(5) Em outra ordem de tdéias dá para se ver claramente que o atual triunfo do 
behaviorismo nos EUA não é absolutamente o resultado de um "progresso da ciência", 
mas de uma sistematização dos mais rigorosos métodos de controle social. 

(6) "A revolução mercantilista" poderia ser a referência disso. Estamos pensando 
particularmente no grande livro de Thomas Mun A Discourse of Trade from England into 
East Indies (1609), Londres, 1621 — que representa para Marx "a cisão consciente 
operada pelo mercantilismo com o sistema do qual ele saiu"... Ele ficará sendo "o 
evangelho mercantilista" (Plêiade, t. II, p. 1 499). 

(7) Segundo Marx, é a relativa e progressiva diminuição do capital variável em 
relação ao capital constante (pelo fato do progresso do maquinismo e da concentração 
das empresas) que desequilibraria a composição orgânica do capital total de uma socie- 
dade dada. "... daí resultando dtretamente que a taxa de mais-valia, sem variar e mesmo 
elevando- se o grau de exploração do trabalho, se expressa em taxa geral de lucro em 
decréscimo contínuo" (O Capital, Livro 3, vol. 4, Cap. XIII, Civilização Brasileira, p. 
243; no original, Plêiade, t. II, p. 1 002). 

(8) Uma multinacional, por exemplo, após negociações com um poder de Estado, 
implantará uma fábrica ultramoderna numa região subdesenvolvida. Ao cabo de alguns 
anos, por motivos políticos ou de "instabilidade" social, ou ainda em razão de regateios 
complexos, ele decidirá fechá-la. £ impossível, nestas condições, demarcar um cresci- 
mento do capital fixo! 



210 



FÉLIX GUATTARI 



Em outro campo, tal como o do aço, 6 um ramo da indústria ultramodema que 
vai ser desativado ou localmente desmantelado, em razão de problemas de mercado ou de 
escolhas pretensamente tecnológicas, que não são mais do que a expressão de opções 
fundamentais concernentes ao conjunto do desenvolvimento económico e social. 

(9) Como mostraram inúmeros antropólogos, com referência as sociedades arcai- 
cas, a troca aparente é sempre relativa às relações de força reais. A troca é sempre 
alterada pelo poder. 

(10) Marx, Plêiade, 1 1, p. 1 122; t. II, p. 1 002. 

(11) Para além do ouro, p&pel-moeda, moeda de crédito, ações, títulos de pro- 
priedade, etc, o capital se manifesta hoje em dia por operações semióticas e de mani- 
pulações de poder de toda espécie, engajando a informática e os meios de comunicação 

de massa. 

(12) Este é o papel, paralelamente à administração, à polícia, à justiça, ao fisco, à 
bolsa, ao exército, etc., da escola, dos serviços sociais, dos sindicatos, do esporte, dos 
meios de comunicação de massa, etc. 

(13) N. do Trad.: No original, sujet du roi, cuja tradução mais adequada seria 
súdito do rei. No entanto, por ser correto traduzi-lo por sujeito do rei, e na intenção de 
preservar o jogo de palavras do autor com o duplo sentido de sujeito, optamos por este 
último. 

(14) Marx, O Capital, Livro I, vol. 2, Cap. XIV, Civilização Brasileira, p. 584; no 
original. Plêiade, 1. 1, p. 1002. 

(15) Até mesmo neste nível encontramos uma rcterritorialização relativa: as 
multinacionais que não são absolutamente redutíveis a subconjuntos económicos dos 
EUA e são objetivamente cosmopolitas, nem por isso têm deixado de ter na sua direção 
uma maioria de cidadãos americanos! 

( 16) O mecanismo dialético de Marx o conduz às vezes a imaginar uma espécie de 
geração quase espontânea e involuntária deste tipo de transformação: "Assim como o 
sistema da economia burguesa desenvolve-se pouco a pouco, o resultado último desse 
sistema é que também desenvolve-se pouco a pouco sua negação. Por enquanto, temos 
em vista o processo da produção imediata. Se consideramos a sociedade burguesa em seu 
conjunto, vemos que o resultado último do processo da produção social é a própria 
sociedade, em outras palavras, o próprio homem, em suas relações sociais" (Plêiade, t. II, 
p.311). 

(17) Uma proposição deste tipo só tem chance de ser entendida na condição de se 
conceber o desejo, não como uma energia pulsional indiferenciada, mas como sendo ele 
próprio resultante de uma montagem altamente elaborada de maquinismos desterrito- 

rialtzados. 



O capitalismo mundial integrado e 
a revolução molecular* 



O capitalismo contemporâneo é mundial e integrado porque 
potencialmente colonizou o conjunto do planeta, porque atualmente 
vive em simbiose com países que historicamente pareciam ter escapado 
dele (os países do bloco soviético, a China) e porque tende a fazer com 
que nenhuma atividade humana, nenhum setor de produção fique fora 
do seu controle. 

Este duplo movimento de extensão geográfica, que se defronta 
com um impasse, e de expansão sobre si próprio constitui o que deno- 
minarei um processo geral de desterritorialização. O capitalismo mun- 
dial integrado não respeita mais os modos de vida tradicional do que os 
modos de organização social dos conjuntos nacionais que parecem 
estar melhor estabelecidos. Recompõe a produção e a vida social a 
partir da sua própria axiomática — axiomática opondo-se a progra- 
mática. Em outras palavras, não possui um programa definido de uma 
vez por todas; face a uma crise ou a uma dificuldade imprevista, 
sempre é capaz de inventar novos axiomas funcionais ou de suprimi- 
los. Parece que certas fórmulas capitalistas caíram por terra por oca- 
sião de uma guerra mundial ou de uma crise, e depois ressurgiram sob 
outras formas, encontrando outros fundamentos. O que me parece 
importante destacar a respeito dessa desterritorialização, dessa recom- 
posição permanente e dessa integração é que elas dizem respeito a um 
só tempo às estruturas de produção e às formações de poder (prefiro 
falar de formação de poder em vez de relação de produção, que me 
parece ser uma noção muito restritiva face ao assunto aqui conside- 
rado). 

Abordarei essa questão do Capitalismo Mundial Integrado, sob 
o ângulo: 



212 



FÉLIX GUATTARI 



I) dos seus sistemas de produção, de expressão económica e de 
axiomatização do socius; 

II) dos tipos de segmentariedades particulares que ele desen- 
volve: a) ao nível transnacional; b) no âmbito europeu; c) ao nível 
molecular; 

III) das máquinas de guerra revolucionária, dos agenciamentos 
de desejo e das lutas de classe, capazes de pô-lo em questão. 



/. Os sistemas de produção, de expressão económica 
e de axiomatização do capital mundial integrado 

1) Sobre a evolução dos sistemas de produção do CMI, serei 
breve e mesmo esquemático, pois esse assunto foi amplamente desen- 
volvido em outra parte. 

Consideremos primeiro que não existe apenas uma divisão inter- 
nacional do trabalho, mas uma mundialização da divisão do trabalho, 
uma captação geral de todos os tipos de atividade, inclusive os que 
formalmente escapam da definição económica do trabalho. Os setores 
mais "atrasados", os modos de produção marginais, a vida doméstica, 
o esporte, a cultura, etc, que até agora dependiam do mercado mun- 
dial, estão caindo sob o seu domínio uns atrás dos outros. 

O CMI integra numerosos sistemas maquínicos e semióticos ao 
trabalho humano, de modo que há uma maior dificuldade em se pre- 
tender compreender mecanismos de valorização económicos unica- 
mente através de uma noção quantitativa de "trabalho socialmente 
necessário". O que se torna pertinente na designação de um trabalha- 
dor a um cargo produtivo não é só a sua capacidade de fornecer um 
determinado tempo de trabalho, mas o tipo de performance maquínica 
que ele introduz no processo de produção (na qual intervém eviden- 
temente um trabalho físico, mas cuja importância relativa tende a 
diminuir). Assim, as reivindicações sindicais relativas à diminuição do 
tempo de trabalho podem perfeitamente se tornar compatíveis com o 
projeto de integração do capitalismo, compatíveis e até desejáveis, para 
que o trabalhador possa se dedicar a atividades não imediatamente 
produtivas, mas capazes de manter e desenvolver suas competências, 
economicamente recuperáveis. O lugar da integração maquínica não se 
circunscreve mais unicamente aos lugares de produção, mas igual- 
mente a todos os outros tipos de espaços sociais e institucionais (agen- 
ciamentos técnico-científicos, equipamentos coletivos, meios de comu- 
nicação, etc). A revolução informática acelera consideravelmente um 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



213 



processo de integração que contamina igualmente a subjetividade in- 
consciente, tanto individual como social. 

Esta integração maquínico-semiótica do trabalho humano re- 
quer, portanto, que seja considerada, dentro do processo produtivo, a 
modelização de cada trabalhador, não só no registro do seu saber — 
o que certos economistas denominam "o capital de saber" — , mas 
também seus sistemas de interação com a sociedade e seu ambiente 
maquínico (ambiente que diz respeito tanto a máquinas propriamente 
ditas, máquinas técnicas, como máquinas semióticas, e "máquinas 
desejantes", funcionando na qualidade de "logicial", no meio dos 
comportamentos sociais em todos os níveis de sensibilidade, de interio- 
rização dos sistemas hierárquicos, de adaptação aos tecidos urbanís- 
ticos...). 

2) A expressão económica do CMI, seu modo de sujeição semió- 
tica das pessoas e das coletividades, não depende unicamente de sis- 
tema de signos monetários, bolsistas, económicos, de aparelhos jurí- 
dicos relativos ao salariado, à propriedade, à manutenção da ordem 
pública, etc. Àpóia-se igualmente sobre sistemas de servomecanismo, 
no sentido cibernético do termo. As componentes semióticas do capital 
funcionam sempre com um duplo registro: o da representação (onde os 
sistemas de signos são independentes e "à distância" dos referentes 
económicos) e o do diagramatismo (onde os sistemas de signos entram 
em concatenação direta com os referentes para modelar, programar, 
planificar os segmentos sociais e os agenciamentos produtivos). Assim, 
o capital é muito mais que uma simples categoria económica relativa à 
circulação dos bens e à acumulação dos meios económicos. É antes 
categoria semiótica que se refere ao conjunto dos níveis da produção e 
ao conjunto dos níveis de estratificação dos poderes. Insere-se no 
quadro das sociedades divididas não apenas em classes sociais, mas 
também em classes raciais, burocráticas, sexuais e em classes de idade, 
etc. Sua relação com os "progressos" científicos e técnicos fica ambígua 
na medida em que se apóia na potência maquínica e na proliferação 
semiótica das sociedades industriais desenvolvidas, ao mesmo tempo 
que as neutraliza por seu sistema de expressão económica. Só favorece 
inovações maquínicas na medida em que pode recuperá-las e consoli- 
dar os axiomas com os quais pretende não transigir; um certo tipo de 
concepção do socius, do desejo, do trabalho, dos lazeres, da cultura... 

3) A axiomatização do socius pelo CMI é caracterizada, no 
contexto atual, por três tipos de transformações: cerco, desterritoria- 
lização e segmentariedade. 

a) O cerco — O capitalismo, depois de invadir quase todas as 
superfícies economicamente exploráveis, não pode mais manter seu 



214 



FELIX GUATTARI 



impulso expansionista próprio de suas fases coloniais e imperialistas. 
Este cerco do seu campo de ação obriga-o a se recompor internamente 
o tempo todo, reconvertendo constantemente seus espaços económicos 
e sociais, seus modos de controle e de sujeição do conjunto das socie- 
dades humanas. Assim sua mundiaíização, longe de ser em si um fator 
de crescimento, corresponde, na verdade, a um requestionamento ra- 
dical das suas bases anteriores. Pode dar ou numa involução do sistema 
ou numa mudança de registro. Sua expansão, seus meios de cresci- 
mento, o CMI deverá doravante encontrá-los trabalhando as mesmas 
formações de poder, remanejando as relações sociais e desenvolvendo 
mercados cada vez mais artificiais, não só no campo dos bens, mas 
também no das informações e dos afetos. O que caracteriza a atual 
crise — que no fundo não é uma crise, mas uma gigantesca reestru- 
turação — é precisamente essa oscilação entre a involução de um certo 
tipo de capitalismo exangue e uma tentativa de reconversão em bases 
radicalmente diferentes. Por etapas sucessivas, o CMI é levado a assu- 
mir sua finitude, em particular a de seus mercados e a sua necessidade 
de redefinir permanentemente seus campos de aplicação (inclusive nos 
espaços ditos "socialistas", como URSS, China, etc). Para sair do 
impasse, está disposto a proceder à liquidação de sistemas que pare- 
ciam bem estabelecidos, seja ao nível da produção, seja ao nível dos 
compromissos sociais no fundamento da democracia burguesa. Por- 
tanto, fim dos capitalismos territorializados, dos imperialismos expan- 
sionistas e transição para imperialismos desterritorializados e inten- 
sivos. Abandono de toda uma série de categorias sociais, ramos de 
atividades, em que anteriormente se apoiava, e remodelagem, domação 
das forças produtivas e da vida social, de modo a que se adaptem ao 
novo sistema. Integração desterritorializada que, insisto, não é neces- 
sariamente incompatível com uma certa diversidade de regimes polí- 
ticos, e que até pode encorajá-la, contanto que se instaure na base de 
sua axiomática segregacionista. 

b) Esta desterritorialização do capitalismo em si próprio, que 
Marx denominou "a expropriação da burguesia pela burguesia", mas 
que agora se desenvolve numa escala diferente, não implica que o CMI 
seja universalista. Ele não é particularmente ligado à manutenção de 
democracias burguesas, nem tampouco deseja generalizar um tipo 
particular de ditadura. A única coisa que faz força para homogeneizar 
são os modos de produção, e os modos de controle social. Esta é a única 
preocupação que o leva a se apoiar em regimes relativamente demo- 
cráticos e, alhures, a impor ditaduras. Esta orientação tem como 
efeito, de um modo geral, relegar as antigas territorialidades nacionais. 
Ou, no mínimo, privá-las de sua antiga potência económica. Mas isso 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



215 



só é possível se os seus próprios órgãos de decisão são estruturados 
independentemente dessas territorialidades. 

Hoje o CMI não possui um "entro de poder único. (Mesmo o 
ramo norte- americano é policentrado.) Seus centros de decisão reais 
estão espalhados por todo o planeta. E não se trata, no caso, unica- 
mente de estados-maiores económicos, mas também de engrenagens de 
poder que se escalonam em todos os níveis da pirâmide social, do 
empresário ao pai de família. De certo modo, o CMI instaura a sua 
própria democracia interna. Não impõe necessariamente uma decisão 
que corresponda aos seus interesses imediatos. Através de mecanismos 
extremamente complexos, "consulta" o conjunto das esferas económi- 
cas e dos segmentos sociais com os quais deve fazer composições. Esta 
"negociação" não se reveste mais, como antes, de um caráter explici- 
tamente político. Põe em jogo sistemas de informação e de manipu- 
lações psicológicas em grande escala, por intermédio dos meios de 
comunicação de massa, das sondagens, dos sistemas de welfare, etc. 
(Assistimos, hoje, por exemplo, a uma espécie de negociação desse tipo 
a propósito de suas opções energéticas.) 

A degenerescência das antigas localizações concêntricas das for- 
mações de poder e das antigas hierarquias sociais (das aristocracias aos 
proletariados, passando pelas pequenas burguesias) não é incompatível 
com a sua manutenção parcial e mesmo com o seu fortalecimento. Mas 
corresponde mais aos campos reais de "decisionalidades". O poder do 
CMI é sempre descentralizado em benefício de mecanismos desterri- 
torializados. É por isso que hoje parece impossível cercá-lo, mirá-lo 
para atacá-lo. Esta desterritorialização acarreta igualmente fenómenos 
paradoxais, como o fato de que se desenvolvam zonas de Terceiro 
Mundo e de Quarto Mundo dentro dos países mais desenvolvidos e 
que, inversamente, apareçam zonas capitalistas superdesenvolvidas no 
interior de regiões subdesenvolvidas. 

c) O sistema geral de segmentariedade. Vimos que o capita- 
lismo, não estando mais em uma fase expansiva ao nível geopolítico, é 
levado a se reinventar nos mesmos espaços, como um palimpsesto. Uma 
vez que o seu crescimento segundo um modelo de centro e de periferia 
em interação está igualmente comprometido, seu problema atualmente 
é inventar novos métodos de hierarquização do socius. Trata-se então 
de um axioma com o qual não poderia transigir. Para manter a consis- 
tência da força coletiva de trabalho em escala mundial, atualmente tem 
que fazer coexistir: 

— zonas de superdesenvolvimento, superenriquecimento, em 
benefício de novas aristocracias capitalistas (não unicamente 



216 



FÉLIX GUATTARI 



localizadas nos bastiões capitalistas tradicionais e nas classes 
burguesas); 

— zonas de subdesenvolvimento relativas; 

— e mesmo verdadeiras zonas de empobrecimento absolutas, 
de modo que se cave a pirâmide social em outra parte. 

Ê entre esses dois extremos que uma disciplinarização geral da 
força coletiva de trabalho e um cerco, uma segmentarização dos espa- 
ços mundiais podem instituir-se. A livre circulação dos bens e das 
pessoas tornou-se privilégio das novas aristocracias integradas. Todas 
as outras categorias de população são "designadas a residência" num 
setor particular do planeta, que tende a se tornar ele próprio uma 
verdadeira fábrica mundial, à qual são anexados campos de trabalho 
forçado, guetos e também campos de extermínio, campos de morte em 
escala de país inteiro (ex.: o Camboja). Assim, o CMI pode fazer 
coexistir uma perspectiva de "progresso social" nas zonas opulentas 
(melhora das condições de vida e das condições de trabalho, do ponto 
de vista da duração, e da qualidade das relações humanas, etc.) com 
uma política de contenção e mesmo de exterminação da força coletiva 
de trabalho de outras regiões. 

Esta nova segmentarização do socius, combinada com uma 
segregação ordenada em escala mundial, são, pois, a consequência 
direta do cerco do CMI. É por meio da desterritorializaçâo de sua 
multicentragem e de suas técnicas de integração que consegue manter 
juntos todos esses segmentos, ultrapassar as disparidades que institui, 
e dominar os mais diversos sistemas sociais. Vemos, por exemplo, na 
França, que é o conjunto da vida social que se acha remodelado. Ali 
onde, no Leste, de pai para filho se vivia do aço, o CMI decide liquidar 
a paisagem industrial. Em outro lugar, o espaço será transformado em 
zona turística, ou em zona residencial para as elites. Níveis de padrão 
de vida são subvertidos ao nível de regiões inteiras. Mas essas pertur- 
bações, especialmente aquelas ligadas à instauração do Mercado Co- 
mum, contribuíram para reavivar particularismos e sentimentos nacio- 
nalitários (córsicos, bretões, bascos, etc). Esta redefinição permanente 
■dos segmentos sociais, repito, não se refere unicamente a questões 
económicas. Interfere constantemente nas áreas mais individuais e 
mais inconscientes da vida social, sem que seja possível estabelecer 
uma ordem de causalidade unívoca entre os níveis planetários e os 
níveis moleculares. 

Eu não saberia enumerar aqui todos os novos axiomas de seg- 
mentariedade que tendem a dirigir o conjunto das relações sociais e dos 
agenciamentos moleculares (relações familiares, relações conjugais e 
domésticas, função de educação, de justiça, de assistência, etc). Todos 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 217 

são ligados entre si e todos concorrem para adaptar a vida social e 
económica às exigências do CMI. 

Em que condição ainda vale a pena continuar a viver num 
sistema desses? Que laços inconscientes fazem com que se continue a 
aderir a ele apesar de tudo? Essa é a nova "questão social". Veremos 
que a axioma tização do CMI não poderia impedir que novos agencia- 
mentos humanos, novas máquinas de guerra revolucionária se consti- 
tuam para ir contra a sua lógica totalitária e para organizar o socius em 
outras bases. 

Examinemos antes algumas características "regionais" dessa 
nova segmentariedade. 



77. As novas segmentariedad.es do CMI 

1. A segmentariedade transnacional 

O antagonismo Leste-Oeste tende a perder a sua consistência. 
Mesmo por ocasião das fases de tensão aguda, como a que persiste há 
alguns anos, tende a tomar um ar artificial, quase teatral. Isso se deve 
ao fato de que o essencial das contradições não se situa mais no eixo 
Leste-Oeste, mas no eixo Norte- Sul, ficando claro que se trata sempre, 
afinal de contas, de o CMI poder assegurar para si o controle de todas 
as zonas que tendem a escapar dele, e de que existem Zonas Norte e Zo- 
nas Sul no interior de cada país. Bastaria então dizer que a nova segmen- 
tariedade repousa no "cruzamento" entre o fenómeno essencial consti- 
tuído pela guerra permanente estabelecida entre Norte- Sul, e o fenó- 
meno secundário das rivalidades Leste-Oeste. Seria totalmente insufi- 
ciente. 

A clivagem: Terceiro Mundo em vias de desenvolvimento (e mes- 
mo de superdesenvolvimento nos países petrolíferos) e Terceiro Mundo 
em vias de empobrecimento absoluto, em vias de exterminação, trans- 
formou-se em um novo dado essencial da situação atual. Outras modi- 
ficações devem igualmente ser levadas em conta. A oposição entre o 
capitalismo transnacional, multinacional, os grupos de pressão inter- 
nacionais, por um lado, e, por outro, o capitalismo nacional (oposição 
que continua sendo o principio classificatório exclusivo da maior parte 
dos PCs), embora subsistindo localmente, não é mais realmente perti- 
nente de um ponto de vista global. Na verdade, todas as contradições 
internacionais se organizam entre si, se cruzam, desenvolvem combi- 
nações complexas que não se resumem a sistemas de eixo Leste-Oeste, 
Norte-Sul, nacional-multinacional, etc. Proliferam como uma espécie 



218 



FÉLIX GUATTARI 



de rizoma multidimensional, incluindo inúmeros traços, singularidades 
geopolíticas, históricas, religiosas, etc. Nunca seria demais insistir 
sobre o fato de que as respostas do CMI a essas situações especificas 
não advêm de um programa geral, não dependem de um centro diretor. 
A axiomatizaçâo do CMI não se fundamenta em analises ideológicas: 
faz parte de seu processo de produção. 

Num contexto desses, qualquer perspectiva de luta revolucio- 
nária circunscrita a espaços nacionais, qualquer perspectiva de tomada 
de poder político pela ditadura do proletariado é cada vez mais ilu- 
sória. Os projetos de transformação social serão condenados à impo- 
tência enquanto não se inserirem em uma estratégia subversiva em 
escala planetária, tão desterritorializada como a do CMI. 

2. A nova segmentariedade européia 

A oposição no interior da Europa entre o Leste e o Oeste também 
parece estar sendo levada a evoluir muito nos próximos anos. O que nos 
parece ser mais um antagonismo fundamental será provavelmente cada 
vez mais "f agocitável" , negociável em todos os níveis pelo CMI. Nada 
de "modelo germano-americano", nada de retorno ao fascismo de 
antes da guerra, etc. Mas antes evolução, por aproximações sucessivas, 
para um sistema de democracia autoritária de um novo tipo. 

Os métodos de repressão e de controle social dos regimes do Leste 
e do Oeste tendem progressivamente a se aproximar uns dos outros: um 
espaço repressivo europeu do Ural ao Atlântico vira talvez substituir o 
atual espaço judiciário europeu. E os Partidos Comunistas europeus 
não serão os últimos a trabalhar nesse sentido. Pensou-se duran e 
algum tempo que o enfraquecimento relativo da oposição Leste-Oeste 
dentro da Europa seria acompanhado de um fortalecimento da oposi- 
ção entre a Europa do Norte e a Europa do Sul. Mas nessa direção 
também não iremos até uma nova guerra de Secessão. Também nesse 
caso, o CMI ajeita sua segmentariedade económica e social em refe- 
rência a uma estratégia mundial que não vai deixar se desenvolverem 
situações irreparáveis em seus principais baluartes europeus. Acres- 
cente-se a isso que as ameaças secessionistas no interior dos países da 
Europa do Leste, consideravelmente reforçados pelo caso polonês, 
encorajarão certamente os dirigentes ocidentais e os da URSS a nego- 
ciar entre si um novo status quo, um novo Ialta. 



3. A segmentariedade molecular 

Encontramos constantemente dois tipos de conflitualidade nos 
espaços capitalistas: 

a) lutas de interesses, lutas económicas, lutas sociais, lutas sindi- 
cais no sentido clássico; 

b) lutas relativas às liberdades, novos questionamentos da vida 
cotidiana, do ambiente do desejo, etc, que agruparei no registro 
"revolução molecular". 

As lutas de interesses, as questões de nível de vida continuam 
sendo portadoras de contradições essenciais. Não se trata de subes- 
timá-las. Contudo, podemos levantar a hipótese de que, na falta de 
uma estratégia global, elas sempre darão margem à sua recuperação, à 
sua integração pela axiomática do CMI. Nunca darão por si sós em 
uma transformação social positiva. As confrontações tipo 1848, Co- 
muna de Paris, ou 1917 na Rússia, se tornaram altamente improváveis, 
assim como as nítidas rupturas classe contra classe que preparam a 
redefinição de um novo tipo de sociedade. Em caso de prova de força 
maior, o CMI está em condições de desencadear uma espécie de plano 
ORSEC internacional e de plano Marshall permanente. Os países euro- 
peus, o Japão e os EUA podem subvencionar com perdas, e durante um 
longo período, a economia de um país capitalista em perigo. Quando se 
trata de sua sobrevivência, o CMI pode funcionar como uma espécie de 
companhia de seguros internacional, capaz de enfrentar, tanto no 
plano financeiro como no plano repressivo, as provas mais difíceis. 

Então o que vai acontecer? A crise atual desembocará num novo 
status quo social, num esquadrinhamento dos desempregados, dos 
marginais, num Welfare-State generalizado, combinado com o arranjo 
aqui e acolá de alguns redutos de liberdade? É uma possibilidade, mas 
não a única. Assim que nos livramos dos esquemas simplificadores, 
percebemos que as grandes potências capitalistas, inclusive a Alema- 
nha ou o Japão, não estão livres de grandes perturbações sociais. De 
qualquer modo, parece, ao menos na França, que a situação evoluirá 
para uma liquidação do equilíbrio sociológico que se manifestava há 
decénios por uma relativa paridade entre as forças de esquerda e as 
forças de direita. Parece que nos orientamos para um corte do tipo: 
90% do lado de uma massa conservadora, apavorada, embrutecida 
pelos meios de comunicação de massa e 10% do lado dos minoritários 
mais ou menos refratários. Se abordamos estes problemas do ângulo, 
não mais apenas das lutas de interesses, mas das lutas moleculares, 
aí o panorama muda. O que aparece nesses mesmos espaços aparen- 
temente bem controlados e asseptizados é uma espécie de guerra social 



220 



FÉLIX GUATTARI 



bacteriológica, algo que não se afirma mais segundo frentes claramente 
delimitadas (frentes de classe, lutas reivindicatórias), mas sob uma 
forma de perturbação molecular difícil de apreender. Múltiplos vírus 
deste género já trabalham o corpo social na sua relação com o con- 
sumo, com a produção, com o lazer, com os meios de comunicação, 
com a cultura, etc. (reaçôes de recusa ao trabalho em sua forma atual, 
questionamento da vida cotidiana, contestação do sistema de repre- 
sentação política, rádios livres, etc). Assim, não param de ocorrer 
mutações na subjetividade consciente e inconsciente dos indivíduos e 
dos grupos sociais cujos efeitos são imprevisíveis no contexto da atual 
crise. 



p- III. Novas máquinas de guerra revolucionária, agenciamentos 
de desejo e luta de classe 

Até onde poderá ir essa revolução molecular? Não estará conde- 
nada, na melhor das hipóteses, a vegetar nos guetos de marginais, 
como os de Frankfurt e de Berlim Oeste? Será que a "sabotagem mole- 
cular" da sociedade atual basta-se a si mesma? A revolução molecular 
deverá, ao contrário, se aliar às forças sociais do nível molar? A tese 
central aqui defendida é a de que os axiomas do CMI (cerco, dester- 
ritorialização dos antigos espaços nacionais, regionais, profissionais, 
etc. , multicentragem, novas segmentariedades) não triunfarão nunca, 
não importa quais sejam suas capacidades recuperadoras. Os recursos 
do CMI são talvez infinitos na ordem da produção e da manipulação 
das instituições e das leis. Mas eles se chocam e se chocarão cada vez 
mais violentamente contra um verdadeiro muro ou antes contra um 
emaranhado de tramóias intransponíveis no campo da economia libi- 
dinal dos grupos sociais. Isso se deve ao fato de que essa revolução 
molecular não se refere apenas às relações cotidianas entre homens, 
mulheres, homossexuais, heterossexuais, crianças, adultos, etc, e os 
"guardiões" de todas as categorias. Ela intervém também no interior 
da produção económica enquanto tal. Encontra-se no seio dos pro- 
cessos mentais ativados pela nova divisão mundial do trabalho e pela 
revolução informática da era dita pós-industrial. O impulso das forças 
produtivas depende dela. E é por isso que o CMI não poderá contorná- 
la. Ela é portadora de coeficientes de liberdade inassimiláveis, irrecu- 
peráveis pelo sistema dominante. Isso não significa que automatica- 
mente seja portadora de revolução social. Não foi uma revolução mole- 
cular que precedeu o advento do Nacional-socialismo na Alemanha? 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



221 



O melhor e o pior podem decorrer desse tipo de fermentação, cujo 
resultado depende essencialmente da capacidade dos agenciamentos 
explicitamente revolucionários em encontrar sua articulação com as 
lutas de interesse, políticas e sociais. Essa é a questão essencial. Na 
falta de uma tal articulação todas as mutações de desejo, todas as 
revoluções moleculares, todas as lutas pelos espaços de liberdade não 
conseguirão nunca engatar transformações sociais e económicas libe a- 
doras em grande escala. 

Como imaginar que máquinas de guerra revolucionária de tipo 
novo consigam se engastar ao mesmo tempo nas contradições sociais 
manifestas e nessa revolução molecular? 

A atitude da classe política e da maioria dos militantes profis- 
sionais, quanto a esses problemas, embora reconheçam a importância 
desses novos domínios de contestação, geralmente consiste em declarar 
que nada de positivo se deve esperar de imediato: "Primeiro, é preciso 
que tenhamos alcançado nossos objetivos no plano político antes de 
poder intervir nessas questões de vida cotidiana, escola, relação entre 
grupos, convívio, ecologia, etc..". Quase todas as correntes da es- 
querda, da extrema-esquerda, da autonomia, etc. (situação manifesta 
na Itália no período de 77) se encontram nessa posição. Cada um a seu 
modo esta disposto a explorar os "novos movimentos sociais" que se 
manifestaram a partir dos anos 60, mas ninguém nunca se coloca a 
questão de imaginar os instrumentos de luta realmente adaptados 
àqueles. Quando se trata desse vago universo dos desejos, da vida 
cotidiana, das liberdades concretas, uma estranha surdez e uma mio- 
pia seletiva atacam os porta-vozes titulares das formações tradicionais 
Hcam em pânico diante da idéia de que uma desordem perniciosa 
possa contaminar seus bandos. "Os bichas, os loucos, as rádios livres 
as feministas, os ecologistas, os emarginati, tudo isso nólulídíé meio 
barra! Seu problema, na verdade, provém do fato de que é sua 
própria pessoa enquanto militante, seu funcionamento pessoal (não só 
suas concepções em matéria de organização, mas também seus inves- 
timentos afetivos num certo tipo de organização) que é novamente 
posto em questão. 

As organizações políticas e sindicais atuais aos poucos foram se 
tornando assimiláveis aos equipamentos de poder. Independente do 
fato de aqueles que participam delas se declararem de esquerda ou de 
direita, elas funcionam de acordo com o conformismo geral: trabalham 
para que os processos moleculares entrem em conformidade com as 
estratificações molares. De fato, o CMI nutre-se desse género de equi- 
pamento de poder. As economias ocidentais não poderiam mais fun- 
cionar hoje sem os sindicatos, as Comissões de Fábrica, os Seguros 



222 



FÉLIX GUATTARÍ 



Sociais, os partidos de esquerda e talvez também... os grupelhos de 
extrema-esquerda. 

Portanto, não há muito que esperar desse lado. Pelo menos na 
Europa. Pois em países como, por exemplo, os da América Latina, esse 
tipo de formação talvez ainda deva desempenhar um papel importante. 
(Embora, também aí, as questões relativas à revolução molecular sem 
dúvida se colocarão com uma agudeza cada vez mais forte: questão 
racial, questão feminina, questão das favelas, etc.) De qualquer modo, 
compromissos, composições reformistas continuarão a surgir nos paí- 
ses capitalistas desenvolvidos. Manifestações simbólicas ou violentas 
continuarão a animar a atualidade. Mas nada disso nos aproximará de 
maneira alguma de um verdadeiro processo de transformação revolu- 
cionária. 

Retornamos à dolorosa questão: como "inventar" novos tipos de 
organizações capazes de operar de acordo com essa junção, esse acú- 
mulo de efeitos das revoluções moleculares, lutas operárias, lutas de 
emancipação no interior do Terceiro Mundo e capazes de responder, 
caso por caso (o que não significa necessariamente um atrás do outro), 
a transformações segmentares que justamente têm como consequência 
o fato de que não se possa mais falar de massas indiferenciadas. Como 
tais agenciamentos de luta, diferentemente das organizações tradicio- 
nais, conseguirão desenvolver meios de análise que lhes permitam não 
serem surpreendidos nem peias inovações institucionais e tecnológicas 
do capitalismo, nem pelos embriões de resposta revolucionária que os 
trabalhadores e as populações submetidas ao CMI experimentam em 
cada etapa. Ninguém é capaz de definir, hoje, o que serão as futuras 
formas de coordenação e de organização dos futuros movimentos revo- 
lucionários, mas o que parece evidente é que implicarão, a título de 
premissa absoluta, no respeito à autonomia e à singularidade de cada 
uma de suas componentes. Fica claro, desde agora, que sua sensibi- 
lidade, seu nível de consciência, seus ritmos de ação, sua justificação 
teórica não coincidirão. E parece desejável e mesmo essencial que suas 
contradições, seus antagonismos não possam ser "resolvidos" nem por 
uma dialética constrangedora, nem por aparemos de direção que os 
dominem e os oprimam. 

Então, afinal, que forma de organização? Alguma coisa vaga, 
fluida? Um retorno às concepções anarquistas da belle époquel Não 
necessariamente. E certamente não mesmo. A partir do momento em 
que esse imperativo do respeito aos traços de singularidade e de hetero- 
geneidade dos diversos segmentos de luta fosse reconhecido, seria pos- 
sível, com objetivos delimitados, que um novo modo de estruturação — 
nem vago nem fluido — pudesse se desenvolver. As realidades com as 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



223 



quais se defronta a revolução molecular, tanto quanto a revolução 
social, sao pesadas; clamam pela constituição de aparelhos <b luta 
maquinas de guerra revolucionária eficazes. Mas para que organismos 
de decisão e de luta fiquem "toleráveis", não sejam rejeitados como 
engastes nocivos, é indispensável que não sejam portadores de ne- 
nhuma "sistemocracia" , nem a um nível inconsciente, nem a um nível 
ideológico manifesto. Muitos do que experimentaram o carâter perni- 
cioso das formas tradicionais de militantismo contentam-se, hoje, em 
reagir de maneira mecanicamente hostil a qualquer forma de organi- 
zação, e mesmo a qualquer pessoa que pretendesse, por exemplo 
assumir a presidência de uma reunião, a redação de um texto etc Na 
medida em que a primeira preocupação de um movimento revolucio- 
nário fosse uma autêntica união entre as lutas molares e os investi- 
mentos moleculares, a questão da criação de instrumentos não só de 
informação, mas também de decisão e de organização, se colocaria de 
uma nova forma. (Em escala microssocial, local, nacional, interna- 
cional.) Com tudo o que isso possa eventualmente implicar de rigor e de 
disciplina de ação, em certas situações, mas segundo métodos radical- 
mente diferentes dos métodos dos social-democratas e dos bolche- 
viques. Não programáticos, mas diagramáticos , isto é, que não invali- 
dem as realidades contingentes e as singularidades da ordem do desejo. 

O que mais dizer a respeito dessa complementaridade (e não 
apenas coexistência pacífica) entre: 

1) um trabalho analítico-político, relativo ao inconsciente em 
suas dimensões sociais e individuais; 

2) novas formas de luta pelas liberdades (do tipo da de uma fede- 
ração dos grupos "SOS libertes", como o CINEL 1 -- preconiza); 

3) as lutas das múltiplas categorias sociais "não garantidas" 
marginalizadas pela nova segmentariedade do CMI; 

4) as lutas sociais mais tradicionais? 

Algumas tentativas nesse sentido, que conhecemos nos EUA, na 
Itália, na França, etc, não serviriam como modelo. Entretanto, atra- 
vés de múltiplas tentativas desse tipo, por mais parciais que sejam 
por maiores que sejam seus "altos" e "baixos", é que avançaremos nâ 
reconstrução de um autêntico movimento de transformação social A 
esse respeito, podemos nos preparar para os encontros mais impre- 
vistos: para o aparecimento de personagens tão surpreendentes como o 
Juiz Bidalou,2 ou o humorista Coluche, 5 para o desenvolvimento de 
técnicas subversivas ainda inimagináveis, particularmente no âmbito 
dos meios de comunicação e da informática. 

Os movimentos operários e os movimentos revolucionários orga- 
nizados ainda estão longe de compreender a importância desses novos 



224 



FÉLIX GUÀTTARI 



problemas de organização e de "sensibilidade". Deveriam reciclar-se o 
mais depressa possível, entrando na escola do CMI que, por seu lado, 
conseguiu os meios de inventar novas armas para enfrentar as pertur- 
bações que suas reconversões e sua nova segmentariedade acarretam. 
O CMI não possui teóricos nessas questões. Não precisa. Basta que 
tenha uma prática sistemática; sabe o que é a multwentragem das 
decisões. Não lhe causa dificuldades nao dispor de estado-maior cen- 
tral de super-birô político para se orientar nas situações complexas. 
(Com o risco de fazer crer na existência de tais estados-maiores, donde 
o mito criado em torno da famosa "Comissão Trilateral". Induz à idéia 
de que ali é que está a transa, que é esse alvo que se deve visar, quando 
os verdadeiros agentes, os verdadeiros centros de decisão estão, sem 
dúvida, em outro ponto totalmente diferente.) 

Enquanto continuarmos prisioneiros de uma concepção das re- 
lações sociais herdada do século XIX, a qual não tem muito a ver com a 
situação atual, ficaremos fora da realidade, continuaremos a dar voltas 
em nossos guetos, ficaremos indefinidamente na defensiva, sem con- 
seguir apreciar o alcance dessas novas formas de resistência que sur- 
gem nos mais diversos campos. Trata-se, portanto, de primeiramente 
medir em que grau estamos contaminados pelos artifícios do CMI. O 
primeiro desses artifícios é o sentimento de impotência que conduz a 
uma espécie de "abandonismo" às suas "fatalidades". Por um lado, o 
Gulag; por outro, as migalhas de liberdades do capitalismo, e, afora 
isso, aproximações fajutas com um vago socialismo cujas fronteiras 
iniciais e finais não se vêem. Quer sejamos de esquerda ou de extrema- 
esquerda, quer sejamos políticos ou apolíticos, temos a impressão de 
estar encerrados dentro de uma fortaleza, ou, antes, dentro de uma 
cerca de arame farpado, que se estende não apenas por toda a super- 
fície do planeta, mas também por todos os cantos do imaginário. E, 
entretanto, o CMI é, sem dúvida, muito mais frágil do que parece. Pela 
natureza de seu desenvolvimento, tende a se fragilizar cada vez mais. 
Certamente ainda conseguirá resolver numerosos problemas técnicos, 
económicos e de controle social. Mas as mutações moleculares esca- 
parão cada vez mais do seu controle. De agora em diante, um outro 
tipo de sociedade está sendo gerado, através dos modos de sensibili- 
dade, relações sociais, relações de trabalho, na cidade, no ambiente, na 
cultura, no seio do inconsciente social. À medida que se sentir ultra- 
passado por essas ondas de transformações, cuja natureza e contornos 
lhe escapam, o CMI se enrijecerá. Parece ser esse o sentido do terrível 
recrudescimento reacionário que se faz sentir atualmente em Paris, 
Roma, Londres, Nova Iorque, Tóquio, Moscou, etc. Mas as centenas 
de milhões de jovens que se defrontam com o absurdo desse sistema, 



REVOLUÇÃO MOI.ECULAR 



225 



em toda a superfície do planeta, constituem igualmente uma onda 
portadora de um outro futuro. Os neoliberais de toda espécie se iludem 
se crêem verdadeiramente que as coisas se arranjarão por si sós no 
melhor dos mundos capitalistas. Pode-se racionalmente conjecturar 
que as mais diversas provas de força revolucionária irão se desenvolver 
nos próximos decénios. Cabe a cada um de nós apreciar em que medida 
— por menor que seja — podemos contribuir para a criação de máqui- 
nas revolucionárias políticas, teóricas, libidinais, estéticas, capazes de 
acelerar a cristalização de um modo de organização social menos 
absurdo do que o atual. 



NOTAS 



(1) N. do Trad.: O CINEL, do qual participa Guattari hoje, é um organismo 
informal constituído por intelectuais de diversas áreas, artistas, trabalhadores, militan- 
tes, políticos, etc, que tem, além de um intenso trabalho teórico — este ensaio, por 
exemplo, foi preparado para um seminário do grupo — , uma intensa e variada atividade 

política: 

— pronunciamentos sobre problemas políticos em toda a Europa. Exemplo: 
na Itália, a repressão em Bolonha em 1977, os casos Toni Negri, Franco 
Piperno, etc. Na Alemanha, a campanha contra o pedido de extradição de 
Klaus Croissant, advogado do grupo de Baader, que se encontrava refugiado 
na França; 

— participação de encontros internacionais para a reflexão conjunta de diversas ' 
correntes sobre o impasse político atual e a violenta guinada para a direita, 
visando a organização contra a repressão articulada a nível europeu, que se 
constata por exemplo na instauração de um espaço judiciário comum para os 
países da Europa. O encontro "Tunix" em Berlim, em 1978, ou o de Roma, 
em 1979, foram alguns deles; 

— iniciativas de articulação internacionais de revolução molecular, como o Fes- 
úvalAntibrouille, que visava articular as rádios livres a nível europeu; 

— incentivo à implantação de "comissões de defesa ativa" contra a repressão, 
não só nos "grandes casos" políticos, mas também no microfascismo galo- 
pante de que vim sendo vítimas os jovens, os trabalhadores imigrados, os mili- 
tantes nacionalitários, etc. 

Só estas atividades do CINEL já bastaram para provocar problemas com a polícia 
e a justiça: processo pelas rádios livres, prisão de um cineasta do grupo, perquisição e 
ameaças nas residências de alguns membros do grupo, inclusive de Guattari, e, o que é 
mais grave, com a acusação de que o CINEL seria o "filão francês" de uma vasta rede 
terrorista mundial. Isto se enquadra na atual tendência da justiça européia para ima- 
ginar altos comandos ocultos e selecionar bodes expiatórios para explicar o recrudesci- 
mento^ da violência e dos ilegalismos nos países desenvolvidos, justificando sua total 
impotência diante desse fato. Ê evidente que estes supostos altos comandos nunca são 
encontrados. £ neste contexto, por exemplo, que foram presos Toni Negri, Franco 
Piperno e outros na Itália, ou que se deram os casos Graindorge na Bélgica, etc. 
Iniciativas como a do CINEL são muito importantes dentro do marasmo em que encontra 



226 



FELIX GUATTARI 



a esquerda europeia neste momento, dominada por visões que confundem mutação 
molecular profunda e irreversível com rim da história. Casa na França, por exemplo, do 
espirito dos "novos filósofos", que propõem a renúncia a toda e qualquer perspectiva de 
resistência militante à ordem dominante, justificada por uma suposta hegemonia irre- 
versível de um conformismo da massa e propondo a urgência de um retorno aos valores 
transcendentais do monoteísmo; ou de Bandrillard, que fala em "morte do político", ou 
"implosão do social"; ou da volta de certos lideres de 68 ás ideologias e às práticas de 
grupelho. Importância politica também da heterogeneidade interna no grupo, que por si 
só já se constitui na dissolução da separação entre categorias sociais, sobretudo entre 
"intelectuais" e "manuais", e na possibilidade de que a teoria seja produzida por um 
"agenciamento coletivo de enunciação". Importância da continuidade existente entre a 
singularidade de cada movimento na vida militante do grupo c a construção de parâme- 
tros teóricos. 

(2) N. doTrad.: Bidalou é o nome de um juiz puni: que foi suspenso. 

(3) N. do Trad. : Coluche, nome artístico de Michel Colucci, é um cómico francês 
de 36 anos que iniciou sua carreira no café- teatro de nome Café de la Gare, adotando um 
humor no estilo anarco-pós-68. Muito popular — seus discos ocupam o segundo lugar 
nas paradas de sucessos — , Coluche candidata-se, em outubro de 80, às eleições presi- 
denciais de 1981. Apresentado como "candidato das minorias", em novembro, já em 
dezembro as sondagens apontavam-lhe uma média de 15% dos votos. Chegou a falar em 
"efeito Coluche" para nomear este modo paradoxal de manifestação de uma recusa 
social ao sistema vigente, revelada nestas sondagens. Manteve sua candidatura durante 
algum tempo, preservando através dela o espaço para o humor e para certas colocações 
politicas, normalmente excluídas da cena do discurso eleitoral, a começar pelo próprio 
fato de sua candidatura, pois se já como cómico faz do Estado-espetáculo um show de 
derrisão, como candidato ao poder de Estado este significado fica duplamente subli- 
nhado. 



Vinte e duas linhas máquina 



Sentido único sem sentido/ Feed-Back máquinas técnicas — Arte 
— socius sistemas semióticos/ Máquinas cada vez mais desterritoria- 
Iizadas/ liquidação universais, significante, etc./ Máquinas abstraías 
= cristalização de potencialidades, dança muda em deca coordenadas 
tempo, espaço, substâncias de expressão, matéria intensiva/ abolição 
pontos fixos transcendente história/ invariantes provisórias tecidas em 
filo maquínico/ agenciamentos coletivos/ ruptura enunciação indivi- 
duada/ sujeito responsável-culpado out/ splitting do ego, falta, falo, 
complexos estruturalizados e Unguistizados, tradutibilidade universal, 
out, out, out... Significação sempre caso de poder/ significações domi- 
nantes/ gramaticalidade dominante/ especialistas interpretação = po- 
lícias do significante/ Para as bandas do desejo = potência-rizoma/ 
Para as bandas do poder = buraco negro, arborescência, hierarquia, 
Maniqueísmo dos valores/ fim do quanto a si = devir animal, planta, 
cosmos/ devir mulher, criança = desfazer estratificações do poder/ 
rizoma, entradas múltiplas = máquinas técnicas, arte, socius, siste- 
mas semióticos — sentido único sem sentido/ mutações máquinas abs- 
tratas, plano consistência maquínica/ extra tos — representação — 
produção — signo — coisa — socius, out/ ruptura oposição sujeito — 
objeto/ semiotização aberta/ agenciamentos maquínicos/ processo co- 
letivo enunciação — produção/ sujeito transcendental out/ multiplici- 
dades/ intensidades desterritorializadas/ 



* REFERÊNCIAS DOS ARTIGOS APRESENTADOS: 



' ' Somos Todos Grupelhos", in Psychanalyse et Transversalité. Extraído de L 'Idiot Uber- 
ti, n? 1, dez. de 1970. 

"As Lutas de Desejo e a Psicanálise", in La Révolution Moleculaire (Recherches e 
10/18) — Palestra proferida em 1973 no 1? Colóquio de Milão "Psicanálise e Política", 
originalmente publicada no n? da colecão 10/18 que leva o nome do colóquio e na 
Itália por Feltrinelli. 

"Devir Mulher", ín La Révolution Moleculaire (Recherches e 10/18); extraído de uma 
entrevista realizada por Christian Descamps para La Quinzaine Littéraire, n? 215, 
agosto de 1975. 

"Três Milhões de Perversos no Banco dos Réus", in La Révolution Moléculaire (Recher- 
ches e 10/18); extraído de "Trois Milliards de Pervers — Grande Encyclopédie des 
Homossexualités,", Recherches n? 12, Fontenay-sous-Bois, março de 1973. 

"Cheguei até a Encontrar Travestis Felizes", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 
10/18); extraído de Liberation de 3 de abril de 1975, por ocasião da apresentação dos 
Mirabelles em Paris, no teatro Renelagh, com o espetáculo "Feras". 

"Gangues em Nova Iorque", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 10/18); extraído 
de um projeto de pesquisa sobre formas alternativas de organização social em vários 
países. 

"As Creches e a Iniciação", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 10/18); extraído 
de Recherches n? 27, Fontenay-sous-Bois, maio de 1977, número sobre creches dirigido 
por Liane Mozère e Geneviève Aubert. 

"Milhões e Milhões de Alices no Ar", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 
10/18); originalmente, introdução a Radio Alice, Radio Livre, Jean-Pierre Delarge. 

"Devir Criança, Malandro, Bicha", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 10/18); 
extraído de entrevista realizada por Lucien Martin e publicado em Les Cahiers Péda- 
gogiques, n? 152, março de 1977, com o título de "Em Torno da Escola". 

"A Autonomia Possível", in La Révolution Moléculaire (só em 10/18); extraído da 
revistaitauanaA«í«> l po/« > n?2, 1979. 

"O Fim dos Fetichismos", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 10/18); extraído 
de entrevista realizada por Arno Munster para o jornal alemão Frankfurter Rundschau, 
de 17 de janeiro de 1973, à qual Guattari acrescentou uma introdução. 

"A Transversalidade", in Psychanalyse et Transversalité; recompilado de relatório apre- 
sentado no 1? Congresso Internacional de Psicodrama, em Paris, em setembro de 1964, 
originalmente publicado no n? 1 da Revue de Psychothérapie Institutionnelie. 

"A Transferência", in Psychanalyse et Transversalité; compilação de palestra proferida 
noGTPSIeml974. 

"Mary Barnes ou o Édipo Antipsiquiá tricô", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 
10/18); extraído de artigo publicado no Le Nouvel Observateur, em 28 de maio de 1973. 

"A Trama da Rede", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 10/18); compilação de 
relatório para imprensa, redigido, após discussão coletiva, no final do primeiro encontro 
da rede que se deu em Bruxelas, em janeiro de 1975, incluída na coletânea de textos deste 
encontro, publicada em 10/18, Aiternative à la Psychiatrie — Collectif Internacional. 



REVOLUÇÃO MOLECULAR 



229 



"Antipsiquiatria e Antipsicanálise", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 10/18); 
extraído de entrevista realizada por Jean-Jacques Brochier para um número especial dê 
Le Magazine Littéraire intitulado "O Movimento das Idéias — Maio de 1969/maio de 
1976". 

"Pistas para uma Esquizoanálise — Os Oito Princípios", in L'Inconscient Machinique. 

"O Amor de Swann Como Colapso Semiótico" , in UInconscient Machinique. 

"Falação em Torno de Velhas Estruturas e Novos Sistemas", in Cahiers Critiques de 
Thérapie Familiale et de Pratiques de Reseaux, Reseaux Systèmes — Agencements, 
órgão oficial do Institut d'Êtudes de la Famille et des Systèmes Humains, Gama, Bru- 
xelas; relatório de palestra proferida nas jornadas de trabalho organizadas por aquele 
Instituto, em 15 de junho de 1980. 

"O Inconsciente Maquínico e a Revolução Molecular", relatório inédito de conferência 
proferida no México em janeiro de 1981. 

"Micropolítica do Fascismo", in La Révolution Moléculaire (Recherches e 10/18); repro- 
dução de palestra proferida no colóquio "Psicanálise e Política" em Milão, em 
1974; originalmente publicada na Itália por Feltrinelli, nos EUA na revista Semiotext, e 
na França por Seuil. 

"O Capital como Integral das Formações de Poder", in Êchafaudages , CINEL, "Col- 
lecrion les Temps Mêlés", Recherches, Paris, 1979; relatório de palestra proferida em 
seminário do grupo CINEL. 

"O Capitalismo Mundial Integrado e a Revolução Molecular", relatório inédito de 
palestra proferida em seminário do grupo CINEL, em 1980. 



Índice de siglas 



CERFI — Centre d'Êtudes, de Recherches et de Formation Instítutionnelles (Centro 
de Estudos, de Pesquisas e de Formação Institucionais). 

GTPSI — Groupe de Travai! de Psychologie et de Sociologie InstitutionneUes (Grupo 
de Trabalho de Psicologia e de Sociologia Institucionais) 

FGERI — Fédération des Groupes d'Êtudes et de Recherches Instítutionnelles (Fede- 
ração dos Grupos de Estudos e de Pesquisas Institucionais) 

CINEL — Centre d'Initiative pour de Nouveaux Espaces de Liberté (Centro de Inicia- 
tiva por Novos Espaços de Liberdade) 
?m ~~ groupe d'Information sur les Asiles (Grupo de Informação sobre os Asilos) 
GIP — Groupe d' Information sur les Prisons (Grupo de Informação sobre as Pri- 
sões) 

UNEF - Union Nationale des Êtudiants Français (União Nacional dos Estudantes 
Franceses) 

SNESup - Syndicat National de 1'Enseignement Supérieur (Sindicato Nacional do 
Ensino Superior) 

UEC — UniondesÊtudiantsCommunistes(UniãodosEstudantesComunistas) 
CMI — Capitalisme Mondial Integré (Capitalismo Mundial Integrado) 
CGT — Confédération Générale des Travailleurs (Confederação Geral dos Traba- 
lhadores) 

CFDT — Confédération Française Démocratique du Travail (Confederação Francesa 
Democrática do Trabalho) 
PCF — Parti Communiste Français (Partido Comunista Francês) 
PSU — Parti Socialiste Unifié (Partido Socialista Unificado) 



CAMINHOS 
DO 
DESEJO 
E 

DO 
PODER 



SEXUALIDADES 

OCIDENTAIS 

{Contribuição para a história 
e para a sociologia da 
[sexualidade. 

IPhilippe Ariès e André 
[Béjin (orgs.) 

Quais as origens do 
casamento ? O amor é 
diferente no casamento e 
fora dele? Que espaço ocupa 

0 auto-erotismo nas 
doutrinas e costumes? Qual a 
importância atual da 
homossexualidade? Estes são 
alguns dos polémicos artigos 
dessa coletânea, assinados 
por importantes intelectuais 

1 franceses, como Michel 
Foucault, Paul Veyne, Hubert 
Lafont e outros. 



RECORDAR 
FOUCAULT 

Renato Janine Ribeiro 
(org.) 



Uma homenagem à obra e 
aos temas de Michel 
Foucault, pedra angular da 
filosofia contemporânea. 
Originais abordagens das 
obras de Nietzsche, Machade 
de Assis e Baudelaire, e 
instigantes visões sobre 
sexualidade, política e 
loucura. Falas inquietantes 
de grandes talentos do nosso 
pensamento.